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MEU RIO SÃO
FRANCISCO
João Bosco Soares
dos Santos
(Do livro CANTARES)
Antes, o meu rio
melodiava, quando,
por sobre as
solidárias pedras de
seu ventre,
libertas águas
faziam sussurros,
vozes e cantos, em
todas as cantigas de
minha terra.
Às vezes, em
gargalhadas de águas
felizes.
Outras, em ligeiros
ais, de raríssimas
contrariedades.
Quando o serpentear
de suas águas
aceleravam-se
em pequenas
seqüências de
cachoeiras,
eu imaginava
qualquer formidável
beleza que quisesse,
em qualquer momento,
no meu fantástico
universo infantil de
deliciosos encantos
sonháveis.
Ainda hoje, suas
águas caminhantes
acordam-me
em dulcíssimas
saudades-criança,
musicadas por seus
passos de andarilho
anos-luz.
O meu Rio São
Francisco
cantava-me, em
fantasia,
toda e qualquer
música ou história
que eu imaginasse,
em qualquer tom,
ritmo, cor, nota,
oitava ou harmonia.
Assim era a
vida-sonho no tempo
de criança.
Às vezes,
propositadamente,
procurava ficar
acordado noites e
madrugadas insones,
para que, sozinho,
em imaginações
fantásticas,
pudesse ampliar as
minhas alegrias
do jeito que eu as
quisesse.
Hoje, rio triste,
suas águas
amarram-se em
dezenas de barragens
obrigadas a
impulsionar
indiferentes
hidroelétricas,
restando-lhes,
apenas,
a repetida e
irritante liberdade
de movimentar-se em
ondas,
como se fora
doloridas explosões
de intermináveis e
acumuladas revoltas.
Pobres águas...
restos de águas
perturbadas e
desorganizadas!
Perseguido e
maltratado rio,
passeando em ligeiro
rumo ao desespero,
ao mundo da
quase-morte.
Arrebentado rio,
crescentemente
invadido por
indesejáveis
assoreamentos e
poluições!
Enfraquecidas e
atormentadas águas!
Onde estão aqueles
seus livres, puros e
cristalinos
marulhares?
Já desfaleceram em
suas destroçadas
esperanças?
Vê-se, meu querido
rio, que já não pode
amar seu leito, suas
pedras e seu
caminho,
naquele íntimo e
afetuoso abraço
convivencial,
porque o progresso,
impiedoso, frio e
insensível ao
amor-emoção,
força seu fim e
exige sua ruína
vivencial,
para que sua
vida-rio
transmude-se,
exclusivamente, em
geradora-de-capital,
esquecendo-se que o
essencial é ser
fonte perene de
muitas e muitas
vidas.
Encarcerado rio,
como é aflitivo
sentir-se impedido
de acariciar,
libertariamente,
seus ribeirinhos,
suas margens e suas
ribanceiras!
Dilacerado rio,
esvaindo-se em suas
entranhas,
contendo, a todo
custo, seus sonhos,
sentimentos, emoções
e paixões!
Maltratado rio,
condenado a
conter-se e a
esquecer,
em todos os ângulos,
linhas, prismas e
quereres,
seus afetuosos
diálogos seculares
com os amigos
ribeirinhos!
Ditoso rio,
aquela sua recíproca
prestatividade,
na mais cúmplice e
milenar simbiosidade
com os viventes
amigos,
está sendo
silenciada e
rompida, em doses
fatais.
Aquela
magistralmente
deliciosa amizade
homem-rio,
desarticula-se,
desfia-se m quase
esquálida morte,
em face do imperial
e ágil
poder-progresso,
destronando e
arrancado o homem da
sua aldeia-vida,
da sua
vida-sentimento-rio.
Amigo rio,
suas alquebradas
barrancas, já tão
pobres de árvores,
raízes e sombras,
são quase esparsos
multiquebrados e
desfiados restos,
pertinhos do fim.
Os peixes e outros
entes naturais de
suas águas estão
sendo expatriados
e milhares,
impedidos de
correrem rio-acima,
em seus inatos ritos
e ímpetos
de crescer e
multiplicar-se.
