Queria que aquelas imagens desaparecessem
completamente de sua cabeça. Não se queria
lembrar do passado, mas não conseguia tirar
essa ideia do cérebro por mais que tentasse.
Em sua casa, chorava muitas vezes sozinha.
Nem as conversas banais com as vizinhas lhe
davam um pouco de alegria, nem a televisão,
que passava dias sem a ligar. Chegou a odiar
os sábados e os domingos, pois, durante a
semana embrenhava-se no seu trabalho e por
vezes nas conversas das colegas de trabalho.
Muitas vezes pensava no seu triste destino.
Tudo começou no Liceu e, desde os primeiros
dias, elegeu como seus amigos especiais o
Acácio Manuel e a Ernestina. Para ela eram a
sua companhia predileta, não só nas aulas,
como nas “escapadas” para irem ao cinema;
por vezes, até ao Domingo se encontravam.
O tempo foi passando e um belo dia o Acácio
apresentou a um amigo de ocasião, a Mariana
como sua “namorada”. Esta ficou muito
admirada com esta apresentação de
“namorada”, e mais tarde perguntou-lhe:
Mariana: Olha lá, Acácio, eu sou tua
namorada?!
Acácio: Pois claro que és, e desde o
primeiro dia que te conheci!
Ela limitou-se a sorrir. Mais tarde deu a
notícia à Ernestina, que ficou muito
admirada, limitando-se a balbuciar: “Sempre
pensei que era eu a escolhida…”.
Quando terminaram o Liceu, casaram-se e tudo
parecia correr às mil maravilhas. Até que…
A Mariana e a Ernestina trabalhavam na mesma
empresa de exportações; o Acácio trabalhava
num escritório de contabilidade.
Algum tempo depois, Mariana começou a notar
que a sua colega Ernestina todas as semanas
pedia uma tarde, alegando “estar muito
mal-disposta”. Até aí…
Numa dessas tardes, para tratar qualquer
assunto, telefonou para o escritório onde o
marido trabalhava, e de lá responderam que o
“Acácio” tinha ido para casa com uma grande
enxaqueca. À noite e já em casa, perguntou
ao marido se estava melhor da “enxaqueca”. A
resposta foi que tinha dado aquela desculpa
para poder ir ao banco tratar de uns
assuntos. A Mariana limitou-se a encolher os
ombros.
Na semana seguinte, a mesma cena: A
Ernestina “mal-disposta” e o Acácio com
“enxaqueca”. Talvez o seu sexto sentido a
avisasse que devia ir naquele momento a
casa. Deu uma desculpa ao seu chefe e lá foi
a caminho de sua casa. Com todo o cuidado,
meteu a chave na fechadura da porta e entrou
em casa sem fazer ruídos. Dirigiu-se ao seu
quarto que tinha até a porta entreaberta, e
ao abri-la, não gostou do que viu: o seu
marido com a sua melhor amiga. Ficou como
petrificada. Quando recuperou, saiu a correr
de casa, meteu-se dentro do carro, e andou,
andou nem sabe por onde.
Apesar dos sucessivos e pungentes pedidos de
desculpas do marido, não lhe perdoou, e o
divórcio deu-se.
Foi trabalhar numa sucursal da empresa, mas
em outra terra…

OH!... DESTINO…
O Setembro estava a findar e com ele as
primeiras chuvadas. Naquele dia até
trovejava e o ar estava um pouco frio.
Como os relâmpagos sempre lhe causaram
pavor, entrou no primeiro lugar que lhe
parecia oferecer mais segurança, e que, por
acaso, era o restaurante Grill que por vezes
costumava frequentar. Era um restaurante
considerado popular, quase sempre cheio à
hora do almoço.
Os trovões continuavam cada vez mais fortes
e os relâmpagos espalhavam raios
eletrizantes em todas as direções,
projetando uma luz intensa por toda a
cidade. Era realmente uma tempestade
assustadora. Tinha na altura 28 anos.
Recordando: “Aguardava que me servissem o
almoço, quando um belo moço assomou à porta.
Hesitou, mas por fim resolveu entrar. Como
as outras mesas estavam ocupadas, dirigiu-se
à minha e, delicadamente, perguntou:
- Dá-me licença que me sente, pois as outras
mesas estão ocupadas?
