Paulo Roberto de Oliveira Caruso

 

 

O regresso do calouro morto


Roberto havia sido aprovado no concurso vestibular para a Escola Naval de Niterói do Sul. O garoto era motivo de gigantesco orgulho por parte de familiares e dos amigos que não o invejavam. Por ter vindo da cidade pequena de Teixeirópolis, sita no interior das Minas Gerais, todos o admiravam mais ainda, visto que jamais imaginavam que alguém de lá seria aprovado num concurso público de tamanha importância. Mas estavam completamente errados, visto que Roberto era o típico gajo que largava completamente os fins de semana com amigos e colegas para se afundar completamente nos estudos. Nem havia tido uma namoradinha que fosse, uma vez que achava que mulheres choveriam às pencas assim que ele ingressasse nas Forças Armadas! Nem time de futebol ele havia adotado, diferentemente da família, que torcia de modo fervoroso e tradicional pelo Juiz de Dentro Atlético Clube!
O gajo tinha físico de fato invejável, uma vez que praticava musculação numa academia sita perto de casa. Isso o ajudava verdadeiramente a suportar aquele primeiro mês na Escola, haja vista cada teste ser deveras “puxado”. Não era raro calouros ficarem realizando atividades físicas sob sol de quarenta e dois graus Celsius ao meio-dia! Não raro ele via colegas passando muito mal naquelas condições. Trotes violentos igualmente não o faziam desistir, chorar ou demonstrar medo; Roberto era assaz perseverante, sabendo de sua robustez corporal e de todo o seu esforço para ser aprovado no exame. Não seria “um merda qualquer” que o faria desistir de seus sonhos! Ao menos até que mais um trote chegou.
Numa noite de sexta-feira, quando os calouros e veteranos haviam sido liberados para passar o fim de semana com a família, Roberto foi cercado quando na rodoviária. Ainda tentou dialogar, dizendo que a família estava a sua espera, mas não teve atendidos os seus pedidos de ser liberado. Havia uma determinação maior por parte dos veteranos no que tangia a fazer aquele calouro especificamente chorar de desespero, uma vez que o mesmo sempre se mostrava gélido em seus sentimentos. Afinal, ele jamais mostrara medo algum! Isso era uma afronta aos aplicadores de trotes! Sem outra opção além de seguir com os três elementos, o cachopo se evadiu do local com a bagagem e a colocou na caçamba da picape de um deles.
Os quatro dirigiram durante aproximadamente uma hora até encontrarem outra ramificação da linha de trem, a qual havia sido largamente utilizada pelos três canalhas. Ao chegarem lá, estacionaram a picape no meio do mato, sacaram lanternas e uma corda. O calouro ainda tentou alegar que era desnecessária aquela atitude, mas foi-lhe ordenado calar-se para que fosse amarrado à linha férrea. Ante tal ordem, ele disse prontamente que não aceitava ser amarrado ali, pois a morte seria certa assim que um trem passasse. O veterano Sérgio disse gargalhando que não ocorreria problema algum, já que aqueles trilhos estavam desativados havia anos. Ricardo e Marcelo ainda disseram que eles dois mesmos tinham se submetido a tal trote ali um ano antes, o que deixou Roberto um pouco mais aliviado, conquanto ainda pensasse muito nos familiares certamente preocupados em casa. Ele só queria saber quando seria libertado, ao que lhe foi respondido por Marcelo: “assim que o trem acabar de passar você poderá ir embora para casa”.
O cidadão teixeiropolitano então, sem outra alternativa que não aceitar as ordens de seus superiores, permitiu-se amarrar e viu quando estava sendo atado firmemente à linha de trem. O que o preocupava era a linha lateral imediatamente ao lado; todavia, ouviu de Ricardo que deveria se concentrar exatamente do modo como fizera quando sofrera os trotes e agressões de iniciação. Tão logo isso foi dito, os três gargalharam de forma ainda mais grave do que antes.