Quando criança, nos
saltitantes
amanheceres,
antes que o sol
sorrisse, abrindo-se
em alegríssimas
manhãs sertanejas,
costumava acelerar
meu acordar,
colocando visão,
emoção e alma
muito à frente das
minhas pernas e
corpo,
para, depressinha,
ver o horizonte
azul-ainda-negro
a rosear-se pelo
sopro do sol, em
delicada busca do
amanhecer.
Gostava de receber
nos olhos-face a
brisa matinal.
Depois, abria os
olhos para observar
o suave vento
a arrepiar os
cabelos das águas.
Ao anoitecer,
horizonte, nuvens e
águas azuis
douravam-se aos
poucos, em aplausos
ao sol,
prestes a repousar
por sob a terra.
Azuis também eram as
brincantes gaivotas,
que, em bandos,
singravam ventos,
espaços e tempos do
quase-noite, em
alegrias e cantares.
Felizes gaivotas que
se foram como se
foram nossas
infâncias,
deixando conosco, em
nossos olhos e
lembranças,
apenas aqueles
distantes retratos,
que hoje nos assomam
em pedacinhos de
grandes e sentidas
saudades,
arrastadas e
envelhecidas pelo
tempo-espaço,
a findar-se, como
nossas vidas.
Meu rio,
como foram
fantásticos os
intermináveis
banhos, a qualquer
hora
do dia, da noite e
da madrugada!
Que doçura de
prazer-viver!
As travessias a
nado... as
ilhotas...as
pescarias... os
piqueniques...
Meu rio,
onde estão as
mantrinxâs, os
mandins-chorões, os
pacus,
as trololôs, os
dourados, as
curimatãs, os piaus,
os pirás e os caris?
Os jacarés? As
tracajás e os demais
primitivos viventes
de suas águas?
Suas últimas
ariranhas desceram
para a extinção,
carregadas pelas
cheias das
gigantescas e
desreguladas
enchentes,
que também
levaram-nos as
esperanças.
E os insensíveis
arrasaram suas matas
ciliares,
alimentadoras de
seus aqüíferos,
e estão,
irresponsavelmente,
provocando a morte
de suas nascentes.
Hoje, estranhos e
indiferentes seres
atormentam o seu
ventre
com outros nadares e
costumes,
danificando e
exterminando o seu
nativo
ventre-universo-vida.
Meu rio
amigo-criança!
Nossos formidáveis
instantes de
liberdades
convergentes
estão a esvaecer-se
nos tristes momentos
e espaços passados,
que hoje nos liga só
por desvanecidos
tempos
moribundeantes.
A idade arrasta-me
para o seu lado
negro
e oprime-me sob seu
descontrolado
peso-tempo,
tão fatalmente
exterminador,
enquanto você, meu
rio-amigo-criança,
vai sendo
estrangulado,
impiedosamente,
pelas pororocas do
progresso
e pela nauseante
insensatez
predatória dos
desalmados e
desamantes.
É a chegante
separação
desapiedada e sem
retorno, que prepara
o golpe fatal e
final.
Adeus, meu rio
amigo!
Qual de nós se
findará primeiro?
Eu, pela fatalidade
implacável do
espaço-tempo-anos
ou você, pela
tresloucada e
devastadora
imprudência de
alguns tipos humanos
?
João Bosco Soares dos Santos |

|
O
PEABIRU E ROTAS
TERRESTRES E
FLUVIAIS.*
Doo livro:
PEABIRU -
Artérias
Sulamericanas.
João Bosco
Soares dos
Santos, em
Editoração.
Desembarcadas a
partir de 1500,
as expedições
exploradoras e
comitivas
cabralianas e
pós-cabralianas
ficaram
boquiabertas
diante do que
viram: gente
nua, à toa,
dormindo no
chão... mas à
beira de uma
estrada tão
bem-feita a
ponto de superar
as melhores de
Portugal.
E perguntavam:
- Esse caminho
tem nome?
- PEABIRU!
Ouviram o nativo
responder. E tal
nome só fez
complicar o
mistério.
- Insistiram:
- Pelo que se vê
não foi
construído por
vocês. Por quem,
então?
- PAY SUMÉ.
Aos ouvidos
lusos tais
palavras soaram
com a fulminação
própria do
milagre:
- Mas é do
apóstolo Tomé
que estão
falando? Aha!
Como justificar
tamanho
portento?!
