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Trabalho e pesquisa de Carlos Leite
Ribeiro
Revisão por
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São
Pedro
crucificado (1602)
Capela Cerasi, Santa Maria del Popolo,
Roma
Michelangelo Merisi( Lombard Caravaggio, 1571-1610)
Dia de São Pedro
29 de Junho
São Pedro, primeiro papa, foi a pedra sobre a
qual Jesus fundou a sua igreja. Seu martírio ocorreu
provavelmente no ano 64, época das cruentas perseguições aos
cristãos sob o império de Nero. A festa de São Pedro é celebrada
no dia 29 de Junho.
São Pedro foi discípulo de Jesus. Na casa de Pedro deram-se as
primeiras pregações. Também a cura da sogra de Pedro.
Eram Pedro e seu irmão André pescadores
do Teberiades, quando se deu ali a pesca maravilhosa.
Disse Jesus: "Venham a mim e os farei pescadores de homens."
A Pedro, Jesus falou sobre o perdão: "Não te digo até sete
vezes, mas até setenta vezes sete."
arthermitage.org

Lição da vigilância
Orai e vigiai para não cair em tentações.
Se alguém quiser vir após mim tome a sua cruz e siga-me.
Disse Jesus :"O que dizem os homens a meu respeito?"
- Alguns dizem que és Elias, outros que és João Batista
ressuscitado (João já havia sido decapitado por Herodes). Outros
ainda, dizem que és o profeta Jeremias.
- Mas vós, quem dizeis que eu sou? Pedro impulsionado por uma
energia superior exclamou:
- Tu és o Cristo, filho do Deus Vivo Nosso Salvador.
-
Bem aventurado, sejas tu Pedro, porque não foi a carne que te
revelou, mas sim meu pai que está no céu. Neste momento,
entregaste a Deus o coração e falaste a sua voz. Bendito sejas,
pois começas a edificar no espírito a fonte da fé viva. Sobre
essa fé, edificarei a minha doutrina de paz e esperança. Em
breves dias entrarei em Jerusalém para sofrer as mais penosas
humilhações, e calou-se comovido. Foi aí que Pedro modificando a
sua atitude mental, deixando-se conduzir pelas conceções
falíveis, disse:
- Mestre, convém não exagerardes as vossas palavras. Não podemos
acreditar que tereis de sofrer semelhantes martírios... Onde
estaria Deus com a justiça do céu?
- Pedro, retira as tuas palavras! - Disse Jesus com energia.
- Queres também tentar-me, como os adversários do Evangelho? -
Aparta-te de mim, pois neste instante falas pelo espírito do
mal.
Pedro emocionou-se até as lágrimas e Jesus disse:
- Para a vigilância, vigia o teu espírito ao longo do caminho.
Basta um pensamento de amor, para que te eleves para o céu, mas
na jornada do mundo, também basta as vezes, uma palavra fútil ou
uma consideração menos digna, para que o homem seja conduzido ao
estacionamento e ao desespero das trevas.
- Pedro, pelo reino de Deus é preciso que o discípulo resista às
tentações dos entes mais amados na Terra, os quais, embora
ocupando o nosso coração, ainda não podem entender as conquistas
santificantes do céu.
A negação de Pedro
Gustave Doré
S. Pedro negando Cristo
wikipedia.org
Jesus diz a Pedro por três vezes: - "Tu me amas Pedro?"
Pedro respondeu: - "Sim, Mestre, eu vos
amo."
Disse Jesus: - "Mas me negarás por três vezes antes que o galo
cante. E assim se deu.
Em Roma na época em que os cristãos eram sacrificados no circo
pelo imperador romano, Pedro, distanciou-se aflito pela via Apía
afora, quando Jesus lhe aparece e diz: - "Onde vais Pedro? Volta
e apascenta as minhas ovelhas.

São Pedro
(Segundo a tradição teria morrido em cerca de 67
d.C.) e foi um dos doze Apóstolos de Jesus Cristo, como está
escrito no Novo Testamento e, mais especificamente, nos quatro
Evangelhos.
O seu nome original não era Pedro, mas Simão. Nos livros dos
"Atos dos Apóstolos" e na "Segunda Epístola de Pedro", aparece
ainda uma variante grega do seu nome original: Simeão. Cristo
apelidou-o de Petros - Pedro, nome grego, masculino, derivado da
palavra "petra", que significa "Pedra" ou "Rocha". O Apóstolo
São Paulo designava-o pelo nome de Cephas, Kephas, Kepha ou
Cefas que em aramaico significa o mesmo - note-se, aliás, que,
provavelmente, Cristo falava principalmente aramaico, logo, terá
sido essa a designação dada a Simão e não a versão grega que
ficou para a posteridade.
Pedro tem uma importância central na teologia católico-romana. É
considerado o príncipe dos apóstolos e o fundador, junto com São
Paulo, da Igreja de Roma (a Santa Sé), sendo-lhe reconhecido
ainda, o título de Primeiro Papa (um tanto anacronicamente,
posto que tal designação só começaria a ser usada cerca de dois
séculos mais tarde – Pedro foi o primeiro bispo de Roma); essa
circunstância é invocada pela Igreja Católica para que o Papa
detenha uma posição de supremacia sobre toda a Igreja Católica.
Para as outras denominações cristãs, Pedro também recebe uma
grande importância, por causa de suas epístolas canónicas,
porém, não recebe o mesmo tipo de tratamento da Igreja Católica.
Antes de se tornar um dos doze discípulos de Cristo, Simão Pedro
era pescador. Teria nascido em Betsaida e morava em Cafarnaum.
Segundo o relato no Evangelho de São Lucas 5:1-11, Pedro terá
conhecido Jesus quando este lhe pediu para utilizar uma das suas
barcas, de forma a poder pregar a uma multidão que o queria
ouvir. Pedro, que estava a lavar redes com São Tiago e João,
seus sócios, concedeu-lhe o lugar na barca, que foi afastada um
pouco da margem.
No final da pregação, Jesus disse a Simão Pedro
que fosse pescar de novo com as redes em águas mais profundas.
Pedro diz-lhe que tentara em vão pescar durante toda a noite e
nada conseguira mas, em atenção ao seu pedido, fá-lo-ia. O
resultado foi uma pescaria de tal monta que as redes iam
rebentando, sendo necessária a ajuda da barca dos seus dois
sócios, que também quase se afundava puxando os peixes. Numa
atitude de humildade e espanto, Pedro prostra-se perante Jesus e
diz para que se afaste dele, já que é um pecador. Jesus
encoraja-o, então, a segui-lo, dizendo que o tornará "pescador
de homens".
De acordo com os Evangelhos, Simão foi o primeiro dos discípulos
a professar a fé de que Jesus era o filho de Deus. É esse
acontecimento que leva Jesus a chamá-lo de Pedro - a pedra
basilar da nova crença. Encontramos o relato do evento no
Evangelho de São Mateus 16:13-23: Jesus terá perguntado aos seus
discípulos (depois de se informar do que sobre ele corria entre
o povo): "E vós, quem pensais que sou eu?"; ao que Pedro
respondeu "És o Cristo, Filho de Deus vivo". Jesus ter-lhe-á
dito, então: "Simão, filho de Jonas, és um homem abençoado! Pois
isso não te foi revelado por nenhum homem, mas pelo meu Pai, que
está no céu. Por isso te digo: tu és Pedro, e sobre esta pedra
edificarei a minha Igreja, e o poder da morte não poderá mais
vencê-la. Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu, e o que ligares
na terra será ligado no céu, e o que desligares na terra será
desligado no céu". É por esta razão que São Pedro é, geralmente,
representado com chaves na mão e a tradição apresenta-o como
porteiro do Paraíso.
Os evangelhos referem-no muitas vezes (mais que a qualquer outro
dos discípulos). Conta-se no Evangelho de São Mateus 26:30-35,
que Jesus, no Monte das Oliveiras, antes de ser preso nessa
noite, revelou que os seus discípulos seriam dispersados,
abandonando-o. Pedro assegura que nunca o abandonaria. Jesus
declara-lhe: "Garanto-te que esta noite, antes que o galo cante,
me negarás três vezes". Pedro insiste na sua fidelidade. Mais
tarde, segundo o mesmo Evangelho, 26:69-75, Pedro, que observava
de longe o julgamento de Jesus no átrio do sumo-sacerdote Caifás,
ao ser apontado como um dos seguidores de Cristo por várias
pessoas, nega Cristo por três vezes, tal como fora predito.
Quando o galo canta, Pedro lembra-se do que lhe fora profetizado
por Jesus e chora de arrependimento.
No capítulo 21 do Evangelho de São João, é relatado que Cristo,
ressuscitado, depois de perguntar repetidas vezes a Pedro se
este o ama, lhe diz: "Cuida da minhas ovelhas. Em verdade te
digo: quando eras mais novo, cingias o cinto e ias para onde
querias. Quando fores mais velho, estenderás as mãos e será
outro a cingir-te o cinto, levando-te para onde não queres", o
que indica que terá sido martirizado pela crucificação. Clemente
de Roma, cerca de 95 d. C., alude ao martírio de Pedro, que
sofreu inúmeras tribulações, como Paulo, teria dado testemunho.
Uma tradição um tanto quanto insegura, porém pitoresca, conta
que, sendo o primeiro bispo de Roma, Pedro foi exortado pela
comunidade romana a fugir da cidade onde os cristãos eram
perseguidos e executados no Circo de Nero. No caminho encontra
Jesus Cristo (na forma de um homem transportado na irradiação
solar, segundo o romance de Henryk Sienkiewicz, "Quo Vadis?").
Ao perguntar a Jesus: "Onde vais, Senhor?" ("Quo Vadis,
Domine?"), este responde-lhe que vai para Roma, para ser
martirizado com as suas ovelhas que foram abandonadas. Pedro,
arrependido, volta para Roma e entrega-se às autoridades que o
crucificam. Diz a tradição que exigiu que fosse crucificado de
pernas para o ar, já que não se considerava digno de morrer da
mesma forma que Cristo.

