João Bosco Soares dos Santos 

 

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MEU RIO SÃO FRANCISCO
João Bosco Soares dos Santos
(Do livro CANTARES)


Antes, o meu rio melodiava, quando, por sobre as solidárias pedras de seu ventre,
libertas águas faziam sussurros, vozes e cantos, em todas as cantigas de minha terra.
Às vezes, em gargalhadas de águas felizes.
Outras, em ligeiros ais, de raríssimas contrariedades.
Quando o serpentear de suas águas aceleravam-se
em pequenas seqüências de cachoeiras,
eu imaginava qualquer formidável beleza que quisesse,
em qualquer momento,
no meu fantástico universo infantil de deliciosos encantos sonháveis.
Ainda hoje, suas águas caminhantes acordam-me
em dulcíssimas saudades-criança,
musicadas por seus passos de andarilho anos-luz.
O meu Rio São Francisco cantava-me, em fantasia,
toda e qualquer música ou história que eu imaginasse,
em qualquer tom, ritmo, cor, nota, oitava ou harmonia.
Assim era a vida-sonho no tempo de criança.
Às vezes, propositadamente,
procurava ficar acordado noites e madrugadas insones,
para que, sozinho, em imaginações fantásticas,
pudesse ampliar as minhas alegrias
do jeito que eu as quisesse.
Hoje, rio triste, suas águas amarram-se em dezenas de barragens
obrigadas a impulsionar indiferentes hidroelétricas, restando-lhes, apenas,
a repetida e irritante liberdade de movimentar-se em ondas,
como se fora doloridas explosões de intermináveis e acumuladas revoltas.
Pobres águas... restos de águas perturbadas e desorganizadas!
Perseguido e maltratado rio, passeando em ligeiro rumo ao desespero,
ao mundo da quase-morte.
Arrebentado rio, crescentemente invadido por indesejáveis assoreamentos e poluições!
Enfraquecidas e atormentadas águas!
Onde estão aqueles seus livres, puros e cristalinos marulhares?
Já desfaleceram em suas destroçadas esperanças?
Vê-se, meu querido rio, que já não pode amar seu leito, suas pedras e seu caminho,
naquele íntimo e afetuoso abraço convivencial,
porque o progresso, impiedoso, frio e insensível ao amor-emoção,
força seu fim e exige sua ruína vivencial,
para que sua vida-rio transmude-se, exclusivamente, em geradora-de-capital, esquecendo-se que o essencial é ser fonte perene de muitas e muitas vidas.
Encarcerado rio,
como é aflitivo sentir-se impedido de acariciar, libertariamente,
seus ribeirinhos, suas margens e suas ribanceiras!
Dilacerado rio, esvaindo-se em suas entranhas,
contendo, a todo custo, seus sonhos, sentimentos, emoções e paixões!
Maltratado rio,
condenado a conter-se e a esquecer,
em todos os ângulos, linhas, prismas e quereres,
seus afetuosos diálogos seculares com os amigos ribeirinhos!
Ditoso rio,
aquela sua recíproca prestatividade,
na mais cúmplice e milenar simbiosidade com os viventes amigos,
está sendo silenciada e rompida, em doses fatais.
Aquela magistralmente deliciosa amizade homem-rio,
desarticula-se, desfia-se m quase esquálida morte,
em face do imperial e ágil poder-progresso,
destronando e arrancado o homem da sua aldeia-vida,
da sua vida-sentimento-rio.
Amigo rio,
suas alquebradas barrancas, já tão pobres de árvores, raízes e sombras,
são quase esparsos multiquebrados e desfiados restos, pertinhos do fim.
Os peixes e outros entes naturais de suas águas estão sendo expatriados
e milhares, impedidos de correrem rio-acima, em seus inatos ritos e ímpetos
de crescer e multiplicar-se.
Quando criança, nos saltitantes amanheceres,
antes que o sol sorrisse, abrindo-se em alegríssimas manhãs sertanejas,
costumava acelerar meu acordar,
colocando visão, emoção e alma
muito à frente das minhas pernas e corpo,
para, depressinha, ver o horizonte azul-ainda-negro
a rosear-se pelo sopro do sol, em delicada busca do amanhecer.
Gostava de receber nos olhos-face a brisa matinal.
Depois, abria os olhos para observar o suave vento
a arrepiar os cabelos das águas.
Ao anoitecer, horizonte, nuvens e águas azuis
douravam-se aos poucos, em aplausos ao sol,
prestes a repousar por sob a terra.
Azuis também eram as brincantes gaivotas, que, em bandos,
singravam ventos, espaços e tempos do quase-noite, em alegrias e cantares.
Felizes gaivotas que se foram como se foram nossas infâncias,
deixando conosco, em nossos olhos e lembranças,
apenas aqueles distantes retratos,
que hoje nos assomam em pedacinhos de grandes e sentidas saudades,
arrastadas e envelhecidas pelo tempo-espaço,
a findar-se, como nossas vidas.
Meu rio,
como foram fantásticos os intermináveis banhos, a qualquer hora
do dia, da noite e da madrugada!
Que doçura de prazer-viver!
As travessias a nado... as ilhotas...as pescarias... os piqueniques...
Meu rio,
onde estão as mantrinxâs, os mandins-chorões, os pacus,
as trololôs, os dourados, as curimatãs, os piaus, os pirás e os caris?
Os jacarés? As tracajás e os demais primitivos viventes de suas águas?
Suas últimas ariranhas desceram para a extinção,
carregadas pelas cheias das gigantescas e desreguladas enchentes,
que também levaram-nos as esperanças.
E os insensíveis arrasaram suas matas ciliares, alimentadoras de seus aqüíferos,
e estão, irresponsavelmente, provocando a morte de suas nascentes.
Hoje, estranhos e indiferentes seres atormentam o seu ventre
com outros nadares e costumes,
danificando e exterminando o seu nativo ventre-universo-vida.
Meu rio amigo-criança!
Nossos formidáveis instantes de liberdades convergentes
estão a esvaecer-se nos tristes momentos e espaços passados,
que hoje nos liga só por desvanecidos tempos moribundeantes.
A idade arrasta-me para o seu lado negro
e oprime-me sob seu descontrolado peso-tempo,
tão fatalmente exterminador,
enquanto você, meu rio-amigo-criança,
vai sendo estrangulado, impiedosamente, pelas pororocas do progresso
e pela nauseante insensatez predatória dos desalmados e desamantes.
É a chegante separação desapiedada e sem retorno, que prepara o golpe fatal e final.

