GRANDES ENTREVISTAS

por

 

ENTREVISTADA

Carmo Vasconcelos

(Carminho)

(Maria do Carmo Fernandes de Vasconcelos Figueiredo Merca)

 

 

 

 

 

 

 

 

Depois de vários telefonemas para encontrar um local para a entrevista, eu e a entrevistada chegámos a acordo que o melhor, seria a bela Serra de Sintra. Combinámos o dia e o local do encontro que seria a Estação do Rossio. Depois de esperar mais de uma hora, chegou por fim a Carminho, toda atarefada com duas mochilas (uma maior do que outra).
Carmo: - Desculpa Carlos, mas atrasei-me um pouco (?) pois estive a cozinhar um petisco para o nosso almoço e lanche. Sei que me compreendes…?
Carlos: - Compreendo – pensando: “O que um homem sofre a esperar por uma mulher…
Como uma pequena vingança pelo tempo que tive de esperar, comprei dois bilhetes de segunda classe, o que a entrevistada estranhou, e eu respondi-lhe: - Vamos em classe “turística…”. Sorriu e convidou-me a levar a mochila maior (e mais pesada). Ainda tentei protestar; mas ela começou a andar e mal me respondeu: “Não és tu o cavalheiro?”
Enquanto esperávamos pela chegada do comboio (trem), pedi à entrevistada que falasse da terra onde mora, o que ela não se fez rogada e começou a descrever:

 


