Helenita Scherma

 

CANÇÃO DO SONHO ACABADO


Já tive a rosa do amor
- rubra rosa, sem pudor!
Cobicei, cheirei, colhi,
mas ela despetalou
e outra igual, nunca mais vi.
Já vivi mil aventuras,
me embriaguei de alegria;
mas os risos da amargura,
no limiar da loucura,
se tornaram fantasia...
Já sonhei felicidade
- mãos dadas, fraternidade
ideal e sem fronteiras.
Utopia! Voou ligeira
nas asas da liberdade...
Desejei viver! Demais!
Segurar a juventude;
prender o Tempo, na mão;
plantar o lírio da Paz!
Mas nem mesmo isto, eu pude.
Tentei, porém, nada fiz.
... Muito, da vida, eu já quis.
Já quis... mas não quero mais!...

Helenita Scherma

PARTINDO


É hora de partir, amigo! Eu não sustento
mais, no meu peito, a dor desta agonia...
O teu amor foi qual bandeira fugidia,
que me acenou um triste adeus, levado ao vento!

Sinto ainda o cheiro de aurora e maresia...
E as gaivotas do porto, no meu pensamento,
batem asas de sonho, num deslumbramento
que, pouco a pouco, de mim, se distancia...

No meu corpo existe, ainda, o teu desfraldar!
E a leve sensação de luz, me inebriando,
cultiva, em minha pele, algas e raízes.

E é por isto que solto o meu navio ao mar!
E que te deixo assim, sozinho, me acenando
o Adeus que, em si, existe... mas que nunca dizes...

Helenita Scherma

BAILARINA


Dança, no palco da minha retina,
tímida, triste, quase transparente,
na melodia desta tarde quente,
somente uma lágrima- bailarina...

Nas suas vestes, cobre de neblina
esgazeada, todo o ambiente.
Não há platéia. Ela salta, silente,
interpretando a dor que me alucina.

E, no lusco fusco do fim do dia,
morre nos sonhos desta nostalgia.
Fecho os meus olhos: cerro a cortina.

Vai se esgueirando para os bastidores
onde, sem pressa, se despe das dores
pondo um véu de flores e purpurina.

Helenita Scherma

LIBERTAÇÃO (catarse)


Arrombo com fúria
o cadeado,
e sem lamúria,
destranco
o meu passado.
Rebusco cada canto,
buscando o desencanto
do incoerente.
Arranco
os lençóis imóveis
- fantasmas brancos! –
Arrasto os móveis,
escancaro-lhe as portas rangentes,
viro as gavetas, no chão!
Espalho tudo: diários,
discos e cadernetas,
anotações e fichários.
Esvazio os armários
e rasgo os vestuários
em pedaços, com a mão!
Levanto poeira e cinzas,
antigas queixas ranzinzas,
lembranças vis, sem saudade.
Atiro contra a parede
cada inutilidade
que ainda resta ali...
Num ódio desesperado,
pico cartões e retratos;
esmago, com meus sapatos,
restos do meu coração!
Jogo pedras nas janelas,
arranho todas as telas
e os quadros pintados à mão.
...Mais nada, encontro de ti!
Louca, rio frente ao espelho!
e me ajoelho,
em delírio,
exausta do meu martírio,
sabendo que te esqueci...

Helenita Scherma

 
13/10/2012

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