Adeus, meu rio amigo!
Qual de nós se findará primeiro?
Eu, pela fatalidade implacável do espaço-tempo-anos
ou você, pela tresloucada e devastadora imprudência de alguns tipos humanos ?

João Bosco Soares dos Santos

 

O PEABIRU E ROTAS TERRESTRES E FLUVIAIS.*
Doo livro: PEABIRU - Artérias Sulamericanas. João Bosco Soares dos Santos, em Editoração.


Desembarcadas a partir de 1500, as expedições exploradoras e comitivas cabralianas e pós-cabralianas ficaram boquiabertas diante do que viram: gente nua, à toa, dormindo no chão... mas à beira de uma estrada tão bem-feita a ponto de superar as melhores de Portugal.
E perguntavam:
- Esse caminho tem nome?
- PEABIRU! Ouviram o nativo responder. E tal nome só fez complicar o mistério.
- Insistiram:
- Pelo que se vê não foi construído por vocês. Por quem, então?
- PAY SUMÉ.
Aos ouvidos lusos tais palavras soaram com a fulminação própria do milagre:
- Mas é do apóstolo Tomé que estão falando? Aha! Como justificar tamanho portento?!
É o magistral diálogo narrado por Hernani Donato na Revista História Viva, nº 69.
E continua o historiador, argumentando que somente o querer divino poderia distender aquela vereda, primorosamente civilizada, em meio a um povo considerado primitivo.
O PEABIRU, planejado, aberto, calçado e conservado por São Tomé, para alguns crentes, só poderia ser milagre.
O rigoroso historiador Sérgio Buarque de Holanda, citado por Hernani Donato, dizia que havia documentos provando a existência de ramos desse caminho, mas a escassez de testemunhos materiais lança dúvidas fortes.
Verdade é que, redescoberto a pouco tempo, alguns trechos são conhecidos. Há fotos e filmes documentando pedaços do PEABIRU em Mato Grosso e Paraná, condizentes com as descrições deixadas pelos primeiros usuários.
Seu tronco encontrado tem 1.80 metros de largura, 40 cm de fundura e piso coberto por lajes aparelhadas com boa técnica, mediante o uso de instrumentos e de ligantes, aponta Hernani Donato.
Certos trechos mostram erva baixa – CAPIPE PARA’I, segundo os guaranis de hoje ou puxa-tripas, nome pelo qual os caboclos paranaenses a chamam -, que se renova com o tempo e impede o crescimento de outros tipos de vegetação. Idem, idem.
Há postos de paragens – os TAPUS, com dois cômodos e aberturas em lugar de portas, voltadas para o oceano. Os passantes se obrigavam a deixar utilidades ou alimentos e podiam utilizar do que lá outros haviam depositado, à semelhança da cabana mostrada no filme Derzu Uzala, do Kirosaura, produzido na Rússia.
Desse caminho grande, os CHAQUIS – os mensageiros rápidos – se utilizavam. Levavam pescados do pacífico para as cozinhas incas de Cuzco.
Do lado luso-brasileiro, há uma certeza: esse caminho começava em São Vicente e tinha uma entrada em Florianópolis ou em Itapocu, Santa Catarina, e mais uma possível em Cananéia.
No Pacífico, o ponto inicial se bifurcava no norte do Chile e sul do Equador.
O PEABIRU aqui teria a função de integrar estradas pré-incaicas e incas no continente, com o nome de Estrada do Sol, e considerada a maior e a melhor que o mundo conhecera. Para os andinos era parte do TAHUANTINSAYO. Seu começo estaria na praça central, o marco zero do Império Inca, em CUZCO, no Peru.