Os seus textos
O Novo Testamento inclui duas epístolas (cartas)
cuja autoria é atribuída a Pedro: A "Primeira Epístola de São
Pedro e a Segunda Epístola de São Pedro". Alguns académicos
duvidam que Pedro tivesse conhecimentos de grego tão
aprofundados que lhe permitissem escrever as cartas com aquele
estilo e qualidade linguística (o que, em termos de pura fé,
seria perfeitamente normal, já que durante o Pentecostes, como é
referido nos "Atos dos Apóstolos", o Espírito Santo teria dado
aos apóstolos a faculdade de "falar línguas"). Entretanto há
quem opine que terão sido escritas por um secretário ("amanuensis"),
enquanto outros dizem que terá sido um seu discípulo, após a sua
morte.

São Pedro, segundo o Catolicismo
S. Pedro andando sobre a água
awesomestories.com
De acordo com a doutrina Católica e Ortodoxa, o
apóstolo Pedro, depois de ter exercido o episcopado em
Antioquia, tornou-se o primeiro bispo de Roma. Segundo os
católicos e ortodoxos, depois de solto da prisão em Jerusalém, o
apóstolo viajou até Roma e aí ficou até ser expulso com os
judeus e cristãos pelo imperador Claúdio, época em que voltou a
Jerusalém e participou da reunião de apóstolos sobre os rituais
judeus, no chamado Concílio de Jerusalém. Após esta reunião,
ficou em Antioquia (como o seu companheiro de ministério, Paulo,
afirma em sua carta aos gálatas) e, depois de passar por várias
cidades, inclusive, segundo o bispo São Dionísio, por Corinto,
na Acaia, retornou a Roma e morreu aí entre 64 e 67 d.C.
Além de várias comprovações históricas, a Igreja Católica e a
Igreja Ortodoxa têm como prova bíblica desta sua estadia em
Roma, a 1ª carta do próprio Pedro, em que diz: "a Igreja que
está em Babilônia vos saúda, assim como o meu filho [ajudante]
Marcos" (capítulo 5, verso 13). Na opinião quase unânime de
estudiosos, a "Babilónia" é, na verdade, a cidade de Roma (uma
vez que, por temer que os soldados descobrissem sua morada nesta
cidade, Pedro preferiu chamar Roma com o pseudónimo "Babilónia",
assim como outro livro bíblico, o Apocalipse de João, também o
faz).
A comunidade de Roma, para os católicos, assim como para os
ortodoxos, foi fundada e ensinada pelos apóstolos Pedro e Paulo
e é considerada a única comunidade cristã do mundo, fundada por
mais de um apóstolo, e a única do Ocidente, instituída por um
deles. Por esta razão, os católicos creem que a comunidade de
Roma (chamada atualmente de Santa Sé) tem o primado sobre todas
as outras comunidades locais (dioceses) e o seu bispo
(denominado também de "papa") é respeitado como o pastor
universal da Igreja Católica, cabendo-lhe direitos e deveres
para com todos os fiéis católicos. De acordo com eles, o
ministério de Pedro continua sendo exercido até hoje pelo papa,
assim como o ministério dos outros apóstolos é cumprido pelos
outros bispos unidos a ele, que é a cabeça do colégio episcopal
(conjunto dos bispos católicos). A sucessão petrina (papal)
começa com São Lino, em 67, e atualmente é exercida pelo papa
Bento XVI.

São Pedro, segundo a arqueologia
S. Pedro pregando - Masolino da Panicale
friendsofart.net
A partir dos anos 50 intensificaram-se as
escavações no subsolo da Basílica de São Pedro, lugar
tradicionalmente reconhecido como provável túmulo do apóstolo, e
próximo de seu martírio no muro central do Circo de Nero. Após
extenuantes e cuidadosos trabalhos, inclusive com remoção de
toneladas de terra que datava do corte da Colina Vaticana para a
terraplanagem da construção da primeira basílica na época de
Constantino, a equipe chefiada pela arqueóloga italiana
Marguerita Guarducci encontrou o que seria uma necrópole
atribuída a São Pedro, inclusive uma parede repleta de grafitos
com a expressão "hic est Petrus", que, em latim, significa "aqui
está Pedro".
Basílica de S. Pedro/Vaticano
wikipedia.org
Também foram encontrados, em um nicho, fragmentos de ossos de um
homem robusto e idoso, entre 60-70 anos, envoltos em restos de
tecido púrpura com fios de ouro que se acredita, com muita
probabilidade, serem de São Pedro. A data real do martírio, de
acordo com um cruzamento de datas feito pela arqueóloga, seria
13 de Outubro de 64 d.C. e não 29 de junho, data em que se
comemorava o traslado dos restos mortais de São Pedro e São
Paulo, para a estada dos mesmos nas Catacumbas de São Sebastião
durante a perseguição do imperador romano Valeriano em 257 d.C.

Sermão de São Pedro - do Padre António
Vieira
Basílica de S. Pedro/Vaticano
wikipedia.org
Pregado em Lisboa, em S. Julião, no ano de 1644,
à venerável congregação dos sacerdotes:
«Mui seguro está do seu valor quem tira a sua opinião ao campo.
E se é temeridade tomar-se com muitos, com todo o mundo se tomou
quem desafiou sua fama. Na ocasião de que fala S. Mateus (cujo é
o Evangelho que hoje nos propõe a Igreja), diz que perguntou
Cristo, Senhor nosso, que diziam dele os homens: "Quem dicunt
homines esse Filium hominis?"
Perguntou o Senhor, para que os senhores que mandam o Mundo se
não desprezem de perguntar. Se pergunta a sabedoria divina,
porque não perguntará a ignorância humana? Mas esse é o maior
argumento de ser ignorância. Quem não pergunta, não quer saber;
quem não quer saber, quer errar. Há porém ignorantes tão
altivos, que se desprezam de perguntar, ou porque presumem que
tudo sabem, ou porque se não presuma que lhes falta alguma cousa
por saber. Deus guie a nau onde estes forem os pilotos.
Não perguntou o Senhor o que era, senão o que se dizia: Quem
dicunt? Antes de se fazerem as cousas, há-se de temer o que
dirão; depois de feitas, há-se de examinar o que dizem. Uma
cousa é o acerto, outra o aplauso. A boa opinião de que tanto
depende o bom governo, não se forma do que é, senão do que se
cuida; e tanto se devem observar as obras próprias, como
respeitar os pensamentos e línguas alheias. A providência com
que Deus permite a murmuração, é porque talvez de tão má raiz se
colhe o fruto da emenda. E se eu de murmurado me posso fazer
aplaudido, porque me não informarei do que se diz?
Respondendo os Discípulos à questão, referiram os pareceres ou
ditos do povo a respeito da pessoa de Cristo. Eram do povo,
claro está que haviam de ser errados: "Alii Joannem Baptistam,
alii autem Eliam, alii vero Jeremiam, aut unum ex prophetis:
(Uns diziam que era o Baptista, outros que era Elias, outros que
era Jeremias, ou algum dos profetas antigos). Antigos não disse
São Mateus, mas advertiu-o S. Lucas: "Unus propheta de prioribus
surrexit." (Grande é o ódio que os homens têm à idade em que
nasceram.) Não diziam que era um profeta como os antigos, senão
um deles: "Unus de prioribus." Pois assim como antigamente houve
também profetas, não poderia também agora haver um? Cuidam que
não. Por melhor milagre tinham de ressuscitar um dos profetas
passados, que nascer em seu tempo outro como eles. Tudo o
moderno desprezam, só o antigo veneram e acreditam. E porque a
Cristo lhe não podiam negar a sabedoria, fingiam-lhe a
antiguidade. Ora desenganem-se os idólatras do tempo passado,
que também no presente pode haver homens tão grandes como os que
já foram, e ainda maiores: Cristo passava pouco dos trinta anos,
e tudo o que souberam os antigos e antiquíssimos, era aprendido
dele.
E vós, Discípulos meus (continua o Senhor), vós que não sois
povo e estudais na minha escola, quem dizeis que sou eu?: "Vos
autem quem me esse dicitis?" Estas são as palavras que tomei por
tema e ficam para o discurso. Respondeu a elas, por todos, S.
Pedro: "Tu es Christus, Filius Dei vivi": (Vós, Senhor, sois
Cristo, Filho de Deus vivo). Aludiu primeiramente aos deuses dos
Gentios, que eram estátuas mortas. Queira Deus que entre os
Cristãos não haja também estes ídolos. Não sendo mais que umas
estátuas, querem que os adoremos como deuses. Mas além desta
alusão, ainda subiu mais alto o pensamento de S. Pedro. "Cristo
é Filho de Deus, e nós também somos filhos de Deus" (Dedit eis
potestatem Filios Dei fieri.) Em que se distingue logo Cristo de
nós? Em que Cristo é Filho de Deus vivo, nós somos filhos de
Deus morto. Cristo Filho de Deus vivo, porque Deus, que é
imortal, o gerou ab æterno; nós filhos de Deus morto, porque o
mesmo Cristo, morto nos braços da cruz, foi o que nos gerou de
novo e nos deu este segundo e mais sublime nascimento.
Não tinha S. Pedro bem acabado a confissão da sua fé quando o
Senhor lha premiou com a certa esperança da maior dignidade.
Ele disse a Cristo o que era, e Cristo disse-lhe a ele o que
havia de ser:
"Et ego dico tibi, quia tu es Petrus, et super hanc petram
ædificabo ecclesiam meam" (E eu te digo, Pedro, que tu és Pedro,
e sobre esta pedra hei-de fundar a minha Igreja.) De tal maneira
obra Deus com a sua e suma sabedoria, que parece se emenda com a
experiência. Arruinou-se-lhe a primeiro edifício, porque o
fundou em um homem de barro; para que lhe não arruíne o segundo,
funda-o em um homem de pedra. Retrata-se do que tem feito, Deus,
que não pode errar; e os homens estão tão namorados de seus
erros, que antes os vereis obstinados, que arrependidos. Dirão
que é timbre este de entendimentos angélicos, porque nenhum anjo
errou que se retratasse. Eu digo que não é senão contumácia de
entendimentos diabólicos, porque nenhum anjo errou, que não
fosse demónio.
Todos os demónios do Inferno, diz Cristo que não prevalecerão
contra sua Igreja: "Portæ inferi non prævalebunt adversus eam."
E porque não basta estarem as portas inimigas defendidas, se as
próprias não estiverem seguras, à fidelidade de Pedro cometeu o
Senhor as chaves do seu Reino: "Tibi dabo claves regni cælorum."
