A LINGUAGEM DAS SOMBRAS NALDOVELHO
Ando aprendendo a linguagem das sombras. Não das que causam arrepio,
mas das que evidenciam contornos num plano pleno de luz que absorvo.
Outro dia consegui ler um rochedo com toda sua história ali preservada... Só agora eu consigo entender,
a aspereza que trago comigo.
Ando aprendendo a exercer sutilezas só assim poderei caminhar pelas sombras,
não aquelas que nos provocam o medo, mas as que nos vivenciam os rochedos.
Outro dia consegui desvendar um enredo com todos os seus numerosos segredos,
quantos e preciosos caminhos, emaranhados de muitos destinos.
Ando exercendo a palavra delicadeza, poemas semeados sem pressa. Qualquer dia desses vou adormecer riacho,
acordar corredeira, morrer em seus braços, renascer em você.
Ando aprendendo a exercer existências.
COISAS ESQUECIDAS POR SEUS DONOS NALDOVELHO
Sei de gente que anda pela vida
catando coisas esquecidas pela pressa.
Coisas entristecidas, abandonadas por seus donos.
Outro dia um recolheu um monte assim de saudade,
limpou tudo com carinho e guardou numa sacola.
Fico aqui pensando no uso que ele há de dar.
Esta gente cata de tudo um tanto
e anda com as costas curvadas
pelo peso das coisas entristecidas.
Faz tempo perguntei a um deles
que destino ele dava ao que catava
e qual sua serventia.
Ele abriu sua sacola e falou emocionado
das coisas e dos seus significados.
Senti inveja desta gente
que vive de transmutar coisas entristecidas,
fazendo-as crer que há quem cuide delas.
Agora a pouco achei numa esquina
uma quantidade enorme de nostalgia.
Limpei com carinho e guardei em minha sacola.
Logo mais a noite vou tentar
dar brilho aos seus significados...
Tomara Deus eu consiga compreender.
OS QUE FALAM A LINGUAGEM DAS COISAS NALDOVELHO
Os que falam a linguagem das coisas costumam saber dos cochichos das folhas e das águas que correm os segredos que há.
Conversam, assim como conversam as pessoas, com as cigarras, os colibris e as sabiás;
sabem até pronunciar palavras de anjo e com elas amansar ventania,
acalmar choro de criança, fazer poesia...
Outro dia conheci um que falava com as pedras, dizia que elas sabiam do tempo e do quanto ainda havia de tempo pro tempo passar. Dizia que longe pras bandas de onde,
o rio encontrava com as águas do mar, havia um rochedo que sabia de um tempo de um Deus ainda menino que de travessura em travessura
havia criado tudo o que há. Pedra sabida! Bem antiga!
Mas existem os que só falam a linguagem das sombras;
esquisitos e apressados, só vivem zangados, não conseguem sonhar, nem pensar colorido, não sabem do sorriso, do carinho e da saudade, pois sentir falta de alguém para eles é pura bobagem! De poesia, então, nem querem ouvir falar!
Ainda bem que existem outros, os que vivem querendo aprender a sonhar colorido... Quem sabe um dia eu possa ser igualzinho aos que sabem palavras de anjo, e com elas amansar ventania, acalmar criança assustada, fazer poesia...
|
2011
|
|
|
|