
"Lobato nunca fez literatura por
literatura. Poucos escritores botaram tanta intenção, tanto
sofrimento, tanta preocupação, tão sério amor, nos seus
livros e nos seus artigos, como o fez ele, em sua literatura
combativa e tantas vezes combatida"
(Orígenes Lessa)
José Bento Monteiro Lobato, nasceu em
Taubaté (Estado de São Paulo) a 18 de Abril de 1882. Ali se
formou em Direito, tendo participado, enquanto estudante,
num grupo de formação literária parnasiana, mas de vivos
interesses nacionalistas, chamado “O Minarete”. Foi Promotor
no vale do Paraíba e tentou a agricultura, mas após a
publicação, em 1918, do seu primeiro livro de contos
“Urupês”, passou a viver como escritor e editor. Paladino do
progresso brasileiro, vinculou o seu nome a grandes
campanhas de redenção nacional e pelas liberdades
democráticas. Embora de formação pré-modernista e com certas
preocupações formais ainda naturalistas e parnasianas, é
totalmente moderno pelas suas aspirações progressistas e
pela sua incondicional adesão às possibilidades da ciência.
Coube-lhe o mérito de ser o criador, no Brasil, de uma
verdadeira literatura infanto-juvenil.
Sua Obra Literária:
Coleção Sítio do Picapau Amarelo
1921 - O Saci; 1922 - Fábulas; 1927 -
As aventuras de Hans Staden; 1930 - Peter Pan; 1931 -
Reinações de Narizinho; 1932 - Viagem ao céu; 1933 - Caçadas
de Pedrinho; 1933 - História do mundo para as crianças; 1934
- Emília no país da gramática; 1935 - Aritmética da Emília;
1935 - Geografia de Dona Benta; 1935 - História das
invenções; 1936 - Dom Quixote das crianças; 1936 - Memórias
da Emília; 1937 - Serões de Dona Benta; 1937 - O poço do
Visconde; 1937 - Histórias de Tia Nastácia; 1939 - O Picapau
Amarelo; 1939 - O minotauro; 1941 - A reforma da natureza;
1942 - A chave do tamanho; 1944 - Os doze trabalhos de
Hércules (dois volumes); 1947 - Histórias diversas.
Outros livros infantis:
Alguns foram incluídos,
posteriormente, nos livros da série O Sítio do Picapau
Amarelo. Os primeiros foram compilados no volume Reinações
de Narizinho, de 1931, em catálogo apenas como tal até os
dias actuais.
1920 - A menina do narizinho
arrebitado; 1921 - Fábulas de Narizinho; 1921 - Narizinho
arrebitado (incluído em Reinações de Narizinho); 1922 - O
marquês de Rabicó (incluído em Reinações de Narizinho); 1924
- A caçada da onça; 1924 - Jeca Tatuzinho; 1924 - O noivado
de Narizinho (incluído em Reinações de Narizinho, com o nome
de O casamento de Narizinho); 1928 - Aventuras do príncipe
(incluído em Reinações de Narizinho); 1928 - O Gato Félix
(incluído em Reinações de Narizinho); 1928 - A cara de
coruja (incluído em Reinações de Narizinho); 1929 - O irmão
de Pinóquio (incluído em Reinações de Narizinho); 1929 - O
circo de escavalinho (incluído em "Reinações de Narizinho,
com o nome O circo de cavalinhos); 1930 - A pena de papagaio
(incluído em Reinações de Narizinho); 1931 - O pó de
pirlimpimpim (incluído em Reinações de Narizinho); 1933 -
Novas reinações de Narizinho
1938 - O museu da Emília (peça de
teatro, incluída no livro Histórias diversas).
Livros para adultos:
O Saci Pererê: resultado de um
inquérito (1918); Urupês (1918); Problema vital (1918);
Cidades mortas (1919); Ideias de Jeca Tatu (1919); Negrinha
(1920); A onda verde (1921); O macaco que se fez homem
(1923); Mundo da lua (1923); Contos escolhidos (1923); O
garimpeiro do Rio das Garças (1924); O choque (1926); Mr.