Garsilaso de La Veja, historiador peruano citado por Hernani Donato, testemunho da história, em seu livro Comentários Reales, de 1560, disse que “um ramo da Estrada do Sol... demandava o oriente chegando ao Atlântico”.
Hoje há disposição para aceitar que um fio desse emaranhado de veredas, ainda saindo de CUZCO, chegaria ao Norte e ao Nordeste brasileiros.
PEABIRU, no entender da maioria dos estudiosos, teria sido um sistema viário; um feixe de comunicações, na visão do padre e historiador Aluísio de Almeida.
É como fala Hernâni Donato, do cimo de suas sabedorias, na Revista citada.
O Caminho Grande - a estrada indígena sulamericana que ligava o oceano Pacífico, desde a grande civilização inca, ao Atlântico, no litoral brasileiro, passando pela cordilheira andina, pelas florestas, pelo Centro-oeste, Sudeste, Nordeste e Norte brasileiros, vencendo pantanais, cruzando rios – segundo alguns historiadores e pesquisadores - muito se aproxima do status de uma obra de gênios e - é quase certeza - já existia antes das chegadas dos europeus.
No Pacífico, os pontos de chegada-partida situavam-se em Callao, Potosi, Arequipa e Cuzco.
No Brasil, segundo o arqueólogo e artista plástico alemão Heinz Budweg, afirma ter localizado obras de um trecho de estrada que ligava Cuzco a Salvador, chegando ao Nordeste e ao Norte.
O engenheiro e historiador baiano Teodoro Sampaio e outros estudiosos apontaram Tibagi, no Paraná, como o lugar onde se juntavam o tronco e os ramais vindos dos povoados situados em Santa Catarina e no Paraná.
No século XVIII, o jesuíta Pedro Lozano, em seu livro Historia de La Conquista Espiritual, a respeito de PEABIRU, assim resumiu:
“ Por esta província corre o caminho denominado pelos Guaranis de PEABIRU e pelos espanhóis de São Tomé...”
FERNANDO MAXIMILIANO JOSÉ (MAXIMILIANO DE HABSBURGO), ARQUIDUQUE austríaco, irmão de Francisco, Imperador da Áustria e primo de Dom Pedro II, e que, por vontade de Napoleão III, foi imposto como Imperador do México, onde foi fuzilado, talvez com o apoio dos americanos do norte, depois que esteve, por duas vezes, em Ilhéus, na Bahia, registrou em seus livros – Bahia 1860 e Mato Virgem – que “por Ilhéus, passava um caminho, muito estreito, que ligava Bahia - Minas Gerais, por onde transitavam as riquezas minerais”.
Os Incas formaram um império que abrangia 4.000 quilômetros de extensão. E, com ideias expansionistas, teriam planejado chegar ao Atlântico, de olho em territórios que lhes proporcionassem variados e numerosos produtos. O apogeu deles teria sido em 1.400. E o seu império terminaria em 1536.
Achados encontrados no que seria um piso de um ramal de PEABIRU, submetidos ao carbono 14, indicaram os anos abrangentes entre 1215 e 1480, o que pode sugerir ter sido o PEABIRU feito, em grande parte, pelos Incas.
O colonizador espanhol Martinez Irala, em 1553, escreveu a seu rei: “Y Dios fue servido que descobri um camino más cierto e seguro...”
Os historiadores brasileiros Hélio Viana, Alfredo Ellis Jr e Buarque de Holanda enfatizam que PEABIRU marcou a vocação sertanista dos moradores da província de São Paulo. E por ele, em parte, chegou a Lisboa a volumosa prata extraída de Potosi.
Ao fim de algum tempo, “o grande caminho” caiu em desuso: os bandeirantes desviaram-se para o ouro de Minas, os paraguaios voltaram-se para Buenos Aires, seguindo, preferencialmente, pelos grandes rios e o Brasil persistiu em progredir a beira do mar.