 
"Actualmente moro na cidade e concelho de Odivelas (Portugal). Mas a minha cidade será sempre aquela em que nasci. A minha amada Lisboa.
A origem do nome Odivelas está como o nome de tantas outras freguesias e concelhos de Portugal, envolto numa lenda que perdura pelos séculos.
A propósito do nome desta cidade, conta-se que D. Dinis tinha o hábito de deslocar-se à noite a Odivelas onde se encontrava regularmente com raparigas do seu agrado. Certa noite, sabendo a rainha do que se passava resolveu esperá-lo e quando o rei fazia o seu percurso para o encontro, a rainha interpelou-o e eis que proferiu as seguintes palavras:
" Ide vê-las senhor…"
Afirma-se que de "Ide vê-las", por evolução, teria surgido o nome Odivelas.
Os filólogos dão porém, outra explicação: a palavra compõe-se de dois elementos: "Odi" e "Velas". A primeira é de origem árabe e significa "curso de água". A segunda é de origem latina e refere-se às velas dos moinhos de vento, que existiram nos outeiros próximos e dos quais podemos ainda ver vestígios. O curso de água ainda se mantém hoje. Os dólmens das Pedras Grandes e das Batalhas, na Freguesia de Caneças, o Castro da Amoreira na Freguesia da Ramada, os vestígios romanos encontrados na Póvoa de Santo Adrião, os achados árabes no subsolo da Paiã, na Freguesia da Pontinha, confirmam o território como uma zona fértil e agradável, onde, ao longo dos séculos, o Homem sempre se comprazeu em viver. Mas o «motor de arranque» do desenvolvimento da região parece ter sido o Rei D. Dinis, ao decidir erguer em Odivelas um Mosteiro, onde uma plêiade de cultas freiras se fez ouvir para além das grades, quer pelos seus célebres outeiros, quer pelos livros que escreveram, ou ainda, atraindo, ao Mosteiro e às suas imediações, reis, príncipes e artistas.
É no Paço de Odivelas, em 1415, que D. Filipa de Lencastre, já no leito de morte, abençoa os três filhos mais velhos (D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique) que partem dali, a cavalo, em direcção ao Restelo, onde embarcam para Ceuta. É no Convento que se representa pela primeira vez, em 1534, o «Auto da Cananeia», de Gil Vicente, encomendado pela abadessa Violante, irmã de Pedro Álvares Cabral. Enquanto isso, multiplicam-se férteis quintas na Pontinha (na Paiã chegou a haver um cais para escoar os víveres para Lisboa), na Póvoa de Santo Adrião, e em Caneças. Os seus proprietários, de uma forma ou de outra, surgem amiúde ligados à cultura. É o caso do pintor Vieira Lusitano que foi o centro de uma romântica e atribulada história de amor com uma das filhas dos donos da Quinta dos Falcões, na Pontinha. Anos depois, será a Póvoa de Santo Adrião a ter como proprietário de uma das suas quintas, o pintor Pedro Alexandrino que não só deixou algumas obras na igreja local, como as espalhou por Lisboa - na Sé, no Palácio de Queluz, no Museu dos Coches.
O Padre António Vieira fez um dos seus sermões no Convento de Odivelas, a 22 de Junho de 1668. Almeida Garrett ocupa o preâmbulo da «Lírica de João Mínimo» com uma descrição de um passeio ao Convento, entrecortada por várias dissertações sobre poesia.
A área do atual concelho de Odivelas foi afectada pelo fenómeno de sobre urbanização. Entre 1950 e 1970, a população da freguesia odivelense passou de 6772 para 51 395 habitantes. O concelho surge em 1998, em consequência da secessão das sete freguesias da então zona sudoeste do concelho de Loures. A partir de 27 de Março de 2004, a cidade passou a estar ligada a Lisboa através da rede de metropolitano, com o prolongamento da Linha Amarela desde o Campo Grande, possuindo estações no Senhor Roubado e em Odivelas, estando prevista no futuro a sua extensão até Loures. Social e culturalmente também se desenvolveu, tendo na sua área limítrofe, Escolas, Liceus, Ginásios, Grandes Superfícies Comerciais, Cinemas, Biblioteca, e o Centro Cultural Malaposta, que alberga um Teatro, Salas de Exposições de Arte, e Espaços para Eventos e convívios poéticos e literários".
Entretanto, o comboio chegou, e para começo da entrevista, já com o comboio a caminho de Sintra, fiz-lhe duas perguntas.
Carlos: - Carminho, quando eras criança ...?
Carmo: - Fui uma criança como tantas outras do meu tempo. Viva, curiosa, alegre, engenhosa e um tanto rebelde.
Carlos: - Como foi a tua juventude...? 
Carmo: - A minha juventude foi um tempo feliz. Éramos uma grande família, que se reunia sempre na minha casa (a casa-mãe) a pretexto de todas as datas festivas, num ambiente alegre e caloroso. Única menina entre 4 irmãos machos, era a menina na mão das bruxas. Apesar das várias turbulências familiares (entre elas, a doença terrível e a passagem para o além de um dos meus irmãos com apenas 19 anos, as partidas sucessivas dos mais velhos para cumprirem os serviços militares em Macau e na Índia) fui seguindo o meu percurso, estudando, namorando, e me divertindo muito. Sempre fui intrinsecamente alegre, brincalhona, e adorava dançar. Era o tempo dos “assaltos”, assim se chamavam as festas que se faziam nas casas particulares, ao som de um velho “pick-up”, e com as merendas que cada um levava, regadas a “cup” (bebida com frutas diversas, gasosa e gelo picado). Fora de casa, era o cinema, o teatro, as férias na praia ou no campo, os bailes nas Casas Regionais e Clubes familiares. A par disso, tive a sorte de ter à minha disposição, (em casa de familiares próximos) 2 bibliotecas fartamente recheadas, que eram o meu refúgio predilecto. Enfim, um tempo feliz que eu desejo muito que a memória não me roube. 
Carlos: - E agora, como te auto-defines?
Carmo: - Direi que me defino como uma eterna amante da palavra. Todas as suas direcções me fascinam. Em quase todas as suas vertentes me movo – a poesia, a prosa, a tradução, a revisão literária, algumas conferências. Porém, não me considero “expert” em nenhuma delas. Sou uma geminiana nata que, na curiosidade e na sede de saber, se dispersa muito. Mas onde melhor me exteriorizo e onde me entrego mais completamente, é na Poesia. Fora dos aspectos literários, sou uma mulher como tantas outras, que dedicou a maior parte da sua vida simultaneamente à vida profissional e à família, como filha, irmã, esposa (agora viúva), mãe e avó. Só depois de viúva e aposentada, me dediquei à escrita. Eterna estudante do misticismo – membro da ordem Rosacruz – acredito que a Vida é uma dádiva Divina que merece ser respeitada, vivida e enfrentada com muito amor e coragem, entre alegrias e mágoas. Intrinsecamente, sou uma positivista e de uma alegria quase sempre inabalável, pois tudo entrego nas mãos de Deus e da justa Lei do Karma. Ainda literariamente: caminho na senda, ciente de que a palavra tem de ser cultivada e alimentada como uma flor rara e sensível que Deus pôs nas nossas mãos como privilégio e instrumento, e, porque ela é poderosa, indutora e influenciadora, devemos usá-la com oportunidade e prudência, elevada aos puros ideais de justiça, solidariedade, fraternidade e amor, não a medindo pela quantidade, mas sim pela qualidade.
Chegados à estação ferroviária de Sintra, cortámos à esquerda e depois à direita até ao belo edifício da Câmara Municipal de Sintra, entrando na chamada Curva do Duche. Andando uns metros, a Carminho viu ao longe uma casa de queijadas (especialidade de Sintra) e logo exclamou:
- “Carlos, eu quero queijadas!”. Encolhi os ombros e nem lhe respondi: Dentro da loja, a entrevistada perguntou-me: “Não queres comprar um pacote de queijadas?”. Com grande calma, respondi-lhe: “Já que insistes tanto, vou comprar dois pacotes, embora não seja guloso”. Ela atirou uma gargalhada, dizendo: -“Ainda bem! Pois assim, tenho direito a mais meio pacote!”.
Prosseguindo o caminho, entrámos no Parque da Liberdade, que atravessámos saindo noutro portão que fica mais acima, cortando à esquerda passando pela Fonte da Sabuga (onde a Carminho tirou da mochila 4 cantis – da minha mochila, pudera. Depois de cheios, voltou a colocá-los no mesmo sítio…)