Slang e o Brasil (1927); Ferro (1931); América (1932); Na
antevéspera (1933); Contos leves (1935); O escândalo do
petróleo (1936); Contos pesados (1940); O espanto das gentes
(1941); Urupês, outros contos e coisas (1943); A barca de
Gleyre (1944); Zé Brasil (1947); Prefácios e entrevistas
(1947) ;Literatura do minarete (1948); Conferências, artigos
e crónicas (1948); Cartas escolhidas (1948); Críticas e
outras notas (1948); Cartas de amor (1948).
Monteiro Lobato - Diversas Fontes
José Bento Renato Monteiro Lobato,
nasceu em Taubaté a18 de abril de 1882 e morreu em São
Paulo a 4 de Julho de 1948. Foi um dos mais influentes
escritores brasileiros do século XX. É popularmente
conhecido pelo conjunto educativo, bem como divertido, de
sua obra de livros infantis, o que seria aproximadamente
metade da sua produção literária. A outra metade,
consistindo de inúmeros e deliciosos contos (geralmente
sobre temas brasileiros), artigos, críticas, prefácios, um
livro sobre a importância do petróleo e do ferro e um único
romance, O Presidente Negro, não alcançou a mesma
popularidade, mas ainda assim representa um divisor de águas
na literatura brasileira.
Os primeiros anos
Criado em fazenda, Monteiro Lobato foi
alfabetizado pela mãe Olímpia Augusta Monteiro Lobato e
depois por um professor particular. Aos sete anos, entrou
num colégio. Nessa idade descobrira os livros de seu avô
materno, o Visconde de Tremembé, dono de uma biblioteca
imensa no interior da casa. Leu tudo o que havia para
crianças em língua portuguesa. Nos primeiros anos de
estudante já escrevia pequenos contos para os jornaizinhos
das escolas que frequentou.
Aos onze anos, em 1893, foi
transferido para o Colégio São João Evangelista. Ao receber
como herança antecipada uma bengala do pai, que trazia
gravada no castão as iniciais J.B.M.L., mudou seu nome de
José Renato para José Bento, a fim de utilizá-la. No ano
seguinte, os pais o presentearam com uma calça comprida, que
usou bastante envergonhado. Em Dezembro de 1896 foi para São
Paulo e, em Janeiro, prestou exames das matérias estudadas
na cidade natal, mas foi reprovado no curso preparatório e
retornou a Taubaté.
Quando retornou ao Colégio Paulista,
fez as suas primeiras incursões literárias como colaborador
dos jornaizinhos Pátria, H2S e O Guarany, sob o pseudónimo
de Josben e Nhô Dito. Passou a coleccionar avidamente textos
e recortes que o interessavam, e lia bastante. Em Dezembro
prestou novamente os exames para o curso preparatório e foi
aprovado. Escreveu minuciosas cartas à família, descrevendo
a cidade de São Paulo. Colaborou com O Patriota e A Pátria.
Então, se mudou de vez para São Paulo, e tornou-se estudante
interno do Instituto Ciências e Letras.
No ano seguinte, a 13 de Junho de
1898, perdeu o pai, José Bento Marcondes Lobato, vítima de
congestão pulmonar. Decidiu, pela primeira vez, participar
das sessões do Grémio Literário Álvaro de Azevedo do
Instituto Ciências e Letras. Sua mãe, vítima de uma
depressão profunda, veio a falecer no dia 22 de Junho de
1899.
Tendo forte talento para o desenho,
pois desde menino retrata a Fazenda Buquira, tornou-se
desenhista e caricaturista nessa época. Em busca de
aproveitar as suas duas maiores paixões, decidiu ir para São
Paulo após completar 17 anos.
