Ruy Silva Santos

 

A criatura do criador
Ruy Silva Santos


No princípio era o Verbo...,
O Verbo estava com Deus,
o Verbo era Deus.

Não sou Deus,
nem sei quem sou...,
sou apenas uma criatura
que o Verbo criou... !

Iletrado, comum e humilde!
Pasmo eu fico, diante de tanta verdade!
Sim, não sou o Verbo, sou o verso...!
Invade-me a poesia,
além das minhas vontades...!

Voa o verso, da mente ao papel...
Voam sonhos daqui e dali...
Escrevo verdades, escrevo mentiras,
escrevo saudades que sempre senti !

Antes, só, e sem sentir nada,
vagava a vida vazia !
Mergulho agora
em luz tão plena, tão pura !

Vivo a vida em versos,
o mundo em cores,
minh'alma imersa
em mil amores...

Minha vista se solta em curvas e retas,
viajando num universo amplo,
como há muito eu não me via...,
concluo que eu não sou mais só o poeta,
e sim, a própria poesia... !

Ruy Silva Santos

Carta de Alforria
Ruy Silva Santos
 


Com a alforria nas mãos
o negro mira o horizonte
até onde a vista alcança.

Liberto dos grilhões e dos pelourinhos,
o negro sente que o ventre livre da mãe terra
se abre, e a esperança renasce!

Anos e anos,
gestando a idéia de liberdade,
e agora sai o negro feliz,
dançando batuque, jogando capoeira!

Adeus tumbeiros !.
Adeus senzalas!

Novos tempos...!

E o negro se fez gente!
Estudou, tirou patente...,
e se impôs diante da sociedade.

De escravo, a agente da história!
Se o início foi triste,
o final foi de vitória!

Negro,
tu és o símbolo da fibra,
da coragem, e do destemor!

És o exemplo da coragem
a todos,
que se entrega sem luta!

Ruy Silva Santos

Cenário de Paz
Ruy Silva Santos


Na tarde
as folhas farfalham
embaladas pela brisa
e os caraxués
pipilam nas laranjeiras!

Eu, solitário, abstraído,
deitado sobre a relva,
registro no pensamento
esse incomparável cenário!

Em tudo há clima
para se falar de amor,
na tarde de raríssimo esplendor!

O sol,
como quem não quer partir,
escorrega preguiçoso
por detrás do morro,
e os pássaros
povoam seus ninhos!

Só então me dou conta
de que é chegada a noite!

Envolvido nesse conjunto
sinto-me tão vazio, tão só, mas,
mesmo ausente,
eu sinto a sua presença!

Ruy Silva Santos

O favelado
Ruy Silva Santos


É noite, faz muito frio...
O beco está como breu...
Um bêbado regressa lento e,
Sozinho, como nasceu!

Pouco importa se é cedo ou tarde,
Para que se preocupar,
Se chegar dorme na cama, ou,
Aninha-se em qualquer lugar...

Becos escuros da favela
Labirintos de ruelas,
E o rueiro trôpego, mamado,
Transita pelos becos, desligado...

De repente, um tiro e um grito!
Todos ouvem ninguém sai...
É a lei do silêncio...
Comentários jamais!

Pela manhã, o aglomerado...
Povo e policia...
Quem é... Quem foi...
Perguntas daqui e dalí...

Até que alguém mais ousado
Olha o cadáver estirado,
Arrisca dizer que o infausto,
É um pobre desempregado!

Naquele instante
Chega um menino, inocente,
Que, ao deparar com a cena,
Solta um grito estridente...

Olhando o corpo no chão
Não se contém e lamenta...
- Ele tinha mil defeitos, porém...
Pra mim, era um cara legal!
- Tomava uns gorós é verdade,
Mas, era trabalhador,
Um bom chefe de família,
Amigo e respeitador!

Quem fez uma coisa dessas
Não traz Deus no coração,
Por tirar da face da terra
Aquele que dava o meu pão!

Ruy Silva Santos

03/11/2012

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