Ele não era uma daquelas figuras que os
gregos descrevem, mas era simpático, embora
tivesse nos seus belos olhos
castanhos-escuros, uma tristeza profunda. Eu
não costumava compartilhar com estranhos os
meus "solenes" momentos das refeições e
detestava quando alguém tentava invadir a
minha privacidade, mas, percebendo que não
havia outro lugar desocupado, secamente,
respondi-lhe:
- Sim, pode sentar-se…
Ele agradeceu e, calmamente, sentou-se.
Comecei a sentir algo diferente em mim, mas
logo afastei qualquer ideia da minha mente.
Ele também não se mostrava muito à vontade,
embora intimamente me estivesse a admirar
(intuição feminina...). Eu fingia que não o
estava observando, mas, volta - e - meia,
descobria um ou outro detalhe interessante
no meu imposto companheiro de mesa que
naquela altura já saboreava um vinho tinto
como se fosse a bebida mais saborosa do
mundo. Olhando de vez em quando, de relance,
percebi que era charmoso, muito bem cuidado.
Além dos olhos castanhos e amendoados, tinha
traços de pessoa fina, enfim, não deixava de
ser um homem muito interessante.
Por fim, começou por perguntar se o comer
era bom naquele restaurante; depois, se o
meu marido não se importava que a esposa
estivesse à mesa com outro homem, etc., etc.
Respondi-lhe que não era casada, mas sim
completamente livre. Ele pareceu ter ficado
mais calmo e menos tímido. De início, eu não
me senti à vontade com o rumo que a conversa
estava tomando, e fiquei nervosa ao perceber
que algumas pessoas conhecidas estavam nos
lançando olhares atravessados, imaginando
não sei o quê... Como em cidade pequena
quase todas as pessoas se conhecem, no
mínimo estavam censurando a minha "prosa"
forçada com um cavalheiro desconhecido.
Contudo, depois de algumas frases trocadas,
fiquei mais descontraída e até fiz algumas
indagações de somenos importância.
Entretanto, começámos a almoçar e ele
aproveitou para me ir dizendo que era aluno
de Engenharia de Máquinas, mas por vários
motivos não podia terminar o curso, sendo o
principal o facto de uma moça que ele amava
e já namorava há anos, o ter traído. Até
parecia que se estava a confessar! Comecei a
pensar:
"Este quer cantar-me a "canção do bandido",
mas comigo vem de carrinho e para lá vai de
carroça! Ainda tenho em mente o que sofri
anteriormente"
Sorri. O que deve ter desencorajado o meu
belo interlocutor, que, delicadamente, se
despediu, levantou-se e foi-se embora,
depois de ouvir pacientemente eu dizer, num
gesto de amizade, que lamentava
profundamente o que havia acontecido com
ele, que o que lhe aconteceu poderia
acontecer com qualquer pessoa e que a minha
história não era muito diferente. Comigo,
havia acontecido coisa pior, porque eu tinha
sido "trocada" pela minha “melhor amiga", o
que tornava a traição muito mais dolorida.
Mas, embora eu não quisesse admitir, fiquei
muito dececionada com aquela despedida algo
apressada, que mais me parecia uma fuga.
Fiquei ainda alguns minutos a pensar naquilo
que tinha acontecido naquele almoço. Mas a
vida tinha de continuar e eu tinha de entrar
a horas no escritório. Tinha muitos
trabalhos para fazer no computador.
Realmente, precisava voltar ao trabalho e
aceitar a minha realidade: a solidão.
Numa cidade pequena há sempre uma escassez
muito grande de verdadeiros cavalheiros
disponíveis e, querendo ou não, eu tinha que
continuar levando a minha vidinha pacata e
sem grandes perspetivas.
Durante muitos dias ainda alimentei a
secreta esperança que ele aparecesse, mas em
vão. Já fazia muito tempo que tinha chegado
à conclusão que ele tinha uns belos olhos
castanhos-escuros. Mas ele nunca mais
apareceu e a minha vida continuou a ser o
que tinha sido até aí: emprego – casa –
emprego – casa.
De quando em vez ia ao cinema, mas numa
localidade pequena é sempre difícil arranjar
divertimentos. Por vezes mergulhava-me na
Internet, horas e horas, sem saber bem o que
queria navegar, o que me interessava
procurar. Nem sabia o nome daquele “intruso”
que tinha entrado na minha vida sem ele
próprio o saber.
Mas aquele homem... Aquele homem não saía da
minha cabeça... Era tão forte a presença
dele no meu pensamento que parecia que eu já
o conhecia há muitos anos. Era uma espécie
de "namorado virtual". O namorado que era na
minha mente sem nunca ter sido.