Primeiro lhe chamou homem de pedra e depois lhe entregou as
chaves, porque as chaves do Reino só em homens de pedra estão
seguras. Os homens de barro quebram, os de pau corrompem-se, os
de vidro estalam, os de cera derretem-se; tão duro e tão
constante há-de ser como uma pedra, quem houver de ter nas mãos
as chaves do Reino: "Tu es Petrus, tibi dabo claves."
E qual há-de ser o ofício ou o exercício destas chaves? Fechar e
abrir? Não diz isso o Senhor. As chaves que abrem e fecham,
podem abrir para dentro e fechar para fora. Por isso vemos os
tesouros tão estreitos e tão fechados para os outros, e tão
largos e tão abertos para os que têm as chaves. Que havia logo
de fazer com elas S. Pedro? Atar e desatar, diz Cristo: "Quodcumque
ligaveris, erit ligatum: quodcumque solveris, erit solutum." A
peste do governo é a irresolução. Está parado o que havia de
correr, está suspenso o que havia de voar; porque não atamos,
nem desatamos. Não debalde escolhe Cristo para o governo da sua
casa um homem tão resoluto como Pedro. Se Cristo lhe não mandara
embainhar a espada, bem necessárias lhe eram as ataduras para as
feridas. Assim há-de ser quem há-de obrar, e não homens que nem
atam, nem desatam.
Aqui para a história do Evangelho: para passarmos ao discurso,
peçamos a graça: Ave Maria.
Cristo aparecendo a S. Pedro
canvasreplicas.com
II
"Vos autem quem me esse dicitis? "
Suposto andarem tão válidas no púlpito e tão bem recebidas do
auditório as metáforas, mais por satisfazer ao uso e gosto
alheio, que por seguir o génio e ditame próprio, determinei na
parte que me toca desta solenidade, servir ao Príncipe dos
Apóstolos também como uma metáfora. Busquei-a primeiramente
entre as pedras, por ser Pedro pedra, e ocorreu-me o diamante;
busquei-a entre as árvores, e ofereceu-se-me o cedro: busquei-a
entre as aves, e levou-me os olhos a águia: busquei-a entre os
animais terrestres, e pôs-se-me diante o leão; busquei-a entre
os planetas, e todos me apontaram para o Sol; busquei-a entre os
homens, e convidou-me Abraão; busquei-a entre os anjos, e parei
em Miguel. No diamante agradou-me o forte, no cedro o
incorruptível, na águia o sublime, no leão o generoso, no Sol o
excesso da luz, em Abraão o património da Fé, em Miguel o zelo
da honra de Deus. E posto que em cada um desses indivíduos, que
são os mais nobres do Céu e da Terra, e em cada uma de suas
prerrogativas achei alguma parte de S. Pedro, todo S. Pedro em
nenhuma delas o pude descobrir. Desenganado pois de não achar em
todos os tesouros da natureza alguma tão perfeita, de cujas
propriedades pudesse formar as partes do meu panegírico, (que
esta é a obrigação da metáfora) despedindo-me dela e deste
pensamento, recorri ao Evangelho para mudar de assunto; e que me
sucedeu? Como se o mesmo Evangelho me repreendera de buscar fora
dele o que só nele se podia achar, as mesmas palavras do tema me
descobriram e ensinaram a mais própria, a mais alta, a mais
elegante e a mais nova metáfora, que eu nem podia imaginar de S.
Pedro. E qual é? Quase tenho medo de o dizer! Não é cousa alguma
criada, senão o mesmo Autor e Criador de todas. Ou as grandezas
de S. Pedro se não podem declarar por metáfora, como eu cuidava,
ou se há ou pode haver alguma metáfora de S. Pedro, é só Deus.
Isto é o que hei-de de pregar, e esta a nova e altíssima
metáfora que hei-de prosseguir. Vamos ao Evangelho.
"Vos autem quem me esse dicitis?" (E vós quem dizeis que sou
eu?) "Aquele vos autem" refere esta segunda pergunta à primeira.
Na primeira tinha dito o Senhor quem dizem os homens; nesta
segunda diz: E vós, quem dizeis? De sorte que a pergunta e a
questão era a mesma, e só as pessoas diferentes. Mas também esta
diferença parece dificultosa de entender. Os Apóstolos não eram
homens? Sim. Pois se Cristo na primeira pergunta tinha dito quem
dizem os homens, parece que já ficavam incluídos nela os mesmos
Apóstolos; porque os distingue logo o Senhor dos outros homens
com uma exclusiva tão manifesta como a daquele "vos autem"? O
reparo não é menos que de S. Jerónimo, a quem a mesma cadeira de
S. Pedro tem canonizado não só pelo maior Doutor, senão o Máximo
na exposição das Escrituras Sagradas. E que responde S. Jerónimo?
Diz que distinguiu Cristo aos Apóstolos dos outros homens,
porque os Apóstolos não são homens. E se não são homens, que
são? São anjos? São arcanjos? São querubins? São serafins? Muito
mais: são Deuses. Palavras expressas do doutor Máximo: "Prudens
lector, attende quod ex consequentibus, textuque sermonis Domini
Apostoli nequaquam homines, sed Dii appellantur." (Advirta o
prudente leitor, que, segundo este texto e a consequência destas
palavras de Cristo, os Apóstolos não são homens, nem se chamam
homens, senão Deuses) "Nequaquam homines, sed Dii."
Grande dizer, e tão grande, que não só diz tudo o que eu queria,
e o meu assunto há mister, senão muito mais. Diz tudo, porque
afirma expressamente a metáfora e semelhança de Deus, quanto ao
nome, quanto à dignidade e quanto à diferença e soberanias desta
divindade superior absolutamente a todo o ser humano: "Nequaquam
homines." Mas diz muito mais do que o meu assunto prometeu e há
mister, porque ele supõe a excelência desta prerrogativa como
própria de S. Pedro, e singularmente sua, e de nenhum outro, e
S. Jerónimo parece que a estende a todos os Apóstolos: "Apostoli
nequaquam homines, sed dii appellantur." De onde se segue que
esta extensão, posto que em pessoas de tão alta dignidade,
desfaz muito a singularidade de S. Pedro da minha metáfora e do
meu intento; porque fica sendo uma prerrogativa, senão de todos,
ao menos de muitos.
S. Pedro recebendo as chaves
culturalcatholic.com
III
Vamos devagar, que o ponto o pede. Primeiramente não nego, nem
se pode negar que o texto parece que fala com todos os
Discípulos e Apóstolos, a quem o divino Mestre fazia a
pergunta. Mas eu pergunto também quem foi o que única e
singularmente respondeu a ela? Claro está que foi São Pedro: "Respondit
Petrus." E porque respondeu só ele e nenhum outro?
Excelentemente St.° Ambrósio: "Cum interrogasset Dominus quid
homines de Filio hominis æstimarent, Petrus tacebat: ideo (inquit)
non respondeo, quia non interrogor: interrogabor, et ipse quid
sentiam tum demum respondebo, quod meum est." (Enquanto Cristo
perguntou o que diziam os homens, Pedro esteve calado sem dizer
palavra) - tacebat; e porque esteve calado Pedro e não respondeu
palavra? "Porque aquela pergunta, diz ele, não fala comigo": "Ideo
non respondeo, quia non interrogor" ;porém, quando eu for
perguntado, então responderei e direi o que sinto, porque a mim
me pertence: "Cum interrogabor, et ipse quid sentiam respondebo,
quod meum est." Note-se muito esta última palavra, "quod meum
est", na qual excluiu o mesmo S. Pedro a todos os outros
Apóstolos e confiadamente diz que a resposta daquela altíssima
pergunta só era sua e só a ele pertencia. É verdade que a
palavra da pergunta: "vos autem" parece que compreendia a
todos; mas a resposta exclui aos demais, como encaminhada a ele
por quem sabia o que só Pedro sabia e os demais ignoravam.
Em um famoso milagre do mesmo S. Pedro temos um extremado
exemplo, com que a extensão do "vós autem" se limita só a ele.
Entretanto, S. Pedro com S. João por uma das portas do templo de
Jerusalém a orar, estava ali um pobre tolhido dos pés desde seu
nascimento, o qual lhes pediu uma esmola; disse-lhe S. Pedro: "Respici
in nos:" (Olha para nós), e respondendo ao que pedia o pobre; -
Eu - diz - não tenho ouro, nem prata, mas o que tenho, isso te
dou; e tomando-o pela mão "o pôs em pé inteiramente são": "Et
protinus consolidatæ sunt bases ejus." Pois se S. Pedro só havia
de fazer, como fez, o milagre sem ter parte nele o companheiro,
porque não disse também - olha para mim, senão, olha para nós?:
"Respice in nos ?"
A razão fique para outro dia; o exemplo nos serve agora, e é
quanto se pode desejar adequado. De sorte que o "respice in nos"
referiu-se a Pedro, e mais a João; mas o milagre não o obraram
Pedro e João, senão só Pedro. Pois assim como então o respice in
nos se referiu a ambos e o obrador do milagre foi só um, assim
no caso presente o "vos autem" referia-se a todos - "Respiciebat
omnes" - e a milagrosa confissão foi só de Pedro. Só de Pedro,
sem que o número ou multidão a que foi dirigida a pergunta,
impedisse a glória única e singular de quem deu a resposta: e
senão, combinemos o vos com o tu e o tibi. O "vos autem" foi de
todos, e o tu só de Pedro: Tu es Petrus; o "vos autem" de todos,
e o "dico" só de Pedro: "dico tibi"; o "vos autem" de todos, e
o "dabo" só de Pedro: "Tibi dabo."
