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O galã do cemitério
Foi uma notícia terrível, de cortar o coração. O querido Zé, que
trabalhou anos e anos naquela empresa, de uma hora para outra, bateu
com as botas. Deixou o velho e amigo camarada, o Severino, um
sujeito baixinho, cabelos grisalhos, solteirão convicto, metido a
galã. Andava sempre com um pente no bolso da camisa. O tal objeto
era um acessório indispensável, pois tinha pavor de que seus cabelos
ficassem em desalinho, e se de repente pintasse um broto? Não, ele
não podia descuidar.
Quando recebeu a notícia da morte do amigo, foi como se um raio
caísse em sua cabeça, até pensou em se jogar de um viaduto, tamanha
foi a sua dor, porém se conteve “a vida continua.” – pensou.
E naquela manhã de um calor insuportável, ele foi para casa e
escolheu o melhor terno, usou uma loção de uma fragrância muito
forte, queria ficar bem perfumado. O amigo que desculpasse, mas
mesmo sendo numa ocasião como aquela, não podia descuidar da
aparência, afinal e se de repente aparecesse o grande amor de sua
vida? - dizia ele com seus botões, enquanto se ajeitava no espelho.
Com muito pesar se dirigiu para o velório do amigo. Quando lá
chegou, rapidamente passou o olhar pelo recinto, como um gavião
procurando sua presa, no entanto só encontrou os amigos da empresa e
o velho amigo ali estendido. A comoção era geral, todos gostavam
demais do Zé.
Depois que fizeram a última homenagem, todos se dirigiram para o
local do sepultamento, Severino ia cabisbaixo, amparado por alguns
amigos, para ele era um momento muito difícil de aceitar. E antes do
corpo descer a sepultura, um último adeus, todos poderiam jogar um
punhado de terra na cova rasa.
O amigo como que num ritual, antes de executar o pequeno gesto, mais
do que depressa pegou seu pente e arrumou os cabelos, e só então
depois, pegou o punhado de terra, porém o que ele nem imaginava que
poderia acontecer, acabou acontecendo. Ao arremessar a terra seu
corpo foi junto e ele caiu dentro da cova. Severino ficou tão
apavorado que começou a gritar por socorro e a dizer que era muito
jovem ainda, e que não queria morrer antes de encontrar seu grande
amor. Os amigos mais do que depressa o tiraram dali, ele estava
pálido, tremia feito vara verde e ainda por cima gritava de dor,
pois havia fraturado a clavícula. E para seu desespero todos caíram
numa tremenda gargalhada, afinal, não tinha como não rir daquela
cena tão pitoresca. Logo após o enterro, Severino foi socorrido num
hospital próximo dali, teve que ficar seis meses afastado do
trabalho, porém o acontecimento já tinha se tornado motivo de piada
na empresa.
Mas enfim a vida tinha que seguir seu rumo, quando ele voltou ao
trabalho, ainda um tanto sem graça pelo vexame daquele dia, foi
recebido por todos como o galã do cemitério.
Mora Alves
Histórias que o povo conta
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Quisera
Quisera eu que no mundo
Não houvesse tanta distinção
Que o amor fosse uma eterna
Superação.
Onde as diferenças fossem
A solução.
Quisera eu que no natal
A festa fosse celebrada
Dentro de cada coração
Não havendo mais tantas
Divisões e num momento
De fé e oração fosse
Cantada a mais linda das canções
Onde o verdadeiro amor
Fosse a única religião.
Mora Alves
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Natal
Que neste Natal as flores
Encantem ainda mais com
Toda sua beleza e simplicidade
Que a árvore que simboliza
A vida e a esperança
Multiplique seus frutos
Durante o ano que se inicia
Que os sinos de Belém
Anunciem uma nova oportunidade
De apagar velhas mágoas e
De alegrar corações sofridos
Que o bom velhinho com suas cores
Ilumine o caminho dos nossos pequeninos
E que espírito natalino contagie
A todos na certeza de um mundo melhor.
Mora Alves
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O trocadinho
Certa vez uma senhora já com seus 70 anos, cabelos grisalhos e um
corpo rechonchudo, dona de uns quadris sem tamanho, parecia até que
a qualquer momento seu corpo tombaria para trás, encontrava-se
naquele horário na rodoviária com a sua filha mais nova, estavam
esperando o ônibus de viagem.
Dona Antonieta, esse era o seu nome, já estava impaciente com a
demora do fretado, foi até o guichê se informar o porquê do atraso,
o rapaz do outro lado do balcão, também estava incomodado com aquela
situação, pois os passageiros estavam ficando furiosos, queriam que
ele encontrasse uma solução, mas o rapaz pouco podia fazer, pois não
dependia dele resolver aquela situação.
Já cansada de esperar e de reclamar com aquele rapaz, resolveu se
sentar do outro lado do guichê assim não teria mais que ficar
ouvindo tantas reclamações dos outros, pois para ouvir reclamações
já bastavam as suas, pensou Dona Antonieta.
Sentou-se do outro lado e ficou olhando para o local de entrada dos
ônibus, sua filha, uma moça muito calma e educada naquele momento se
aproximou da mãe e pediu que ela tivesse um pouco de paciência pois
afinal estavam passeando e não havia necessidade da mãe se alterar
tanto.
Dona Antonieta entendeu e ficou ali mais tranqüila e quieta no seu
canto, na verdade ela era um mulher de um bom humor e uma paciência
que só Deus para tirá-la do sério, sim é verdade só Deus mesmo para
tirá-la do sério, pois toda vez que uma coisa não dava certo, Deus
era o culpado, isso já havia se tornado motivo de piada entre os
familiares que sempre diziam:
- Como diz Antonieta, Deus é o culpado! – e riam dela.
E assim se passou meia hora naquele local, até que apareceu um
garoto de uns 10 anos no máximo, chegou fazendo gestos com as mãos
para mulher, estava pedindo um trocado, ela coitada não conseguia
entender nada e no seu desespero por não conseguir decifrar um único
gesto disse ao garoto:
- Não entendo o que quer me dizer, por que está fazendo esses
gestos?
E o garoto tão distraído e apreensivo que estava respondeu:
- É que eu sou mudo, não falo! A senhora tem um trocado?
Dona Antonieta naquele momento não sabia se ria ou se dava uns
safanões no danadinho, mas ao mesmo tempo ficou com dó da criança,
tão maltrapilha, desnutrida, que por um segundo se lembrou que por
detrás daquele garoto provavelmente algum adulto estaria tirando
proveito daquela situação, ficou revoltada, mas com uma voz bem
baixinha falou para o garoto:
-Ah! Você faz isso para ganhar um trocadinho, não é?
O menino naquele momento arregalou os olhos, pois percebeu que havia
cometido uma gafe e nem esperou pelo trocado saiu em disparada no
meio da multidão.
A mulher sorriu naquele momento, mas era um sorriso de decepção e
pensou em quantas crianças são exploradas todos os dias por pessoas
que não tem um mínimo de dignidade e respeito por essas mesmas
crianças que um dia serão os adultos formadores de opinião.
Mora Alves
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