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Dia Internacional do
Vidreiro
18 de Maio
Trabalho e
pesquisa de Carlos Leite
Ribeiro
Nota: O Dia do Vidreiro é
comemorado na Marinha Grande
(Leiria – Portugal) no dia
18 de Janeiro.
Marinha Grande-
Museu do Vidro
O vidro é um produto
inorgânico de fusão(
passagem de uma substância
do estado sólido para o
líquido através do calor)
que tenha sido, depois,
resfriado em condições
rígidas, sem que ocorra
mudança novamente de seu
estado.
O vidro é feito de areia,
barrilha, calcário, alumina
e caco de vidro
São adicionados aditivos
específicos para a
coloração.
- Âmbar (carvão, sulfato,
hematita)
- Verde (cromo)
- Azul (cobalto, cobre)
- Rubi (ferro, cobre)
As matérias-primas (areia,
barrilha, feldspato etc.)
são misturadas e levadas ao
forno a uma temperatura de
1500º C, transformando-se em
uma massa de vidro.

A massa de vidro é então
transportada pelo canal onde
sua temperatura é reduzida à
900º C até máquina que
produz a embalagem.

Conforme o tamanho e formato
da embalagem, será
necessário fazer uma gota de
massa de vidro cujas
características são
diâmetro, comprimento e
formato.
A formação da embalagem é
dividida em 2 fases; a
primeira é a do molde, onde
formamos a boca da embalagem
e sua pré-forma. A segunda
fase é a forma, onde através
de um sopro será formado o
corpo da embalagem, com as
respectivas gravações.
O vidro é feito de uma
mistura de matérias-primas
naturais. Conta-se que ele
foi descoberto por acaso,
quando navegadores fizeram
fogueiras na praia. A areia
e o calcário (conchas) se
combinaram através da ação
da alta temperatura.
Hoje o vidro está muito
presente em nossa
civilização e pode ser
moldado de qualquer maneira:
nos pára-brisas e janelas
dos automóveis, lâmpadas,
garrafas, garrafões,
frascos, recipientes, copos,
janelas, lentes, tela de
televisores e monitores,
fibra ótica, etc...
As matérias-primas do vidro
sempre foram as mesmas,
desde milhares de anos
atrás. Somente a tecnologia
é que mudou, acelerando o
processo, e possibilitou
maior diversidade para seu
uso.
O vidro é 100% e
infinitamente reciclável.
Isto quer dizer que todos os
recipientes de vidro, mesmo
os quebrados, podem ser
transformados em novos
produtos.
Existem muitos tipos de
vidros que apesar de
partirem da mesma base,
possuem composições
diferentes, de acordo com a
finalidade a que se
destinam. Veja a tabela a
seguir.
- Vidro para embalagens:
garrafas, potes, frascos e
outros vasilhames fabricados
em vidro comum nas cores
branca, âmbar e verde;
- Vidro plano: vidros planos
lisos, vidros cristais,
vidros impressos,
temperados, laminados,
aramados e coloridos
fabricados em vidro comum;
- Vidros domésticos:
tigelas, travessas, copos,
pratos, panelas e produtos
domésticos fabricados em
diversos tipos de vidro;
- Fibras de vidro: mantas,
tecidos, fios e outros
produtos para aplicações de
reforço ou de isolamento;
- Vidros técnicos: lâmpadas
incandescentes ou
fluorescentes, tubos de TV,
vidros para laboratório,
para ampolas, para garrafas
térmicas, vidros oftálmicos
e isoladores elétricos.
Os produtos de vidro devem
ser separados por tipo e
cores. Por exemplo, as
embalagens de geléia e os
copos comuns não devem ser
misturados aos vidros de
janela. As cores mais comuns
são o âmbar (garrafas de
cerveja e produtos
químicos), o translúcido ou
"branco" (compotas), verde
(refrigerantes) e azul
(vinho).
O vidro usado retorna às
vidrarias, onde é lavado,
triturado e misturado com
mais areia, calcário, sódio
e outros minerais. Tudo é
derretido em fornos com
temperatura de até 1500 ºC.
Em média, 1/3 dos vidros
usados são empregados como
matéria-prima para
fabricação de novas
embalagens de vidro.
Quando enviamos os vidros
para reciclagem, estes devem
estar limpos, ou seja, sem
outros materiais como
metais, plásticos, palhas e
etc., pois eles provocam
prejuízos ao processo
industrial.
Os vidros técnicos são
compostos por
matérias-primas diferentes e
não são facilmente
reciclados, daí tome cuidado
para não misturar com os
outros tipos de vidro.


A descoberta
Tem-se como a data provável
da descoberta do vidro, algo
em torno de 4000 A.C.. Os
mais antigos objetos
fabricados em vidro que se
conhecem foram encontrados
em túmulos egípcios, com
4000 anos de idade.
Em estado natural, o vidro
existe na natureza desde os
tempos pré-históricos,
muitos milênios antes de ser
elaborado pelo primeiro
artesão.
Essas rochas vítreas se
formaram a partir de magmas,
rochas vulcânicas que
tiveram um resfriamento tal
que não chegaram a
cristalizar. A rocha vítrea
mais empregada pelo homem
pré-histórico foi a
obsidiana, rocha encontrada
em antigas regiões
vulcânicas dos atuais
México, Canárias, Hungria,
Islândia, etc.
Esse tipo de vidro era
empregado desde o período
neolítico, aproximadamente
8000 A.C., para a fabricação
de diferentes utensílios
domésticos e,
principalmente, armas
rudimentares de defesa, além
de serem utilizados como
amuleto e elemento
decorativo.
Alguns autores supõem que o
vidro foi descoberto pelos
primeiros fundidores de
metais ou até pela
vitrificação acidental de
uma peça de barro cozido.
Como toda boa história
pressupõe uma lenda, com o
vidro não poderia ser
diferente. O historiador
Caio Plínio II (27-79 d.C),
em sua obra "Historia
Natural", atribuiu o
descobrimento do vidro a
mercadores fenícios que
desembarcaram nas costas da
Síria e, necessitando de
fogo, improvisaram fogões,
usando blocos de salitre
(trona) sobre a areia.
Passado algum tempo, notaram
que do fogo escorria uma
substância líquida e
brilhante, que se
solidificava imediatamente:
o vidro. Os inteligentes
Fenícios teriam, então,
dedicado-se à reprodução
daquele fenómeno, chegando à
obtenção de materiais
utilizáveis.
O vidro é um material tão
comum em nossas vidas que,
muitas vezes, nem percebemos
o quanto ele está presente.
Porém, basta olharmos à
nossa volta com um pouco de
atenção e vamos encontrá-lo
nas janelas, nas lâmpadas,
na mesa de refeições, na
forma de garrafas, copos,
pratos, travessas.
Além disso, muitos estarão
vendo tudo isso através de
óculos com lentes de vidro.
E o que faz este material
ter tantas aplicações e
continuar sendo usado por
milhares de anos?
Segundo definição aceita
internacionalmente, "o vidro
é um produto inorgânico, de
fusão, que foi resfriado até
atingir a rigidez, sem
formas cristais".
O elemento básico do vidro é
a sílica, fornecida pela
areia, óxidos fundentes,
estabilizantes, e
substâncias corantes.
Uma das razões de o vidro
ser tão popular e duradouro,
talvez esteja na sua
análise, pois os vidros mais
comuns, aqueles usados para
fazer os vidros planos e
embalagens e que,
tecnicamente, são
denominados "sodo cálcios",
têm uma composição química
muito parecida com a da
crosta terrestre, que é a
camada externa de nosso
planeta, onde vivemos.
à Meia noite de
1908...