Defendendo Cristo no Monte das
Oliveiras
IV
Assentada esta singularidade de S. Pedro dentro na mesma
diferença que distinguia a todos os Apóstolos dos outros homens,
segue-se que vejamos também singular nele a divindade, com que a
mesma diferença lhe dava por consequência o nome de Deuses:
Nequaquam homines, sed Dii appellantur. Em confirmação da sua
consequência, excita questão S. Jerónimo, porque os outros
homens, por mais que quiseram encarecer as grandezas de Cristo
comparando-o às maiores personagens do Mundo, sempre contudo o
fizeram homem; pelo contrário, um só dos Apóstolos que respondeu
à pergunta sem comparações nem rodeios, disse distintamente que
era Filho de Deus. E a razão de tão notável diferença (sendo o
soberano sujeito o mesmo) diz o mesmo S. Jerónimo que foi porque
cada um fala como entende, e entende como quem é. Os homens,
porque falavam e entendiam como homens, chamaram a Cristo homem;
S. Pedro, porque falava e entendia como Deus, chamou-lhe Filho
de Deus: "Qui de Filio hominis loquuntur, homines sunt; qui vero
divinitatem ejus intelligunt, non homines, sed Dii." Note-se
muito a palavra "intelligunt." Eutímio diz o mesmo: "Solus
Petrus vere Chistum, et natura, et proprie Filium Dei esse
intellexit." S. Pascácio o mesmo: "Beatus Petrus plusquam homo
erat, qui ultra hominem sapiebat: cumque Dei Filium in homine
videret, ultra humanos oculos vidit, et intellexit." E outra vez
aqui se deve notar esta última palavra.
Em suma, que toda a divindade de S. Pedro se atribui ao
entendimento com que penetrou e conheceu a do Verbo oculta
debaixo da humanidade de Cristo. E porque mais ao entendimento
que a outra qualidade ou excelência de quantas resplandeciam em
um sujeito tão sublime? Porque assim havia de ser para se poder
chamar Deus com toda a propriedade. É grave questão entre os
teólogos, qual seja em Deus o último e formal constitutivo da
essência divina. E a sentença hoje mais recebida nas escolas, e
mais comum, é que a essência divina se constitui e consiste no
intercetivo radical, e na mesma intersecção, por ser este, como
eles chamam, o primeiro predicado de Deus. E como o intercetivo
radical, e Intersecção divina, é a que última e formalmente
constitui a divindade e essência de Deus, para que nem esta
propriedade e correspondência faltasse à divindade de Pedro, e a
metáfora com que é chamado Deus se ornasse também com os
esmaltes de tão semelhante origem, foi conveniente à glória de
tão soberana participação e semelhança, que a deidade do mesmo
Pedro se fundasse nas raízes do seu intelectivo e que a
intelecção com que entendeu e conheceu a divindade de Cristo,
fosse pelo mesmo modo o constitutivo da sua. Já não havemos
mister as autoridades dos Santos Padres, porque temos a do
Eterno Padre e a do mesmo Cristo: "Quia caro et sanguis non
revelavit tibi, sed Pater meus, qui in cælis est." A intelecção
de Pedro não teve nada de humano, o qual se compõe de carne e
sangue; mas elevada o seu intercetivo e o seu entendimento pela
revelação do Padre a uma altíssima participação e semelhança do
divino, ali se constituiu a última formalidade da sua essência,
e se conseguiu, do modo que era possível, o nome e dignidade de
Deus: "Qui divinitatem ejus intelligunt, non homines sed Dii."
Busto de S. Pedro - Nicolas Cordier
V
Levado S. Pedro à divindade pela revelação do Padre, vejamo-lo
segunda vez elevado ou confirmado nela pela eleição do Filho: "Et
ego dico tibi, quia tu es Petrus, et super hanc petram ædificabo
ecclesiam meam." O imperador Nerva, como refere Plínio, elegeu
por seu sucessor a Trajano, e Trajano em agradecimento colocou a
Nerva entre os deuses, e pagou-lhe a sucessão com a divindade.
Muito melhor Pedro que Trajano, e muito melhor Cristo que Nerva.
Pedro disse a Cristo: "Tu es Chistus Filius Dei vivi": e Cristo
disse a Pedro: "Tu es Petrus, et super hanc petram ædificabo
ecclesiam meam." Pedro na sua confissão deu a divindade a
Cristo, e Cristo na sua sucessão não só deu a Pedro a sucessão,
senão também a divindade. Assim foi e assim havia de ser; porque
nem a Pedro seria digno sucessão de Cristo, nem seria digna de
Cristo a providência de sua Igreja, se Pedro fora somente homem,
e não fora juntamente Deus.
Notificou Moisés ao povo de Israel corno tinha Deus resoluto que
de ali por diante governasse um anjo, e diz o texto sagrado
que, ouvida esta nova, "todo o povo se pôs a chorar em pranto
desfeito e todos se cobriam de luto": "populus luxit, et nullus
(...) indutus est cultu suo." Quem imaginaria de tal notícia tão
encontrados efeitos? Antes parece que todos se haviam de vestir
de gala e dar muitas graças a Deus por tal governador. Que
melhor ;governador se podia desejar que um anjo? Um anjo que não
come, nem veste, nem granjeia; um anjo que não tem parentes, nem
criados, nem apetites; um anjo tão sábio e tão verdadeiro, que
nem pode enganar, nem ser enganado, benévolo, afável sempre do
bom rosto; enfim, um anjo? Pois se todas as outras nações se
contentam ou sofrem ser governadas por homens "e os trazem sobre
a cabeça": "Imposuisti homines super capita nostra"; que razão
teve o povo de Israel para receber com lágrimas e lutos a nova
de o haver de governar um anjo? - Muito grande razão. Porque
até ali quem governava aquele povo era Deus por si mesmo; e
suceder a Deus um anjo, não era favor, senão rigor; não era
benefício, senão castigo; eram sinais da majestade divina
ofendida e irada e demonstrações de que antes queria desamparar
e destruir aquele povo, que conservá-lo. Esta foi a justa razão
daquelas lágrimas; e já temos concluído que, ainda que S. Pedro
fora um anjo, não seria digno sucessor de Cristo, nem ele
deixaria dignamente provida a sua Igreja, e ela por aquela
eleição e sucessão, não se devia vestir de festa, como hoje a
vemos, senão chorar e cobrir-se de lutos. Vamos agora buscar a
segunda consequência, e no mesmo povo a acharemos.
Vendo o povo de Israel que Moisés depois de subir ao monte,
havia quarenta dias que tardava e não apareciam, cansados de
esperar os que agora cansam, vão-se ter com Arão, pedindo-lhe
"que lhes faça um deus" "Fac nobis deos, qui nos præsedant;
Moysi enim huic viro, qui nos eduxit de terra Ægypti, ignoramus
quid acciderit"; "porque não sabemos (dizem) o que é feito deste
homem que nos tirou do Egipto". Deste homem disseram, palavra em
que manifestamente se implicavam e desfaziam a sua mesma
petição. Pois se Moisés é homem, "huic viro", porque não pedem
outro homem, mas dizem que lhes faça um Deus em seu lugar?: "Fac
nobis deos." A petição foi ímpia; o intento não só bárbaro, mas
sacrílego e blasfemo: porém a consequência não se pode negar que
foi muito bem entendida, muito bem deduzida e muito bem fundada.
Moisés, ainda que era homem, era juntamente Deus: "Constitui te
Deum Pharaonis": (e para suceder dignamente a um homem Deus, é
necessária consequência que o sucessor seja também Deus).
Parece-me que sem mais explicação Estou declarado.
Cristo Senhor nosso era verdadeiro homem e verdadeiro Deus, como
acabava de confessar S. Pedro; e se Pedro fosse somente homem e
não fosse também Deus, nem. ele seria digno sucessor de Cristo,
nem Cristo corresponderia àquela altíssima confissão com prémio
e recompensa igual. Esta é a força daquele "et ego dico tibi":
(Tu dizes que eu sou Deus"; pois eu te digo que tu também o
serás, sucedendo em meu lugar, e tendo as minhas vezes. St.°
Ambrósio: "Quia tu mi dixisti": - "Tu es Christus, Filius Dei
vivi - ego dico tibi non sermone casso, et nullum effectum
habente (quia meum dixisse fecisse est) quia tu es Petrus et
super hanc Petram ædifìcabo ecclesian meam, et tibi dabo claves
regni cælorum." Assim pagou Cristo a Pedro uma divindade com
outra, dando-lhe o poder de Deus no Céu, porque ele o tinha
confessado por Filho de Deus na Terra.
De aqui se entenderá a solução de um grande reparo de St.°
Agostinho, duas vezes repetido por ele; e é que a mesma
confissão que fez S. Pedro, fez também o Demónio. "Ecce modo
audistis in Evangelio quod ait Petrus: Tu es Cristhus, Filius
Dei vivi: legit; et invenietis dixisse dæmones: scimus quia sis
Filius Dei." O Demónio era o mais jurado inimigo de Cristo que
havia, houve, nem haverá. Pois porque confessa a Cristo; e pelas
mesmas palavras com que S. Pedro o confessou por Filho de Deus?
Porque viu quanto lhe montou a Pedro esta confissão, diz
agudamente S. Crisóstomo: "O intento do Demónio foi sempre ser
como Deus: "Similis ero Altissimo". "Pedro conseguiu ser como
Deus pela confissão da divindade de Cristo; pois eu também o
quero confessar, para conseguir o que ele conseguiu". Enganou-se
como cego da ambição, mas inferia bem, se não fosse quem era; e
com o seu testemunho, posto que do Inferno, confirmou o mesmo
que temos dito. De sorte que aquele soberbíssimo espírito tão
ambicioso da divindade, de tal maneira reconheceu a de Pedro,
que porque antigamente não pôde ser como Deus no Céu, agora se
contenta e procura ser como Pedro na Terra.
Cadeira de S. Pedro - Basílica -
Vaticano
VI
Estabelecida tão amplamente a divindade de S. Pedro, vejamos com
igual admiração quão divina e endeusadamente a pratica e usa
dela. Quantos grandes há neste Mundo, que não sabem ser o que
são? Depois de lhes dar o que lhes deu, parece que se arrependeu
a fortuna do que lhes tinha dado. O rico é avarento, e não sabe
usar da riqueza; o sábio é imprudente, e não sabe usar da
sabedoria; o valente é temerário, e não sabe usar do valor; e
até os que têm as coroas na cabeça e os septos na mão, não têm
cabeça nem mãos para saber reinar. Não assim Pedro, em tudo
igual a si mesmo.
Pondera S. Pedro Damião alta e profundamente quanto pode admirar
e apenas compreender o juízo humano aquela imensa e inaudita
comissão de Cristo a S. Pedro: "Quodcumque ligaveris super
terram, erit ligatum et in cælis; et quodcumque solveris super
terram, erit solutam et in cælis." E diz assim elegantemente: "Adest
Petrus, et ad ejus arbitrium orbis universus solvitur et ligatur.