É o magistral
diálogo narrado
por Hernani
Donato na
Revista História
Viva, nº 69.
E continua o
historiador,
argumentando que
somente o querer
divino poderia
distender aquela
vereda,
primorosamente
civilizada, em
meio a um povo
considerado
primitivo.
O PEABIRU,
planejado,
aberto, calçado
e conservado por
São Tomé, para
alguns crentes,
só poderia ser
milagre.
O rigoroso
historiador
Sérgio Buarque
de Holanda,
citado por
Hernani Donato,
dizia que havia
documentos
provando a
existência de
ramos desse
caminho, mas a
escassez de
testemunhos
materiais lança
dúvidas fortes.
Verdade é que,
redescoberto a
pouco tempo,
alguns trechos
são conhecidos.
Há fotos e
filmes
documentando
pedaços do
PEABIRU em Mato
Grosso e Paraná,
condizentes com
as descrições
deixadas pelos
primeiros
usuários.
Seu tronco
encontrado tem
1.80 metros de
largura, 40 cm
de fundura e
piso coberto por
lajes
aparelhadas com
boa técnica,
mediante o uso
de instrumentos
e de ligantes,
aponta Hernani
Donato.
Certos trechos
mostram erva
baixa – CAPIPE
PARA’I, segundo
os guaranis de
hoje ou
puxa-tripas,
nome pelo qual
os caboclos
paranaenses a
chamam -, que se
renova com o
tempo e impede o
crescimento de
outros tipos de
vegetação. Idem,
idem.
Há postos de
paragens – os
TAPUS, com dois
cômodos e
aberturas em
lugar de portas,
voltadas para o
oceano. Os
passantes se
obrigavam a
deixar
utilidades ou
alimentos e
podiam utilizar
do que lá outros
haviam
depositado, à
semelhança da
cabana mostrada
no filme Derzu
Uzala, do
Kirosaura,
produzido na
Rússia.
Desse caminho
grande, os
CHAQUIS – os
mensageiros
rápidos – se
utilizavam.
Levavam pescados
do pacífico para
as cozinhas
incas de Cuzco.
Do lado
luso-brasileiro,
há uma certeza:
esse caminho
começava em São
Vicente e tinha
uma entrada em
Florianópolis ou
em Itapocu,
Santa Catarina,
e mais uma
possível em
Cananéia.
No Pacífico, o
ponto inicial se
bifurcava no
norte do Chile e
sul do Equador.
O PEABIRU aqui
teria a função
de integrar
estradas
pré-incaicas e
incas no
continente, com
o nome de
Estrada do Sol,
e considerada a
maior e a melhor
que o mundo
conhecera. Para
os andinos era
parte do
TAHUANTINSAYO.
Seu começo
estaria na praça
central, o marco
zero do Império
Inca, em CUZCO,
no Peru.
Garsilaso de La
Veja,
historiador
peruano citado
por Hernani
Donato,
testemunho da
história, em seu
livro
Comentários
Reales, de 1560,
disse que “um
ramo da Estrada
do Sol...
demandava o
oriente chegando
ao Atlântico”.
Hoje há
disposição para
aceitar que um
fio desse
emaranhado de
veredas, ainda
saindo de CUZCO,
chegaria ao
Norte e ao
Nordeste
brasileiros.
PEABIRU, no
entender da
maioria dos
estudiosos,
teria sido um
sistema viário;
um feixe de
comunicações, na
visão do padre e
historiador
Aluísio de
Almeida.
É como fala
Hernâni Donato,
do cimo de suas
sabedorias, na
Revista citada.
O Caminho Grande
- a estrada
indígena
sulamericana que
ligava o oceano
Pacífico, desde
a grande
civilização
inca, ao
Atlântico, no
litoral
brasileiro,
passando pela
cordilheira
andina, pelas
florestas, pelo
Centro-oeste,
Sudeste,
Nordeste e Norte
brasileiros,
vencendo
pantanais,
cruzando rios –
segundo alguns
historiadores e
pesquisadores -
muito se
aproxima do
status de uma
obra de gênios e
- é quase
certeza - já
existia antes
das chegadas dos
europeus.
No Pacífico, os
pontos de
chegada-partida
situavam-se em
Callao, Potosi,
Arequipa e
Cuzco.