Seu sonho era a Faculdade de
Belas-Artes mas, por imposição do avô, que o tinha como um
sucessor na administração de seus negócios, acabou
ingressando na Faculdade do Largo São Francisco para cursar
Direito. Mesmo assim seguiu colaborando em diversas
publicações estudantis e fundou com os colegas de turma a
Arcádia Académica, em cuja sessão inaugural fez um discurso
intitulado: Ontem e Hoje. Lobato, a essas alturas, já era
elogiado por todos como um comentarista original e dono de
um senso fino e subtil, de um "espírito à francesa" e de um
"humor inglês" imbatível, que carregou pela vida afora. Dois
anos depois, foi eleito presidente da Arcádia Académica, e
colaborou com o jornal Onze de Agosto, onde escreveu artigos
sobre teatro. De tais estudos surgiu, em 1903, o grupo O
Cenáculo, fundado junto com Ricardo Gonçalves, Cândido
Negreiros, Godofredo Rangel, Raul de Freitas, Tito Lívio
Brasil, Lino Moreira e José António Nogueira.
Era anticonvencional por excelência,
dizendo sempre o que pensava, agradasse ou não. Defendia a
sua verdade com unhas e dentes, contra tudo e todos,
quaisquer que fossem as consequências. Venceu um concurso de
contos e o texto Gens Ennuyeux foi publicado no jornal Onze
de Agosto.
O advogado
Em 1904 diplomou-se bacharel em
Direito e regressou a Taubaté. No ano seguinte fez planos de
fundar uma fábrica de geleias, em sociedade com um amigo,
mas passou a ocupar interinamente a promotoria de Taubaté e
conheceu Maria Pureza da Natividade ("Purezinha"). Em Maio
de 1907 foi nomeado promotor público em Areias e casou-se
com Purezinha, a 28 de Março de 1908. Exactamente um ano
depois nasceu Marta, a primogénita do casal. Insatisfeito
com a vida bucólica de Areias, planejou abrir um
estabelecimento comercial de secos e molhados.
Em 1910 associou-se a um negócio de
estradas de ferro e nasceu o seu segundo filho, Edgar. Viveu
no interior e nas cidades pequenas da região, escrevendo
paralelamente para jornais e revistas, como Tribuna de
Santos, Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro e Fon-Fon, para
onde também mandava caricaturas e desenhos. Passou a
traduzir artigos do Weekly Times para o jornal O Estado de
São Paulo, e obras da literatura universal, também enviando
artigos para um jornal de Caçapava. Contudo, era visível a
sua insatisfação com a vida que levava e com os negócios que
não prosperavam.
No ano seguinte, aos 29 anos, Lobato
recebeu a notícia do falecimento de seu avô, o Visconde de
Tremembé, tornando-se então herdeiro da Fazenda de Buquira,
para onde se mudou com toda a família. De promotor a
fazendeiro, dedicou-se à modernização da lavoura e à
criação. Com o lucro dos negócios, abriu um externato em
Taubaté, que confiou aos cuidados de seu cunhado. Em 1912
nasceu Guilherme, o seu terceiro filho. Ainda insatisfeito,
mas desta vez com a vida na fazenda, planejou explorar
comercialmente o Viaduto do Chá, na cidade de São Paulo, em
parceria com Ricardo Gonçalves.
A fama
Em 12 de Novembro de 1914, o jornal O
Estado de São Paulo publicou o seu artigo Velha Praça. Era
véspera de Natal quando o mesmo jornal publicou um conto
daquele que mais tarde seria o seu primeiro livro, Urupês.
Na vila de Buquira, nessa mesma época, envolveu-se com a
política e logo a deixou de lado. Sua quarta e última filha,
Rute, nasceu em Fevereiro de 1916, quando iniciava
colaboração na recém fundada Revista do Brasil. Era uma
publicação nacionalista que agradou em cheio o gosto de
Lobato.
Somente em 1917 um fato definiria de
vez a sua carreira literária: durante o inverno seco daquele
ano, cansado de enfrentar as constantes queimadas praticadas
pelos caboclos, o fazendeiro escreveu uma "indignação"
intitulada Velha Praga, e a enviou para a secção Queixas e
Reclamações do jornal O Estado de São Paulo. O jornal,
percebendo o valor daquela carta, publicou-a fora da secção
que era destinada aos leitores, no que acertou, pois a carta
provocou polémica e fez com que Lobato escrevesse outros
artigos como, por exemplo, Urupês, dando vida a um de seus
mais famosos personagens, o Jeca Tatu.