Mais adiante, cortámos à direita e aí começam as dificuldades da subida. Passamos a uma velha igreja e logo à direita entrámos na mata (subida muito íngreme). Ainda lhe perguntei se ela queria continuar a entrevista e a resposta foi um rotundo: “NÃO!!!”.
Passando uma porta giratória em madeira, a subida torna-se quase suave. Mais adiante, encontrámos o grande penedo que foi cortado para repouso das cinzas do escritor Ferreira de Castro, o célebre escritor de "A Selva".


Aí sentámos num banco de pedra e recomeçámos a entrevista.
Carlos: - Qual a característica que mais aprecias em ti?
Carmo: - Gosto de mim, com todas as características que me são próprias. O que é um bom princípio para amar a humanidade.
Carlos: - E nos outros?
Carmo: - Nas mulheres, aprecio a inteligência, a sensibilidade, a discrição, a elegância de comportamento. Nos homens: a inteligência, o sentido de humor, a sensibilidade e a capacidade de diálogo.
Carlos: - Qual foi o maior desafio que aceitaste até hoje?
Carmo: - Enfrentei bastantes. Mas, os maiores foram dois desafios que tomei como vindos do nosso Deus Criador: Ter um segundo filho aos 41 anos, contra a opinião de todos que achavam que era uma loucura. E, em simultâneo, enfrentar a doença neuro/psicológica do meu filho mais velho, à data adolescente, e que durou longos anos. Graças a Deus, ambas as provas foram superadas.
Depois de comer o seu pacote de queijadas, a Carminho começou a comer um dos meus… Com certo custo, no dizer da entrevistada, continuámos a subir até à entrada do Portão do Castelo dos Mouros. Na parada encontrámos um grande poço que dá para uma cisterna que servia também de prisão - ainda se vêm as grisetas chumbadas na parede e as ruínas dos estábulos. Subimos as muralhas até às ameias; são cerca do 120 metros a bom subir. A meio da subida, a Carminho pediu-me para descansar um pouco. Respondi-lhe: “São mais uns metros até chegarmos à Torre de Menagem e lá vamos descansar uns minutos”. E lá fomos, penosamente subindo até cimo. De lá avista-se, de certo modo longe, o Convento de Mafra, Azenhas do Mar, Praia das Maçãs, Várzea e muitas quintas e palácios.