Os três, encostados numa grande árvore e sentados sobre o solo rico local, iam conversando entre si e com Roberto até o momento em que avistaram um fulgurar lentamente cortar a madrugada: era o trem! Ele vinha lepidamente como sempre. Os trilhos começaram a trepidar e liberar um ruído extremamente estressante para o calouro, que tentava erguer em vão a cabeça. Seus olhos estavam completamente esbugalhados de desespero, lágrimas corriam de seus olhos ante o pavor. O faminto animal feito de ferro cuspia fogo pelos ares e tinha dentes de aço prontos para devorar qualquer ser que lhe atravessasse o caminho. O coração do gajo saltava pela boca; ele soltava um grito surdo no meio da alvorada. Os três o esgazeavam enquanto não olhavam a máquina voraz. Sabiam que o novato estava em estado crítico que nunca haviam imaginado. Levou aproximados trinta segundos para a máquina passar exatamente ao lado da linha à qual estava atrelado o coitado.
Os três jovens veteranos vibraram e se cumprimentaram após terem presenciado o raro evento de terem aquele rapaz do interior completamente apavorado. Então, ante o silêncio demonstrado pela vítima, entreolharam-se e se dirigiram a passos largos a ela sempre iluminando o local com as lanternas. Agacharam-se e, com o advento de uma faca afiada, cortaram a corda. Os olhos do novato estavam cerrados.
Sérgio foi quem primeiramente pôs a mão no pulso de Roberto. Ante a não constatação de vida, seguiu a pôr um espelhinho na frente da boca e do nariz do gajo. Não havia respiração de fato. Principiou-se por conseguinte todo um procedimento de respiração boca a boca na tentativa de salvar o calouro. Ele foi chacoalhado e xingado. Contudo, todas as ações se mostraram infrutíferas, fazendo manar evidente desespero dos três rostos. Pensaram em deixá-lo na linha ativada de trem para que algum o atropelasse e esmigalhasse; pensaram também em deixá-lo na estação de trem, sendo que ficaria constatado o enfarto como causa da morte. A opção vencedora foi justamente essa...
Já estava clareando o dia e Roberto estava deitado num banco desses típicos de praça que havia na estação de trem. Assim que se aproximou o primeiro trem com aquele barulho infernal, como que por milagre, o gajo acordou abrindo os olhos, gritou intensamente ao vê-lo chegar, rolou do banco e caiu deitado no chão. Muita gente gargalhou bastante ao presenciar a cena. Já ele mal podia acreditar que estava vivo ainda; teve todo um deja vu por causa daquela chegada do trem que aparentemente lhe acarretara a morte por parada cardíaca. Mas, como havia ido parar num banco da estação então? Os três tinham algo a ver com isso? O calouro não sabia como parara ali, mas sabia que precisava se vingar. Urgentemente. Afinal de contas, ele se sentia completamente humilhado por ter passado por tudo aquilo!
O interiorano rapaz não acreditava ter somente pego no sono, visto que passara horas com u’a moça dos tempos de princípio de adolescência – Elaine –, a qual havia morrido num desastre envolvendo o ônibus de turismo em que viajava e um caminhão repleto de laranjas. Roberto sabia que os sonhos não passam de vinte minutos, segundo pesquisa realizada por cientistas e divulgada por um canal de televisão. Ademais, a própria mocinha lhe dissera depois de muito conversar com ele: “volte agora, Roberto. Ainda não é o seu momento de vir ficar conosco. Você tem toda uma longa vida pela frente”. Sim, ele morrera e ressuscitara por milagre de Deus. Sabia que, caso se vingasse, iria de encontro à vontade divina, mas precisava agir para que aqueles crápulas não atormentassem mais ninguém.
A primeira providência do calouro foi acionar o telefone celular e avisar aos pais que tudo estava perfeitamente bem com ele. Os pais já se encontravam aflitos, sendo que a mãe já vertera rios de lágrimas, temendo pelo pior no que tange ao filho que jamais deixara a cidade onde havia ele morado por toda a vida até então. O gajo explicou que ficara preso num trote, mas teve de mentir, devido à gravidade deste e a sua vontade crescente de se vingar dos veteranos algozes de sua alegria: um por um, eles pagariam pelo susto causado a ele e, sobremodo aos pais. O que ele não poderia fazer seria contar aos pais o que se passara e o que ele pretendia realizar, visto que o casal dificilmente dormiria de novo enquanto o filho permanecesse estudando na Escola Naval. Contudo, como fazer para se vingar sem deixar rastros? Resolveu seguir seu rumo para aproveitar o fim do prazo que tinha para visitar a família e, com calma, na rede da varanda, pensar no que arquitetar.