Et præcedit Petri sententia sententiam Redemptoris, quia non
quod Christus, hoc ligat Petrus, sed quod Petrus, hoc ligat
Chryistus. Quid est quod angelorum et hominum agminibus exclusis,
solus Petrus in consortium dïvinæ majestatis, et cum Domino
residet præsidente? Consilium special e Petri et Dei, ubi
mortalem hominem Deo copulat et counit." Atequi o eloquentíssimo
cardeal, depois de renunciar a púrpura. Eu o explico e comento:
Aparece Pedro, e ao arbítrio do seu império todo o Mundo é ou
não é o que ele quer que seja ou não seja: se liberta, todo
livre; se ata, todo atado e preso. Deus está no Céu e na Terra,
quando manda o Céu e a Terra; Pedro, estando na Terra, manda a
Terra e mais o Céu. Se da Terra chovesse para cima, como
descreve Lactâncio dos antípodas, não seria grande maraviIha?
Pois isto é o que passa no governo de Pedro; não descem os
decretos do Céu para a Terra, mas sobem da Terra para o Céu.
Pedro é o que manda, e Deus o que se conforma. Conforma-se com o
entendimento, conforma-se com o poder. O que entende, o que
quer, o que ordena e manda Pedro, isso entende Deus, isso quer
Deus, isso ordena e manda Deus. E por que razão, quando Deus
despacha no seu tribunal supremo, todos os espíritos angélicos
assistem em pé, e só Pedro preside assentado? - Porque o
tribunal de Deus, e o tribunal de Pedro não são dois, senão um
só e o mesmo.
O primeiro ato judicial que exercitou S. Pedro, foi no caso de
Ananias. Eram naquele tempo da primitiva Igreja as fazendas e
bens temporais dos cristãos comuns a todos: e contra esta Lei ou
voto, vendeu Ananias uma herdade e ocultou parte do preço;
manda-o chamar à sua presença S. Pedro; e que é o que fez e o
que disse? O que só podia dizer e fazer Deus. O que disse foi: "Non
es mentitus hominibus, sed Deo": (sabe, Ananias, que no que
encobriste não mentiste aos homens, senão a Deus.) Vede se se
tratava como Deus quem assim falava.. O que fez foi ainda mais
divino, mais admirável: e de maior terror. "Ouvindo aquelas
palavras, caiu morto Ananias aos pés de Pedro": "Audiens autem
hæc Ananias, expiravit." Descrevendo Isaías a justiça de Cristo,
diz que só com o espírito de sua boca matará o impio: "Et
spiritu labiorum suorum interficiet impium." E nisto mostrou o
Profeta que o mesmo que havia de ser o Redentor, era o Deus que
tinha sido o Criador. O modo com que Deus, quando criou o
primeiro homem, lhe deu vida, foi inspirar-lhe no rosto com o
espírito de sua boca: "Inspiravit in faciem ejus spiraculum vitæ
, et factus est homo in animam viventem." Pois assim como só com
o espírito de sua boca deu a primeira vida, assim com o mesmo
espírito, sem outro instrumento, diz Isaías que Cristo dará a
morte ao ímpio. Isto é, nem mais nem menos, o que fez S. Pedro.
Nem mandou matar a Ananias, nem lhe disse que morresse, e só com
lhe tocar nos ouvidos o espírito de sua boca, caiu morto. Mas
tal execução como esta, posto que de poder tão divino, nunca a
fez Cristo. Como diz logo o Profeta que com o espírito de sua
boca havia de matar o ímpio? É profecia que ainda está por
cumprir, e diz S. Paulo que se cumprirá quando Cristo, no fim do
Mundo, com o espírito só de sua boca matará o Anticristo. "Tunc
revelabitur ille iniquus, quem Dominus Jesus interficiet spiritu
oris sui et destruet illustratione adventus sui." (Esta será a
última execução de justiça de Cristo e tal foi a primeira de
Pedro.)
Mas assim como Deus é muito mais largo nas mercês sem comparação
que nos rigores, assim mostrou também S. Pedro esta divina
condição no poder da sua divindade. Por uma vida que tirou, deu
infinitas vidas; e para maior maravilha com muito menor
instrumento, Concorriam os enfermos de toda a parte, punham-se
em compridíssimas fileiras nas ruas por onde Pedro havia de
passar, e todos a quem tocava a sua sombra se levantavam
subitamente sãos. Não é muito menor instrumento a sombra, que o
espírito da boca? Pois esta só bastava para dar vida, e tantas
vidas. Assim parece que se competiram estes dois instrumentos em
Pedro, como já se tinham competido em Deus, ficando a sombra com
infinita glória vencedora. Que fez Deus com o espírito da boca?
- Deu o ser e a vida ao primeiro Adão: "Inspiravit in faciem
ejus spiraculum vitæ." E que fez o mesmo Deus com a virtude da
sua sombra? - Deu o ser e a vida ao segundo Adão, que é Cristo:
"Virtus Altissimi obumbrabit tibi, ideoque et quod nascetur ex
te sanctum, vocabitur Filius Dei." (Ó Deus, ó Pedro! Em tudo
quis Deus que a divindade de Pedro fosse semelhante à sua.)
Libertação de S. Paulo
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VII
Só parece que lhe falta ainda uma semelhança divina, que é a
pessoal. Em Deus e na divina essência há três pessoas. E foi S.
Pedro também semelhante a alguma delas? Também, mas não a alguma
somente, senão a todas três, semelhante a Deus Padre, semelhante
a Deus Filho, semelhante a Deus Espírito Santo.
Quanto à semelhança de Deus Padre, não pode ser maior. Quando
Cristo, Senhor nosso, se fez batizar no Jordão, abriram-se os
Céus, e de lá se ouviu a voz do Eterno Padre, que disse: "Hic
est Filius meus dilectus, in quo mihi complacui." (Este é o meu
Filho muito amado, no qual muito me agradei.) No monte da
Transfiguração apareceu sobre ele uma nuvem resplandecente, de
dentro da qual se ouviu segunda vez a voz do mesmo Padre,
tornando a declarar por Filho seu a Cristo, não com outras,
senão com as mesmas palavras. Isto fez e disse o Eterno Padre; e
não é isto o mesmo que fez S. Pedro, quando disse: "Tu es
Christus Filius Dei vivi?" - O mesmo. De sorte que este pregão e
esta declaração da divindade de seu Filho quis o Eterno Padre
que saísse da sua boca e da boca de Pedro. Por isso o mesmo
Padre foi o que lhes revelou o mistério a todos os outros
Apóstolos escondidos. E em que consistiu aqui o fino e o sublime
deste tão singular favor? Consistiu em que, assim como o Padre
tinha dado a seu Filho a divindade por geração, assim tomasse
por companheiro a Pedro para ambos lha darem por manifestação.
No Apocalipse viu S. João a Cristo em figura de cordeiro, e logo
ouviu que toda a corte do Céu o aclamava a uma voz por "digno de
receber a divindade": (Dignus est agnus, qui occisus est,
accipere virtutem et divinitatem.) Pois o mesmo cordeiro Cristo
não tinha recebido de seu Pai a divindade, e o ser divino desde
o princípio sem princípio da eternidade? Sim, a tinha recebido
por geração; mas agora a tornava a receber por manifestação. Por
geração foi concebido o Verbo no entendimento e conceito do
Padre; por manifestação era de novo concebido no entendimento e
conceito de todo o Mundo: "Non in se, sed in mente et ore
hominum", dizem com S. Tomás todos os intérpretes. E neste
segundo modo de conceição e de geração, quis o Eterno Padre que
fosse seu Filho tão Filho de Pedro, como era seu: "Hic est
Filius meus dilectus: Tu es Christus, Filius Dei vivi."
À semelhança da Pessoa de Deus Filho também o mesmo Filho lha
deu. E quando? Quando lhe deu o nome de pedra. Cristo teve o
nome de Pedra desde o tempo em que os filhos de Israel "bebiam
daquela pedra que os seguia", como declarou S. Paulo: "Bibebant
de consequente eos petra, petra autem erat Chistus". E como
Cristo era pedra e deu o nome de pedra a Pedro, como a
semelhança e dignidade do seu nome o admitiu em quanto segunda
Pessoa da Santíssima Trindade ao consórcio e companhia, isto é,
a lhe ser companheiro nela. S. Leão Papa: "In consortium
individuæ trinitatis assumptum id quod ipse erat, nominari
voluit." E S. Máximo acrescenta que não foi só favor e graça,
senão merecimento: "Recte onsortium meretur nominis, qui
consortium meretur et operis." Disse "operis", e pudera com a
mesma e maior propriedade dizer "oneris"; porque, quando Cristo
o fez pedra fundamental da sua Igreja, todo o peso dela lhe
carregou sobre os ombros. Isto é o que pesa aquele super hanc
petram. Outro peso foi o que o mesmo Cristo tomou sobre si,
quando se sujeitou a pagar o tributo de César; mas também neste
igualou a Pedro consigo, e quis que fossem companheiros e
meeiros na paga do mesmo tributo: "Da eis pro me, et te."
Nota aqui Abulense e os outros expositores literais, que S.
Pedro não tinha obrigação de pagar aquele tributo, porque não
era cabeça da família. E porque outros sentem o contrário, eu o
tiro com evidência do texto; porque os cobradores do mesmo
tributo só disseram a S. Pedro: "Magister vester non solvit
didrachma." Pois se S. Pedro não tinha obrigação de pagar o
tributo, nem a ele lho pediam, porque lhe manda o Senhor que
pague? Porque ele o pagava; e quis honrar a Pedro com o igualar
com sua própria Pessoa. O "honoris excellentia!" - exclama S.
Crisóstomo. Desta mesma igualdade tão familiar e repetida se
pode também admitir sem escrúpulo um pensamento com que Lirano
interpreta o de S. Pedro, quando disse no Tabor: "Faciamus hic
tria tabernacula, tibi unum. Moysi unum, et Eliæ unum." E
porque não o tratou também Pedro de tabernáculo para si e para
os dois companheiros? «Porque supôs que os dois morariam com
Moisés e Elias, e ele com Cristo»: "Non loquitur de tabernaculo
faciendo pro se et sociis suis, quia volebat cum Chisto esse in
suo tabernaculo, et socii sui cum aliis duobus." Vede se se pode
imaginar maior e mais familiar igualdade entre Pedro e a segunda
Pessoa da Trindade, se se hão-de nomear ambos com o mesmo nome,
se hão-de pagar ambos o mesmo tributo, se hão-de morar ambos no
mesmo tabernáculo!