Descansámos um pouco antes de continuarmos a entrevista, enquanto a entrevistada comia as restantes queijadas.
Carlos: - O arrependimento mata?
Carmo: - Ainda não morri, sinal de que não tenho arrependimentos… (risos) – Como diz “O Rei”:  “Se chorei, ou se sofri, o importante é que emoções eu vivi!”
Carlos: - Qual a personagem que mais admiras?
Carmo: - O Mestre Jesus, o Cristo.
Carlos: - De que mais te orgulhas?
Carmo: - Da minha capacidade de ultrapassar desgostos, desilusões, carências, e os vários escolhos do caminho. Para mim, “amanhã é sempre um novo dia”.
Perguntei-lhe se estava cansada e a resposta foi: “Claro que não estou. Sempre gostei de andar a pé…”. E continuámos o nosso caminho, que ela considerou: “Uma grande excursão a pé”. Mal sabia ela que nem metade do percurso tínhamos feito.
Saímos do Castelo por onde tínhamos entrado e passando por outra porta rolante de madeira, entrámos na estrada que levava à entrada do Parque da Pena. Seguimos pela estrada à esquerda que, por sua vez, nos levaria até à entrada do portão de acesso ao Palácio da Pena, que, infelizmente, estava encerrado para manutenção e só abria três horas depois. Só pudemos visitar os terraços exteriores desse maravilhoso palácio. Descemos, depois, ao parque de estacionamento até a uma estreita estrada que nos levou até à Cruz Alta.
 


