Nome: Thelma Maria Azevedo
- Profissão: funcionária pública estadual aposentada
- Quer falar um pouco da terra onde mora? moro numa ilha maravilhosa
chamada Vitoria
ILHA DE VITORIA...
Aprendemos, ainda nas primeiras séries do Grupo Escolar, que
“ilha é uma porção de terra cercada de água por todos os lados”...
Mas para mim, ilha tem um significado muito, muito maior do que
didático, pois .nasci numa delas.
Muito linda, cheia de praias, hoje é considerada uma das cidades
brasileiras com ótima qualidade de vida: Florianópolis, capital de Santa
Catarina. A ponte “Hercílio Luz” é um cartão postal conhecido em todo o
país.
Como o Guga, nosso premiado tenista, sou “uma manezinha da
ilha”...
Com dois anos apenas, nos transferimos para outra ilha,
resultado da transferência funcional de meu avô materno.
Esta ilha, abençoada do alto de um morro pela Virgem Mãe de
Deus, é Vitória, capital do Espírito Santo..
Nela me criei, estudei, fiz primeira comunhão, namorei, casei,
tive meus dois filhos. Fiz minha vida profissional, como funcionária pública
estadual.Adotei esta ilha “que é uma delícia”, como dizia Carmélia Maria
Souza, como minha, de todo o coração. Tenho por ela um amor muito grande.
Embora não esqueça as minhas raízes.
Mas o fato de que uma ilha é cercada por todos os lados pelo
mar, me fez ser apaixonada por ele também. E este amor “marítimo” tem uma
explicação.
Meu pai era pescador.
Quando cheguei naquela idade em que as crianças começam a perguntar “de
onde eu vim?”, meu pai costumava contar que numa noite, saiu com sua tarrafa
para pegar um peixe para o jantar. Era uma noite fria e ele lançou sua
tarrafa umas 3 vezes sem sucesso. Na 4ª.tentativa sentiu a tarrafa pesada.
Ficou todo alegre, achando que finalmente o jantar da família estava
garantido.
Porém, quando puxou a tarrafa, viu que nela tinha vindo, não um
peixe, mas uma menininha, toda roxinha de frio... Pegou-a e levou-a para
casa...
Eu adorava saber que tinha “nascido” do mar. Quando anos mais
tarde, me contaram a história de como os bebês nascem, de uma sementinha,
etc. etc. tive a maior desilusão...
A história que meu pai contava era bem mais bonita...
Vitória, conhecida como cidade-presépio, é realmente muito
querida ao meu coração. Já dela me ausentei várias vezes. Mas como dizem os
indianos, eu vou e volto... Sempre que aqui chego me sinto realmente
voltando ao meu lugar. Ao meu cantinho, neste vasto mundão .
- Quando começou a escrever? bem cedo, ainda pré-adolescente, para o
programa Darly Santos da rádio Espírito Santo.
- Teve a influência de alguém para começar a escrever?
Sempre gostei muito
de ler, talvez venha daí minha influência.
- Lembra-se do seu 1º trabalho literário? uma crônica sobre a história do
Convento da Penha (ainda nos primeiros anos escolares).
- Tem livro (s) impresso (s) (editora e ano)? dois: Fragmentos de Memória,
2000 e Uma poesia, algumas crônicas e tanta coisa que sempre escondi... ,
2005; ambos impressos na Grafitusa-Vitória/ES. Participação em Antologias da
AFESL - ACADEMIA FEMININA ESPIRITO SANTENSE DE LETRAS como Clepsidra,
Vitória, Ilha do sol, Tempo das águas,
co-participação com Francisco Aurélio Ribeiro no Dicionário de Escritores e
Escritoras do Espírito Santo, 2008.
- Para terminar este trabalho, queira enviar um texto
em prosa ou em verso de sua autoria:
http://www.poetas.capixabas.nom.br/Org/default.asp
Thelma Maria Azevedo
Mamãe adorava plantas. Formar hortas, pomares, jardins, lhe dava um
grande prazer. Fazia este trabalho com a maior alegria.
Seu programa predileto era passar os fins de semana no sítio
“Chapéu de Palha”, da prima Leda e de seu marido Antônio Carlos. Gostava
de plantar árvores.
Para a casa de sua prima Conceição, na Avenida Desembargador
Santos Neves, Praia do Canto, trouxe, de Santa Catarina, uma ameixeira
amarela.
Nos sítios de Leda e de Penhóca em Campinho de Santa Isabel, também
andou espalhando árvores.
Moramos por alguns anos em uma chácara, em Aribiri, no município de
Vila Velha. Lá já existiam varias árvores frutíferas, Mamãe então se
dedicou a formar uma horta, de onde colhia alface, repolho. Rabanete,
temperos verdes, bertalha, espinafre... Fez também uma latada de chuchu.
Assim, tínhamos todos os dias, em nossas refeições, verduras e frutas
fresquinhas.
Também amava as flores. Plantou ao lado de nossa casa um canteiro
de gerânios, sua flor predileta.
Por onde andava, trazia sempre uma cor diferente. Era como se
trouxesse um troféu conquistado... Chegou a ter 25 tonalidades
diferentes de gerânios. E suas mãos tratavam as flores com tanto amor
que o canteiro chamava a atenção de todos aqueles que passavam pela
frente de nossa casa.
Olavo Bilac, em um dos seus mais lindos sonetos - Via Láctea
- disse que “só quem ama pode ter ouvidos capaz de ouvir e de
entender estrelas...” Nosso Rei, Roberto Carlos confessa que também
conversa com suas plantas, que elas o entendem e respondem ficando a
cada dia mais viçosas...
No relacionamento da mamãe com suas flores não faltava amor, daí
porque conseguia conversar com elas. O que diziam, não sei. Mas que as
plantas a entendiam, entendiam. Ora se não!
Não gostava de dar mudas de suas flores. Não negava. Mas, adiava
para quando o pé da cor pedida não estivesse florido. Dizia que tirar
uma muda naquela fase, prejudicaria a plantinha...
Um dia, seu canteiro amanheceu destroçado. Alguém entrara, à
noite e arrancara não apenas mudas, mas os pés inteiros. Mamãe quase
morreu de tristeza. Tentou refazer o canteiro. Mas a mão de quem a havia
“roubado”, devia ter uma energia bem ruim. Baldados foram seus esforços.
Nunca mais nasceu nada naquele que outrora havia sido um canteiro tão
lindo...
Conformou-se com os vasos, onde plantava begônias, violetas,
samambaias de metro lisas, crespas, etc.
Plantei um flamboyant na frente da nossa casa. Cresceu forte, estirou
seus galhos, transformou-se em uma árvore frondosa, bonita. Porém,
nunca floriu.
Na véspera de retornamos para nossa casinha no final da Rua
Sete de Setembro, a vi conversando com o meu flamboyant. Dizia: “é,
minha filha nunca viu uma florzinha nascer em seus galhos....
Vamos embora amanhã e você não lhe deu esta alegria..”.. E o papo
foi por aí...
Na manhã seguinte, a ouvi me chamando: “filha, venha ver,
venha ver!” Entre a folhagem, lá estava, tímida, a primeira flor do meu
flamboyant! Foi quando fiquei sabendo que era de uma tonalidade
alaranjada, muito bonita.
E mamãe feliz, dizia: “não disse que ele ia me atender? Eu tinha
certeza!”
Esta era a minha mãe, com um coração tão cheio de amor e
sabedoria que conseguia entender e conversar com as plantas.
|
|
|
|