Com o Espírito Santo, que é a terceira Pessoa, não temos menos
sublimada ou endeusada a divindade de S. Pedro. Tão iguais são
ou tão parecidas, a procissão do Espírito Santo e promoção de
Pedro, a personalidade de um e a dignidade ou majestade do
outro, que ambas manam das mesmas fontes e ambas trazem o ser,
em Pedro, das mesmas causas, e no Espírito Santo, que não pode
ter causa, dos mesmos princípios. Como procede o Espírito Santo?
A Fé o diz e a Igreja o canta: "Qui ex Patre, Filioque procedit": (Procede
o Espírito Santo do Padre e procede do Filho). O Padre é um
princípio parcial; o Filho outro princípio também parcial; e
destes dois princípios parciais se compõem o princípio total, do
qual, produzido ou expirado, procede o Espírito Santo. E a
promoção de S. Pedro à dignidade ou divindade que temos visto,
como procedeu? Com a mesma verdade podemos, havemos de dizer, e
com nenhuma se pode negar, que procedeu do mesmo Padre e do
mesmo Filho: do Padre, revelando: "Quia Pater, revelavit tibi",
e do Filho, dizendo: "Et ego dico tibi": Do Padre, que foi o
primeiro que o elevou; do Filho, que foi o segundo que o
declarou; e de cada um como princípio ou causa parcial; e de
ambos como causa total que o constituiu ou constituíram na
dignidade.
Não pára aqui a semelhança. Em Pedro concorreram para a
dignidade dois actos, um do entendimento, outro da vontade e do
amor: o do entendimento, quando perguntados todos, ele só disse:
"Tu, es Chistus Filius Dei vivi; o da vontade e do amor, quando
perguntado só: "Diligis me plus his?" ele respondeu: "Tu scis
Domine qua amo te." Vede agora como estes dois actos foram uma
admirável representação do ato de entendimento, que precede no
Padre quando gera o Filho, e do ato de vontade e amor entre o
Padre e o Filho, pelo qual procede o Espírito Santo.
É grave questão entre os teólogos se no acto do entendimento,
com que o Padre gera o Filho, se conhece e compreende também o
Espírito Santo? E se resolve comumente que sim. Mas esta
resolução tem uma grande réplica, porque naquela prioridade, que
não é de tempo, nem de natureza, senão de origem, ainda não há
nem se pode considerar vontade, e por consequência, nem Espírito
Santo, que procede por ato da mesma vontade. Como se pode logo
compreender o Espírito Santo no ato precedente do entendimento,
que é antes de ele ser? Os que respondem mais fácil e
inteligivelmente dizem, como refere Soares: "Patrem in eo signo
non agnoscere Spiritum Sanctum, ut productum sed ut producendum,
nec ut existentem, sed ut futurum." (Que o Eterno Padre, quando
gera o Filho, não conhece o Espírito Santo como Pessoa já
produzida, senão que se há-de produzir, nem como já existente,
senão futura). De sorte que a personalidade do Espírito Santo,
no acto do entendimento do Padre, é ainda futura, e não
existente. E essa existência quando a há-de ter? Quando ao ato
do entendimento se seguir a vontade, e pela mesma vontade o ato
do amor.
Comparai-me agora a dignidade de Pedro com a personalidade do
Espírito Santo. O ato do entendimento em Pedro foi quando disse:
Tu es Christus Filius Dei vivi: e assim com a personalidade do
Espírito Santo no acto do entendimento só era futura e não
existente, assim também a dignidade de Pedro, não existente,
senão futura: "Super hanc petram ædificabo ecclesiam meam, et
tibi dabo claves regni cælorum." Não diz "ædifico", senão "ædificabo",
nem diz "do", senão "dabo", tudo de futuro. E a existência deste
futuro quando há-de ser? Como a do Espírito Santo: depois do
acto da vontade e do amor recíproco: "Diligis me plus his? Tu
scis Domine quia amo te." Depois deste acto de amor recíproco, e
não uma, senão três vezes repetido, então lhe deu e conferiu o
Senhor a investidura da dignidade que lhe tinha prometido:
"Pasce oves meas, pasce agnos meos."
Provido assim o governo da Igreja, se partiu Cristo para o Céu,
donde prometeu mais que viria «o Espírito Santo mandado pelo
Padre em seu nome, não do Padre, senão do mesmo Cristo: "Paraclitus
autem quem mittet Pater in nomine meo." E que quer dizer "in
nomine meo?" - Quer dizer - em meu lugar e com as minhas vezes.
Eutímio: "In nomine meo, id est, ut hic me
referat, et meis fungatur vicibus."
Eusébio Emisseno: "Mea vice et meo nomine magnus consolator et
doctor sapientissimus dabitur vobis." Aqui tornou Cristo a
igualar a Pedro com o Espírito Santo, como o tinha igualado
consigo, dando as suas vezes e fazendo seu vigário a terceira
Pessoa da Trindade e juntamente a Pedro. Pedro, vigário de
Cristo deixado na Terra: o Espírito Santo, vigário de Cristo
mandado do Céu; Pedro, vigário visível: o Espírito Santo,
vigário invisível; o Espírito Santo, verdadeiro vigário e
verdadeiro Deus: Pedro verdadeiro vigário e verdadeiramente como
Deus: Admire-se a igualdade deste poder e a majestade soberana
de Pedro no primeiro seu decreto, e pasmem os que ouvirem o
proémio do primeiro concílio: "Visum est Spiritui Sancto et
nobis." Pedro foi o que congregou o concílio; Pedro o que falou
em primeiro lugar, calando todos, como diz S. Lucas; Pedro a
quem depois de falar seguiram os demais Apóstolos; e Pedro que
em nome do Espírito Santo assinou e mandou publicar o decreto.
Quando S. João, no princípio do seu Apocalypse, escreveu às
igrejas da Ásia, as epístolas eram de: "Joannes septem ecclesiis,
quæ sunt in Asia"; mas quem no fim as assinava cada um por si,
era o Espírito Santo: "Qui habet aurem, audiat quid spiritus
dicat ecclesiis." Porém, quando Pedro decreta, não só assina os
decretos o Espírito Santo, senão também Pedro: "Visum est
Spiritui Sancto, et nobis."
S. Pedro - Guido Reni
allpaintings.org
VIII
Já parece que deve estar satisfeita a nossa metáfora e a
divindade de S. Pedro com ser semelhante a Deus Padre,
semelhante a Deus Filho, semelhante a Deus Espírito Santo, e por
consequência a toda a Santíssima Trindade, que foi a soberania
universal da assunção de S. Pedro, como acima disse S. Leão Papa
e eu deixei passar sem ponderação, porque este era o seu próprio
lugar, e a chave mais que dourada com que se havia de fechar
este discurso: "In consortium individuæ Trinitatis assumptum."
Agora pergunto se tem mais para onde subir a nossa metáfora, e a
semelhança da divindade de S. Pedro com Deus? Respondo que a
semelhança, não, mas a divindade, sim. Porque subiu a divindade
de Pedro (não digo a tal alteza, porque a não pode haver mais
alta que Deus) mas a tal singularidade de divina, que em Deus a
não há, nem pode haver semelhante. Em Deus, e na Santíssima
Trindade não pode haver outra pessoa., e S. Pedro foi a quarta
pessoa da Santíssima Trindade. Vede como, e não tenhais medo de
alguma heresia.
Quando S. Pedro acabou de fazer a sua confissão, disse-lhe o
mesmo Cristo assim exaltado: "Beatus es, Simon Barjona": (Bem-aventurado
és, Simão Barjona). Era este o apelido humilde de Pedro, e que
cheirava ainda ao breu da barca; e têm para si alguns
expositores, quis o Senhor lembrar-lhe nesta ocasião a baixeza
do seu nascimento, para que a dignidade, a que logo o havia de
levantar, o não desvanecesse. Mas eu não me posso persuadir que,
quando S. Pedro acabava de honrar a Cristo por seu Pai, com o
nome de Filho de Deus vivo, o Senhor lhe respondesse com o que
tanto lhe tocava no vivo, como ouvir em público a indignidade do
seu. E o que em tal caso não faria nenhum homem de bem, não
havemos de crer que o fizesse o bem dos homens. Qual foi logo a
razão daquele nome ou sobrenome, e em resposta do que Pedro
tinha dito? Barjona na língua hebreia ou siríaca, que naquele
tempo era a vulgar, significa "filius columbæ", filho da pomba;
e dizem comumente os Santos Padres que aludiu o Senhor à pomba,
em cuja figura desceu o Espírito Santo no batismo sobre o mesmo
Cristo. Como se dissera o divino Mestre com resposta muito digna
da sua grandeza: - «Tu, Pedro, dizes que eu sou Filho do Eterno
Padre? Pois eu te digo que tu és filho do Espírito Santo». Assim
o diz S. Jerônimo, Santo Hilário, Eusébio Emisseno, a Glossa, e
com palavras mais expressas que todos o venerável Beda: "Justa
laude confessorem suum Dominus remunerat, cum eum Sancti
Spiritus filium esse attestatur, a quo ipse filius Dei
asseveratur. "
Suposto, pois, que S. Pedro é filho do Espírito Santo, já parece
que não está muito longe de ser a quarta Pessoa da Santíssima
Trindade. Porque, se o Verbo, por ser Filho do Padre, é a
segunda pessoa, Pedro, por ser filho do Espírito Santo, porque
não será a quarta? Bem se segue a consequência, e assim havia de
ser, se fosse possível. Mas porque era impossível na realidade,
foi filho do Espírito Santo e quarta pessoa da Trindade por
semelhança e não na realidade, que esse é o meu assunto e a
propriedade da minha metáfora. As Pessoas divinas só se podem
multiplicar ou por entendimento ou por vontade: por
entendimento, já estava infinitamente multiplicada a segunda
Pessoa no Filho; por vontade, já estava infinitamente
multiplicada a terceira Pessoa no Espírito Santo; donde se segue
que só as Pessoas do Padre e do Filho são fecundas e a do
Espírito Santo não. Mas não se segue de aqui que seja menor a
perfeição do Espírito Santo que a do Padre e do Filho, porque
tanta perfeição é não poder o impossível, como poder o possível.