No domingo à noite Roberto já estava de volta à Escola Naval, sendo que resolveu se vingar pessoalmente de cada veterano. Ricardo, por ser aparentemente o mais fraco fisicamente, seria decerto o primeiro a sofrer sua ira; o calouro estava a fim de se preparar exponencialmente em termos de força. O novato passou a saber do horário das aulas do veterano, onde este residia... Todo um calendário foi feito em razão das atividades da futura caça. Se fosse necessário esperar durante meses, tal seria feito pacientemente! Mas a vingança se realizaria sem dúvida!
O calouro estava fazendo o possível para evitar ser visto em locais públicos pelos veteranos, entretanto sabia que chegaria logo o átimo em que eles viriam visitar a sua turma com vistas a se realizarem mais atividades extracurriculares... Dois dias se passaram com Roberto averiguando à distância que Ricardo cumpria a grade curricular com esmero, conquanto se dedicasse deveras aos trotes. A hora deste então chegaria no décimo fim de semana a partir do ocorrido na linha férrea, como forma de despistar os dois demais veteranos, que não seriam capazes de conectar a ação ao calouro certo.
A semana não foi tão difícil para o teixeiropolitano, visto que nenhum dos três pseudoalgozes seus ousou aparecer na sala de aula em que ele tinha aulas nem encontrá-los nos corredores. Porém, na terça-feira da semana seguinte, Marcelo não podia crer no que via: Roberto estava vivo e bem vivo! O cachopo se tornou pálido como um cadáver e nem teve tempo de exigir continência por parte do subordinado, já que preferiu, antes que o suor a escorrer por sua testa se tornasse óbvio demais, evadir-se e contar aos dois outros colegas a miragem cristalina e autêntica que tivera. Conseguintemente, ele deu meia-volta e caminhou a passos largos pelo mesmo corredor vazio em que ambos estavam naquela noite. Roberto resolveu não deixar por menos, o que o fez correr até o veterano e passar-lhe a frente.
- Você não fugirá dessa vez, Marcelo. Não dessa vez.
- Quem te disse que eu fugirei de um reles calouro? Vós calouros sois uma praga! Quem te iludiu, dizendo que eu me evadiria?
- O suor que você verte pela testa e que escorre como as águas de um rio amazônico, a tremedeira de suas mãos, a palidez da sua tez e o pavor externado por seus olhos, entre outros fatores...
- Bá, tu estás apenas blefando! Eu não tenho que te dar trela. És tu o calouro, praga! És tu quem me deve continência e explicações por me cercares.
- A continência eu presto agora, senhor, valoroso senhor! Mas calouros todos nós na vida somos em alguma fase, inclusive o senhor!
- E que tom de ironia é este, moleque insolente? Pretendes servir de saco-de-pancadas meu em treino de boxe? Eu sou boxeador, sabia? Pratico desde os doze anos.
- Seria uma honra e tanto, senhor! O senhor gostaria de resolver o assunto agora?
- Estás me desafiando, calouro?
- Não, senhor! Definitivamente não, senhor! Eu o respeito em toda a sua benevolência e magnitude. Mas creio que seria um bom treino. Gostaria de me proporcionar tal honra?
- Eu vou mandar esse teu sotaque de moleque do interior para as cucuias! Ele me dá nos nervos a cada vez que tu ou qualquer outro moleque pangaré abre a boca! Caipira!
- Sou caipira com muito orgulho e prazer, senhor gaúcho de Porto Alegre.
- O que tu queres dizer com gaúcho de Porto Alegre? Por acaso referes-te à jocosidade infame típica daqui dessa cidade, a qual duvida de nossa virilidade, Tchê? – disse já quase fora de si o gaúcho porto-alegrense.