No Brasil,
segundo o
arqueólogo e
artista plástico
alemão Heinz
Budweg, afirma
ter localizado
obras de um
trecho de
estrada que
ligava Cuzco a
Salvador,
chegando ao
Nordeste e ao
Norte.
O engenheiro e
historiador
baiano Teodoro
Sampaio e outros
estudiosos
apontaram Tibagi,
no Paraná, como
o lugar onde se
juntavam o
tronco e os
ramais vindos
dos povoados
situados em
Santa Catarina e
no Paraná.
No século XVIII,
o jesuíta Pedro
Lozano, em seu
livro Historia
de La Conquista
Espiritual, a
respeito de
PEABIRU, assim
resumiu:
“ Por esta
província corre
o caminho
denominado pelos
Guaranis de
PEABIRU e pelos
espanhóis de São
Tomé...”
FERNANDO
MAXIMILIANO JOSÉ
(MAXIMILIANO DE
HABSBURGO),
ARQUIDUQUE
austríaco, irmão
de Francisco,
Imperador da
Áustria e primo
de Dom Pedro II,
e que, por
vontade de
Napoleão III,
foi imposto como
Imperador do
México, onde foi
fuzilado, talvez
com o apoio dos
americanos do
norte, depois
que esteve, por
duas vezes, em
Ilhéus, na
Bahia, registrou
em seus livros –
Bahia 1860 e
Mato Virgem –
que “por Ilhéus,
passava um
caminho, muito
estreito, que
ligava Bahia -
Minas Gerais,
por onde
transitavam as
riquezas
minerais”.
Os Incas
formaram um
império que
abrangia 4.000
quilômetros de
extensão. E, com
ideias
expansionistas,
teriam planejado
chegar ao
Atlântico, de
olho em
territórios que
lhes
proporcionassem
variados e
numerosos
produtos. O
apogeu deles
teria sido em
1.400. E o seu
império
terminaria em
1536.
Achados
encontrados no
que seria um
piso de um ramal
de PEABIRU,
submetidos ao
carbono 14,
indicaram os
anos abrangentes
entre 1215 e
1480, o que pode
sugerir ter sido
o PEABIRU feito,
em grande parte,
pelos Incas.
O colonizador
espanhol
Martinez Irala,
em 1553,
escreveu a seu
rei: “Y Dios fue
servido que
descobri um
camino más
cierto e
seguro...”
Os historiadores
brasileiros
Hélio Viana,
Alfredo Ellis Jr
e Buarque de
Holanda
enfatizam que
PEABIRU marcou a
vocação
sertanista dos
moradores da
província de São
Paulo. E por
ele, em parte,
chegou a Lisboa
a volumosa prata
extraída de
Potosi.
Ao fim de algum
tempo, “o grande
caminho” caiu em
desuso: os
bandeirantes
desviaram-se
para o ouro de
Minas, os
paraguaios
voltaram-se para
Buenos Aires,
seguindo,
preferencialmente,
pelos grandes
rios e o Brasil
persistiu em
progredir a
beira do mar.
Aventureiros,
bandeirantes,
entradeiros e
mascates
deixaram
registros de
suas viagens e
até comércio,
pelos caminhos e
ramais do
PEARIBU, como:
Alvar Núñes
Cabeza de Vaca,
o Jesuíta
Leonardo Nunes,
Francesco
Gambarrota,
Ulrich Schmidl,
Diogo Nunes,
Brás Cubas, Luis
Martins,
Cipriano de
Góis, Juan de
Salazar, Diogo
Dias e Nicolau
Barreto, todos
relacionados
pelo historiador
Gentil de Assis
Moura, como cita
HERNANI DONATO,
na Revista
História Viva,
nº 69, Duetto
Editora, páginas
60/65.
E quando foi
aberto este
grande caminho?
Quem o
construiu?
E é ainda
Hernani Donato
que escreve:
“Portugueses e
espanhóis, com
diferentes
interesses,
métodos e
ênfase, buscaram
controlar e
limitar o uso do
PEABIRU. O
primeiro
governador-geral
do Brasil, Tomé
de Souza,
(1549-1553), deu
início a esta
política de
restrições. Os
espanhóis
seguiram-na e
chegaram a
fundar três
vilas, que
sugeriam
posições de
posse e
vigilância sobre
o traçado. Eles
detiveram,
processaram e
penalizaram
infratores, mas
o espaço era
amplo, e a
audácia dos
aventureiros era
equivalentes.”