MARINHA GRANDE
- Memória viva da
resistência e luta de um
povo
- de António Marques
Marinha Grande - Avenida
Victor Galo
Marinha Grande, cidade do
Litoral da Região Centro de
Portugal, ao norte da
Estremadura, a meia
distância entre Lisboa e
Porto, a 10 quilómetros da
linha do mar, rainha do
vidro e do cristal, capital
da indústria dos moldes,
menina bonita nascida no
Pinhal do Rei, com uma
atividade económica notável,
sobretudo na indústria e no
turismo. Marinha, referência
nacional na luta do povo
contra a opressão, a fome e
a miséria, símbolos da
ditadura. Marinha Grande,
chão simbólico onde os
operários e a sua dignidade
elevaram uma data de
calendário a monumento
nacional – o 18 de Janeiro
de 1934.
O concelho tem quase 20 mil
hectares, dois terços
cobertos por um manto
florestal verde a perder de
vista, povoado sobretudo
pelo pinheiro de porte
altivo, mandado plantar pelo
Rei D. Dinis, e de onde
serradores hercúleos
cortaram as madeiras que
enformaram os cavernames das
nossas naus e caravelas que
mar fora deram novos mundos
ao mundo, espalhando a nossa
gesta por outros povos e
outras culturas.
O pinhal foi por certo o seu
primeiro motor, quando o Rei
Lavrador ali colocou alguns
colonos que desenvolveram o
lugar da Marinha, assim
chamado porque desde tempos
remotos se explorava o sal
nas terras baixas que o rio
Lis, então navegável até
Leiria, e os seus riachos
afluentes, inundavam com as
marés permitindo o seu
aproveitamento.
Pelo menos desde o século XI
que se regista a história do
lugar, cuja população passou
de 80 almas em 1527, para
1100 habitantes em 1748,
data em que foi criada a
primeira fábrica de vidro.
Dez anos depois, quando
Guilherme Stephens restaura
a indústria vidreira, a
Marinha tinha crescido
enormemente e possuía então
2120 moradores.
Os padres Cruzios (do
Mosteiro de Stª Cruz de
Coimbra) foram os primeiros
administradores destas
terras conquistadas aos
mouros, em 1142, por D.
Afonso Henriques. Em 1309,
D. Dinis tomou conta dos
terrenos, enxugou os campos
do Lis e das terras arenosas
e barrentas e fez nascer o
mais belo pinhal de
Portugal.
A Freguesia da Marinha foi
criada em 1600 e o concelho
em 1836 após a revolução da
Maria da Fonte. Contudo, sem
que a comissão instaladora
fosse empossada, um decreto
de 17 de Abril de 1838
elimina o concelho da
Marinha e anexa as suas
freguesias a Leiria.
O Povo Marinhense não aceita
a decisão e em 1917, após 81
anos de luta e empenhamento,
vê finalmente publicada, em
20 de Janeiro, a lei 644 que
restaurava o Concelho da
Marinha Grande.
Foi por certo neste caldo de
cultura que se forjou a
valentia do Povo Marinhense,
e viria a prová-lo dezassete
anos depois, em 1934.
Em 1748 o irlandês John
Beare transfere a sua
fábrica de vidro de Coina
para a Marinha, para a
situar junto dos pinhais
nacionais e assim se
abastecer de material
lenhoso que alimentasse em
energia os grandes fornos.
Pouco durou esta unidade
fabril.
No reinado de D. José I o
todo-poderoso ministro
Sebastião José de Carvalho e
Melo concede ao inglês
Guilherme Stephens 32 mil
reis sem juros e a
utilização gratuita da lenha
do pinhal. Assim se funda a
Real Fabrica de Vidros da
Marinha Grande.
Guilherme Stephens é a
figura central do
desenvolvimento moderno da
região. Preocupa-se com a
formação técnica e cívica
dos operários, é um
verdadeiro mestre e pedagogo
cimentando o conhecimento e
a solidariedade,
enriquecendo culturalmente o
povo, dotando-o de
infraestruturas, escolas,
teatro e, sobretudo,
dando-lhe a consciência de
classe que foi sempre a
matriz do operário vidreiro.
Stephens morre em 1802 e o
seu irmão sucede-lhe até
1826, altura em que a
fábrica é doada ao estado
mantendo-se em laboração até
1992. A indústria mãe da
Marinha Grande, está hoje
perpetuada no Museu do
Vidro, instalado desde 1998
no Palácio Stephens,
residência do prestigiado
industrial, e aí se estuda,
conserva, divulga e mostra o
património histórico e
cultural vidreiro.
Hoje, para além do vidro e
dos plásticos, sobressai no
concelho a moderna indústria
dos moldes e das suas
unidades saem verdadeiras
maravilhas para o mundo
inteiro, alimentando todo o
género de fábricas com a sua
capacidade tecnológica.
A população laboriosa e
lutadora do concelho da
Marinha Grande, que vive
sobretudo do sector
secundário mas também dos
serviços e do comércio, não
esquece a sua história de
povo trabalhador,
profundamente marcada por
heróicas lutas sem quartel
contra a ditadura de
Salazar, pela conquista dos
seus direitos.
Em 1929 o País e a Europa
mergulhavam numa crise
económica sem precedentes.
As liberdades individuais
são suprimidas por um jovem
estadista que assume o poder
em 1932, e alinha o País
pelo eixo ítalo-alemão.
Os sindicatos livres são
abatidos e em seu lugar é
imposto o Estatuto do
Trabalho Nacional
corporizado em torno de
organizações sindicais e
grémios fascizantes.
O desemprego arrasa as
famílias dos operários e a
fome e o desespero
apoderam-se dos homens e das
mulheres marinhenses.
Na madrugada e durante todo
o dia de 18 de Janeiro de
1934, o povo da Marinha
Grande sai à rua e luta
pelos seus direitos, sendo
esmagado pela repressão do
regime de Salazar.
Do exemplo desta luta
heróica fica a memória,
traduzida em Monumento do
escultor Joaquim Correia,
situado da rotunda do
Vidreiro, mas perpetua-se
até hoje esse rastilho de
liberdade que não morreu nem
morrerá jamais. O Homem só o
é verdadeiramente quando não
tem medo de lutar pelos seus
ideais. Aos heróicos
operários da Marinha Grande,
e ao seu exemplo em 18 de
Janeiro de 1934, devemos
hoje uma parte da esperança
que pomos num futuro melhor
para nós e para Portugal.

