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BRANCA DE NEVE
"Espelho, Espelho Meu, existe
alguém mais bela do que eu?"
(Rainha Má - Branca de Neve)
Sabe o que mais?
Me irrita.
Me irrita seus dentes retos, seu
sorriso reto. E me irrita sua
manipuladora infantilidade de quem
rouba o sutian, maquiagem e os
saltos da mãe, fingindo uma
sensualidade caricata pedinte e
mendicante... Uma boneca, é isso que
se tornou, uma boneca de louça, oca,
vazia e quebrável. Me irrita sua
falta de nexo [sexo] retórico...
Cresceu ainda menina.
Cresceu perdida dentro de devaneios
rosa, mascarada sobre camadas e
camadas de coisas que não tem onde
guardar, elas se acumulam na
superfície pesam tanto que se
arrasta e mais uma vez confunde o
soberano com o mesquinho.
Quando se olha no espelho não se vê.
Nota que se tornou um fantasma
disforme vagando ao som do eco?
Deixa eu te dizer, faça silencio,
ouça... Os ecos por si já são
tardios, são verdades (de)mentes que
já não são.
Me irrita.
Me irrita seu ar superior de uma
princesa sem reino. Sozinha, ilhada
por suas faltas, essas se agarram
por suas pernas, te puxam e ainda
assim majestosa do nada. Viúva do
nada.
E não chore mais, chega! Suas
lágrimas hoje são somente enfeites
para seu rosto claro, uma forma de
tornar seus olhos mais pierrot e
perderam o sentido.
Nem percebe que há tempos já nem
sofre e que tudo isso são espectros
do que não quer se permitir deixar.
Anda, depressa. Deixa de ser mimada,
o mundo não te espera, a vida não te
espera, as pessoas não te esperam, a
importância que julga ter não tem...
Acorda. Ainda estou aqui mas até
quando? O tempo está te comendo. O
tempo te corrói, partícula por
partícula e você se esvai e não
percebe, o tempo não deixará nada
para ser lembrada, pois não deixou
nada dentro da sua oquidão de ovo.
Nada de novo.
Então corte... corte seus pulsos...
Vamos, estou aqui, te estendo a mão
e prometo assistir até o final e
prometo depois te acreditar.
Não menina, não estilhace o espelho,
pois, não estou lá.
Katia Mota |

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POSSESSÃO
Por que me nega o direito
De violar;
De te violar o peito;
Romper teu silencio?
Por que me nega a sorte
De te esmiuçar por dentro;
De te vasculhar os sótãos;
De te refletir em mim?
Espelhos.
Por que me nega?
Por que não me permite?
Por que não me abre as portas?
Uma dentro outra.
Labirintos e labaredas.
Uma dentro outra.
Por que me nega os espaços;
Me nega as faltas?
Por que não me permite a palavra
dita?
Por que não me permite o acesso?
Intravenoso.
Veneno.
Por que não me permite a quase
morte?
Te ter em mim e me morrer aos
poucos para nascer em ti?
Por que não me permite em ti?
Me nega.
Doente e lascívia.
Uivando.
Te ter entre meus dentes.
Me ter entre teus pêlos.
Por que não me permite?
Rasgar teu peito e me instalar
em abrigo?
Katia Mota |

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Ode a Razão
Pura
E quando penso nas mortes
que vivi.
E quando penso que assisti
suspensa,
o agonizar silencioso.
E quando penso nas vidas que
fugi.
E quando penso no gozo que
perdi.
E quando penso nas naus que
sobrevivi.
Penso músculo.
Penso sopro.
Penso choro.
Quando penso braços,
penso hera.
E me penso pagã.
Penso pêlos.
Um a um porque penso pele.
Penso fera.
Deduzo fêmea.
E quando penso abandono.
Penso broto.
Penso frouxo.
Penso fuga.
E quando penso corpo.
E penso vazio.
E quando penso vazio penso
oco.
E quando penso dor
Penso poesia.
Penso afogamento.
Penso nada.
E penso nada.
Penso...
EU.
Katia Mota |