- Bem, senhor. Quem me deu tal informação foi a sua mochila almiscarada, além de seu sotaque, que me concedeu certeira pista...
- O que tu queres dizer por este estranho termo, guri? Não abuses de minha paciência!
- Senhor, o termo quer dizer, entre outras coisas, efeminado, afrescalhado.
- Agora não te tolerarei mais, moleque insolente! Toma!

Marcelo desferiu um soco de direita, o qual rasgou o ar sem no entanto acertar o rosto de Roberto, visto que este foi deveras ágil na esquiva. Depois o mais velho tentou um soco através da mão canhota, a qual foi surpreendentemente agarrada pela mão destra do calouro, que a segurou firmemente e sorriu de modo sarcástico. Lestamente o moleque virou a mão canhota do oponente e, com ela, o braço, que, com a força empregada pelo guri, acabou sendo fraturado. O veterano, sabendo da repercussão para si tanto entre os demais veteranos, como entre os calouros e os superiores hierárquicos (aqui havendo risco de jubilação de ambos), abafou o grito e tentou aplicar golpes com chutes contra as pernas do adversário. Marcelo verdadeiramente lacrimejava de dor, o que lhe atrapalhava e muito ver o que se passava.
O gaúcho não tinha experiência em usar chutes para lutas, o que foi seu erro fatal. Roberto, lutador de karatê, judô e jiu jitsu, aproveitou lestamente o retorno da perna direita do oponente e, tão logo este firmou os dois pés, desferiu-lhe um chute certeiro e pujante com a sua própria perna destra contra esta, o que, devido à dor, fez o veterano saltar. Novamente de forma rápida, o interiorano aplicou um chute, mas com a perna canhota, o que definitivamente desequilibrou Marcelo. No solo Roberto confirmou o favoritismo e imobilizou o oponente com uma gravata no pescoço, o que fez o inimigo desfalecer.
Sempre calmo, o novato puxou o perdedor pelo corredor até chegar à porta do quarto daquele após verificar o número no chaveiro. Olhou para os lados sem ninguém avistar e colocou a chave da porta. Abriu a aludida e o levou à cama. Cerrou esta porta e deixou o derrotado a descansar. Aquilo era o suficiente para o calouro se sentir tranquilo no que tangia a sua revanche em face do primeiro adversário, uma vez que o veterano teria que se explicar aos superiores e iguais, além do que a história (ou estória, se mentisse) espalhar-se-ia por todos e quaisquer meandros da Escola. Havia muita água em volta da instituição, mas Roberto se encontrava com a alma ainda mais lavada do que todo aquele entorno! O garoto nem conseguiu dormir naquela noite, pois estava eufórico devido a sua veraz virada na vida. Agora faltava saber a repercussão do caso e outrossim a revanche com relação aos demais dois colegas de farda.
O dia começou com cochichos por toda a instituição. Havia rumores infundados até que a direção resolveu reunir todos os alunos no pátio. Era meio-dia sob sol de quarenta e dois graus. Houve solenidade de execução do hino nacional, continência e descansar até que o comandante chegou ao microfone para avisar acerca da situação de Marcelo.
Foi dito ao microfone que o garoto não havia sido encontrado para se unir aos colegas de classe no horário costumeiro, o que chamou a atenção do superior. Bateu-se à porta do oficial sem que, no entanto, este atendesse. Logo, uma chave reserva foi acionada. Ao abrirem a porta, viu-se o cadáver de Marcelo pendurado por uma gravata a partir do ventilador de teto. Ele havia sido enforcado não se sabia por quem: se por si mesmo ou por outro integrante da Marinha. Mas havia desconfiança, haja vista o estado de um braço da vítima. Como ele poderia ter se suicidado? Não havia como ele realizar a tarefa sem dor e sem apoio de uma das pernas! Tudo isso foi levado aos ouvidos de todos no pátio.