Jeca era um grande preguiçoso,
totalmente diferente dos caipiras e índios idealizados pela
literatura romântica de então. Seu aparecimento gerou uma
enorme polémica em todo o país, pois o personagem era
símbolo do atraso e da miséria que representava o campo no
Brasil.
A partir daí, os fatos se sucederam: a
geada e as dificuldades levaram-no a vender a fazenda e a
partir com a família para São Paulo, com o intuito de
tornar-se um "escritor-jornalista". Fundou, em Caçapava, a
revista Paraíba, e organizou para o jornal O Estado de São
Paulo uma imensa e acalentada pesquisa sobre o saci.
Em 20 de Dezembro publicou Paranóia ou
Mistificação, a famosa crítica desfavorável à exposição de
pintura de Anita Malfatti, que culminaria como o estopim
para a criação da Semana de Arte Moderna de 1922. Muitos
passaram a ver Lobato como reaccionário, inclusive os
modernistas, mas hoje, após tantos anos, percebe-se que o
que Lobato criticava eram os "istmos" que vinham da Europa:
cubismo, futurismo, dadaísmo, surrealismo, que ele achava
que eram "colonialismos", "europeizações", assim como
ocorrera com os académicos das gerações anteriores.
Lobato era a favor de uma arte
devidamente brasileira, autóctone, criada aqui. Por isso
criticou Malfatti, embora admitisse que ela fosse talentosa.
Isso tudo gerou o estranhamento entre ele e os modernistas
mas, no fundo, todos eles tinham razão, apenas viam as
coisas de ângulos diferentes. Mesmo assim Oswald de Andrade
continuou a ser um profundo admirador de Lobato: quando
ocorrera a Semana de Arte Moderna, as provas de Urupês
ficaram dois dias em cima do sofá da garçonière onde Oswald
se encontrava com os amigos.
O editor
Em 1918, Monteiro Lobato comprou a
Revista do Brasil e passou a dar espaço para novos talentos,
ao lado de pessoas famosas. Tornou-se, dessa forma, um
intelectual engajado na causa do nacionalismo, a qual
dedicou uma preocupação fundamental, tanto na ficção quanto
no ensaio e no panfleto. Crítico de costumes, no qual não
faltava a nota do sarcasmo e da caricatura, de sua obra
elevou-se largo sopro de humanidade e brasileirismo. Nas
mãos de Monteiro Lobato, a Revista do Brasil prosperou e ele
pôde montar uma empresa editorial, sempre dando espaço para
os novatos e divulgando obras de artistas modernistas.
Lobato também foi precursor de algumas
ideias muito interessantes no campo editorial. Ele dizia que
"livro é sobremesa: tem que ser posto debaixo do nariz do
freguês". Com isso em mente, passou a tratar os livros como
produtos de consumo, com capas coloridas e atraentes, e uma
produção gráfica impecável. Criou também uma política de
distribuição, novidade na época: vendedores autónomos e
distribuidores espalhados por todo o país. Logo fundou a
editora Monteiro Lobato & Cia. com a obra O Problema Vital,
um conjunto de artigos sobre a saúde pública, seguido pela
tese O Saci Pererê: Resultado de um Inquérito.
Em julho de 1918, dois meses depois da
compra, publicou em forma de livro Urupês, com retumbante
sucesso e alcançando grande repercussão ao dividir o país
sobre a veracidade da figura do caipira, fiel para alguns,
exagerada para outros. O livro chamou a atenção de Rui
Barbosa que, num discurso em 1919 durante a sua campanha
eleitoral, reacendeu a polémica ao citar Jeca Tatu como um
"protótipo do camponês brasileiro, abandonado à miséria
pelos poderes públicos". A popularidade fez com que Lobato
publicasse, nesse mesmo ano, Cidades Mortas e Ideias de Jeca
Tatu.
Em 1920, o conto Os Faroleiros serviu
de argumento para um filme dirigido pelos cineastas António
Leite e Miguel Milani. Meses depois, publicou Negrinha e A
Menina do Narizinho Arrebitado, sua primeira obra infantil,
e que deu origem a Lúcia, mais conhecida como a Narizinho do
Sítio do Picapau Amarelo. O livro foi lançado em Dezembro de
1920 visando aproveitar a época de Natal. A capa e os
desenhos eram de Lemmo Lemmi, um famoso ilustrador da época.