No Verão de 1788 os gastos
com os trastes e «cavalharice»
rondaram os 40 mil réis. Mas
os 32 contos que D. José
emprestou a Guilherme
Stephens estavam a ser bem
aplicados. O livro de caixa
da Real Fábrica de Vidros da
Marinha Grande, com a
contabilidade de Julho e
Agosto à mostra, especifica
numa caligrafia
irrepreensível que as saídas
de dinheiro «em trastes e
roupa de casa, por fitas, e
feitio das cobertas de seda
das cadeiras e canapés» foi
de 22 710, a que se juntam
os «gastos miúdos» e «de
cavalharice».
Ao longo dos três pisos da
casa que outrora foi
residência dos irmãos
Stephens, o Museu do Vidro,
que Jorge Sampaio inaugura
no domingo, na Marinha
Grande, é uma síntese da
história do velho povoado
que deve quase tudo ao calor
dos fornos. Áreas de
exposições temporárias,
espaços dedicados aos usos e
funções do vidro e a
recriação do ambiente e dos
modos diversos de trabalhar
o vidro, compõem o museu,
que durou meio século a
passar à prática.
Criado por decreto-lei de
1953, o processo de
instalação do museu depressa
encalhou nos corredores da
burocracia. Nos anos 60,
Joaquim Correia consegue que
o palácio e seus jardins
sejam considerados de
interesse público. No tempo
do bloco central, o ministro
da Indústria, Veiga Simão,
cria o quadro de pessoal do
museu. Mas o processo volta
a adormecer. Agora, após 150
mil contos gastos em dois
anos na recuperação do
palácio e equipamentos, o
museu vai finalmente abrir
portas, de terça-feira a
domingo, entre as 10 e 30 e
as 19 horas.
O primeiro olhar vai para a
bela fachada amarela que se
oferece ao visitante, que,
uma vez no seu interior, se
surpreenderá com o pormenor
dos tectos, com a
recuperação das velhas
paredes no piso superior -
onde a Filarmónica das
Beiras, num regresso às
ambiências passadas, tocará
música barroca para Jorge
Sampaio - e ainda com a
beleza dos azulejos que
bordejam a escadaria branca.
A marquesa de Alorna tinha
razão no dia em que dedicou
um poema ao industrial
vidreiro: «Se a gratidão
futuros adivinha,/
Guilherme, irá teu nome à
Eternidade,/a par do
Lavrador da Pátria minha.»
Pela dimensão empresarial
que teve, a que sempre
juntou preocupações de ordem
artística e cultural,
fomentando o teatro e a
leitura entre os operários,
sem desprimor para a memória
que fica expressa no
património construído,
Guilherme Stephens justifica
plenamente, não apenas as
palavras reconhecidas da
marquesa mas, sobretudo, a
homenagem que hoje os
marinhenses insistem em
prestar-lhe.
Por isso o antigo palácio
vai abrir as portas exibindo
peças cedidas pelo Museu de
Arte Antiga e objetos
fabricados por John Beare,
em 1749, isto é, 20 anos
antes da entrada em cena dos
irmãos Stephens na Marinha
Grande. Voltando, porém, aos
diferentes espaços
museológicos, é de realçar,
logo à entrada, uma
imponente prensa que foi a
glória da indústria quando
era pioneira.
No primeiro andar, o tempo
divide-se entre os séculos
XVIII e XIX. Peças do século
XVIII, algumas delas cedidas
pelos Museu Soares dos Reis
e Museu de Arte Antiga, de
que sobressai um galheteiro
entrelaçado, o expositor dos
vidros prensados e a secção
de vidro laboratorial,
constituem a jóia deste
piso, onde não faltam,
também, dois preciosos copos
fabricados por John Beare,
nome que marca o início da
indústria vidreira na
Marinha Grande.

Os operários eram instruídos
e isentos da tropa
O encenador Norberto
Barroca reconstituiu uma
obragem do século XVIII, que
será representada três vezes
no domingo.
«Quero que os meus operários
tenham consciência do seu
estado de homens, com
direitos e deveres», diz
Guilherme Stephens, ao que o
seu irmão Diogo acrescenta:
«O mano defende tanto os
nossos operários, que fez
uma escola para aprenderem a
ler e até conseguiu que
tenham isenção de
recrutamento militar.»
A ação passa-se durante a
visita da Marquesa de Alorna
à fábrica e ao palácio dos
irmãos Stephens, na segunda
metade do século XVIII, sob
a direcção artística de
Norberto Barroca. O
encenador foi a um trabalho
anterior, "A Soprar Se Vai
ao Longe", e reconstituiu
uma obragem do século XVIII,
que será representada três
vezes no domingo, como
celebração da abertura do
referido museu. Atores,
música popular e erudita ao
vivo, guarda-roupa da época
e um forno construído para o
efeito, onde os operários
especializados vão fazer o
vidro, são alguns dos
aspetos que pontuam a
representação, na qual se
distinguem, ainda, as
presenças do Marquês de
Pombal e do irlandês John
Beare.
E embora debruçado sobre o
passado, quanta atualidade
no texto: «Espero ter mais
sorte com a minha fábrica,
aqui na Marinha. Lá, em
Coina, só tive dificuldades.
Os mercados estrangeiros
dificultavam a nossa
laboração, para poderem
vender em Portugal os seus
produtos», refere Beare.
Pouco depois, é o Marquês
que entra em cena e, à
semelhança dos apoios que
hoje o Governo presta,
anuncia: «Manda Sua
Majestade que, ao senhor
Guilherme Stephens, cidadão
de grande empreendimento
industrial, que quer
desenvolver a indústria
vidreira em Portugal, agora
de fabrico rudimentar, seja
concedido um empréstimo do
erário público, no valor de
32 mil réis, sem encargos e
sem prazo determinado».
Responde Guilherme: «Thank
You! Quer dizer, Obrigado!
Um dia, também Portugal
chegará à Europa!» E o povo
agradece: «Pegou armas e
bagagens,/ o subsídio e a
família, / os tarecos e a
mobília/ que já tinha em
Portugal./ Ao calor do
forno,/ a Marinha cresceu./O
povo trabalha,/ o trabalho
aquece.»
© 1998 Diário de Notícias

