Os Confrades da Poesia – A Carmo Vasconcelos define-se como
poetisa?
CV – Quando eu tento definir-me, sempre me perco em indefinições.
Uma pessoa definida, é um ser estático que parou na sua rota de
evolução. A própria vida é indefinida e cheia de surpresas que nos
vão transformando dia-a-dia.
Como poetisa, eu diria que, como todo o poeta, eu trouxe a esta vida
as bases, os alicerces, talvez as memórias dum poeta do passado. O
edifício vai-se fazendo aos poucos, cimentando, rebocando,
aperfeiçoando. Sou um poeta em construção.
OCP – Sente orgulho da sua terra Natal?
CV – A minha terra Natal é Lisboa, parte de um pequeno País,
geograficamente, mas grande na sua História ancestral.
País que deu novos mundos ao Mundo, de bravos soldados e
marinheiros. País de vates e trovadores, e de uma vasta riqueza
histórica e patrimonial. Lisboa, a cidade que me viu nascer e
crescer, meu leite e meu berço, meus jardins e meus baloiços, meus
primeiros amores. Mais que orgulho, amo o meu país e, adoro a minha
cidade.
OCP – Quando começou a escrever e como define a Poesia?
CV – Cedo se manifestou em mim, o amor pelas letras. Quer através da
leitura, quer através da escrita que se foi desenvolvendo a par e
passo, a um ritmo cadenciado e natural comparável aos ritmos da
natureza inerentes a cada ser. Se desenvolvendo oculta e silenciosa
a um nível interior, semelhante a um bolbo subterrâneo que só
aparece ao nível do olhar quando finalmente está pronto. Ou como o
lento e misterioso caminho da crisálida a borboleta que por fim,
abre as asas e voa. Ou como o meu pequeno poema: “Para tudo um tempo
certo/o momento inadiável/a pétala que cai fatigada/o fruto que
tomba maduro/o poema que irrompe/definitivo.”
Respondendo mais objectivamente, comecei a exteriorizar a minha
poesia em 1996. Depois que fiquei viúva e me aposentei. Hesitante e
incipiente, fui lançando as primeiras pedras do edifício em
construção.
Como defino a poesia? - A Poesia é, acima de tudo, um dom que todo o
Poeta deve agradecer por possuir. É uma das Belas-Artes que enfeitam
o mundo. E como Bela-Arte deve ser tratada. Cada Poeta lhe dará uma
definição, consoante o espírito que o move no momento que o inspira.
Pode ser uma poesia de ficção e aí o autor mobiliza a sua capacidade
de invenção na criação de imagens e sentires imaginados. Por outras
vezes, ela irrompe espontânea, fruto de um estado de alma, alegre ou
triste, feliz ou desalentado, e aparece como consolo ou desabafo. Se
provém dos recantos da memória, pode funcionar como catarse. E temos
muito mais definições: Pode ocorrer como uma arma de combate a todas
ou qualquer forma de discriminação e injustiça, e outros repúdios de
origem moral ou social; também como mensagem de Amor e Paz
Universais.
OCP – Acha que a Poesia é um bem Universal?
CV - Por tudo o que disse acima, e o que omiti, a Poesia é, sem
dúvida, um precioso Bem Universal.
OCP – Há quem diga que os poetas são loucos ou sonhadores, qual é a
sua opinião pessoal?
CV – Bom… Pode haver poetas loucos, e loucos que não são poetas. Não
creio nessa afirmativa, pelo menos, como um estado permanente. Pelo
contrário, o poeta precisa de toda a lucidez para expressar de forma
organizada e coerente a mensagem que deseja formular. Embora possa
ter momentos de “transe poético” em que a inspiração flua de forma
inusitada e, quiçá, sobrenatural, a trazer-lhe raros momentos de
genialidade. Sonhadores? Sim. O Poeta sempre sonha além do
racionalmente possível. Sonha com a igualdade, a fraternidade, um
mundo sem guerras nem fome, o amor entre os povos e os homens… etc.
etc. Sonhos… sonhos…
OCP – Quais os seus autores favoritos?
CV - Desde os clássicos aos contemporâneos, prosadores e poetas, e
terminando na literatura de cariz espiritualista e comportamental,
são muitos. Mas jamais esqueço, a literatura que marcou a minha
adolescência: dos estrangeiros, Stefan Zweig, Emile Zola, Françoise
Sagan, Alberto Moravia, Stendhal; dos portugueses, Eça de Queiroz,
Almeida Garrett, José Régio, Camões, Antero de Quental, Florbela
Espanca, Camilo Pessanha, entre outros. Mais recentemente, Unamondo,
Tagore, Kipling, Hermann Hesse, Montaigne...
OCP – Tem obras publicadas ou publica os seus trabalhos em jornais
ou revistas?
