MARCOS TOLEDO

 


DECIDIDA


Sempre quis ter uma família unida. Desde criança, ficava brincando de ser mãe e mulher. Via meu pai com minha mãe e desejava ter um marido igual a ele. No colégio, ainda nova, conheci um homem que parecia ser de sonho; levou-me na conversa e acabei me entregando a ele, com dezesseis anos.
Não havia outro jeito a não ser casar-se comigo; se não o fizesse, meu pai o mataria.
Inicialmente, achei aquilo o máximo, pois eu o amava, mas após o casamento e o nascimento do meu primeiro filho, meu príncipe tornou-se um carrasco e espancava-me quando chegava bêbado das suas orgias. Eu, uma menina com um filho nos braços, não podia voltar para a casa dos meus pais.
Hoje sei que se tivesse feito isso, meus pais entenderiam, mas segui levando a vida e engolindo as mazelas.
Em consequência das bebedeiras, fui diversas vezes estuprada por meu marido, e desses estupros vieram meus outros dois filhos. Eu permanecia calada frente às violências dele e aguentava suas traições. Algumas mulheres ligavam para minha casa fazendo ameaças, outras caçoavam e eu, apenas, chorava... tinha três filhos e nenhuma profissão, pois ele não me deixava estudar e muito menos trabalhar, por isso precisava aturar tudo.
Com meus filhos crescidos, resolvi retomar os estudos, mesmo contra a vontade do meu marido. Meus filhos sempre me apoiaram, e assim lá fui eu a uma universidade; formei-me e comecei a trabalhar. A essa altura, meu marido ia envelhecendo e as farras tinham diminuído, mas as violências e grosserias contra mim nunca cessaram.
Meus filhos nunca souberam disso, pois jamais lhes contei o que o pai deles fazia comigo.
Certa vez, meu pai, já no final de sua vida, olhou-me nos olhos e disse – minha filha, seus olhos transmitem tristeza; saiba que nossa casa será, sempre, sua casa... você é feliz? Minha vontade foi a de abrir meu coração para ele; dizer que não era feliz e que nunca fora; que sempre suportei tudo por causa da rígida educação recebida e do medo de voltar para casa deles com filhos nos braços e sem meios de sustentá-los. Mas não... menti para ele mais uma vez, dizendo que era sim, feliz. Na realidade, não deixava de ser, porque tinha meus filhos.
Com meu trabalho indo de vento em popa, minha cabeça funcionava diferente, e pensava cada vez mais em acabar com meu casamento, pois mesmo estando mais velha, não suportava ver aquele homem vir me procurar sempre que queria fazer sexo, além de nunca me apoiar nos estudos e no trabalho e ainda ter uma amante às escondidas. Estava sim, decidida a me separar, mas...
Conheci uma pessoa que me fazia rir, além de me ouvir e apoiar. Tinha sempre um ombro amigo para eu falar sobre minhas angústias, mas esta situação, agora, deixava-me entre a cruz e a espada: se resolvesse me separar, esse homem poderia pensar que era por sua causa que eu estava fazendo aquilo, e isso eu não queria; meus filhos também iam logo ligar minha separação a algum homem e ficariam contra mim.
Numa noite, após o trabalho, cheguei em casa e mais uma vez meu marido veio com ignorância e violência contra mim. Eu, porém, não era mais aquela menina bobinha e dependente; já me sustentava, conhecia meus direitos, conhecia a lei e coloquei-o contra a parede. Disse a ele que, se levantasse a mão contra mim, iria preso, pois havia lei contra a violência doméstica. Ele arregalou o olho e, mesmo cheio de bebida, foi dormir.
No dia seguinte, chamei meu filho mais velho e comuniquei que ia me separar do pai dele. O mundo dele caiu! Reuniu os outros irmãos e me fizeram milhões de perguntas sobre as causas da separação, pois eles nunca viram brigas, discussões e muito menos traições. Eles queriam saber se eu tinha alguém, se algum homem havia transformado minha cabeça. Então, fui obrigada a falar do santinho que era o pai deles e do quanto suportara durante aquele tempo todo. Eu, claro, não contei que havia um homem em minha vida; dessa vez menti para eles, porque o motivo da separação não era esse homem.
Embora ficassem a favor do pai, eles aceitaram a minha decisão. Aos poucos, estou conseguindo fazer com que vejam quem é o pai querido deles, o super- herói que bate em mulher, que vive com amantes e que sempre posa de bonzinho dentro de casa.
Decidida a mudar radicalmente minha vida, fui morar sozinha, agora sim, ao lado de um grande homem. Decidimos que vamos viver os nossos poucos momentos juntos, sem nos preocupar com mais nada, só em fazer um ao outro feliz.

Amém
Marcos Toledo





 

CADÊ MEU VERDADEIRO PAÍS?

Ditado, ditadura, cultura e censura.
Ontem, aprendi na escola - ditado.
Passei pela rua vendo polícia batendo - ditadura.
Assisti na televisão o que se podia – cultura.
Tiraram-me o que não podia – censura.

Meu verdadeiro país não é assim
- Divida o seu, mas mantenho o meu,
distribua o ruim, mas me dê o bom.
Passe-me um pouco, dê o nada.


Cadê meu verdadeiro país?
Não o vejo mais! O que houve?
Meus olhos se fecharam
ou meu corpo dói?


Estou sem forças para brigas,
sem argumentos para palanques,
sem vontade de lutas e rostos pintados.
Nada de ficar de frente a tanques,
muito menos de fazer intrigas.