No percurso, encontrámos à direita um parque de merendas com várias mesas em pedra. A Carminho perguntou logo se era ali que íamos almoçar. Respondi-lhe que sim, mas antes íamos visitar a Cruz Alta, que é um lugar muito bonito e lá de cima, até parece que temos a nossos pés a linda Cascais, o Estoril e o areal do Guincho. Também se vê a foz do rio Tejo, em forma de delta e, mais ao longe, já na margem esquerda, a cidade de Almada, Trafaria, Costa da Caparica e, lá muito ao fundo, os contrafortes da Serra da Arrábida. A entrevistada tirou da sua mochila uma caixa de chocolates que logo começou a comer. Disse-lhe que também queria; começou a contar os bombons e dos seis, disse-me que dois eram para mim. Pensei como os nossos amigos brasileiros: “Ainda hoje mato você!”. E continuei: "Já começo a ter dor de cabeça". A entrevistada logo respondeu (tem sempre resposta na ponta da língua): "Olha que é muito bom teres dores de cabeça. Conheço uma pessoa que tinha constantemente dores de cabeça e por isso cortaram-lha. Nunca mais teve dores de cabeça!". Ainda pensei em responder, mas limitei-me a encolher os ombros para não alimentar mais aquela discussão. E decidi que era melhor continuar com a entrevista.
Carlos: - Para ti, qual é o cúmulo da beleza?
Carmo: - A Natureza que nos rodeia, como um todo. Em pormenor: o riso e a ingenuidade de uma criança; uma nesga de sol; um raio de luar; um arco-íris, o brilho duma estrela, a crista duma onda, um gesto de amor.
Carlos: - E da fealdade?
Carmo: - Um olhar de ódio; a mão que agride; a palavra que fere; a humilhação do mais fraco; o desprezo pelo necessitado.
Carlos: - Que vício gostarias de não ter?
Carmo: - Gosto de todos os meus vícios. (mais risos)
Carlos: - As piadas às louras são injustas?
Carmo: - Claro que são injustas, até porque muitas louras são morenas disfarçadas…
Carlos: - O teu prato preferido é...?
Carmo: - Um cozido à Portuguesa; um bacalhau à Gomes de Sá, um arroz à Valenciana, etc.
Carlos: - E a tua bebida preferida?
Carmo: - Um vinho rosé à refeição, e mais tarde, um irish-coffee.
No regresso da Cruz Alta, fomos então almoçar ao parque das merendas já referido. Disse-me que ia fazer-me uma grande surpresa. E fez. Imaginem que ela tirou, de uma caixa pastéis (bolos) de bacalhau; de outra caixa, arroz de tomate; doutra, peixinhos da horta (feijão verde albardados com farinha e ovo); e ainda doutra caixa, “jaquinzinhos” fritos (carapaus pequeninos). Além de uma salada de alface e de um pudim não sei de quê mas muito saboroso. Também levou 2 garrafas de vinho rosé. Olhei para elas e perguntei se era uma garrafa só para mim. Olhou-me fixamente e, secamente, disse-me: “Não gosto nada de piadas… É uma para cada um! Mas já te digo que conto beber metade da tua ..."
Durante o belíssimo lanche, continuámos a entrevista.
Carlos: - A tua melhor qualidade?
Carmo: - Bom, aquilo que chamamos de qualidades e defeitos, não são mais do que características pessoais de cada um e sempre relativas ao olhar de quem nos observa. Se não forem bem administradas, as “qualidades” podem virar defeitos e os “defeitos” se bem aplicados até podem tornar-se qualidades. Poderia dar aqui exemplos, mas não quero alongar-me. Tudo está no equilíbrio de ambos e na forma como são usados.
Quanto às minhas “qualidades” poderia dizer, modestamente, que deixo isso para os outros analisarem, mas não estaria a ser verdadeira. Eu submeto-me constantemente a auto-análise, numa tentativa de me entender a mim própria e, consequentemente, entender o semelhante. Então, eu sei que sou leal, sincera, positivista, bem-humorada, e tenho uma enorme capacidade de entrega, no amor e na amizade. Do ponto de vista profissional, considero-me metódica, organizada, e responsável, com uma certa dose de perfeccionismo. 
Carlos: - E o teu maior defeito?
Carmo: - Usando dos mesmos argumentos que usei na pergunta anterior, talvez os meus maiores “defeitos” sejam: o orgulho e a dificuldade em perdoar traições e ingratidões (sinal de que ainda preciso de minimizar o Ego). Sob um ponto de vista mais prático: a dispersão de interesses e objectivos (na tentativa da absorção do todo), a falta de ambição, o desprezo pelos bens materiais, e o não gostar de seguir padrões e normas impostos.
Carlos: - Teus passatempos preferidos?
Carmo: - O que antigamente era a leitura e a música, vejo agora substituído pela Internet – onde posso desfrutar da leitura, da minha escrita, de toda a espécie de música e vídeos, de pesquisa e de conhecimento mais alargado a vários níveis. Fora de casa, um bom filme ou peça de teatro, uma sessão de poesia ao vivo, uma noite de fados, uma ópera, um ballet, ou simplesmente um passeio ao campo ou à praia, tudo isso me encanta.   
Depois daquele saboroso almoço (ou piquenique) prosseguimos até à Fonte dos Passarinhos, lugar muito romântico, onde os apaixonados quase são transportados para “mundos (pensamentos) maravilhosos”. Neste local, podemos admirar pequenos e graciosos lagos; e fetos (alguns espécimes únicos na Europa) e árvores de formas esquisitas, uma das quais sugere um cavalo com enorme pescoço. Na Fonte dos Passarinhos fizemos mais um pouco da entrevista.
 