Aventureiros, bandeirantes, entradeiros e mascates deixaram registros de suas viagens e até comércio, pelos caminhos e ramais do PEARIBU, como: Alvar Núñes Cabeza de Vaca, o Jesuíta Leonardo Nunes, Francesco Gambarrota, Ulrich Schmidl, Diogo Nunes, Brás Cubas, Luis Martins, Cipriano de Góis, Juan de Salazar, Diogo Dias e Nicolau Barreto, todos relacionados pelo historiador Gentil de Assis Moura, como cita HERNANI DONATO, na Revista História Viva, nº 69, Duetto Editora, páginas 60/65.
E quando foi aberto este grande caminho? Quem o construiu?
E é ainda Hernani Donato que escreve:
“Portugueses e espanhóis, com diferentes interesses, métodos e ênfase, buscaram controlar e limitar o uso do PEABIRU. O primeiro governador-geral do Brasil, Tomé de Souza, (1549-1553), deu início a esta política de restrições. Os espanhóis seguiram-na e chegaram a fundar três vilas, que sugeriam posições de posse e vigilância sobre o traçado. Eles detiveram, processaram e penalizaram infratores, mas o espaço era amplo, e a audácia dos aventureiros era equivalentes.”
E continua: “Uma documentação veraz informa a atividade profissional de paulistanos e de moradores de Assunção, no Paraguai, servindo de guias para interessados nessas viagens, visando, preferencialmente, aprisionar índios, negociar objetos de ferro, subir ao Potosi, na Bolívia, e enriquecer com a prata”
E conclui:
“Em abril de 1581 (e até 1680), Portugal passou a ser governado pelo rei da Espanha. Com um só monarca para todo o subcontinente, as proibições foram levantadas. Os bandeirantes, entradeiros, ao norte, aproveitaram e foram eles levar o Brasil até quase as fronteiras atuais.
Historiadores brasileiros apontam as penetrações de Domingos Jorge Velho e, entre tantas, a que, partindo de São Paulo, chegou ao reduto de Zumbi dos Palmares, depois de arregimentar muitos combatentes, inclusive índios, pelo caminho, conseguiu, por final, destruí-lo.
Assim, se existiu o complexo PIABIRU, atravessando os Andes, as florestas, os rios e pantanais, por ande passaram aventureiros, exploradores, conquistadores, mensageiros e nativos, por diversas razões, porque não acreditar que o Rio São Francisco foi importante, fácil, certo e seguro caminho, passagem e pouso, por onde, com certeza, transitaram e vivenciaram muitas nações e tribos nativas, não só nomadeando livremente, mas e também guerreando, fugindo, conquistando, pousando e fixando-se, principalmente, nos Sertões dos Rodelas, em suas dezenas de ilhas, por seu isolamento natural e por suas riquezas, tais como a pesca e as terras vazantes, ricas em húmus, sempre depois das cheias?
“A terra era tão larga e a gente tão solta”. Este registro do Jesuíta Padre Antonio de Sá, citado por Afrânio Peixoto no magistral Prefácio de Carta Jesuíticas 2, Editora Itatiaia Limitada, 1988, robustece a tese da atávica e intuitiva predisposição da terra e do povo brasílico para as amplidões, as distâncias, as descobertas e as aventuras, tanto quanto as contidas nos âmagos dos europeus daqueles ousados momentos históricos.
A Sinopse de Afrânio Peixoto, fls. 47/64 do mesmo livro, é um rico mapa-leque tonificador dessas implacáveis multirotas geográficas e humanas.