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DEZEMBRO
A fumaça subia em
espirais, elipses que se
desfaziam quando
atingiam a altura
(in)suportável, onde o
ar se tornava mais leve
para que elas
explodissem e se
misturassem com a
imensidão das quatro
paredes do quarto
asfixiante. Podia sentir
que a madrugada que
começava atingir o fio
tênue entre a noite e a
manhã. O céu só podia
estar sem estrelas e
começando a tingir no
horizonte em nuances de
violeta.
Olhei o rosto dela, os
cabelos espalhados,
agora a face era um
espelho sem promessas.
Um vazio de futuro,
sonhava, pensei em Rosas
era bonito de se
imaginar, rosas sobre o
travesseiro, o perfume
nos cabelos escuros
dela. Precisava sentir o
vento no rosto, o olhos
pediam o ponto de fuga.
Mais uma tragada para
que a fumaça invadisse
os pulmões povoando a
solidão, desenhei na
fumaça os olhos dela, os
olhos escuros e grandes,
olhos de fome, que
buscavam com pressa cada
detalhe das coisas, que
ficavam perdidos de
prazer, que se apertavam
quando ria e esses olhos
riam também, desenhou
então os olhos rindo.
Dezembro. Mais algumas
horas um novo ano raiava
e subia no céu com seus
raios magenta sugerindo
mudanças que não
concretizariam,
sugerindo dias que não
viriam, sugerindo planos
que não se cumpririam. E
não suportava mais o
peso das promessas que
nunca seriam futuro, que
faziam parte de um
passado de segundos onde
se formavam e se
perdiam, seu único
refúgio, seu único
presente era sempre ela,
era sempre aquelas
pernas longas a se
enroscar nas suas à
noite para fazer o único
sentido do dia. Inundar
seu corpo era como
morrer em segundos, o
deixar de ser, todos os
sentidos misturados e
aguçados em ponto de
ebulição, a alma atirada
do corpo para o corpo
dela a morte era tão
linda naquele momento.
Ela riu. Riu quando
disse que era o fim. Se
atirou sobre mim rindo.
Ouvia o riso ecoando
pelas paredes, solto,
ela sempre teve o riso
livre, riso em erupções
as vezes impossível de
conter, assim como as
lágrimas. As lágrimas
também lhe eram típicas
tanto no riso quanto no
choro, as vezes se
misturavam sem poder
identificar onde
começava um ou terminava
o outro. Com o riso a
certeza do que deveria
ser feito. Fato e feito.
Me abracei a ela,
agarrado numa fúria
louca, ela entrelaçou as
pernas em minhas costas,
meu corpo já a pedia e a
queria latejando,
possuindo-a para
sugar-lhe todos os gozos
e sabores, ela me
oferecia a boca rindo,
seu riso me atravessava
o peito feito lança.
Busquei seus seios, me
afoguei neles enquanto
languido seu corpo
estava entregue,
encostei o cano no seu
peito, não podia
ferir-lhe o rosto,
queria ver aquele rosto
até os últimos momentos
e carregar a imagem
comigo como um sonho.
Egoísta? Sim, me
reservei o direito já
que a vida tinha-me
tirado tudo, aliás, não
tinha me dado nada. Seu
corpo enrijeceu debaixo
do meu quando ouviu o
barulho surdo. Arregalou
os olhos estupefata.
Suspirou e eu lhe
recitei todas as
promessas que nunca fiz,
promessas de eternidade,
de amor, de vida e disse
todas as poesias que
conhecia e poemas que
desconhecia, para lhe
aliviar a dor enquanto
durasse os últimos
passeios do sangue que o
coração suportasse e
disse-lhe para me
esperar.
Passei o braço debaixo
do seu pescoço o
levantei levemente, a
boca se entreabriu,
ainda não começara a
enrijecer. Fechei seus
olhos eles me viam,
estáticos, estavam
saciados e isso me
feria. Colei meus lábios
aos dela ainda quentes,
ela sempre teve lábios
quentes, mesmo quando
surpreendida pela chuva
ou quando tiritava no
inverno, os lábios
sempre eram quentes,
introduzi minha língua
buscando a rugosidade do
céu de sua boca, o calor
me percorreu a espinha
quando senti o metal
frio na têmpora, minha
língua buscava alma,
precisava alcançá-la e
ainda pude ouvir o
estalido do gatilho.
Katia Mota |

2012
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