Carlos: - Que género de filme daria tua vida?
Carmo: - Um misto de aventuras e melodrama, com muito amor pelo meio.
Carlos: - Uma imagem do passado que não queres esquecer no futuro?
Carmo: - A minha infância e adolescência.
Carlos: - O dia começa bem se...?
Carmo: - Se dormi bem, e se todos os que amo estão em paz.
Carlos: - Que influência tem em ti a queda da folha e a chegada do frio?
Carmo: - Faz parte dos ciclos da vida e da natureza. Tento adaptar-me à mudança, sabendo que é apenas um ciclo provisório e logo chegará a Primavera, minha estação preferida.
Carlos: - Como vais de amores?
Carmo: - Não me posso queixar… (rindo) – Sobretudo, o meu grande amor pela dádiva divina da vida; o meu amor pela poesia; o amor dos filhos, e do meu amado neto; de alguns amigos leais, também. Quanto aos outros amores, como dizia o Poetinha: “Que seja eterno enquanto dure”. Na minha já longa idade, tive “grandes amores”, graças a Deus! E ainda mantenho a capacidade de me apaixonar, pois sou uma apaixonada por natureza. E o último é sempre o melhor!
Descendo uma alameda, encontramos junto a três lagos, a estátua e o busto em bronze do rei D. Fernando II, e no meio do lago maior que fica junto à estrada principal, numa pequena ilhota, uma torre acastelada que simboliza a “Ilha dos Amores” (Camões). Depois de subirmos uma ligeira rampa do lado oposto aos lagos, chegámos ao local onde outrora existiu O Palácio da Condessa (o grande amor de D. Fernando II, condessa D’Della, ) que soube há pouco tempo que tinha ardido, estando agora em ruínas.
 


E seguimos até ao Convento de Santa Cruz dos Capuchos, que fica num maravilhoso cenário da Natureza, difícil de descrever, mas que teria decerto sido inspirado nos jardins do Éden. Foi mandado construir em 1560, por D. Álvaro de Castro, em seguimento de um voto de seu pai, o grande vice-rei da Índia, D. João de Castro. Diz a tradição que ali viveu um frade de nome Honório, que durante mais de trinta anos só se alimentou de ervas. O seu túmulo assim como de outros frades, encontra-se na área do convento. A extrema pobreza destes frades era tal que criou nas gentes de Sintra um sentimento de piedade, e assim muitas pessoas iam até ao terreiro da entrada do convento levar-lhes alimentos. Os frades viviam em celas muito pequenas, forradas a cortiça, assim como os seus pobres leitos. No refeitório encontra-se uma enorme laje de pedra que servia de mesa de refeições.
 


E foi nesse terreiro da entrada do convento, que continuámos a entrevista.
Carlos: - O que é para ti o termo Esoterismo?
Carmo: - Uma doutrina de certas escolas filosóficas, cujos princípios e conhecimentos abrangem o enigmático, o misterioso e o estranho.
Carlos: - Acreditas na reencarnação?
Carmo: - Absolutamente.
Carlos: - Acreditas em fantasmas ou em “almas do outro mundo”?
Carmo: - Não acredito em fantasmas. Acredito que as almas habitam outro mundo.
Carlos: - O Imaginário será um sonho da realidade?
Carmo: - O imaginário é uma poderosa força criadora que nos pode levar a grandes realidades.
Carlos: - Acreditas em histórias fantásticas?
Carmo: - Fantástico é tudo o que ultrapassa a nossa compreensão e nos parece utópico e fantasioso. Porém, histórias fantásticas existem, criadas pelas penas de grandes escritores. Alguns, grandes visionários ou com poderes ocultos de precognição. E o que hoje nos parece fantástico poderá vir a ser uma realidade amanhã. Basta recordar Júlio Verne que entre muitas obras de ficção, escreveu em 1865  “Da Terra à Lua” onde ele prefigurava a uma distância de mais de 100 anos uma expedição à Lua.
Carlos: - Deus existe?
Carmo: - Todos nós somos uma partícula de Deus.
Andámos mais uns quilómetros até à estrada e quando chegámos a esta, a Carminho quase gritou: “Está ali uma paragem de autocarro!”. Perante minha pergunta se ela não queria antes descer a pé, a resposta foi: “NÃOOOO!!! Quero ir de autocarro. Sabes, estou ansiosa de chegar à pastelaria Piriquita, para comer uns docinhos “Travesseiros”…”. Não me pude conter: “Olha a gulosa!!!”. Como não podia deixar de ser, respondeu-me: “Olha quem fala! Gulossssooo!!!”.
E foi na Piriquita que terminámos a entrevista.
 