João Bosco Soares dos Santos

 

 O MENINO-SOL - Conto-lenda.
João Bosco Soares dos Santos
Do livro: MINHA ALDEIA.


Não se soube como, quando, nem de onde veio.
Simplesmente chegou. Surgiu-se, de repentemente.
Magrinho, vestindo pequeno, frágil e leve shortinho, quase transparente, e camiseta, tão branquinhas como nuvens puras, e que não amostravam qualquer mancha de sujeiras de criança.
Sua doce face era orvalhada por gotinhas de água, como se fora bolhas de cristal. Levantava e baixava a cabecinha e a virava delicadamente para os lados, quando começou a balbuciar qualquer coisa, ainda não entendível.
Era lindo!
Não! Era belíssimo nos seus três anos aparentes de vida: olhos, entre o verde e o azul, cintilando horizontes de luzes longes mas penetrantes; cabelos de sol, em reflexos de sol, no seu amarelo-ouro mais brilhante; mãos pequeninas, suaves e tímidas incapazes de disfarçar o encanto sutil ostentado naquele todo tão pequenino e tão ternamente belo.
Corpo de imaginário anjo de um céu bem distante, delicadamente suave. Pele ligeiramente amorenada, querendo ir para uma tonalidade sertaneja, ou para uma doce cor parda leve, pura e suavemente tenra. Era uma beleza diferentemente plena, em toda sua total e atualizada perfeição.
E foi visto envolvido em luzes e em frente de uma das casas.
Que linda criança! Dir-se-ia, seria um Pequeno Príncipe pousando no nordeste, se aquela aldeia tivesse lido a história de Antoine de Saint-Exupéry; tal eram o esplêndido e elegante porte e a purificada beleza daquele menino-sol.
- Quem é você?
- Onde está sua mãe?
- E seu pai?
- De onde vem você?
- Com quem veio?
- Qual é o seu nome?
Você chegou aqui, agora?
De logo, somente movimentava a cabeça, quando parecia falar. E com os braços, mãos e dedos gesticulava, tentando apontar os mais distantes e indefinidos lugares e meneava os olhos só para mostrar e provar que eles eram estranhamente belos e magistrais e fazia dançar o pesinho direito, quando reiterava o que queria dizer.
O barulho das pessoas presentes aumentou e todos os habitantes do lugarejo vieram ver, de pertinho, o menino, já o aclamando como menino-sol.
Aparentemente, tomou um pouquinho de leite e mastigou, magicamente, um pedacinho de queijo que lhe foram oferecido e, de imediato, adormeceu, coincidentemente, nos braços da mais velha, mais generosa e mais carinhosa mãe do povoado, que já o ninava e para ele cantava, com sua adorada voz de mãe adorada, a canção de ninar mais tocantemente emocional e maviosa que aquela vila sabia cantar. E quase todas as almas daquele sítio passaram a noite na varanda e em torno do casebre, olhando, analisando e amando aquele momento-noite de alegríssima felicidade jamais imaginada.
Quando a madrugada abriu sua porta, encontrou algumas daquelas pessoas ainda a dormir.
Mas, bem próximo daquele mesmo momento, alguém disse gritando que a criança não mais estava a repousar em qualquer cantinho quer dos braços quer da casa. E todos, atordoadamente e tumultuadamente, se movimentaram a buscar aquela beleza-felicidade, com os olhos, ouvidos, mãos, braços, corpos, espíritos e mentes, nas suas proximidades e em todos os possíveis lugares.
E, e já bem cansadas, desesperadas e desesperançadas as pessoas deram-se as mãos, ajoelharam-se e rezaram a DEUS, a Nossa Senhora do Rosário, a São João Batista, a São Francisco e a São João Bosco, padroeiros e santos da vila, em agradecimento por aquele momento, indagando-se, pedindo explicações e a clamarem, prometendo tudo para terem de volta aquele anjo-luz, com aquele feliz momento.
- Onde está?
- Quem está vendo?
- Quem viu?
- Para onde foi?
- Por que veio até aqui, nessa noite-manhã?
- E o que queria, então?
- Que veio nos dizer ou lembrar?