Roberto estranhou assaz o suicídio, já que ele deixara o inimigo completamente machucado, mas bem vivo. Será que o orgulho do gajo fora ainda mais ferido? Como ele poderia ter se suicidado? O calouro pela segunda vez na vida temia por algo contra si. A segunda vez desde o trote praticado na linha do trem. Será que chegariam a ele? Havia impressões digitais suas de sobra... Na maçaneta, no chaveiro e na chave, nas roupas de Marcelo e só Deus sabe mais onde! O que deixava sereno o novato era a dificuldade aparente de se realizarem exames de corpo de delito em todos os integrantes da Escola. Todavia, ele teria pouco tempo para investigar quem poderia ter cometido tal provável crime. Seus planos teriam que ser bastante encurtados. E a próxima vítima seria de fato Ricardo. O teixeiropolitano não suportava mais esperar até a sexta-feira, quando ele e o segundo oponente estariam liberados. Mas ele aguardaria a hora do ataque.
Chegado o tão sonhado dia, Roberto já estava preparado e esperava Ricardo havia quase uma hora do lado de fora do portão da Escola quando este apareceu. O veterano caminhava calmamente e já se encontrava longe do aludido portão quando sentiu alguém se aproximar a passos largos. Então, ele olhou agilmente para trás, com olhos de lince, mas a ninguém avistou. Havia árvores e algumas moitas em volta e o vento soprava frescamente, o que fez o paulista se acalmar. Ao se virar para frente, contudo, teve o rosto completamente coberto por uma lona negra preenchida com um bocado de éter. Roberto havia se evadido através de u’a moita, a qual dava para uma árvore, ser que ele usara para se esconder e ganhar a frente do adversário. A atra lona tinha tamanho suficiente para cobrir o rosto e até o peito de alguém alto feito Ricardo, que media aproximados um metro e oitenta.
Aproximadamente uma hora depois, o veterano acordou aos poucos num local parecido com um galpão enorme. Ele estava sentado numa cadeira e tinha u’a mesa defronte para si. Ao recobrar completamente os sentidos, percebeu ademais que se encontrava algemado nas mãos e nos pés, o que o assustou por completo. Ele imediatamente tentou se livrar das algemas das mãos que o prendiam à cadeira, assim como as algemas dos pés. Ao perceber que não adiantava a força empregada, visto que ele só conseguiria se ferir ainda mais, tratou de gritar para que seu caçador aparecesse e lhe dissesse os propósitos.
De repente, aproximadamente uma hora depois de haver gritado, xingado, se contorcido, se ferido e, por fim, chorado, eis que apareceu um vulto a caminhar desde longe. Os olhos de Ricardo se tomaram por pavor: estavam esbugalhados ante aquela criatura medonha. Um vulto alto, vestindo sobretudo negro, com máscara de demônio e chapéu de palha foi se aproximando. De longe, o veterano tentou dialogar, para ganhar algum tempo e tentar se aliviar do medo, caso ouvisse já à distância uma resposta positiva ante seus reclamos. Porém, nada se ouvia daquela boca obnóxia. Isso levava ainda mais pânico a ele. O vulto preferiu se manter calado até alcançar uma cadeira e a pôr defronte ao temente rapaz, de modo calmo e reservado.
Ricardo somente podia ver os olhos castanhos do oponente, o que não lhe dizia nada de concreto, uma vez que a maioria da população brasileira e mundial possui olhos dessa cor. As duas esferas quase negras se fixavam em face do rosto do paulista, que se encontrava cansado, mas terrivelmente amedrontado. Tremia como tremula a bandeira nacional ante pujantes zéfiros. Procurou então, apesar do nervosismo, respirar fundo e manter um diálogo.
- Quem é você, mano? – balbuciou Ricardo.
- Isso você poderá perceber através da nossa conversinha – falava o vulto com voz macabra. O sotaque era um carioquês carregado e talvez forçado por um não carioca, segundo o veterano chegou a cogitar.
- Mas por que você me trouxe até aqui? Por que eu estou algemado? Você está vendo essas feridas? Todas elas decorreram das algemas. O que você quer comigo?
- Você andou fazendo algo errado recentemente, não?
- Como assim? Não sei do que você está falando... – Ricardo respondeu com cenho de criança que aprontara uma peça. Teria aquela punição algo a ver com o trote do qual resultara a morte de Roberto por parada cardíaca?