E continua: “Uma
documentação
veraz informa a
atividade
profissional de
paulistanos e de
moradores de
Assunção, no
Paraguai,
servindo de
guias para
interessados
nessas viagens,
visando,
preferencialmente,
aprisionar
índios, negociar
objetos de
ferro, subir ao
Potosi, na
Bolívia, e
enriquecer com a
prata”
E conclui:
“Em abril de
1581 (e até
1680), Portugal
passou a ser
governado pelo
rei da Espanha.
Com um só
monarca para
todo o
subcontinente,
as proibições
foram
levantadas. Os
bandeirantes,
entradeiros, ao
norte,
aproveitaram e
foram eles levar
o Brasil até
quase as
fronteiras
atuais.
Historiadores
brasileiros
apontam as
penetrações de
Domingos Jorge
Velho e, entre
tantas, a que,
partindo de São
Paulo, chegou ao
reduto de Zumbi
dos Palmares,
depois de
arregimentar
muitos
combatentes,
inclusive
índios, pelo
caminho,
conseguiu, por
final,
destruí-lo.
Assim, se
existiu o
complexo PIABIRU,
atravessando os
Andes, as
florestas, os
rios e
pantanais, por
ande passaram
aventureiros,
exploradores,
conquistadores,
mensageiros e
nativos, por
diversas razões,
porque não
acreditar que o
Rio São
Francisco foi
importante,
fácil, certo e
seguro caminho,
passagem e
pouso, por onde,
com certeza,
transitaram e
vivenciaram
muitas nações e
tribos nativas,
não só
nomadeando
livremente, mas
e também
guerreando,
fugindo,
conquistando,
pousando e
fixando-se,
principalmente,
nos Sertões dos
Rodelas, em suas
dezenas de
ilhas, por seu
isolamento
natural e por
suas riquezas,
tais como a
pesca e as
terras vazantes,
ricas em húmus,
sempre depois
das cheias?
“A terra era tão
larga e a gente
tão solta”. Este
registro do
Jesuíta Padre
Antonio de Sá,
citado por
Afrânio Peixoto
no magistral
Prefácio de
Carta Jesuíticas
2, Editora
Itatiaia
Limitada, 1988,
robustece a tese
da atávica e
intuitiva
predisposição da
terra e do povo
brasílico para
as amplidões, as
distâncias, as
descobertas e as
aventuras, tanto
quanto as
contidas nos
âmagos dos
europeus
daqueles ousados
momentos
históricos.
A Sinopse de
Afrânio Peixoto,
fls. 47/64 do
mesmo livro, é
um rico
mapa-leque
tonificador
dessas
implacáveis
multirotas
geográficas e
humanas.
João Bosco
Soares dos
Santos |

|
O MENINO-SOL
-
Conto-lenda.
João Bosco
Soares dos
Santos
Do livro:
MINHA
ALDEIA.
Não se soube
como,
quando, nem
de onde
veio.
Simplesmente
chegou.
Surgiu-se,
de
repentemente.
Magrinho,
vestindo
pequeno,
frágil e
leve
shortinho,
quase
transparente,
e camiseta,
tão
branquinhas
como nuvens
puras, e que
não
amostravam
qualquer
mancha de
sujeiras de
criança.
Sua doce
face era
orvalhada
por gotinhas
de água,
como se fora
bolhas de
cristal.
Levantava e
baixava a
cabecinha e
a virava
delicadamente
para os
lados,
quando
começou a
balbuciar
qualquer
coisa, ainda
não
entendível.
Era lindo!
Não! Era
belíssimo
nos seus
três anos
aparentes de
vida: olhos,
entre o
verde e o
azul,
cintilando
horizontes
de luzes
longes mas
penetrantes;
cabelos de
sol, em
reflexos de
sol, no seu
amarelo-ouro
mais
brilhante;
mãos
pequeninas,
suaves e
tímidas
incapazes de
disfarçar o
encanto
sutil
ostentado
naquele todo
tão
pequenino e
tão
ternamente
belo.