Para que entendam os todo-poderosos do Mundo, que se devem
contentar com poder o que podem, e não querer mais. E porque a
Pessoa do Espírito Santo não era fecunda "ab æterno", por isso
se lhe supriu a fecundidade em tempo na pessoa de Pedro, não
quanto à realidade, senão quanto à semelhança: "Barjona, filius
columbæ; Barjona, filius Spiritus Sancti."
Vamos ao princípio do Mundo, e acharemos esta fecundidade do
Espírito Santo admiravelmente retratada. Onde a Vulgata diz: "Spiritus
Domini ferebatur super aquasfecundabat", lê o original hebreu: "Spiritus
Domini fæcundabat aquas"; que «o Espírito Santo fecundava as
águas». E por que razão comunicava o Espírito Santo a sua
fecundidade mais ao elemento da água que a nenhum dos outros?
Não desceu do Céu no dia de Pentecostes «em forma de ar»?:
Tanquam advenientis Spiritus vehementis? Não apareceu sobre os
Apóstolos «em forma de fogo»?: "Dispertitæ linguæ tanquam ignis?"
E depois de descer e aparecer; não «encheu a terra toda»?: "Spiritus
Domini replevit orbem terrarum?" Por que razão pois as
influências da sua fecundidade as comunica só ao elemento da
água, que naquela mesma ocasião se chamou mar?: "Congregationes
aquarum appellavit maria?" Porque do mar lhe havia de nascer ao
Espírito Santo aquele filho, que já de então estava prevendo que
com o nome de Simão Barjona andava navegando e remando no mar de
Tiberíades: Mal cuidei eu que achasse autor ao pensamento; mas
assim o tinha escrito há muitos séculos entre os Santos Padres
um de tanta autoridade, como sabedoria: "Congregentur aquæ", diz
Anastácio Sinaita, "Petrus enim jam crucem, tanquam remum
intingit in mari mundano". (Fecundou o Espírito Santo as águas
do mar, porque no mar havia Pedro de meter primeiro o remo e
como pescador, e depois, trocado o remo com o lenho da cruz,
havia de navegar e sujeitar com ela, como sucessor de Cristo; o
Oceano do Mundo.) Assim imitou o Espírito Santo a fecundidade da
primeira e segunda Pessoa, assim foi filho da mesma fecundidade
S. Pedro, Filius Spiritus Sancti, e assim, do modo que era
possível, acresceu à Santíssima Trindade uma quarta pessoa por
semelhança, e não na realidade.
E porque não faltasse a esta quarta pessoa a semelhança
divina das outras três, assim como o Padre e o Filho e o
Espírito Santo entendem com um só entendimento e querem com uma
só vontade, e obram com um só poder, também à pessoa de Pedro,
como se fosse a quarta, lhe não faltou esta divina propriedade,
por isso chamada indivídua. Assim concedem S. Leão e S. Máximo à
dignidade ou divindade de Pedro a prerrogativa, que eles chamam
consortium Trinitatis; e assim a declara, comentando os mesmos
santos, o doutíssimo Daza, da nossa Companhia, sujeito em quem a
antecipada morte roubou à Teologia e à Escritura um dos mais
sólidos e excelentes intérpretes. As suas palavras são estas: "Nempe
suas (Pedro) impertiendo vices, et quæ Dei sunt communicando: ut
eadem sit ipsi cum Trinitate mens ad ea quæ definit, eadem
voluntas ad illa, quæ jubet, eadem potentia ad ea quæ facit."
Forte e elegantemente. De maneira que, «enquanto Pedro tem as
vezes de Cristo, no Padre, no Filho, no Espírito Santo, em Pedro
há um só e o mesmo entendimento, uma só e a mesma vontade, uma
só e a mesma potência. Um só e o mesmo entendimento, porque o
que entende Deus, entende Pedro nas matérias que define; uma só
e a mesma vontade, porque o que quer Deus, quer Pedro nos
cânones que estabelece; uma só e a mesma potência, porque o que
pode Deus pode Pedro nas maravilhas que obra». Tudo isto quer
dizer em Pedro e só em Pedro aquele "vos autem: Vos non homines,
sed Dii."
Sacrário com as cadeias de S. Pedro
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IX
Tão alta (muito Reverendos Senhores) tão alta, tão sublime e tão
verdadeiramente divina é a suprema dignidade, debaixo de cujo
nome e proteção se uniu, se conserva e floresce esta tão
venerável como religiosa Congregação dos Clérigos de S. Pedro! E
quando considero a todos os congregados dela segregados, como
diz S. Paulo, e distintos dos outros homens pela impressão do
carácter sacerdotal, não sei o que mais devo venerar neles, se o
que Cristo disse a S. Pedro, se o que S. Pedro disse a Cristo.
E senão, perguntemos de cada um dos sacerdotes da Lei da Graça o
que o mesmo Senhor perguntou de si: "Quem dicunt homines?" (Quem
dizem os homens?) Porventura dizem Alli Joannem Baptistam? Pouco
sabem, se isso dizem. O grande serafim da Terra, S. Francisco,
dizia, como refere S. Boaventura, que, se encontrasse em uma rua
a S. João Baptista, e a um pobre sacerdote o menos autorizado e
respeitado nos olhos do Mundo, primeiro havia de fazer
reverência ao sacerdote que ao mesmo Baptista. S. Martinho
(aquele que, sendo ainda catecúmeno e soldado, com a metade da
capa vestiu a Cristo) estando à mesa com o Imperador Máximo,
quando o copeiro-mor lhe levou a taça, disse o Imperador que a
desse a Martinho, esperando recebê-la da sua mão; e que fez o
animoso e justo prelado, que bem conhecia a sua dignidade? Sem
cumprimento algum ao imperador, bebeu ele, e logo deu a taça a
um presbítero que o acompanhava, para que bebesse, antepondo a
coroa aberta de um simples sacerdote à cerrada do mesmo
Imperador. Isto é o que respondem sem injúria do Céu nem da
Terra, aqueles dois oráculos da Lei da Graça, Francisco e
Martinho.
Passemos aos da Lei da Natureza e da Lei Escrita: "Quem dicunt
homines?" Os da Lei da Natureza o mais que podem dizer, é ser o
sacerdote cristão como Melquisedec: "Sacerdos Dei Altissimi", o
qual «oferecia a Deus pão e vinho»: "Panem et vinum offerens."
Mas isto é comparar a sombra com a luz e a semelhança com a
verdade. O pão que oferecia Melquisedec, era assim como o que se
colhe na eira, e o vinho assim como o que se espreme no lagar;
porém o pão e vinho que os nossos sacerdotes oferecem, posto que
debaixo dos mesmos acidentes, é tão transubstanciado no corpo do
Cristo e vinho transubstanciado no seu próprio sangue: frutos
que não conheceu a natureza, e palavra que foi necessário à
Teologia inventá-la de novo. Os da Lei Escrita dirão que o nosso
sacerdócio é como o de Arão, e cuidarão que o louvam muito; mas
eu quando menos quisera que olhassem para a pureza e limpeza dos
nossos altares, dos quais já disse o mesmo Deus a um dos
profetas daquele tempo, dando-lhe em rosto com a perfeição e
asseio dos nossos sacrifícios: In omni loco offertur nomini meo
ablatio munda. Os sacerdotes da Lei Velha com as mãos tintas em
sangue bruto, quando as vítimas eram as mais mimosas,
sacrificavam bezerros e cordeiros: e os nossos com as mãos
puras, como diz S. Paulo, sacrificam a Deus o diviníssimo
holocausto de seu próprio filho, tão infinito, tão imenso, tão
omnipotente e tão Deus como ele.
Isto é o que dicunt homines. E vos autem seja dos anjos e
respondam eles. Que dirão os anjos? Dirão que os mais altos
querubins e serafins do Empíreo, se foram capazes de inveja,
nenhuma dignidade invejariam senão a do homem sacerdote. No
sacrossanto sacrifício da missa, o sacerdote é o sacrificante e
os anjos os ministros que o assistem, e talvez o servem, como os
que nós chamamos ajudantes, e quando estes se divertem, suprem
os seus descuidos. Assim sucedeu a S. Gregório Papa, celebrando
na igreja de Santa Maria Maior em dia de Páscoa. Quando disse: "Pax
Domini sit semper vobiscum", descuidou-se o ajudante de
responder, e responderam os anjos que assistiam: "Et cum Spiritu
tuo". De aqui teve origem um uso ou rito notável da igreja
romana, e é que, quando o sumo pontífice na missa de dia de
Páscoa diz as mesmas palavras: "Pax Domini sit semper vobiscum",
o coro se cala e não responde, conservando-se neste silêncio a
memória do que supriram as vozes dos anjos em dia semelhante.
Mas nesta mesma vigilância tão reverente, tão devota e tão
obsequiosa, com que os espíritos angélicos assistem ao sacerdote
celebrante; haverá algum da suprema jerarquia que se atreva a
tocar a hóstia que ele consagra nas suas mãos, e tantas vezes
torna a tomar nelas no mesmo sacrifício? Por nenhum modo. Não se
estendem a tanto os privilégios dos anjos. Quando Deus mandou de
comer a Daniel no lago dos leões, o Profeta levava o pão e o
Anjo levava o Profeta pelos cabelos. Pois não seria mais fácil
que o pão o levasse o anjo? - Mais fácil, sim, mas não lhe era
lícito. O pão em profício era figura do que se havia de
consagrar nos nossos altares. O Profeta, como diz S. Jerônimo,
era da tribo sacerdotal de Levi: e tocar aquele sagrado pão só é
lícito aos sacerdotes, e de nenhum modo aos anjos. Mas vejo que
os mesmos sacerdotes me estão arguindo com um texto em
contrário, e o mais sagrado cânon de todos os da Igreja. Depois
da consagração do corpo e sangue santíssimo, todos fazemos a
Deus esta oração: "Jube hæc perferri per manus sancti angeli tui
in sublime altare tuun". Logo, se o nosso sacrifício se há-de
levar ao Céu "per manus sancti angeli tui", bem podem as mãos
dos anjos fazer o que fazem as nossas. Absit (responde Teófilo,
o mais diligente escrutador das realidades deste mistério). "Absit,
ut precatio illa intelligatur de victimæ nostræ reali
apportatione, sed intelligenda est metaphorice, ad cum modum quo
angelus ait se obtulisse orationem Tobiæ Deo". De sorte que
aquela oração «não se há-de nem pode entender de que os anjos
realmente levem o nosso sacrifício ao Céu, senão
metaforicamente, assim como o anjo de Tobias diz que ofereceu a
Deus as suas orações». E a razão é manifesta; porque se o anjo
levasse a nossa hóstia ao Céu, ficaria imperfeito o sacrifício,
que não só consiste na consagração e oblação, senão também na
consunção: e então perfeitamente se consuma, quando a vítima
consagrada morre, ou deixa de existir, que é quando pela
indisposição das espécies deixa o corpo de Cristo de estar
debaixo delas. Assim que isto é o que diz, e só pode dizer a
confissão dos anjos.
