Maria de Lourdes Otero Brabo Cruz

(Malu Otero)

PALAVRAS, NÃO SEI SE AS TENHO
Malu Otero


Só tenho palavras tortas,
Às vezes nem as tenho...
Então percebo que hoje
Já não vivo de palavras,
Mas elas afogam meu ser,
Quando insistem em dizer,
Que são teus os meus momentos
De anseio e devaneio...

Então logo sei que devo
Renunciar a todas elas
E me calo em pensamentos,
Pois tenho que fazer frente
Ao que me pede a razão.
Chega logo o esquecimento,
Perfura meus pés descalços
E amortece a minh'alma.

Existem outros caminhos,
Que me fazem renascer,
Que me levam pra bem longe,
Castigando o amanhã,
Ao insistir em pensar
Como traduzir a vida.

Mas acendem chama mágica,
Na esperança de alçar voo...
Palavras conservam vivo
No presente o que já foi.
Sem elas no pensamento,
Como traduzir o amor?

Malu Otero

NA TERRA QUE EU MAIS QUERO
Malu Otero


Ah! poesia companheira
no entardecer da minha vida,
Tão dona de meu peito.
Na estrada de terra batida,
Consegues romper a rotina
E vais levantando poeira...

Turva a visão, o coração palpita,
Sem saber o que vem depois,
Porque se entrega à brisa,
Carregada do cheiro de mato,
Ao longe o mugido dos bois...

Eu voo junto, me deixo levar,
Poderosa e dona da situação,
Armada com meus versos,
Que encurtam as distâncias
E que me levam a ti!

Matas verdes, ar levezinho,
Outra vez estou contigo
E volto ao Tanque do Moinho,
A meninice outra vez persigo...

Te chamam de cidade da poesia
E talvez bebendo de tua água,
Respirando desse teu ar,
Tenha eu criado asas,
Que me levam a poetar!

Sendo uma bragantina
E daquelas bem paulista,
Fui crescendo no querer,
Ao meu Brasil conhecer.

Noutros continentes estive,
Testemunhei maravilhas,
Porém não há quem resista
A esta terra paulista.
Ufanista, alguns dirão,
Mas é este o meu torrão
E eu amo cada vez mais
O Brasil em sua extensão:
Desde as florestas do norte
às extensas pampas do sul...

Posso afirmar com o porte
De quem tem samba no pé,
Ao consultar as estrelas
Do meu Cruzeiro do Sul,
Que ilumina o percurso
De um poeta com fé:

Ao escrever os meus versos,
Nas curvas de um arco-íris,
No esvoaçar dos colibris,
No canto de um dourado
Sabiá-laranjeira...
Vou levantando poeira,
Soprada por brisa fresca,
No solo antes orvalhado
Da estrada de terra batida
Desta pátria brasileira!

Malu Otero

 SÓ SENDO POETA
Malu Otero


Só assim, sendo poeta,
Consigo arcar com a vida,
Ser quem sou,
Ir por onde vou.
Só assim consigo que em meu coração
Caiba tanta dor, tanto desejo
De chegar até ti,
De gritar pra que ouçam,
De gritar pra que ouças.
Há muito o que dizer,
Há muito o que calar,
Mas isso, a poesia vai determinar.
Só sendo poeta...

Malu Otero

QUER UM CAFUNÉ?
Malu Otero


Diga lá, quem não quer
Um cafuné bem gostoso,
Daqueles que faz saber
Como é bom ser manhoso.

É... tem que agarrar a chance,
Tem que saber aproveitar
O momento certo num instante.
Não se pode, nem por sonho, enjeitar.

Se isso acontece a magia se quebra,
O amor vai embora,
Não nos espera.
Diga lá, é a hora...

Ou então vai ficar sem ninguém,
Rosnando feito fera.
Não tem jeito, meu bem,
Se cochilou, já era!!!

Malu Otero

2012

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