Corpo de
imaginário
anjo de um
céu bem
distante,
delicadamente
suave. Pele
ligeiramente
amorenada,
querendo ir
para uma
tonalidade
sertaneja,
ou para uma
doce cor
parda leve,
pura e
suavemente
tenra. Era
uma beleza
diferentemente
plena, em
toda sua
total e
atualizada
perfeição.
E foi visto
envolvido em
luzes e em
frente de
uma das
casas.
Que linda
criança!
Dir-se-ia,
seria um
Pequeno
Príncipe
pousando no
nordeste, se
aquela
aldeia
tivesse lido
a história
de Antoine
de
Saint-Exupéry;
tal eram o
esplêndido e
elegante
porte e a
purificada
beleza
daquele
menino-sol.
- Quem é
você?
- Onde está
sua mãe?
- E seu pai?
- De onde
vem você?
- Com quem
veio?
- Qual é o
seu nome?
Você chegou
aqui, agora?
De logo,
somente
movimentava
a cabeça,
quando
parecia
falar. E com
os braços,
mãos e dedos
gesticulava,
tentando
apontar os
mais
distantes e
indefinidos
lugares e
meneava os
olhos só
para mostrar
e provar que
eles eram
estranhamente
belos e
magistrais e
fazia dançar
o pesinho
direito,
quando
reiterava o
que queria
dizer.
O barulho
das pessoas
presentes
aumentou e
todos os
habitantes
do lugarejo
vieram ver,
de pertinho,
o menino, já
o aclamando
como
menino-sol.
Aparentemente,
tomou um
pouquinho de
leite e
mastigou,
magicamente,
um pedacinho
de queijo
que lhe
foram
oferecido e,
de imediato,
adormeceu,
coincidentemente,
nos braços
da mais
velha, mais
generosa e
mais
carinhosa
mãe do
povoado, que
já o ninava
e para ele
cantava, com
sua adorada
voz de mãe
adorada, a
canção de
ninar mais
tocantemente
emocional e
maviosa que
aquela vila
sabia
cantar. E
quase todas
as almas
daquele
sítio
passaram a
noite na
varanda e em
torno do
casebre,
olhando,
analisando e
amando
aquele
momento-noite
de
alegríssima
felicidade
jamais
imaginada.
Quando a
madrugada
abriu sua
porta,
encontrou
algumas
daquelas
pessoas
ainda a
dormir.
Mas, bem
próximo
daquele
mesmo
momento,
alguém disse
gritando que
a criança
não mais
estava a
repousar em
qualquer
cantinho
quer dos
braços quer
da casa. E
todos,
atordoadamente
e
tumultuadamente,
se
movimentaram
a buscar
aquela
beleza-felicidade,
com os
olhos,
ouvidos,
mãos,
braços,
corpos,
espíritos e
mentes, nas
suas
proximidades
e em todos
os possíveis
lugares.
E, e já bem
cansadas,
desesperadas
e
desesperançadas
as pessoas
deram-se as
mãos,
ajoelharam-se
e rezaram a
DEUS, a
Nossa
Senhora do
Rosário, a
São João
Batista, a
São
Francisco e
a São João
Bosco,
padroeiros e
santos da
vila, em
agradecimento
por aquele
momento,
indagando-se,
pedindo
explicações
e a
clamarem,
prometendo
tudo para
terem de
volta aquele
anjo-luz,
com aquele
feliz
momento.
- Onde está?
- Quem está
vendo?
- Quem viu?
- Para onde
foi?
- Por que
veio até
aqui, nessa
noite-manhã?
- E o que
queria,
então?
- Que veio
nos dizer ou
lembrar?
Quando a
tarde veio
vindo e o
sol
mostrou-se
com toda sua
pomposidade
dourada,
despedindo-se
do dia, para
caçar outras
sombras lá
na outra
face das
terra, todos
perceberam
que um feixe
de fortes e
fantásticas
luzes e
reflexos,
mais
douradamente
fortes,
partia do
alto do
Serrote,
plantado a
séculos no
meio do Rio
São
Francisco,
do lado
oposto ao
poente sol.
E todos se
inflamaram,
levando
alvoroçadas
emoções às
gargantas
porque
constataram,
com todos os
sentidos que
de lá,
realmente,
estava bem
fincada uma
esplêndida
cruz, tão ou
mais
ofuscante
que o sol.