S. Pedro chorando frente à Virgem -
Guercino
X
Ouvidos pois os homens e os anjos, quem resta para ouvir, senão
unicamente o mesmo Deus? Ouçamos, pois, muito Reverendos Padres,
a Deus, e veremos como diz desta venerável congregação, o que S.
Jerónimo disse dos Apóstolos, que já então eram a Congregação de
S. Pedro: "Vos autem nom homines, sed Dii". Deuses lhes chamou
S. Jerónimo, e por mais autêntica boca que é a de David, lhe dá
Deus o mesmo nome. E o mesmo Deus, cujo dizer é fazer, afirma
que ele é o que o disse: "Ego dixi, Dii estis, et filii excelsi
omnes". Deuses chama , e filhos de Deus aos sacerdotes, e não em
sentido alegórico, senão literal, porque literalmente fala o
profeta dos ministros da Igreja, segundo a frase daquele tempo:
"Deus stetit in synagoga Deorum": e Cristo, melhor intérprete,
literalmente o alega no capítulo X de S. João, que todo é dos
pastores e suas ovelhas, que são os eclesiásticos com o poder e
poderes do sacerdócio. Suposto pois que Deus lhes chama Deuses e
filhos de Deus, "Dii estis, et filii excelsi", com razão
perguntará alguma curiosidade douta, em qual das duas partes
desta proposição disse Deus mais: se quando chama aos sacerdotes
Deuses, ou quando lhes chama filhos de Deus? Eu digo que quando
lhes chama filhos de Deus; porque na primeira parte alude ao
poder da jurisdição e na segunda ao poder da ordem. Quando
Cristo, Senhor nosso, disse ao paralítico: "Remittuntur tibi
peccata tua", murmuraram todos da proposição, dizendo: "Quis
potest dimittere peccata, nisi solus Deus?" Negavam mal este
poder a Cristo, mas supunham bem em dizer que só Deus pode
perdoar pecados. E este é o poder dos sacerdotes enquanto
Deuses: "Quorum remiseritis peccata, remittuntur eis". E digo
enquanto Deuses, porque o poder de perdoar pecados não só é
próprio e unicamente de Deus, senão o maior e o máximo em que
ele manifesta e ostenta toda a grandeza do seu poder: Deus qui
omnipotentiam tuam parcendo maxime, et miserando manifestas. Mas
com este poder de Deus merecer o nome e significação de máximo,
o de Filho de Deus ainda significa mais. E porquê? - porque
mais é no Filho de Deus o poder de consagrar seu corpo, que em
Deus o de perdoar pecados. Ouvi a razão.
O perdoar pecados consiste formalmente em Deus ceder do jus e
direito que sua justiça tem para os castigar, que é ato superior
da sua misericórdia, parcendo maxime, et miserando: e como neste
ato vence a misericórdia divina a justiça divina, também Deus se
vence a si mesmo, que é «a maior vitória, a maior façanha do seu
poder»: "Omnipotentiam tuam maxime manifestas". Porém a do Filho
de Deus em se consagrar ainda é maior, porque mais é poder-se
fazer a si mesmo, que poder-se vencer; e isto é o que pode, e o
que fez o Filho de Deus, sumo e eterno sacerdote, quando se
consagrou no sacramento, porque realmente se tornou a fazer e
reproduzir a si mesmo. Mas não parou aqui sua omnipotência e
liberalidade, senão que este mesmo poder de o reproduzirem e
fazerem a ele, comunicou aos sacerdotes, quando lhes disse: "Hoc
facite in meam commemorationem": (Isto mesmo que eu fiz, fazei
vós). Expressamente, S. Germano, venerado e alegado neste mesmo
ponto pelos Padres gregos: "Ipse dixit: hoc est corpus meum, hic
est sanguis meus; ipse et apostolis jussit, et per illos
universæ ecclesiæ hoc facere: hoc enim (ait) facite in meam
commemorationem.
Non sane id facere jussisset, nisi vim, hoc est,
potestatem inducturus fuisset, ut id facere liceret."
Ó poder quase incompreensível, e que só se pode
admirar com o nome de estupendíssimo! Nos seis dias da criação,
criou Deus com seis palavras todo este Mundo, e o sacerdote com
quatro palavras faz mais todos os dias, que se criara mil
mundos.
Declaremos bem este poder mal entendido, para que todos o
entendam e pasmem. O lume da Igreja, St. Agostinho, exclama
assim: "O veneranda sacerdotum dignitas! in quorum manibus Dei
Filius velut in utero virginis incarnatur!": (Ó dignidade
veneranda dos sacerdotes, em cujas mãos o Filho de Deus, como no
ventre sacratíssimo da Virgem Maria, torna outra vez a
encarnar!) Em que consistiu a encarnação do Verbo Eterno?
Consistiu na produção do corpo e alma de Cristo e na produção da
união hipostática, com que a sagrada humanidade se uniu à
subsistência do Verbo. E tudo isto faz o sacerdote com as
palavras da consagração, produzindo outra vez, ou reproduzindo
todo o mesmo Cristo. Na mesma conformidade falam S. João
Crisóstomo, S. Gregório Papa, S. Pedro Damião, e o antiquíssimo
Teodoro Ancirano, famoso no Concílio Efesino. Mas porque cuidam
alguns que semelhantes questões são mais debatidas e examinadas
pelos teólogos modernos, quero também alegar as palavras de dois
bem conhecidos na nossa idade. O P. Teófilo Rainaudo, tão
perseguidor de opiniões, ou devoções pouco Sólidas, como se vê
nos seus eruditíssimos livros contra Anomala pietatis, diz o que
se segue: "Sacerdos Christum sub accidentibus ponit, esse
sacramentale illi conferendo per veram Christi productionem
substantialem". E mais abaixo: "Christus non producitur absque
unione ad verbum, quia non est purus homo, sed suppositum ejus
est Persona Filii: itaque in sacrificio Deus in manibus
sacerdotum incarnatur". E noutro lugar: "Quim etiam sacerdotis
potestas extenditur ad efficiendam unionem hypostaticam, et
transubstantionem panis, et vini". Não romanceio as palavras,
porque são expressamente tudo o que tenho dito. E o P. Eusébio
Neriemberg, varão de tanto espírito, erudição e letras, cujos
livros todos trazem nas mãos, fazendo a mesma comparação, que eu
já toquei, entre a criação do Mundo e consagração do corpo de
Cristo, discorre e infere desta maneira: "Mundum, et ea quæ in
mundo sunt, produxit potentia Patris: sacerdotis vero potentia
producit Filium Dei in sacramentum, et sacrificium, quo
admirabilior potestas est sacerdotis transubstantiatione Filium
Dei, quam creatione res perituras Dei Patris producentis". Quer
dizer: «A potência do Eterno Padre produziu o Mundo, e tudo o
que há no mundo; a potência do sacerdote produz o Filho de Deus
em sacramento e sacrifício; donde se segue que o poder do
sacerdote, na transubstanciação do Filho de Deus, é muito mais
admirável que a potência do Eterno Padre na criação de todas as
cousas do Mundo, que hão-de acabar com ele.»
Libertação de S. Pedro
Sisto Badalocchio
XI
Esta é, muito Reverendos Padres, a dignidade ou divindade do
"vos autem", participada de seu divino protetor S. Pedro a esta
sua Congregação, tão digna de ser sua. E que se segue daqui, ou
qual é a obrigação dos congregados? Se eu tivera as cãs que me
faltam, alguma palavra lhes pudera dizer tão importante à
veneração alheia, como à decência própria. Mas porque eu, posto
que tão indignamente, tenho o mesmo carácter do sacerdócio, a
mim e a todos os sacerdotes só apontarei uma advertência da
Escritura Sagrada, que todos devemos ouvir temendo e tremendo. A
advertência é que correspondamos de tal maneira às obrigações
desta altíssima dignidade, que se não arrependa Deus de no-la
ter dado.
Falando David do sacerdócio de Cristo, diz: "Juravit Dominus, et
non pænitebit eum, tu es sacerdos in æternum": (Jurou Deus, e
não se arrependerá) de dar o eterno sacerdócio a seu Filho.
Reparemos muito naquele et non pænitebit eum. Pois de dar o
sacerdócio a seu Filho por natureza impecável, e tão santo e tão
Deus como ele, se podia Deus arrepender?! - Sim. Porque esse
sacerdócio não só o havia Cristo de conservar em si, mas também
o havia de comunicar, como comunicou aos homens: e aqui estava o
perigo. Por isso o jurou, para que não se arrependesse: "Juravit
Dominus, et nom pænitebit eum". Ó que desgraça tão horrenda e
tremenda, se Deus se arrependesse! E maior desgraça ainda, se eu
e algum outro tão indigno como eu desse motivos bastantes a este
arrependimento! Neste caso (que Deus não permita) àquele
carácter que é tão imortal como a mesma alma, se iria perpetuar
com ela em outra eternidade, que não é a do Céu e da Glória. "Quam
mihi", etc.
Fontes: "Domingo Ilustrado (Junho de 1959) e
outros

S. Pedro - 1530
Vasco Fernandes
artclon.com
Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande -
Portugal
Revisão de Carmo Vasconcelos - Lisboa - Portugal |
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