- Você sabe sim. E somente sairá daqui quando me disser o que pretendo saber.
- E o que você pretende extrair de mim?
- Quero que me diga se você matou seu colega Marcelo. Ele, nas condições em que estava, como você sabe perfeitamente bem, jamais poderia ter cometido suicídio.
- Eu sei que ele não tinha condições de se matar, mas eu não o matei. Quem é você? Por que você está me sabatinando? Você pertence à diretoria da Escola Naval? Ou é policial?
- Você não está em condições de perguntar. Posso ficar o tempo que eu achar preciso aqui. Já você nem sabe onde está...
- A Polícia vai pôr por terra a sua graça. Desalgeme-me logo! A Marinha inteira também irá persegui-lo até a morte!
- A sua? – o vulto aproveitou para mostrar ao gajo um cutelo por baixo do sobretudo, o que apavorou de vez o naval.
- O que você quer de mim? Eu já disse que não matei Marcelo! Por favor, solte-me!
- Você já sabe os termos... Vai colaborar ou não? Eu preciso de esclarecimentos. Você era amigo de Marcelo, não? Seria capaz de livrá-lo de uma humilhação, não? E isso poderia ser um pacto recíproco, não é mesmo?
- Eu até poderia livrá-lo de um inconveniente, de uma vergonha gigantesca sim. Mas eu não o assassinei! Quantas vezes terei de lhe dizer isso?
- Então permita-me ser mais específico: você, Marcelo e Sérgio eram grandes comparsas, não? Este último igualmente aceitaria lavar a honra de um de vocês dois, além da própria, não?
- Sim... Ai, como doem minhas mãos...
- Posso ver? – perguntou Roberto, antes de puxar ainda mais a mão destra de Ricardo, fazendo-a sangrar de verdade.
- Aaaaaaaaaaaaiiiiiiii! Você é maluco? Por que fez isso?
- Eu preciso de respostas suas... E as terei.
- Sim! Sim! Sim! Sérgio e eu chegamos ao quarto de Marcelo e o vimos naquele estado medonho. Nós o acordamos e conversamos com ele.
- E Marcelo pediu que vocês o aliviassem de todo aquele sofrimento físico e de todo o sofrer psicológico que se somaria àquele já sentido.
- Sim, ele suplicou que o finalizássemos. Mas...
- Mas o quê?
- Eu já disse que não o matei.
- Todavia, Sérgio igualmente estava lá. E o matou!
- Eu não disse nada! Não ponha palavras na minha boca!
- Você acha mesmo que Sérgio o aliviaria de ser preso se você tivesse dado cabo de Marcelo?
- Sim, certamente!
- E por que você foi suspenso por duas semanas após Sérgio haver espancado o aluno Márcio meses antes?
- Mas fui eu quem o espancou!
- O que você está praticando chama-se litania, mentira. Eu conversei com Márcio hoje de manhã. Ele estava completamente revoltado por Sérgio não haver sido punido junto com você. O que tem a dizer? Teme a força do grandalhão?
- Quem não a teme? – disse rindo levemente em tom de deboche Ricardo.
- Então foi Sérgio quem agrediu Márcio e matou Marcelo, não?
- Se você já sabe, por que não o pune?
- Não cabe a mim puni-lo, mas sim à diretoria da Escola Naval... O que você fez para ajudar Sérgio?
- Eu somente lustrei as maçanetas, fiquei com um par de luvas, dei outro a Sérgio, trocamos a roupa de Marcelo que continha nossas impressões (com ele ainda vivo) e descartei a roupa retirada, lançando-a na caçamba de lixo... Quando regressei, o trabalho sujo já havia sido feito.
- Negativo! Você, ao ter ocultado as provas, cometeu crime outrossim! E agora sei onde podem estar as roupas, se o lixo não houver sido jogado fora. Além disso, tenho tudo gravado neste MP3 posto abaixo da mesa com fita crepe.
- Mas você não pode usar essa gravação, já que obteve a confissão mediante tortura, o que está perfeitamente gravado também!