José Amado Mendes -
Faculdade de Letras da
Universidade de Coimbra
1. INTRODUÇÃO
A historiografia do vidro em
Portugal, não obstante ter
já completado mais de um
século - desde que Joaquim
de Vasconcelos e, sobretudo,
o incansável Francisco de
Sousa Viterbo lançaram as
suas bases, respetivamente
em 1887 e 1902 - continua a
registar numerosas lacunas,
tanto no que concerne ao
sector propriamente dito,
como a empresas e
empresários, a artistas e a
técnicos vidreiros, aos
produtos e respetiva
proveniência. Não sendo,
aliás, caso único, devido a
uma espécie de "mito das
origens" que marcou, durante
muitas décadas, a produção
historiográfica portuguesa,
também, neste caso, o
período mais recente tem
sido, por vezes, o menos
estudado. Basta recordar que
a obra de Vasco Valente,
intitulada O Vidro em
Portugal (publicada em 1950
e considerada, por alguns,
como uma espécie de
"bíblia"), nada nos diz
acerca da indústria vidreira
em Portugal, desde os
inícios do século XX.
Ora, foi exatamente a partir
dessa altura que se
verificou uma profunda
revolução no ramo, a qual
passou pela automatização de
grande parte do fabrico,
pela especialização e
autonomização dos segmentos
hoje existentes - vidro
plano, vidro de embalagem e
cristalaria - e pela
transformação da indústria
vidreira, de uma atividade
artesanal, muito dependente
do know-how importado, cujos
produtos, salvo raras
exceções, apresentavam um
baixa qualidade, numa das
indústrias portuguesas mais
competitivas e prestigiadas,
tanto no país como no
estrangeiro.
Uma das ideias feitas sobre
a evolução do vidro, em
Portugal, consiste em
subvalorizar ou mesmo
esquecer o importante
contributo que algumas
localidades têm dado à
vidraria, para além,
obviamente, da Marinha
Grande que, desde a 2.ª
metade de Setecentos, se
transformou na capital do
vidro e, mais recentemente,
também na dos moldes.
Refiro-me, por exemplo, ao
Covo-Oliveira de Azeméis, a
Ílhavo e à Vista Alegre -
frequentemente mais
associada à porcelana que ao
vidro - e às margens do
Douro, como, entretanto,
veremos.
Recordarei, antes de
prosseguir, que aquilo que
acabo de enunciar, de forma
sucinta, é devidamente
esclarecido e fundamentado,
num estudo mais
desenvolvido, intitulado
História do Vidro e do
Cristal em Portugal, há
pouco publicado (Lisboa,
Edições INAPA, 2002).

2. ORIGENS DA INDÚSTRIA
VIDREIRA NO VALE DO DOURO
As origens da produção
vidreira nas margens do
Douro, fundamentalmente na
zona de Vila Nova de Gaia,
remontam ao tempo da
Revolução Liberal. Todavia,
além de não dispormos ainda
de um estudo desenvolvido
acerca do assunto,
escasseiam as respetivas
fontes. Restam-nos, pois,
informações dispersas, das
quais se pode inferir o que,
seguidamente, passo a
sintetizar.
Entre os anos de 1830 e os
finais do século XIX, terão
existido naquela área, pelo
menos, duas vidrarias: uma
oficina e uma manufatura.
Vejamos o que sobre elas se
conseguiu averiguar.
Fábrica de Paço de Rei.
Acerca desta escreveu
Gonçalves Guimarães, após
aludir a outras unidades
industriais localizadas em
Gaia: «Também no sector
vidreiro instala-se uma
unidade em Vila Nova de Gaia
mas que parece ter
funcionado apenas depois da
vitória liberal: Francisco
da Rocha Soares (filho)
montou na sua quinta de Paço
de Rei uma fábrica de vidro
em data anterior a 1839, a
qual laborou pouco tempo»
(GUIMARÃES, 1997: 59).
Segundo informa o mesmo
autor, ainda existem ruínas
daquela unidade, das quais
reproduz uma fotografia
(idem: 60).
Pouco mais se sabe, acerca
desta unidade. Vasco
Valente, reportando-se aos
negócios do dito empresário,
Francisco da Rocha Soares,
falecido em 1857 (o qual
obteve considerável sucesso
com a sua fábrica de
cerâmica de Miragaia,
inclusive exportando os
respetivos produtos), notou:
«Na sua quinta de Paço de
Rei, em Mafamude, montou,
também, uma fábrica de
vidros, empresa que lhe
acarretou grandes dispêndios
e prejuízos» (VALENTE, 1936:
78-79).
Na ausência de outras
informações, pouco mais
poderemos acrescentar. Pinho
Leal (no seu Portugal Antigo
e Moderno, ao focar a
freguesia de "Mafamude"),
afirma, em 1875: «Há, nesta
freguesia, muitas e boas
quintas, uma fábrica de
fundição de panelas de
ferro, fábricas de louça (de
barro preto e de faiança),
uma fábrica de vidros e
várias de tecidos de linho e
algodão». A fazer fé neste
testemunho, a Fábrica de
Paço de Rei ainda estaria
activa, em 1875. Ou
ter-se-ia Pinho Leal
equivocado, confundindo-a
com a do Cavaco, a que,
entretanto aludirei?
Inclino-me mais para esta
segunda hipótese.
Por outro lado, também não
parece confirmar-se a
existência de uma outra
fábrica de vidros - Fábrica
de Vidros do Bom Sucesso,
localizada em Vila Nova de
Gaia, em 1825 (COSTA,1994:
100) - como, aliás, já foi
notado por G. Guimarães (op.
cit.: 187, n. 112).
Fábrica do Cavaco ou Fábrica
do Cais do Vale da Piedade.
Esta, também localizada na
margem esquerda do rio Douro
e a jusante da anterior, foi
instalada em 1853 e terá
laborado até finais de
Oitocentos.
Por ter trabalhado cerca de
meio século, pela
competência técnica dos seus
fundadores (franceses),
pelos produtos fabricados e
pela mão-de-obra ocupada, as
informações sobre ela são
mais abundantes, pelo que
sublinharei, em seguida, as
que considero mais
significativas.
O referido ano da fundação,
1853, deduz-se das
declarações feitas pelo seu
responsável, aquando do
Inquérito Industrial de
1881, das quais consta a
seguinte: «Existe há 28
anos». Antes de analisarmos
a sua evolução, nas cerca de
três décadas decorridas
entre 1853 e 1881, vejamos
algo acerca do
desenvolvimento da
mencionada vidraria, nos
primeiros doze anos de
existência (1853-1865).
A Fábrica do Cavaco já
apresentou os seus produtos,
na Exposição Industrial do
Porto de 1861. Foram também
expostos vidros da Real
Fábrica de Vidros da Marinha
Grande e da Fábrica do Covo,
Oliveira de Azeméis.
Referindo-se àquela,
escreveu um observador
coevo: «A par do
pequeníssimo contingente da
Marinha [Grande], sobressaem
as largas vidraças e belas
redomas da fábrica do
Cavaco, em Vila Nova de Gaia,
que tanto crédito dá à
perícia técnica dos
directores, os senhores
André Michon e Casimir
Pierre». E acrescenta: «As
redomas, principalmente,
chamam a atenção pela
barateza do seu custo, e dão
explicação ao abatimento de
preço, que se havia
verificado nos armazéns de
venda. Pessoas vimos
admirarem o preço de 4$000
réis inscrito numa redoma,
de secção oval, e o de 1$500
noutra, de secção circular»
(LUCIANO, 1861: 93).
Quatro anos mais tarde, os
vidros da Fábrica do Cavaco
compareceram, igualmente, na
Exposição Internacional do
Porto 1865 (a primeira
realizada na Península
Ibérica, para a qual foi
edificado o Palácio de
Cristal, à semelhança do
famoso Crystal Palace,
destinado à 1.ª Exposição
Universal de1851, em
Londres), tendo sido uma das
seis unidades do país ali
representadas.
Tratava-se do expositor n.º
1 287, assim descrito no
respectivo catálogo: «André
Michon Casimir Pierre, Vila
Nova de Gaia. - Mangas de
vidraça por estender,
redomas ovadas, quadradas,
cilíndricas, telha de
vidraça, vidro cortado etc.»
(Catálogo da Exposição do
Porto. 1865, 1865: 88).