Carlos: - Para ti, a cultura será uma botija de oxigénio?
Carmo: - Impensável viver sem Cultura. Sem ela os povos vivem asfixiados. Pena que  ainda é para muitos, apenas uma pequena botija de oxigénio. Só quando a Cultura for devidamente respeitada e tratada por quem de direito, se transformará na grande botija necessária e imprescindível à evolução dos povos.
Carlos: - Que livro andas a ler?
Carmo: - “Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos”, do Professor José Manuel Anes, professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Carlos: - O filme comercial que mais gostaste?
Carmo: - Ah, como sempre, mais do que um: "E tudo o vento levou"; "Tempo para amar e tempo para morrer"; "Doutor Jívago"; "Ghandi"; "Titanic"; "A escolha de Sofia"; etc.
Carlos: - Música e autores preferidos?
Carmo: - Uma música para cada ocasião. Recordo com muito agrado e algum saudosismo as grandes orquestras de música de dança: Ray Connif; Paul Mauriat; Mantovani; James Last; Glenn Miller; Fausto Papetti. Mais recentemente: André Rieu; Ernest Cortazar, etc. Mas a minha preferência, num gosto mais tardio, vai para a música clássica: Chopin, Bach; Listz; Beethoven; Tchaikovsky; Strauss; (os principais).
Carlos: - Autores e livros preferidos?
Carmo: - Difícil escolher, pois gosto de vários estilos. Desde os clássicos aos contemporâneos, entre prosadores e poetas, e terminando na literatura de cariz espiritualista e comportamental, são muitos. Mas jamais esqueço, a literatura que “devorei” na adolescência: dos estrangeiros, Stefan Zweig, Emile Zola, Alberto Moravia, Stendhal; dos portugueses, Eça de Queiroz, Almeida Garrett, José Régio, Camões, Antero de Quental, Florbela Espanca, Camilo Pessanha, entre outros. Mais recentemente, Unamondo, Tagore, Kipling, Hermann Hesse, Montaigne, Freud, Jung, Kardec…. E ainda, Proust e Marguerithe Yourcenar.
Carlos: - Vamos falar na tua obra Literária?
Carmo: - Já que insistes tanto, vou falar sim. Tenho 1 livro de poemas intitulado "Geometrias Intemporais”, publicado em papel no ano 2000 e 16 E-Books: 
Em prosa: “O Vértice Luminoso da Pirâmide” (2 Volumes – Romance).
Em Poesia: “Rompendo Amarras”, “Memorando de Fogo”, “Despida de Segredos”, “Luas e Marés” e “Sonetos Escolhidos I – II – III ” (3 Volumes)
Ver em: http://www.delnerobookstore.com/bibliotecas_virtuais/carmo_vasconcelos
E ainda:
Em Poesia: “Vai Minha Pena” e “Passos para a Eternidade”
Ensaios: “A Fase Mística de Fernando Pessoa”; “O Homem e o Universo”; “Reencarnação, Carma e Evolução”
Romance: “O Vértice Luminoso da Pirâmide” (2 Volumes)
Ver em:
http://circulodograal.com/site2/index.php?option=com_content&view=article&id=80&Itemid=3
Carlos: - Tens Home Page?
Carmo: - Tenho 3 Blogues no Word Press: Um, onde constam Conferências, Prefácios, Traduções, Prémios, etc.; outro, onde consta parte da minha Poesia. E ainda outro com Poetas Consagrados e Poetas amigos. Ver em:
http://carmovasconcelosf.spaces.live.com
http://carmovasconcelos.spaces.live.com
http://carminhov.spaces.live.com
 