CV – Tenho apenas um livro de Poesia editado em papel no ano 2000,
“Geometrias Intemporais”, e várias publicações em Jornais e Revistas
Portuguesas e Antologias Portuguesas e Brasileiras. Enquanto não
tinha “descoberto” a Internet, onde só ingressei em 2004, a minha
rota poética se fez ao vivo em Associações e Tertúlias poéticas. (De
1996 a 2004).
Hoje, aderindo à modernidade, tenho 16 e-Books editados, incluindo
Poesia, Romance e Ensaios, e inúmeras publicações avulso em Jornais,
Revistas e Sites na Internet. Entre eles, no Boletim dos Confrades
da Poesia.
OCP – Encontra algumas dificuldades em publicar os seus trabalhos?
CV – Publicar em papel deixou de ser para mim uma opção. Os custos
praticados pelas editoras são exorbitantes e o resultado não
compensa. Depois da euforia do lançamento, os livros adormecem nas
prateleiras das livrarias, perdemos-lhes o rasto e, principalmente,
não temos feed-back dos leitores.
OCP – Qual a sua opinião sobre a publicação digital (e-books) hoje
tão actual?
CV – Como disse acima, já optei por essa modalidade faz tempo. A
Internet é hoje a maior fonte de leitura e publicação, quer a nível
técnico, didáctico e de imagem, quer a nível recreativo em todos os
quadrantes.
Num futuro muito próximo, o digital acabará por enterrar o papel.
OCP – Tem prémios literários?
CV – Sim. Bastantes. Seria fastidioso enumerá-los aqui.
OCP – Tem Blog ou site próprio ou participa em alguns?
CV – Tenho 3 Blogues pessoais e várias páginas em diversos sites e
blogues.
OCP – Como define «Amizade»?
CV – A amizade é um substantivo abstracto… Como tal, cada vez menos
as amizades são concretas. Mas quando são reais e verdadeiras são
para estimar, como um bem raro e precioso. É muito bom ter um
amigo/a em quem se pode confiar reciprocamente.
OCP – Como classifica o saber perdoar?
CV – Bom… Depende da falta a perdoar. Há faltas e faltas…
Pessoalmente, não perdôo traições e injustiças. E também não sou
Cristo para dar a outra face. Nem Deus para perdoar. Não adianta
querer parecer “bonzinho”. Há muita hipocrisia nas mensagens
públicas que nos chegam quanto ao “dever” de perdoar. Na vida há
acções e consequências, e cada um tem de colher o que semeia. Para
isso existe uma Lei Universal mais sábia do que nós. A sábia Lei da
Compensação ou Karma. É nela que confio e na qual delego esse poder.
OCP – Como classifica o nosso Boletim online em PDF? … Achou
cansativo a publicação mensal?
CV – O “nosso” Boletim é mais um valioso meio de difusão de quantos
autores se dedicam à palavra escrita. E louvo quem se entrega a esse
trabalho de divulgação sem qualquer retribuição, simplesmente por
amor à arte e altruísmo cultural. Todos não somos demais para
espalhar, difundir, divulgar… e todos os sinónimos possíveis que
sirvam para não deixar morrer a Literatura e a Poesia. O mundo
precisa cada vez mais de escritores e poetas que sirvam de
contraponto e mantenham o equilíbrio, deste nosso mundo tão
castigado pelo materialismo. E que esses valores se transmitam às
gerações futuras.
A publicação mensal do Boletim é cansativa, principalmente para quem
tem o trabalho de o pôr no ar. Só quem se dedica a trabalhos do
género, sabe o quanto tem de despender do seu tempo pessoal, do seu
descanso, às vezes, até da sua saúde, para levar avante cada
publicação. O leitor, de um modo geral, passa os olhos em escassos
minutos do que levou dias e noites a elaborar. Esta a principal
razão por que concordo com a publicação bimestral.
OCP – Como já residiu em outros países… que diferença nota
nos apoios à cultura nomeadamente à
poesia, entre esses países e Portugal?
CV – O tempo que residi noutro país, limitou-se a uma passagem breve
de 2 anos por Angola que, ao tempo, ainda era Portugal. Não deu para
avaliar essa questão.
OCP – Dada a sua experiência que conselho daria a uma pessoa que
começasse agora a escrever?
CV – Que leia, leia muito. Que guarde, anote, não desperdice todas
as ideias que lhe pareçam dignas de serem transformadas em mensagens
para o Mundo, nas suas várias vertentes: de amor, paz,
solidariedade, justiça e denúncia. Que estude a língua mãe
profundamente – nada mais inestético do que um poema ou uma prosa
com erros linguísticos. Eles desfiguram muitas ideias
verdadeiramente geniais. E, sobretudo, que tenha a coragem de não as
manter ignoradas.
OCP – O nosso Bem-Haja!