Das informações transcritas
podem inferir-se:
1. A iniciativa, como aliás
muitas outras no sector,
entre os séculos XVI e XIX,
ficou a dever-se a
estrangeiros, no caso
presente franceses.
Tratava-se de dois
empresários e não de um,
como poderia deduzir-se da
forma como os nomes estão
indicados no dito catálogo
de 1865 (este lapso
detecta-se noutras obras,
onde "Casimir Pierre"
aparecem como se fossem
apelidos de André Michon).
Acrescente-se que André
Michon, além de empresário,
era ainda um técnico
vidreiro prestigiado,
inclusive como fornalista.
Explorou também, durante
algum tempo, uma fábrica de
vidraça na Figueira da Foz
(em Buarcos, próximo do
atual cemitério), a qual foi
fundada provavelmente em
1858 (MENDES, 1984: 240).
2. A manufatura do Cavaco
dedicava-se ao vidro plano,
vulgarmente chamado vidraça,
especialidade que se havia
aperfeiçoado
consideravelmente em França
(de modo especial, através
dos processos de vidro coado
ou vazado e da produção de
mangas). O sector do vidro
de embalagem, de que falarei
posteriormente, só mais
tarde viria a desenvolver-se
e a autonomizar-se, entre
nós.
Ao fim de quase três décadas
de funcionamento, no
Inquérito Industrial de 1881
- fonte de importância
extraordinária para o
conhecimento da
industrialização, em
Portugal, nos primeiros três
quartéis de Oitocentos -
fornece alguns dados do
maior interesse sobre a
Fábrica do Cavaco. Aí se
pode ler:
«Existe há 28 anos
[portanto, como se disse já,
desde 1853], sob a direcção
do dono, que é em pessoa o
construtor do forno,
levantado em cada campanha.
Tem dado lucros
consideráveis, mas há anos
que os preços de venda
baixaram consideravelmente
pela concorrência da fábrica
da Marinha Grande. Emprega
18 operários, franceses e
portugueses. Os primeiros
são 4, vencendo, 1, 1$800
réis e, 3, a 1$600 réis ao
dia; os segundos,
carregadores e serventes do
forno, são 14, com salários
de 320 a 240 réis por dia de
dez horas úteis de trabalho.
Não foi declarada a
importância da produção, que
acaso poderá avaliar-se, a
serem exactos os números
acusados de consumo em:
carvão de pedra - 500
toneladas; soda - 40
toneladas; seixo (de
Crestuma) - ? Cal (da
Figueira) - ?» (Inquérito
Industrial de 1881.
Relatório…: 271-272;
Inquérito directo. II parte,
visita às fábricas, livro
2.º: 183).
Que ilações poderão
extrair-se do exposto?
Tratava-se já, para o meio
industrial português, de uma
média empresa (com cerca de
duas dezenas de operários e
ainda não mecanizada) que
poderemos incluir na
categoria de manufatura. A
tecnologia utilizada e os
métodos produtivos eram, por
certo, de origem francesa,
pois os 14 operários
portugueses apenas
desempenhavam funções
acessórias, designadamente
como "carregadores" e
"serventes do forno". E,
como o saber-fazer
especializado, sobretudo se
importado, tem um preço
substancialmente mais
elevado que o trabalho
local, os técnicos franceses
ganhavam, em média, cerca do
quíntuplo dos carregadores e
ajudantes portugueses.
Posteriormente, as
informações relativas à dita
vidraria começam, novamente
a rarear. Em 1887,
referindo-se ao estado da
indústria do vidro no País,
sublinhava Joaquim de
Vasconcelos: «No Museu
Industrial do Porto [que
havia sido inaugurado
recentemente], estão
representadas as fábricas do
Sr. Michon, do Cabo Mondego
e a da Marinha Grande. Esta
última, que produz
variadíssimos objetos (cerca
de 2 000 números), organizou
uma exposição muito
interessante, que produz
belíssimo efeito». E
acrescenta o autor citado:
«É inegável que a indústria
do vidro tem prosperado e
trabalhado, não há dúvida,
mas parece-nos que tem ainda
de fazer um grande esforço
para excluir do mercado
nacional artefactos
[importados] que são
triviais e indispensáveis.
Basta recordar só uma
espécie: as garrafas pretas
e brancas para vinho, que
importamos em grande escala,
e que representam uma
quantia avultada»
(VASCONCELOS, 1983: 107).
A Fábrica do Cavaco ainda
estaria ativa em meados dos
anos de 1890, segundo uma
carta da empresa dos
sucessores de André Michon e
Casimir Pierre, datada de
Vila Nova de Gaia, 11 de
Junho de 1895 (GUIMARÃES,
1997: 75). Terá encerrado
pouco depois, em data
desconhecida.