- Olha, Carlos, com a conversa, comi os teus travesseiros que, como sempre, são uma delícia. Desculpa, sim, amigo?
Com um sorriso "amarelo" respondi-lhe: "Não tem importância, querida amiga, para mais, disseste que a despesa que fizéssemos na Piriquita, era por tua conta... Agora, vamos acabar a entrevista?
- Até que enfim… Ufa! Vamos a isso!
Carlos: - Queres falar da tua ocupação profissional?
Carmo: - Com todo o gosto. Hoje sou aposentada da Função Pública como Chefe de Contabilidade do Gabinete de Assuntos Europeus e Relações Externas, mas durante parte da minha vida profissional, feita também no Sector Privado, fui Secretária de Direcção da firma Tudor, (Delegação de Luanda-Angola) onde englobava as funções de Tradutora e Intérprete. Depois, já aposentada e em regime de “free-lancer”, dediquei-me à tradução de livros estrangeiros (especialmente ingleses) e à revisão literária, tendo ainda colaborado como Assessora duma Editora Portuguesa
Ainda lhe perguntei se queria visitar o Palácio da Vila (ou Paço Real) e o Palácio da Reboleira. Disse-me que para aquele dia, as visitas estavam terminadas. Não por estar cansada, mas por estar com saudades de sua casa…
E assim falámos de:
Carmo Vasconcelos (Carminho)
Nascida num radioso dia 27 de Maio
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A DOIDA
Carmo Vasconcelos


(Retrato que guardei na memória, de uma figura típica que circulava pelo meu velho Chiado)
(escrito em 1996)
 
Chamam-lhe "a doida" quando passa...
 
Chapéu desbotado, xaile de seda desfiada,
saia de “lamé”, sem brilho, esfarrapada,
que um velho alfinete d'ama prende e laça.
Cambaleiam com ela os sapatos já sem saltos,
outrora reluzentes de verniz e tacões altos.
Nas magras mãos, as luvas pardas, rotas,
fazendo acenos de menina rua fora,
balanceando uma carteira de abas soltas
que lhe deu uma vez uma Senhora.
 
Ladram-lhe os cães, riem-se os gaiatos...
 
As velhas faces, peles caídas, enrugadas,
de um vermelho rançoso inda pintadas
com sobras de “bâton” achado em rua sinuosa,
descartado, talvez, por qualquer dama duvidosa.
Colar de contas roxas enfiadas num cordel,
e na ilharga, amarrotada, uma flor murcha de papel.
 
"Que vergonha!" - murmuram as Senhoras...
 
Mas ela, surda, ausente, caminha para a sua festa
transportando consigo tudo o que lhe resta.
 
Chegada a noite, vem a fria e dura solidão.
Seus olhos cansados e os pés alquebrados
procuram tréguas nas pedras do chão.
 
Parece um embrulho, um monte de entulho...
 
Não dorme, delira de febre, trémula de frio,
mas nesse delírio feito de visões pelas madrugadas,
revê sua vida, tão rica, pelo mundo estafada.
 
E em esgares de prazer, solta gargalhadas!
Pois só ela sabe
como foi linda, quanto foi amada!

Carmo Vasconcelos
Lisboa/Portugal
(In "Geometrias Intemporais", publicado em Maio/2000 – Vega-Editora)


 

Formato de entrevista de Carlos Leite Ribeiro

LIVRO de VISITAS
 

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