Em Janeiro de 1921, os anúncios na
imprensa noticiaram a distribuição de exemplares gratuitos
de A Menina do Narizinho Arrebitado nas escolas, num total
de 500 doações, tornando-se um fato inédito na indústria
editorial. O sucesso entre as crianças gerou continuações:
Fábulas de Narizinho (1921), O Saci (1921), O Marquês de
Rabicó (1922), A Caçada da Onça (1924), O Noivado de
Narizinho (1924), Jeca Tatuzinho (1924) e O Garimpeiro do
Rio das Garças (1924), entre outros.
Tais novidades repercutiram em altas
tiragens dos livros que editava, a ponto de dedicar-se à
editora em tempo integral, entregando a direcção da Revista
do Brasil a Paulo Prado e Sérgio Millet. A demanda pelos
livros era tão grande que ele importou mais máquinas dos
Estados Unidos e da Europa para aumentar seu parque gráfico.
Porém, uma grave seca cortou o fornecimento de energia
eléctrica, e a gráfica só podia funcionar dois dias por
semana. Por fim, o presidente Artur Bernardes desvalorizou a
moeda e suspendeu o redesconto de títulos pelo Banco do
Brasil, gerando um enorme rombo financeiro e muitas dívidas
ao escritor.
Lobato só teve uma escolha: entrou com
pedido de falência em Julho de 1925. Mesmo assim não
significou o fim de seu projecto editorial. Ele já se
preparava para abrir outra empresa, a Companhia Editora
Nacional, em sociedade com Octalles Marcondes e, em vista
disso, transferiu-se para o Rio de Janeiro.
Os "produtos" dessa nova editora
abrangiam uma variedade de títulos, inclusive traduções de
Hans Staden e Jean de Léry. Além disso, os livros garantiam
o "selo de qualidade" de Monteiro Lobato, tendo projectos
gráficos muito bons e com enorme sucesso de público.
A partir daí, Lobato continuou
escrevendo livros infantis de sucesso, especialmente com
Narizinho e outros personagens, como Dona Benta, Pedrinho,
Tia Nastácia, o boneco de sabugo de milho Visconde de
Sabugosa e Emília, a boneca de pano.
Além disso, por não gostar muito das
traduções dos livros europeus para crianças, e sendo um
nacionalista convicto, criou aventuras com personagens bem
ligados à cultura brasileira, recuperando inclusive costumes
da roça e lendas do folclore.
Mas não parou por aí. Monteiro Lobato
pegou essa mistura de personagens brasileiros e os
enriqueceu, '"misturando-os" a personagens da literatura
universal, da mitologia grega, dos quadrinhos e do cinema.
Também foi pioneiro na literatura paradidática, ensinando
história, geografia e matemática, de forma divertida.
Em Nova York
Em 1926, Lobato concorreu a uma vaga
na Academia Brasileira de Letras, mas acabou derrotado. Era
a segunda vez que isso acontecia. Na primeira vez, em 1921,
iria concorrer á vaga de Pedro Lessa, mas desistiu antes da
eleição, por não querer fazer as visitas de praxe aos
académicos para pedir seus votos. Desta vez, estava
concorrendo à vaga do renomado jurista João Luís Alves. Na
primeira, recebera um voto no terceiro escrutínio, e, na
segunda, dois votos no quarto. Em artigo à imprensa, Múcio
Leão chegou a afirmar que esse "escritor de talento fora
duas vezes repelido". No mesmo ano saíram em folhetim os
livros O Presidente Negro (1926) e "How Henry Ford is
Regarded in Brazil (1926).
Depois, enviou uma carta ao recém
empossado Washington Luís, onde defendeu os interesses da
indústria editorial. O presidente, reconhecendo nele um
representante promissor dos interesses culturais do país,
nomeou-o adido comercial nos Estados Unidos, em 1927.
Monteiro Lobato mudou-se para Nova York e deixou a Companhia
sob a direcção de seu sócio, Octalles Marcondes Ferreira.