Correram
todos em
corpos e
sentidos e,
imediatamente,
ecoou um
ohhhhhh...
por todos os
lados e
lugares, de
susto,
respeito,
admiração e
indagação.
E, em
verdade
encantada,
lá estava o
menino-sol,
com corpo e
bracinhos
abertos em
cintilante
cruz,
olhando
fixamente o
alto dos
céus, com
que
afrontando
magistralmente
o sol,
imaginando-se
sol,
querendo ser
sol e
mostrando a
todos que
ele também
era um
extraordinário
sol, muito
mais
cintilante
que o nosso.
E a pequena
multidão de
corpos e
espíritos,
sem qualquer
outra opção
de adoração
ou de
louvação,
ajoelhou-se
todamente
contrita e
explodindo
emoções por
todos os
poros,
comandada
pelos bons
valores
cristão, que
se impunham
com
dignidade
naquela
diminuta
aldeia, mas
gigantemente
crescente em
fé e em
respeito a
DEUS.
E, ansiosos,
todos
contritos,
esperaram a
voz e as
palavras que
o menino-sol
parecia
dizer, e
todas as
pessoas
acreditavam
estar a
ouvi-las e a
entendê-las,
mas, na
verdade,
ninguém
ouvia som
nenhum: tudo
era tocante
e
magicamente
encantado e
encantante.
E, logo ao
depois, o
menino-sol
somente era
silêncio
retumbante e
sublimação
celestial. E
assim
continuou a
ser silêncio
de voz e
reflexos
áureos, os
mais
brilhantes e
mais
dourados,
por toda a
noite.
E, por todos
os dias
seguintes,
só ficou a
magistral
visão; a
inexplicável
imaginação
da
lembrança.
Não se sabe
se todas as
pessoas
presentes
acordaram ou
se o
menino-sol
desurgiu
ainda mais
instantaneamente
do que
surgiu.
- Teria sido
o próprio
DEUS? Não!
Todos ali
acreditaram
e afirmaram
não merecer
a digna
visita de
DEUS, ainda
que
encantadamente.
- Foi Jesus
Cristo, o
Filho VIVO
de DEUS?
- O Divino
Espírito
Santo?
- Ou apenas
um anjo
especial?
- Sua
mensagem não
poderia ser
mais clara?
- Com que
objetivo
teria vindo
a esse lugar
tão pequeno,
tão
distante,
tão
abandonado,
mas tão
confuso e
indeciso?
- Por que
tanto
brilho,
infinitamente
inimaginável,
até então?
- Por que
tanto
mistério e
encantamento?
Diante de
indagações
sem
respostas
efetivas e
claras,
somente
restou para
cada uma das
pessoas,
escutar sua
própria
consciência,
perguntar-se
sobre o
porquê desse
acontecimento
fantástico
e, após
construir
suas
ponderadas
conclusões,
partir para
redirecionar
suas
atitudes,
ações,
palavras,
objetivos,
metas,
razões, na
busca de uma
vida-perfeição
de alegria,
de saúde, de
boa e
tranquila
convivência
familiar e
comunitária;
na mais
construtiva
paz, calcada
no mérito,
no
equilíbrio,
na
judiciosidade,
no respeito
e no mais
doce amor
cristão e
fraternal,
carregado de
afeto e de
lealdade.
João
Bosco Soares
dos Santos |

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MINHA
FÉ.
João
Bosco
Soares
dos
Santos
DO LIVRO
TOCATAS
(JÁ NA
EDITORAÇÃO)
Ainda
canto
alegria
e
felicidade
de belos
tempos
vividos
muito
longe.
Ainda
sou
criança
sem
maldade
de um
passado
feliz e
já
distante.
Ainda
sou
amplo
mundo de
verdade
buscando
a vida,
ansioso
e
ofegante.
Ainda
adoro o
amor-fraternidade.
Ainda
quero
meu
mundo
deslumbrante.
Ainda
sou a
bondade
enternecida.
E
acredito
na força
do
perdão.
Ainda
pugno
por
vivência
bem
vivida.
Ainda
sou mui
sensível
à
emoção.
Ainda
creio na
clemência
bem
sentida.
Ainda
estou
razão e
coração.
João
Bosco
Soares
dos
Santos |

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