Quando a tarde veio vindo e o sol mostrou-se com toda sua pomposidade dourada, despedindo-se do dia, para caçar outras sombras lá na outra face das terra, todos perceberam que um feixe de fortes e fantásticas luzes e reflexos, mais douradamente fortes, partia do alto do Serrote, plantado a séculos no meio do Rio São Francisco, do lado oposto ao poente sol.
E todos se inflamaram, levando alvoroçadas emoções às gargantas porque constataram, com todos os sentidos que de lá, realmente, estava bem fincada uma esplêndida cruz, tão ou mais ofuscante que o sol.
Correram todos em corpos e sentidos e, imediatamente, ecoou um ohhhhhh... por todos os lados e lugares, de susto, respeito, admiração e indagação.
E, em verdade encantada, lá estava o menino-sol, com corpo e bracinhos abertos em cintilante cruz, olhando fixamente o alto dos céus, com que afrontando magistralmente o sol, imaginando-se sol, querendo ser sol e mostrando a todos que ele também era um extraordinário sol, muito mais cintilante que o nosso.
E a pequena multidão de corpos e espíritos, sem qualquer outra opção de adoração ou de louvação, ajoelhou-se todamente contrita e explodindo emoções por todos os poros, comandada pelos bons valores cristão, que se impunham com dignidade naquela diminuta aldeia, mas gigantemente crescente em fé e em respeito a DEUS.
E, ansiosos, todos contritos, esperaram a voz e as palavras que o menino-sol parecia dizer, e todas as pessoas acreditavam estar a ouvi-las e a entendê-las, mas, na verdade, ninguém ouvia som nenhum: tudo era tocante e magicamente encantado e encantante.
E, logo ao depois, o menino-sol somente era silêncio retumbante e sublimação celestial. E assim continuou a ser silêncio de voz e reflexos áureos, os mais brilhantes e mais dourados, por toda a noite.
E, por todos os dias seguintes, só ficou a magistral visão; a inexplicável imaginação da lembrança.
Não se sabe se todas as pessoas presentes acordaram ou se o menino-sol desurgiu ainda mais instantaneamente do que surgiu.
- Teria sido o próprio DEUS? Não! Todos ali acreditaram e afirmaram não merecer a digna visita de DEUS, ainda que encantadamente.
- Foi Jesus Cristo, o Filho VIVO de DEUS?
- O Divino Espírito Santo?
- Ou apenas um anjo especial?
- Sua mensagem não poderia ser mais clara?
- Com que objetivo teria vindo a esse lugar tão pequeno, tão distante, tão abandonado, mas tão confuso e indeciso?
- Por que tanto brilho, infinitamente inimaginável, até então?
- Por que tanto mistério e encantamento?
Diante de indagações sem respostas efetivas e claras, somente restou para cada uma das pessoas, escutar sua própria consciência, perguntar-se sobre o porquê desse acontecimento fantástico e, após construir suas ponderadas conclusões, partir para redirecionar suas atitudes, ações, palavras, objetivos, metas, razões, na busca de uma vida-perfeição de alegria, de saúde, de boa e tranquila convivência familiar e comunitária; na mais construtiva paz, calcada no mérito, no equilíbrio, na judiciosidade, no respeito e no mais doce amor cristão e fraternal, carregado de afeto e de lealdade.

João Bosco Soares dos Santos

 

MINHA FÉ.
João Bosco Soares dos Santos
DO LIVRO TOCATAS (JÁ NA EDITORAÇÃO)



Ainda canto alegria e felicidade
de belos tempos vividos muito longe.
Ainda sou criança sem maldade
de um passado feliz e já distante.

Ainda sou amplo mundo de verdade
buscando a vida, ansioso e ofegante.
Ainda adoro o amor-fraternidade.
Ainda quero meu mundo deslumbrante.

Ainda sou a bondade enternecida.
E acredito na força do perdão.
Ainda pugno por vivência bem vivida.

Ainda sou mui sensível à emoção.
Ainda creio na clemência bem sentida.
Ainda estou razão e coração.

João Bosco Soares dos Santos

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