3. SUCESSO DA INDÚSTRIA DE
GARRAFARIA NAS MARGENS DO
DOURO
Até finais do século XIX, as
unidades vidreiras
instaladas, em Portugal,
eram polivalentes e, logo,
não especializadas. A maior
parte, tendo começado por
produzir vidraça, veio
depois a dedicar-se também à
produção de vidro de
embalagem e de numerosos
outros objetos,
genericamente incluídos no
ramo da cristalaria.
A especialização, por
sectores, não obstante uma
ou outra tentativa levada a
cabo ao longo do século XIX,
só viria a concretizar-se,
verdadeiramente, a partir de
1889-1890, com a instalação,
no Seixal, da Fábrica da
Amora, exclusivamente
dedicada à produção de
garrafas comuns, para vinho
e outras bebidas.
Portugal seguia, afinal, na
senda daquilo que, cerca de
uma década antes, já se
verificava em alguns outros
países, como era sublinhado
por um empresário vidreiro,
em 1881: «O fabrico da
garrafa preta ou verde é no
estrangeiro uma indústria à
parte e as fábricas, assim
como os operários que as
fazem, não se ocupam de
outra coisa, nem sabem mais
nada, podendo desta forma
produzir muito e barato»
(Inquérito Industrial de
188. Inquérito direto, livro
1.º: 1881: 367).
Quanto à vidraça, devido à
maior complexidade do
processo e aos elevados
custos do investimento, só
em 1941 se deu passo
análogo, com o arranque da
COVINA, em Santa Iria da
Azóia, nas proximidades de
Lisboa.
Considerando apenas o vidro
de embalagem, de acordo com
o título do trabalho que me
propus apresentar, a
semiautomatização, primeiro,
e a automatização, em
seguida, levaram a
circunscrever a produção a
um número reduzido de
localidades e de fábricas.
Numa primeira fase (inícios
do século XX), a Amora
concentrou a produção da
garrafaria preta. A
propósito, sublinha José
Pedro Barosa: «a Amora
concentra [em 1903] a
totalidade da produção da
garrafaria "preta", isto é,
em vidro escuro. Continua
apenas, nas outras fábricas,
a produção de garrafas em
vidro branco, geralmente
subproduto da produção de
vidraça, cujo vidro
(esverdeado) é partilhado
com aquela produção» (BAROSA,
1996: 68).
Mais tarde, novos centros de
produção automática de
garrafa preta se foram
constituindo. Assim, após a
descativação daquela
fábrica, a produção
automática de garrafaria
ficou a ser assegurada, como
o é atualmente, por fábricas
modernas, de produção
automática, localizadas,
respetivamente, na Marinha
Grande, na Fontela-Figueira
da Foz, e em Avintes-Vila
Nova de Gaia. Pela sua
relação com a temática do
presente Encontro, vejamos,
em traços largos, as origens
e a consolidação deste
último e importante pólo
vidreiro.
Durante aproximadamente duas
décadas (anos 1890-1919), a
tradição da indústria
vidreira, nas margens do
Douro, é interrompida.
Assim, a garrafaria ali
utilizada era fornecida por
unidades, situadas noutras
zonas do país, ou importada.
Foi então que os
responsáveis pela empresa
proprietária da já referida
Fábrica da Amora (Companhia
das Fábricas de Garrafas na
Amora) resolveram instalar
uma fábrica de garrafas,
junto ao rio Douro, desta
vez na margem direita. Com
efeito, em 1918 (14 de
Março), a Câmara Municipal
do Porto autorizou a dita
sociedade a construir um
edifício em terreno
pertencente à Quinta do
Freixo, em Campanhã. Aí
viria a laborar uma
importante fábrica de vidro
de embalagem, durante
precisamente meio século
(1919-1969). Nas respetivas
instalações, remodeladas e
adaptadas, está atualmente
instalada a sede da empresa
de construção, Mota & C.ª.

3.1. Período de transição:
1919-1930
Pouco mais de ano e meio
após a concessão da licença,
pela Câmara Municipal do
Porto, para a dita
construção, no Jornal de
Notícias (de 26 de Outubro
de 1919), era dado grande
relevo à inauguração da
Fábrica de Rego Lameiro,
através de uma extensa
reportagem, ilustrada
fotograficamente.
O título do relato, embora
um tanto extenso, é
elucidativo do entusiasmo
com que o jornalista
aplaudia aquele evento:
«Sucursal no Porto da
Fábrica de Garrafas da
Amora. Mais uma demonstração
eloquente do engrandecimento
e valor industrial da cidade
do Porto. A inauguração
d´uma grande fábrica que
honra sobremaneira a
iniciativa portugueza - O
que pode o capital, aliado
ao trabalho produtivo e
fecundo - Notas impressivas
d´uma visita e "reportage"
d´uma festa».
São descritas as instalações
(dois grandiosos pavilhões e
suas adjacências), as
gigantescas chaminés (com a
altura de 42 e de 28 metros,
respetivamente), o sector da
composição, os fornos, a
tecnologia instalada, a
capacidade produtiva e a
mão-de-obra ocupada. Esta
era constituída por 450
operários; a fábrica tinha
laboração contínua e a sua
capacidade de produção
semanal atingia as 150 000
garrafas. Quanto à
capacidade do forno (a
tanque), pode ler-se:
«Também tivemos ocasião de
observar o funcionamento
daquela grande fornalha que
pode comportar 110 toneladas
de massa». São ainda
referenciados os processos
de fabrico, semiautomático
(ilustrado, através de uma
imagem) e manual.
Poder-se-á perguntar: que
fator ou fatores terão
induzido os responsáveis,
pela Fábrica da Amora, a
instalar uma moderna e bem
apetrechada unidade
vidreira, no Norte do País?
Ao invés do que sucedeu com
a deslocação da indústria
vidreira, de Coina para a
Marinha Grande, em meados do
século XVIII - em que o
principal fator atrativo foi
a proximidade do
combustível, em abundância,
no Pinhal do Rei, situado
muito próximo - no presente
caso o apelo já vinha da
parte de um mercado com
grandes potencialidades,
numa região vinícola por
excelência. É que o
abastecimento de energia, de
importância fundamental na
produção do vidro, com o
vapor e a eletricidade,
havia-se libertado da lenha
- e, no caso de indústrias
como a têxtil, também da
água - isto é, dos
constrangimentos impostos
pela natureza.
No fundo, esta ideia
encontra-se expressa pelo
autor da mencionada
reportagem, destacando a
necessidade de, no rescaldo
de uma guerra que tinha
implicado pesados encargos
(como é sabido, a I Guerra
Mundial, de 1914-18), se
desenvolver a produção
industrial e agrícola,
auxiliada pela actividade
comercial, ao sublinhar: «No
artigo especial a que nos
dedicamos [ou seja, no
vidro], enlaçamos aquela
tríplice cooperação: no país
do vinho, uma das mais
valiosas produções do nosso
solo agrícola gera um
movimento comercial de
exportação, que é o mais
importante, e o qual nós
auxiliamos, fornecendo pelas
nossas empresas fabris o
invólucro indispensável - a
garrafa - conseguindo
nacionalizar uma indústria,
procurando afastar do
mercado a concorrência
estranha, substituindo-a
completamente para que o
trabalho, a mão-de-obra e o
capital português, aufiram
os lucros que iriam, pela
importação do artigo,
beneficiar outros países».
Entretanto, nos inícios da
década de 1920, a Companhia
das Fábricas de Vidro na
Amora passou por
dificuldades financeiras -
atingindo, em 1923, um
passivo de cerca de 3 000
contos - pelo que foi
decidido alienar a Fábrica
de Rego Lameiro. Assim, por
escritura de 2 de Maio de
1923, aquela vende a dita
fábrica à Companhia Vidreira
do Norte de Portugal, pela
importância de 2 200 contos.