Entusiasmado com o progresso material que viu nos Estados
Unidos, passou a acompanhar todas as inovações tecnológicas
estadunidenses e fez de tudo para convencer o governo
brasileiro a propiciar a criação de actividades semelhantes
no Brasil. Com interesses voltados no que diz respeito às
questões de petróleo e ferro, planejou a fundação da Tupy
Publishing Company.
Em Nova York escreveu Mr. Slang e o
Brasil (1927), As Aventuras de Hans Staden (1927), Aventuras
do Príncipe (1928), O Gato Félix (1928), A Cara de Coruja
(1928), O Circo de Escavalinho (1929) e A Pena de Papagaio
(1930). As obras infantis que datam dessa época foram
publicadas no Brasil e reunidas num único volume, intitulado
Reinações de Narizinho (1931).
Foi para Detroit no ano seguinte e, em
visita à Ford e a General Motors, organizou uma empresa
brasileira para produzir aço pelo processo Smith. Com isso,
jogou na Bolsa de Valores de Nova York e perdeu tudo o que
tinha com a crise de 1929. Para cobrir suas perdas com a
quebra da Bolsa, Lobato vendeu suas acções da Companhia
Editora Nacional em 1930. Voltou para São Paulo em 1931 e
passou a defender que o "tripé" para o progresso brasileiro
seria o ferro, o petróleo e as estradas para escoar os
produtos.
O petróleo
Após implantar a Companhia Petróleos
do Brasil, e graças à grande facilidade com que foram
subscritas suas acções, Monteiro Lobato fundou várias
empresas para fazer perfuração de petróleo, como a Companhia
Petróleo Nacional, a Companhia Petrolífera Brasileira e a
Companhia de Petróleo Cruzeiro do Sul, e a maior de todas
(fundada em Julho de 1938) a Companhia Matogrossense de
Petróleo, que visava perfurar próximo da fronteira com a
Bolívia, país vizinho que já havia encontrado seu petróleo.
Com isso Lobato prejudicou os interesses de gente muito
importante na política brasileira, e de grandes empresas
estrangeiras. Começava a luta que o deixou pobre, doente e
desgostoso. Havia interesse oficial em se dizer que no
Brasil não havia petróleo. Tendo-os como adversários, passou
a enfrentá-los publicamente.
Por alguns anos, seu tempo foi
dedicado integralmente à campanha do petróleo, e a sua
sobrevivência garantiu-se pela publicação de histórias
infantis e da tradução magistral de livros estrangeiros,
como O Livro da Selva, de Rudyard Kipling (1933, O Doutor
Negro, de Arthur Conan Doyle (1934), Caninos Brancos (1933)
e A Filha da Neve (1934), ambos de Jack London, entre
outros. Teimava em dizer que era preciso explorar o petróleo
nacional para dar ao povo um padrão de vida à altura de suas
necessidades. Tentou, sem êxito, organizar uma companhia
petrolífera mediante subscrições populares.
Muitas dificuldades apareceram e,
mesmo assim, sua produção literária manteve-se e chegou ao
ápice. Em América (1932) publicou as suas primeiras
impressões sobre a luta na qual se engajara. Em seguida
vieram História do Mundo para Crianças (1933), Na
Antevéspera e Emília no País da Gramática (1934), na qual
defendia uma gramática normativa revisada. Meses depois, seu
livro História do Mundo Para Crianças sofreu crítica,
censura e perseguição da Igreja Católica.
Aceitou o convite para ingressar na
Academia Paulista de Letras e, com isso, apresentou um
dossiê de sua campanha em prol do petróleo, O Escândalo do
Petróleo (1936) [3], no qual acusava o governo de "não
perfurar e não deixar que se perfure". O livro esgotou
várias edições em menos de um mês. Aturdido, o governo de
Getúlio Vargas proibiu e mandou recolher todas as edições.
Em seguida, morreu Heitor de Moraes, seu correspondente e
grande amigo.