- Justamente por isso iremos reproduzir este diálogo quantas vezes necessário for, até não vazar nada para a gravação acerca de sua dor sentida. Entretanto, preservarei a gravação já feita, por via das dúvidas.

O vulto deixou a cena, apesar dos gritos de desespero de Ricardo, somente regressando depois de passadas duas horas aproximadamente. Disse ao oponente haver conseguido retirar as roupas da caçamba de lixo, para desespero do rapaz. Então, sempre olhando o cutelo, o qual cortava o ar de um lado para o outro, devido à destreza de quem o empunhava, o algemado militar contou tudo novamente sem fazer menção de dores, cutelo, ameaças nem nada mais que pudesse invalidar a gravação. Tão logo conseguiu o que desejava tanto, o homem deixou o cutelo sobre a cadeira na qual se sentara, sacou um pano e uma garrafa de éter, embebeu o pano no líquido e levou o tecido até o nariz e a boca do veterano, fazendo-o desmaiar. A seguir, desalgemou o safado nos pés e nas mãos, visto que nada mais lhe interessava daquele cachopo. Enfim o sobretudo e a máscara foram retirados, revelando o rosto de Roberto, que se encontrava aliviado por não mais precisar forçar um sotaque carioca que jamais tivera. Não precisava mais disfarçar. Já o portão ele mesmo cerraria, visto que a empresa pertencia a seu pai. Além disso, já combinara com os seguranças que eles segurariam o veterano e o acusariam de invasão junto a outros gajos, o que renderia um processo penal a Ricardo. Agora precisava seguir rumo à revanche contra Sérgio.
Ao retornar à Escola, Roberto se sentiu outra pessoa, visto que parecia maravilhosamente bem após se vingar de dois dos seus algozes. O plano contra o brasiliense Sérgio já se encontrava todo na mente do calouro, que acabou deixando uma cópia da gravação de Ricardo desde a identificação deste até a assunção de sua participação na morte de Marcelo. Outrossim, as roupas com a impressão digital dos dois acabou sendo deixada ao lado da gravação na mesa do comandante, enquanto ninguém se encontrava na sala. Por mais que igualmente houvesse impressões de Roberto, havia a confissão de Ricardo e o testemunho de diversas pessoas no sentido de que os três caminhavam sempre juntos como irmãos. Não seria difícil chegarem à conclusão de que o veterano fora morto por ato piedoso, como a eutanásia.
Naquela mesma manhã, extraordinariamente o Comandante da Escola, pela segunda semana seguida, convocou todos os alunos e integrantes da instituição. No microfone, foi dito que o motivo da reunião era o envolvimento de dois alunos no possível homicídio de Marcelo Aires Brunoro. Ele disse então que a sindicância para apurar o caso agora tinha uma possibilidade grande de êxito, visto que havia indícios de que se dera um assassinato.
Depois do concluir dos trabalhos, Ricardo, nem se encontrava no local, visto que havia sido entregue à Polícia pela invasão da empresa, ao passo que o segundo não se conteve, começando a externar seu pranto ali mesmo. Já sabendo que somente este estava disponível no pátio, o Comandante lhe ordenou rapidamente desocupar o quarto no qual morava, o que deixaria Roberto com um sorriso de orelha a orelha pelo resto da semana. Antes de cruzar o portão, Sérgio, completamente descrente, ainda viu o calouro acenar para ele. Mal podia crer no que via, mas, ao fitar o mineiro, largou suas malas no chão e partiru em disparada para o confronto derradeiro. Tentou aplicar uma tesoura voadora no oponente, entretanto o teixeiropolitano se esquivou, aplicou-lhe um chute certeiro na panturrilha, o que desequilibrou o agora ex-veterano. Ante o desistir do calouro no que tangia a humilhar o ex-aluno, os superiores que assistiam a tudo de longe disseram ter ocorrido mera legítima defesa por parte de Roberto; já Sérgio teria muito trabalho com a Polícia Militar, a qual o aguardava do lado externo.

27-12-11

Paulo Roberto de Oliveira Caruso



 

 

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