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PAI POBRE
Gilberto Nogueira de Oliveira
Nazaré, Ba 17-07-2011
Pai,
Que sem ter chance
De educar e aculturar seus filhos,
Sai pelas quebradas da vida
Em busca do Estado corrupto
Que lhe nega todas as saídas
E não lhe dá uma guarida.
Pai,
Que por não ser competitivo nem globalizado,
Sai em busca de qualquer coisa
Para matar a fome dos filhos
Que serão a sua cópia, amanhã.
Pai,
Que de volta para o barraco
Vê seus filhos a gritarem de fome.
São as vítimas de um sistema criminoso
Que excluem negros e pobres
Até a extinção.
Pai,
Que só tem uma opção:
Aliar-se ao tráfico de drogas
Que alimenta o capitalismo
E praticado pelos detentores do capital
Sem sujar suas mãos brancas.
Pai,
Que já começou a ganhar dinheiro.
É pouco, mas dá.
Pai,
Que vai ser encontrado morto heroicamente,
Numa periferia qualquer,
Desse país que nunca foi seu,
Depois de ser perseguido
Por polícia e bandido,
Ambos agindo em conjunto
Para não quebrar o sistema.
Pai,
Negro, foragido e criminoso.
Filhos pobres, novamente
Por causa da droga de comer,
Por causa da droga de beber,
Por causa da droga de aspirar,
Por causa da droga de atirar,
Por causa da droga de democracia.
Louvemos o socialismo.
Gilberto Nogueira de Oliveira
Nazaré, Ba 17-07-2011 |

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VIAGEM VIRTUAL
Gilberto Nogueira de Oliveira
Nazaré, 13-04-2011
Numa grande explosão terráquea,
Fragmentos de meu cérebro
Voaram para outras dimensões,
Num advento espetacular.
Uma fração transportou-se
Para um antigo areópago.
Lá estava um sábio
Com seus gestos concisos
A julgar os meus versos
Como se fosse o decálogo
Ou então o eclesiastes.
Outra fração transportou-se
Para um exílio dogmático
No mundo dos fratricidas.
Ao chegar ao frontispício
Me deparei num gazofilácio
E depositei minha esmola.
Um sábio me observava
Com seu olhar herético,
Como se eu fosse um hipócrita.
Eu o observei com indulgência
Naquele ambiente iníquo
Cheio de utopia pentateuca
E de ensinamentos dogmáticos.
Agora a terra implodiu.
Agora, meu cérebro se recompõe
E eu estou de volta ao mundo real.
Acordei. Voltei de uma loucura
Que desafia a física quântica.
O poeta tem o poder
Até de transformar
O substantivo concreto
Em substantivo abstrato
Ou uma construção de concreto
Em substrato.
Gilberto Nogueira de Oliveira
Nazaré, 13-04-2011 |

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VIDA
Gilberto Nogueira de Oliveira
Nazaré, 12-07-1999
Estava tudo seco.
Os homens, os bichos e as plantas,
Todos morrendo de sede.
De repente, nuvens pesadas
Desabaram sobre o sertão.
E a chuva caiu,
E a terra pariu
O seu hino de amor.
Gilberto Nogueira de Oliveira
Nazaré, 12-07-1999 |

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GRITO DE CRIANÇA
Gilberto Nogueira de Oliveira
Nazaré, 08-12-1994
Vocês já ouviram um grito
De criança, faminta e miserável?
O grito é diferente.
Vocês já ouviram?
É um grito fraco e poderoso.
Vocês já ouviram?
Eu acho que não.
É um grito tão alto
Que ninguém é capaz de ouvir,
Porque a ninguém importa.
Se não foi a criança rica quem gritou?
Se não foi o patrão quem berrou?
É um grito fascinante.
É um grito insinuante.
Que dá o que pensar,
Que dá o que escrever.
Mas vocês não ouviram o grito
Porque suas barrigas estão cheias.
Ninguém pode fazer nada, nem os pais,
Porque também eles
Não tem como fazer.
Acordem. Concordem com o socialismo.
É a única esperança
De não mais se ouvir...
O GRITO!
Gilberto Nogueira de Oliveira
Nazaré, 08-12-1994 |

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