Com isso, criou a União Jornalística
Brasileira, uma empresa destinada a redigir e distribuir
notícias pelos jornais. Em Fevereiro de 1939 morreu
Guilherme, seu terceiro filho. Abalado, Monteiro Lobato
enviou uma carta ao ministro de Agricultura, que precipitara
a abertura de um inquérito sobre o petróleo. Recebeu convite
de Getúlio Vargas para dirigir um ministério de Propaganda,
mas Lobato recusou. Numa outra carta ao presidente, fez
severas críticas à política brasileira de minérios [4]. O
teor da carta foi tido como subversivo e desrespeitoso e
isso fez com que fosse detido pelo Estado Novo, acusado de
tentar desmoralizar o Conselho Nacional do Petróleo. Foi
condenado a seis meses de prisão, e permaneceu encarcerado
de Março a Junho de 1941.
Uma campanha promovida por
intelectuais e amigos conseguiu fazer com que Getúlio Vargas
concedesse o indulto que o libertaria, reduzindo a pena de
seis para três meses na prisão. Apesar disso, Lobato
continuou sendo perseguido e o governo fazia de tudo para
abafar suas ideias. Foi então que passou a denunciar as
torturas e maus tratos praticados pela polícia do Estado
Novo.
O fim
Mesmo em liberdade, Monteiro Lobato
não teve mais tranquilidade, e seu filho mais velho, Edgar,
morreu em Fevereiro de 1942, exactamente três anos depois do
falecimento de Guilherme.
Em 1943 foi fundada a Editora
Brasiliense por Caio Prado Júnior, que negociou com Lobato a
publicação de suas obras completas. Logo em seguida, por
ironia do destino, recusou a indicação para a Academia
Brasileira de Letras. Entretanto integrou a delegação
paulista do I Congresso Brasileiro de Escritores reunidos em
São Paulo, que divulgou, no encerramento, uma declaração de
princípios exigindo legalidade democrática como garantia da
completa liberdade de expressão do pensamento e
redemocratização plena do país.
Suas companhias foram liquidadas e a
censura da ditadura faz com que Lobato se aproximasse dos
comunistas, chegando a receber convite do PCdoB para
integrar a bancada de candidatos. Recusou, mas enviou uma
nota de saudação que foi lida por Luís Carlos Prestes num
grande comício realizado em 1945, no estádio do Pacaembu.
Meses depois foi publicado Nasino, edição italiana de
Narizinho, ilustrada por Vincenzo Nicoletti. Em maio A
Menina do Narizinho Arrebitado foi transformada em
radionovela para crianças pela Rádio Globo no Rio de
Janeiro.
Tornou-se director do Instituto
Cultural Brasil-URSS, mas foi obrigado a se afastar do cargo
em Setembro de 1945, quando foi levado para ser operado às
pressas de um quisto no pulmão. A entrevista que concedeu ao
Diário de São Paulo causou grande repercussão e, em 1946,
muda-se para Buenos Aires, na Argentina, "atraído pelos
belos e gordos bifes, pelo magnífico pão branco e fugindo da
escassez que assolava o Brasil", conforme declarou à
imprensa. Antes de partir, tornou-se sócio da Editora
Brasiliense a convite de Caio Prado Júnior que, na sua
editora, preparava as Obras Completas já traduzidas para o
espanhol e editadas na Argentina. Em Outubro fundou a
Editorial Acteon, com Manuel Barreiro, Miguel Pilato e Ramón
Prieto.
Voltou em 1947 por não se ambientar ao
clima local e, em entrevista aos repórteres que o aguardavam
no aeroporto, classificou o governo de Eurico Gaspar Dutra
de "Estado Novíssimo, no qual a constituição seria pendurada
(suspensa) num ganchinho no quarto dos badulaques". Dessa
indignação surgiu o seu último livro Zé Brasil, publicado
pela Editorial Vitória, em que Lobato mais uma vez
reelaborava o seu personagem Jeca Tatu, transformando-o em
trabalhador sem-terra e esmagado pelo latifúndio. Diante da
proibição das actividades do Partido Comunista em todo o
país, determinada pelo ministro da Justiça, escreveu A
Parábola do Rei Vesgo para um comício de protesto, lido e
aclamado pela multidão reunida no Vale do Anhangabaú, na
noite de 18 de Junho. O texto reflectia o desencanto de
Lobato com a democracia restritiva do general Dutra. Em
Dezembro foi a Salvador assistir a opereta Narizinho
Arrebitado. Lobato escreveria novo libreto para o
espectáculo, considerado a sua última criação infantil.
