Entrevista a Carlos Leite Ribeiro

Feita por Iara Melo

 

 

Carlos Leite Ribeiro, cidadão português, nascido em Lisboa na freguesia de São Jorge de Arroios, no dia 5 de Março de 1937, segundo nos diz, pelas 21.00 horas de uma sexta-feira.

Entrevistar o Carlos, não é tarefa fácil, pois além de ele nos dizer que gosta mais de ser o entrevistador do que entrevistado, já todo o mundo conhece o seu curriculum vitae.

Por este motivo, procurámos nesta entrevista saber algo que ainda não foi bem explorado: a sua meninice e a sua adolescência.

 

CEN: - Carlos, como foi a sua meninice? conte-nos um facto interessante da primeira meninice e o seu primeiro dia de escola ?

Carlos: - Fui criado com a minha avó materna e duas tias já de certa idade e, segundo elas, virgens. Para me manterem entretido enquanto elas costuravam ou escreviam, davam-me uma mala que na altura era maior do que eu, que a arrastava pela casa fora. Então, elas perguntavam-me para onde eu ia com a mala, o que respondia:

- Vou pra o “Basil” ter com o vovô José Leite Filho !

Comecei a falar no Brasil e quem sabe, com enorme desejo de o conhecer, desde criança.

O meu primeiro dia de escola… recordo-me que uma senhora ia fazendo a chamada dos alunos, sendo os mais novos os últimos a serem chamado. Quando me chamaram, subi umas escadas e em determinada altura, um “calmeirão” (muito mais alto do que eu) da 4ª classe, arranhou-me num braço, e eu, em acto contínuo, dei-lhe um murro que devia ter-lhe apanhado a ponta do queixo, e o “calmeirão” caiu ali logo. Foi um burburinho enorme, a professora chamou-me para me dar uma grande lição de moral. Mas foi remédio santo, pois mais nenhum “calmeirão” se meteu comigo e, quando se metiam com outros mais pequenos e mais novos, logo estes os avisavam: “Olha que eu sou amigo do Leite Ribeiro!”

 

CEN: - Mudando de capítulo, vamos entrar na sua adolescência? Começamos pelo livro que mais o marcou nesse período?

Carlos: - Sem dúvida nenhuma, foi o livro “Marco Pólo”, que até me deu inspiração para começar a tentar escrever e a pesquisar, pois eu queria saber todos os pormenores das terras por onde Marco Pólo passava. Pelos treze anos, pensei em escrever um livro (?) em que eu encarnava uma personagem já adulta, que viajava de comboio (trem) por todo o mundo. Comecei pela Espanha, depois França, Polónia, Rússia e até consegui que a minha imaginação chegasse a Shaigai (China). Seria algo parecido com o “Expresso de Xangai”, mas mais educativo pois ia falando das terras por onde (virtualmente) passava. E o tal personagem que eu “encarnava” de nome Jaime, viajava num compartimento privilegiado do comboio, e era cá um sedutor (terrível) das mais belas mulheres que viajam nesses comboios, que nem fazem ideia. O título era “De terra em terra a apitar”. Infelizmente, o seu rascunho, perdeu-se num incêndio.

 

CEN: - Ainda na adolescência, continuou a estudar, a trabalhar, a praticar desporto e a namorar ?

Carlos: - Sim, isso tudo. Estudar, continuei e ainda continuo. Comecei a trabalhar aos 14 anos e seis meses, num grande jornal da época, que até era o mais antigo de Portugal: O Jornal do Comércio”; logo com incumbência de fazer 3 vezes por semana, a rubrica “Personagens e factos que deram nome às ruas de Lisboa”, que era fundamentalmente, um trabalho de pesquisa e de pequenas entrevistas. No desporto, pratiquei a alto nível, o Andebol e o Judo. Também namorava, pois, eu não sou como a figueira que dá frutos sem ter flor.

 

 

CARLOS L. RIBEIRO E COLEGAS DO JORNAL DO COMÉRCIO

CEN: - Quer falar das suas namoradas dessa altura ?

Carlos: - Já nem me recordo. Mas a minha vida sempre se regrou pela lei do sal: “nem muito nem pouco – a quantidade certa”. Não me recordo já muito bem …

 

CEN: - O Carlos escreve prosa, mas não escreve versos. Porque nunca tentou ou tenta?

Carlos: - Não tento porque não tenho a mínima habilidade e capacidade de o fazer. Mas aprecio a boa poesia, quando ela é bem feita. Adolescente, queixem-me ao grande Mestre Almada Negreiros que tinha desgosto de não ser poeta, o que este grande Homem me respondeu: - Menino, tem juízo e agradece a Deus o dom que te concedeu, pois, há muitos poetas da nossa praça, que até são adulados, que gostariam de ter a tua sensibilidade, que é de verdadeiro poeta …”. Nunca acreditei no que me disse o Mestre, mas, vou fazendo (escrevendo) o que posso e sei.

 

CEN: - Um facto interessante passado na sua adolescência ?

Carlos: - Sem cá, são tantos … Talvez … no dia das mentiras, atrevi-me a fazer uns telefonemas anónimos para convidar as pessoas a estarem nesse dia às 9.00 horas da manhã, à porta de um estabelecimento perto do Largo Luís de Camões, trajando de gabardina, cachecol, luvas e chapéu de chuva e óculos escuros, pois, nesse dia determinado estabelecimento oferecia a quem assim se apresentasse, um fato desportivo, incluindo sapatos tipo ténis e uma toalha com o emblema do clube preferido. Foi uma enorme confusão que eu de longe apreciei. Se descobrissem que tinha sido eu, teria sido linchado. Coisas de miúdos…

E vamos ficar por aqui, pois o resto de minha vida já foi bem escalpelado em anteriores entrevistas. Para mais, eu sou um verdadeiro “Lineu” e nada mais que disser, tem interesse. 

 

CEN: - Quer aproveitar para saudar seus leitores e amigos ?

Carlos: - Saúdo todos os leitores, gabando-lhes a paciência que têm tido em ler o que, ao longo dos anos tenho tentado escrever. Um Bem-Haja a todos!

 

 

 

 

 

FORMATAÇÃO, MONTAGEM E ARTE: IARA MELO

FOTOS: CARLOS LEITE RIBEIRO COM SEUS PAIS IRENE E ACÁCIO,

COM SUA AVÓ, CONHECEM-SE BEM OS SEUS TRAÇOS

ANCESTRAIS AFRICANOS (ANGOLA) E COM

COLEGAS DO JORNAL DO COMÉRCIO

FUNDO DE PÁGINA: FOTO DE LISBOA

MID: LISBOA (BOLERO)

 

 

 

 

 

 

 

 

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