Amém

Marcos Toledo




ROSAS PELA SALA


Hoje, meu filho me surpreendeu e fez chorar... Ele fica sempre com a babá e, ao voltar do trabalho, vi várias pétalas de rosas no chão. Iam da porta da sala, até onde ele estava.
Por que eu fiquei emocionada? Porque era assim que meu pai me recebia em casa quando tinha prova na escola; para acalmar-me, ele fazia isso.
Meu pai era um homem muito rústico, bruto no jeito de ser, mas um gentleman – carinhoso comigo e com minha mãe. Quem o via nas ruas ou mesmo no trabalho, achava que ele até batia na família; mal sabia que ele era fora de série dentro de casa.
Existe algo que ficou em minha cabeça até hoje... um momento lindo...
Na primeira vez em que fui fazer uma prova dificílima, ele sabia das minhas dificuldades na matéria, e estava em casa, pois era feriado para a sua categoria profissional
Eu tinha certeza de que havia me saído mal na prova e voltava cabisbaixa para casa. Ao entrar na sala, vi várias pétalas de rosas no chão, formando um caminho que ia até o sofá. Lá, havia uma caixa de bombom com um bilhetinho com poucas palavras : "eu te amo, independentemente da sua nota". Ao pegar a caixa com o bilhetinho, as lágrimas me correram, e da cozinha vinha ele, com um sorriso largo e os enormes braços abertos, à espera do meu abraço.Ficamos ali, abraçadinhos, até que chegou minha mãe – outra pessoa espetacular – de quem guardo milhões de lembranças boas, mas que nesse dia agiu diferente. Entrou na sala esbravejando, querendo saber quem havia retirado as rosas do seu jardim. Olhei para papai, ele olhou para mim, sorrindo, e apertou-me contra seu peito, dizendo – agora me socorra.
Minha mãe vendo que ele havia me abraçado com um lindo sorriso, não resistiu e veio abraçar-me também, fingindo bater nele e em mim.
Hoje, vejo meu filho fazer isso comigo, sem que jamais tivesse feito algum comentário sobre o fato com ele. Pensei – ele tem realmente o sangue de meu pai nas veias... E, para completar, as rosas que ele havia espalhado pela sala tinham saído do meu jardim que eu cuidava com tanto carinho...
Abracei-o com toda força, esquecendo que ele só tinha seis anos e não era um homenzarrão como meu pai. Com lágrimas nos olhos, apertei, apertei, até ele pedir para eu parar.

Amém

Marcos Toledo



 



Ontem, acabei percebendo o quanto é ruim envelhecer sem ter alguém por perto. Não que eu nunca tenha tido alguém por perto, mas perdi meu velho e acabei ficando só... por opção, claro, mas estou só, há algum tempo.
Eu percebi a minha real situação por acaso, ao visitar um de meus filhos e ouvir, sem querer, uma conversa da minha nora com ele. Ela perguntava quando eu iria embora, pois teriam de sair no final de semana e eu atrapalharia seus planos. E veja! Eu acabara de chegar e ficaria apenas de um dia para o outro!
Magoada com o que ouvi, resolvi dizer que não poderia ficar, pois havia me lembrado de algo urgente que deixara por fazer em casa, e que pela manhã deveria estar pronto.
Tenho duas lindas netas que, infelizmente, passaram uma tinta invisível em mim, pois passam por mim como se não me vissem - sem falar, sem cumprimentar, e muito menos pedir aquele colinho de avó que os netos pedem.
Quando elas vão à minha casa, procuro fazer doces e bolos para agradá-las, mas após meia hora por lá, ouço-as perguntar ao meu filho, pai delas, quando irão embora, pois na minha casa não há computador e elas não gostam de ficar por muito tempo longe da máquina.
Acabo dando aos vizinhos os doces e bolos, para não estragarem.
Por vezes, na expectativa de recebê-los, faço os bolos e doces... mas eles não vêm... O que faço, então? Jogo tudo fora, para não deixar que os vizinhos percebam que, mais uma vez, fiquei sozinha num final de semana.
No Natal, meu filho ligou, dizendo que viriam almoçar comigo. Fiz despesas, comprei peru, bacalhau, fiz bolo e doces novamente, como sempre faço, mas não os mesmos, variados, na esperança de que eles comessem e ficassem um pouco mais de tempo em minha casa.
No final da tarde, já escurecendo, recebi uma ligação do meu filho dizendo que não viria, pois as meninas tinham resolvido ir para a casa de praia e, assim, aproveitaram o tempo e saíram cedo, para não pegarem engarrafamentos.
Disse-lhe que agira certo, e ele sequer perguntou se eu tinha feito alguma coisa para o almoço... Sim, eu tinha feito e estava tudo sobre a mesa; somente as comidas de panela estavam no fogão, prontas para serem consumidas. Com muitas lágrimas nos olhos, guardei-as com carinho, pois seriam aproveitadas por mim durante a semana, ou quem sabe, no Ano Novo; mas o que eu previa aconteceu: eles não vieram nem para o Ano Novo.
Fiz minha ceia sozinha... sozinha não, eu e meu lindo cão “Guilherme”, um labrador que era o que me restava da família que um dia tive.
Diziam que meu cão estava obeso, mas pudera, ele comia tudo o que eu fazia! Era ele, realmente, o meu provador, minha companhia e meu grande amigo.
Um dia, acordei e o vi deitadinho, com o focinho colado à porta do meu quarto. Falei com ele, mas ele não se manifestou como de costume, com o rabinho abanando para mim. Olhei-o e percebi que, mais uma vez, acabara de perder um grande amigo - primeiro foi meu velho e agora meu cão.
Pergunto a Deus o que ainda me falta perder, pois já perdi o meu filho em vida; perdi para a vida.
Por que será que ainda me encontro aqui, neste mundo, se agora estou completamente só, à espera da morte que está demorando demais?

Amém

Marcos Toledo


 

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