O tempo foi passando. Já estava perdendo a
esperança de reencontrá-lo e cada dia ficava
mais dececionada comigo mesma por perder
tanto tempo esperando por um milagre que,
talvez, nunca acontecesse.
No ano seguinte, como é óbvio, o Setembro
voltou.
Estava um dia esplendoroso, com muito sol e
uma temperatura agradável. Como
habitualmente, eu estava sentada na mesma
mesa, do mesmo restaurante, em que pela
primeira e última vez o tinha encontrado.
Pensava nele...
Pensava como seria maravilhoso se ele
estivesse ali à minha frente, mesmo que
fosse só para mostrar os seus olhos
castanhos com aquela tristeza quase
indecifrável. E, de vez em quando, me
perguntava como uma mulher podia trair um
homem como aquele, elegante, de traços
finos, cavalheiro, e que, mesmo não sendo um
" bonitão " , tinha uns olhos castanhos tão
lindos, tão expressivos, apesar da tristeza
que tentava ofuscar todo o seu brilho.
Quando…
"OH!... Destino!... Tu por vezes fazes
coisas maravilhosas..." De repente, como num
toque de magia, ouvi uma voz que me parecia
familiar, olhei de relance, e quase sem
acreditar no que via, dialoguei
imaginariamente com o meu Destino, e o meu
coração pulsou mais forte quando tive a
certeza de que era ele mesmo.
Entrou no restaurante e, assim que me viu,
dirigiu-se logo para a mesa onde eu estava
sentada. Aproximou-se de mim e, como se
quisesse contar um segredo, foi logo me
dizendo:
- Não acredito que um ano depois, você
esteja sentada no mesmo lugar, no mesmo
restaurante, e parecendo a mesma "garotinha"
assustada que eu conheci aqui, sem esse
sorriso lindo estampado no rosto, como tem
agora. E encostando-se em mim quase
ousadamente, perguntou-me tentando parecer
engraçadinho:
- Por acaso tínhamos marcado alguma
comemoração um ano depois do nosso primeiro
encontro?
Sorrimos, parecendo velhos amigos, e ficámos
rindo como duas crianças que apreciavam as
mesmas brincadeiras. Desta vez nem pediu
licença, sentou-se logo. E logo senti um
enorme desejo que ele me contasse todas as
"histórias de bandido que ele conhecesse". E
que me conhecesse melhor... Mas ele
limitou-se a contar que tinha emigrado para
o Rio de Janeiro para refazer a vida, mas
que nunca me tinha esquecido. Eu nem podia
dizer que não acreditava, porque parece que
ele estava em todas as coisas bonitas que eu
via, e embora eu ainda não soubesse nem o
seu nome, eu não o havia esquecido em
momento algum e, para falar a verdade,
estava ali quase chorando de tanta
felicidade.
Foi nesse dia, um ano depois de nos termos
encontrado, que tivemos oportunidade de
revelar os nossos verdadeiros nomes: ele
João e eu Mariana.
Hoje, estou aqui emocionada, sentada no
mesmo lugar, do mesmo restaurante, a pensar
naqueles belos olhos castanhos que um dia me
apareceram e que modificaram completamente a
minha vida. Alguns anos se passaram, mas
para nós parece que o tempo não passou,
porque parecemos eternos namorados. João
trabalha numa cidade vizinha onde moram seus
pais, mas não deixa de voltar para casa
todos os dias porque nos amamos muito e não
podemos ficar separados muito tempo porque
sentimos muita falta um do outro. Por isso,
até hoje, agradecemos a Deus por aquele dia
de temporal em que nos conhecemos. Sou
casada com ele. Temos dois filhos amorosos
e, para o fim deste ano espero ter o
terceiro. A nossa vida em comum cada dia se
torna mais bonita. Temos gostos e génios
bem-parecidos, e naquilo em que não
combinamos, respeitamos mutuamente as nossas
diferenças. Nossos filhos são o Leonardo e o
Telmo.
O terceiro e último, terá o nome de Miguel,
que talvez venha ao mundo no próximo dia 25
de Dezembro. Já escrevemos ao Pai Natal para
que não se esqueça de lhe mandar uma prenda.
Lembro-me das palavras de minha avó: “A
Felicidade é como a Fortuna, vem na hora e
se não é aproveitada, vai-se logo embora”
OH!... DESTINO…
Conto de Carlos Leite Ribeiro – Marinha
Grande - Portugal