Do que consta da mencionada
escritura e documentos
anexos permito-me destacar,
pelo seu significado:
a) As duas empresas, por
acordo mútuo, deliberaram
efetuar uma partilha do
mercado nacional de garrafas
pretas, pelo rio Mondego,
nos seguintes termos:
«Dentro da orientação de
exercer a nossa ação nas
regiões onde exploramos as
nossas indústrias [documento
da empresa compradora],
ficaria assente que essa
Companhia [da Amora] não
forneceria mais garrafas
pretas para a parte do norte
do rio Mondego, assim como
nós não as forneceremos para
o sul do mesmo rio, sob pena
de importar responsabilidade
por perdas e danos do
infractor contra a outra
parte»;
b) Por sua vez, em documento
emitido pela Amora,
confirma-se a importância do
mercado nortenho para o
artigo "garrafas pretas".
Nele se afirma: «o facto de
perdermos a clientela do
Porto, a mais importante até
hoje para a Companhia, por
ser aquele o mercado onde
tem mais largo consumo a
garrafa preta do nosso
fabrico, não impede que
dediquemos a nossa atenção,
dando todo o desenvolvimento
de que é suscetível, à
Fábrica da Amora, no fabrico
de garrafas brancas,
frascaria e outros produtos
desta indústria».
Em 1925, a unidade em foco
já adotava uma nova
designação: "Fábrica de
Garrafas RIO DOURO". Em
ofício, então dirigido ao
Governador Civil do Porto,
indica-se o horário dos
turnos adotados na Fábrica:
1.º, das 8 às 16 horas, com
uma hora de descanso das 12
às 13; 2.º, das 16 às 24,
com 1 hora de descanso das
20 às 21; e 3.º, das 24 às 8
horas, com uma hora de
descanso das 4 às 5 horas.
Note-se que este horário dos
turnos, diferente do adotado
nas fábricas vidreiras da
Marinha Grande (1.º, 5-13;
2.º, 13-21; e 3.º, 21-5
horas), se manteve até hoje,
na fábrica Barbosa &
Almeida, à qual aludirei em
seguida.

3.2. Barbosa & Almeida: de
uma pequena empresa
comercial a um grande grupo
internacional, na produção
de vidro de embalagem
Recuando um pouco no tempo,
deparamo-nos com a
constituição, na cidade do
Porto, de uma sociedade
comercial, em nome coletivo,
denominada Barbosa &
Almeida, com sede e seu
principal e único
estabelecimento sito na rua
Mouzinho da Silveira (n.º
44-1.º andar). Foram seus
sócios fundadores Raul da
Silva Barbosa e Domingos de
Almeida, cujos apelidos
continuam a constar da firma
BA - Fábrica de Vidros
Barbosa & Almeida, SA.
Em 1921 (por escritura de 4
de Agosto), constitui-se
nova sociedade - Barbosa &
Almeida, Ld.ª - com a
entrada de novos sócios e
aumento de capital (que
passa a ser de 500 contos),
continuando a dedicar-se ao
ramo comercial.
Por seu turno, em 1930, a
sociedade foi remodelada -
mantendo, porém a mesma
designação - com a entrada
de novos sócios (por
cedência de cota de alguns
dos anteriores) e um
alargamento do respetivo
objeto que, além de todas as
operações mercantis que a
sua gerência julgue
convenientes, passaria a
incluir igualmente a de
«explorar a indústria de
vidros na dita sua fábrica e
noutras que vier a
adquirir». O capital social
foi elevado para 1 000
000$00.
Deste modo, a Barbosa &
Almeida, de comerciante de
vidros e outros artigos,
passava a fabricante de
vidro de embalagem (1930),
pela aquisição da já
referida Fábrica de Rego
Lameiro (posteriormente
designada, como vimos,
Fábrica de Garrafas "Rio
Douro"), a qual, aquando da
sua aquisição pela Barbosa &
Almeida, Ld.ª, pertencia à
Empresa de Vidros e Garrafas
do Porto, Ld.ª.
Ao fim de uma década de
laboração, a unidade
vidreira a que nos
reportamos era assim
publicitada (1940):
|
«Garrafas e
garrafões. Todos
os tipos e
capacidades.
Garrafas de
litro e meio
litro com rolhas
de parafuso.
Fabrico esmerado
e aos mais
reduzidos
preços.
Barbosa
& Almeida, Lda.
Escritório:
Rua Mouzinho da
Silveira,
62-1.º.
Telefone, 1405
(P. B. X.),
PÔRTO»
(Memória…,
1940).
|
Porém, muito mais completo e
elucidativo, para o
conhecimento da Fábrica de
Vidros da Barbosa & Almeida,
é um outro documento,
precisamente do mesmo ano
("Inventário Geral da
Fábrica, em 31 de Dezembro
de 1940"), que se encontra
no arquivo da empresa. Nele
se descrevem,
minuciosamente, todos os
bens existentes na altura,
nas diversas secções da
unidade. Através dele
ficamos a conhecer: o
equipamento, mobiliário e
tecnologia instalados, os
tipos de artigos fabricados
(por meio dos respectivos
moldes), as matérias-primas
e o combustível utilizado,
os produtos em "stock", etc.
Das muitas ilações que
daquele se podem tirar,
saliento apenas os seguintes
exemplos:
na casa das máquinas
encontravam-se, além do
mais, uma máquina a vapor
(de 50 HP) e um dínamo-motor
(de 20HP);
dispunha, então, de dois
fornos: o forno n.º 1, a
tanque, sistema "Siemens"; e
o forno n.º 2, por certo a
potes;
já então eram utilizadas 15
máquinas semiautomáticas,
descritas como "máquinas de
fazer garrafas e
acessórios";
na casa da composição era
usado um britador mecânico;
como meios de transporte
próprios ainda se indicam,
apenas: um carro, com rodas
de ferro, para transportar
caixas com garrafas; 4
barcas e acessórios.
O elevado número de moldes
referenciado (109 mecânicos
e 15 manuais, para garrafas,
e 9 para garrafões) revela a
grande diversidade de
garrafaria produzida. Cerca
de um terço dos moldes de
garrafas destinava-se ao
vinho, com destaque,
obviamente, para o Vinho do
Porto. Várias empresas, que
comercializavam marcas de
vinho bem conhecidas (entre
as quais, a Companhia Velha,
a Ramos Pinto e a Porto
Calém), eram, já na altura,
clientes da Barbosa &
Almeida.
Encontrava-se armazenado um
número considerável de
garrafas e garrafões (para
abastecimento normal, do
mercado? Ou já como efeito
das dificuldades,
resultantes do conflito
mundial, desencadeado no ano
anterior?); aquelas
totalizavam quase um milhão
(895 934), na Barbosa &
Almeida (em Campanhã) e, os
garrafões, empalhados, 22
219. Referenciam-se, também,
as existentes noutras
fábricas (fornecidas por
aquela, à consignação?),
nomeadamente nas seguintes:
Roldão, Marinha Grande (50
909), Pataias (162 929) e
Fontela (12 921).
Não sendo este o lugar
adequado para esmiuçar o
desenvolvimento da empresa,
nas seis décadas imediatas,
apenas se referirão alguns
factos marcantes dessa
trajetória.
O processo de automatização
teve início, o mais tardar,
em 1947 - pois já então se
encontrava instalada uma
máquina Lynch, de 6 moldes -
tendo prosseguido até ao
final da década de 60, a
exemplo do que se
verificara, no mesmo
período, noutras unidades
(como na Santos Barosa e na
Ricardo Gallo, na Marinha
Grande). Em 1965, com a
instalação de uma terceira
máquina do mesmo tipo, a
respetiva produção semanal
aumentou para 350 000
garrafas.
Entretanto, a evolução da
empresa, num período de
acentuado crescimento
económico - última década
dos já chamados "30 anos de
ouro da economia - levou a
equacionar a problemática da
remodelação das instalações,
em Campanhã, ou a construção
de uma nova unidade, como
veio a suceder, em local
mais espaçoso e sem os
constrangimentos de
circulação que rodeavam a
Fábrica de Rego Lameiro.
Acrescente-se que o
desenvolvimento
extraordinário da empresa,
em meados dos anos 1960, foi
estimulado pelo aumento da
exportação de garrafas para
Espanha. Com efeito, com a
proibição da venda de
bebidas a granel - e a
consequente exigência do seu
engarrafamento - o consumo
de garrafas, no país
vizinho, mais que duplicou,
de 1962 para 1963 (passando
de 150 para 360 milhões de
unidades). A Espanha passou
a ter um défice anual de 1
milhão de garrafas.
Consequentemente, pode
ler-se num documento da
empresa (anexo à ata de
24.11.1964): «exportando
para Espanha, ainda que a
preço não muito compensador,
prolonga-se a nossa campanha
vidreira».
Por seu lado, também o
mercado português de
garrafas se expandia. Como
sublinha Gaspar Martins
Pereira (Dicionário de
História de Portugal, vol.
IX, supl., p. 600): «O valor
das exportações [de Vinho do
Porto] quase triplicou,
entre 1960-1964 e 1970-1974,
passando dos cerca de 380
mil contos para mais de 1
milhão de contos por ano. Um
dos aspetos que mais pesou
na valorização do vinho do
Porto exportado foi, sem
dúvida, o crescimento do
peso do vinho engarrafado no
conjunto das exportações».