Publicou O Problema Económico de Cuba, também a sua última
tradução.
Em abril de 1948 sofreu um primeiro
espasmo vascular que afectou a sua motricidade. Mesmo assim,
afiliou-se à revista Fundamentos e publicou os folhetos De
Quem É o Petróleo na Bahia e Georgismo e Comunismo.
Dois dias após conceder a Murilo
Antunes Alves, da Rádio Record, a sua última entrevista,
Monteiro Lobato sofreu um segundo espasmo cerebral e faleceu
às 4 horas da madrugada, no dia 4 de Julho de 1948, aos 66
anos de idade. Sob forte comoção nacional, seu corpo foi
velado na Biblioteca Municipal de São Paulo e o sepultamento
realizado no Cemitério da Consolação.
Sua vida e sua obra ainda hoje servem
de inspiração e exemplo para milhares de crianças, jovens e
adultos do Brasil.
Disputa
Em 1996, os herdeiros de Monteiro
Lobato tomaram a iniciativa de sugerir à Editora
Brasiliense, até então detentora única das obras (conforme
acordo assinado entre Lobato e Caio Prado Júnior em 1945) a
reformulação dos livros e da colecção infantil, a fim de que
apresentassem um aspecto moderno com relação a ilustrações
coloridas e nova paginação.
Essas tentativas continuaram em 1997 e
fracassaram, simplesmente porque a editora não efectuou o
investimento necessário, continuando a publicar os livros
com ilustrações em branco e preto como fazia há décadas e
continuou a fazer. Com isso, desde 1998, a obra de Monteiro
Lobato virou centro de uma polémica entre a Brasiliense e os
herdeiros, que a acusam de negligenciar a obra. Há o desejo
de uma divulgação maior e edições melhores. Entre os
editores há o desejo de reciclar o texto dos livros.
São várias as acções movidas pelos
herdeiros contra a Brasiliense, como contrato de cessão a
terceiros (no caso à Editora Saraiva) e a publicação de um
livro falsamente atribuído a Monteiro Lobato, que a editora
intitulou Contos Escolhidos, sem autorização da família. Por
outro lado, a Brasiliense alega ter um contrato ad infinitum
assinado por Monteiro Lobato quando vivo.
Em Setembro de 2007, por meio de
acordo com os herdeiros, o STJ estabeleceu a rescisão
contratual definitiva e concedeu à Editora Globo os direitos
exclusivos sobre a obra de Monteiro Lobato, até 2018, ano em
que o legado do autor deverá entrar em domínio público, pois
se passarão 70 anos de sua morte.
Citações de Monteiro Lobato:
Erro pensar que é a ciência que mata
uma religião. Só pode com ela outra religião."
"Eu me acho capaz de escrever para os
Estados Unidos por causa do meu pendor para escrever para
crianças. Acho o americano sadiamente infantil."
"Tudo é loucura ou sonho no começo.
Nada do que o homem fez no mundo teve início de outra
maneira — mas já tantos sonhos se realizaram que não temos o
direito de duvidar de nenhum."
"Excelente senhora, a patroa. Gorda,
rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na
igreja e camarote de luxo reservado no céu. Entaladas as
banhas no trono (uma cadeira de balanço na sala de jantar),
ali bordava, recebia as amigas e o vigário, dando
audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora em suma
— “dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião
e da moral”, dizia o reverendo."
(Fonte: Conto Negrinha)
"Quem morre pelo seu país vive
eternamente."
"No Brasil subtrai-se; somar, ninguém
soma."
"O livro é uma mercadoria como outra
qualquer; não há diferença entre o livro e um artigo de
alimentação. (...) Se o livro não vende é porque ele não
presta".
Em entrevista à Rádio Record, em Julho
de 1948, reproduzida no jornal O Estado de São Paulo em
Julho de 1978.
"Tudo vem dos sonhos. Primeiro
sonhamos, depois fazemos."
Trabalho e pesquisa de Carlos Leite
Ribeiro – Marinha Grande – Portugal