Voltando à Barbosa &
Almeida, foi então comprado
um terreno para as novas
instalações (com uma área de
95 830 m2), no lugar de D.
Julião, no limite de Aldeia
Nova, freguesia de Avintes,
concelho de Vila Nova de
Gaia. Graças a um vultuoso
investimento (inclusive com
o recurso ao financiamento
de 25 000 contos, pelo Banco
de Fomento Nacional) e ao
apoio técnico de uma firma
alemã da especialidade ("Glasswerke
Ruhr"), a nova unidade,
ampla, automatizada e
utilizando equipamento do
mais moderno então
existente, começou a laborar
em Setembro de 1969.
Nas últimas três décadas, os
responsáveis pela Barbosa &
Almeida adotaram uma
estratégia de expansão,
internacionalização e
modernização, transformando
uma empresa, de capital
familiar, num grupo cotado
em bolsa (desde 1987), o
qual detém, atualmente,
quatro fábricas a produzir
vidro de embalagem, duas em
Portugal (uma em
Avintes-Vila Nova de Gaia,
onde se localiza a respetiva
sede do grupo, e outra na
Marinha Grande, ex-CIVE) e
duas em Espanha.
Registou diversos aumentos
de capital, inclusive com a
participação de empresas e
grupos bem conhecidos (como
a Santos Barosa e a Ricardo
Gallo, suas congéneres, a
SOGRAPE (Sociedade Comercial
de Vinhos de Mesa de
Portugal, Ld.ª) e, mais
recentemente, a SONAE
(1998).
A relação da empresa com o
vinho (sem esquecer,
naturalmente, outros
mercados: águas minerais,
cerveja, refrigerantes,
etc.) e, de modo particular,
com o Vinho do Porto,
continua a ser muito forte.
A progressiva substituição
da venda de vinho a granel
pelo engarrafado teve que
ser acompanhada por um
aumento considerável na
produção de embalagens, para
o que também contribui o uso
da não reutilização da
garrafa. Em 2001, foram
vendidos para Vinho do
Porto, pela indústria
nacional (no país e
exportados), 168 milhões de
embalagens.
Atualmente, a Barbosa &
Almeida é o principal
fornecedor do mercado do
Vinho do Porto, produzindo
vidro de diversas cores:
branco, verde, verde escuro
e preto. Segundo informação
fornecida pela própria
Empresa (cuja colaboração me
cumpre agradecer
publicamente, com destaque
para o seu Diretor
Executivo, Eng.º António
Vasconcelos), «para o Vinho
do Porto Vintage, Barbosa e
Almeida desenvolveu um
modelo e cor de vidro
especialmente para este
produto, tendo em atenção o
rigor da ótima
vedação/estágio e proteção
solar».
É tempo de concluir. Antes,
porém, apenas gostaria de
sublinhar:
a) O Douro Litoral
(concelhos de Vila Nova de
Gaia e do Porto), ao longo
de mais de século e meio -
apenas com uma ligeira
interrupção - têm marcado
presença na produção
vidreira.
b) Sem esquecer o papel,
sempre decisivo, dos
empresários - a quem cabe,
em última análise, tomar
decisões, também no que toca
à localização das suas
unidades produtivas - o
notável progresso, registado
na produção de garrafaria, a
partir de 1919, não pode
compreender-se sem se
considerar a proximidade de
um importante mercado,
constituído por vários
géneros de vinho (do Porto,
em primeiro lugar, mas
também dos vinhos verdes e
dos vinhos da zona do
Dão-Lafões).
c) Assim, ao focar-se a
importância socioeconómica
do vinho, há que aludir ao
efeito indutor desse
produto, elemento importante
da riqueza nacional, bem
como ao cluster que o mesmo
integra (além da embalagem
de vidro e da respetiva
rotulagem, a indústria
corticeira, ao fornecer as
respetivas rolhas, a
produção de tanoaria, o
transporte e a própria
comercialização), bem como
ao seu contributo no
conjunto das exportações.

FONTES E BIBLIOGRAFIA
BAROSA, José Pedro (1996),
«As Fábricas de garrafas da
Amora: 1888-1926, I parte:
Uma empresa e uma fábrica:
1888-1904», Estudos e
Documentos, n.º 2.
Catalogo Official da
Exposição Internacional do
Porto em 1865 (1865), Porto,
Tipografia do Comércio.
COSTA, Maria Paula (1994),
«O Centro Vidreiro do Norte
de Portugal - Origem do
vidro e seu historial»,
Al-Vária. Arquivo de Estudos
Regionais, t. I (1-2).
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Vidros Barbosa & Almeida, S.
A.).
«Sucursal no Porto da
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Diário Mercantil.
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Suplemento P/Z (coords.
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Filomena Mónica) Lisboa,
Livraria Figueirinhas
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Portucalense Editora.
VASCONCELOS, Joaquim (1983,
1.ª ed., 1887), Indústrias
portuguesas [«Vidros e
cristais»] (org. e pref. de
Maria Teresa Pereira Viana),
Estudos e Materiais, Lisboa,
Instituto Português do
Património
Cultural/Departamento de
Etnologia.
(Nota: Barbosa & Almeida,
tem uma das maiores fábricas
de embalagem de vidro
(garrafas) da Marinha
Grande).
Trabalho e pesquisa de
Carlos Leite Ribeiro -
Marinha Grande - Portugal
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