Assalto ao "Santa Maria"

22 de janeiro


Santa Maria entrando em águas brasileiras

          Em 22 de Janeiro de 1961, Henrique Galvão, com um grupo reduzido, apoderou-se do paquete "Santa Maria", a navegar no alto mar.
          A Armada Portuguesa e outras esquadras perseguiram o navio, que finalmente aportou ao Recife.
          O movimento pertenceu ao Directório Revolucionário Ibérico de Libertação, segundo foi então revelado. O navio chegou a Lisboa em 16 de Fevereiro.
          Este incidente que na época notabilizou a contestação popular ao Governo de Oliveira Salazar, e introduziu a prática, depois muito difundida internacionalmente, de sequestrar navios e aviões com fins políticos.
          O "Santa Maria" havia largado de Lisboa a 9 de Janeiro de 1961 em mais uma das suas viagens regulares à América Central, fazendo escala no porto venezuelano de La Guaira no dia 20. Entre os passageiros embarcados neste porto, contava-se um grupo de 20 membros da DRIL - Direcção Revolucionária Ibérica de Libertação, organismo constituido por opositores aos regimes de Franco e Salazar, cujo comandante era o capitão Henrique Galvão, que embarcou clandestinamente no "Santa Maria" um dia depois, em Curaçau, com mais três elementos da DRIL. Galvão estava exilado na Venezuela desde Novembro de 1959, e em Julho de 1961 havia concluído os planos de assalto ao "Santa Maria". Fora escolhido este paquete por ser muito superior aos diversos navios de passageiros espanhóis que na altura faziam a carreira da América Central. O capitão Galvão pretendia deslocar-se no "Santa Maria" até à colónia espanhola de Fernando Pó, no golfo da Guiné, cuja tomada permitiria em seguida efectuar um ataque a Luanda e iniciar, a partir de Angola, o derrube dos Governos de Lisboa e de Madrid.
          Horas depois da largada de Curaçau, o "Santa Maria" navegava rumo a Port Everglades, na Florida, com 612 passageiros e 350 tripulantes, sob o comando do capitão da Marinha Mercante Mário Simões da Maia, quando, precisamente à 1 hora e 45 minutos da madrugada de 22 de Janeiro de1961, os 24 homens de Henrique Galvão tomaram conta da ponte de comando e da cabine de TSF, dominando os oficiais do navio. O terceiro piloto João José Nascimento Costa ofereceu resistência aos assaltantes e foi morto a tiro. Pouco depois, o "Santa Maria" alterou o rumo para leste, procurando alcançar rapidamente o Atlântico. A 23 de Janeiro, o navio aproximou-se da ilha de Santa Lúcia e desembarcou, numa das lanchas a motor, 2 feridos graves com 5 tripulantes, comprometendo a possibilidade de atingir a costa de Africa sem ser detectado. No dia 25, o paquete cruzou-se com um cargueiro dinamarquês, traindo a sua posição, o que permitiu a um avião norte-americano localizar o "Santa Maria" horas depois. Finalmente a 2 de Fevereiro o "Santa Maria" fundeou no porto brasileiro do Recife, procedendo ao desembarque dos passageiros e tripulantes. Chegou a ser considerado o afundamento do paquete, mas no dia seguinte os rebeldes entregaram-se às autoridades brasileiras, obtendo asilo político, ao mesmo tempo que o "Santa Maria" voltava à posse da Companhia Colonial de Navegação.
          Os passageiros do paquete assaltado foram transferidos para o "Vera Cruz", que saiu do Recife a 5 de Fevereiro, chegando a Lisboa a 14 do mesmo mês, após escalar Tenerife, Funchal e Vigo. Por sua vez o "Santa Maria" largou do Recife a 7 de Fevereiro, entrando no Tejo, embandeirado em arco, a 16 e atracando a Alcântara...
          ... Independentemente dos aspectos políticos que na altura rodearam o caso "Santa Maria", este incidente acabou por fazer do navio o mais famoso dos paquetes portugueses. Embora o "Infante Dom Henrique" e o "Príncipe Perfeito" fossem mais recentes, o "Santa Maria" era um navio de prestígio por excelência, situação a que não era estranho o facto de ser o único navio de passageiros português a manter uma ligação regular entre Portugal e os Estados Unidos da América.
          Coincidindo com o desvio do "Santa Maria", deflagraram a 4 de Fevereiro, em Luanda, incidentes graves, seguidos, em Março, do começo da guerra no Norte de Angola. O Governo de Lisboa decidiu enfrentar a situação, enviando a partir de Abril ràpidamente e em força importantes reforços militares. Esta decisão implicou, de imediato, a requisição de diversos paquetes e navios de carga afretados pelo Ministério do Exército para efectuarem o transporte de tropas e material de guerra. A utilização esporádica para este fim de navios de passageiros portugueses vinha já do século XIX, passando a partir de 1961 a constituir uma das principais ocupações permanentes dos paquetes portugueses...
          in Paquetes Portugueses de Luis Miguel Correia
         
         
CAPITÃO HENRIQUE GALVÃO (R. do)
          (1895-1971) Militar, político e escritor, com obra apreciável sobretudo de temas africanos. Depois de ter sido adepto ferveroso da ditadura salazarista, Henrique Galvão aderiu à oposição democrática e celebrizou-se pelo assalto e ocupação do paquete Santa Maria em 1961. Morreu exiliado no Brasil. 

          MOVIMENTOS PARA DERRUBAR A DITADURA
         
          Desde que, em 28 de Maio de 1926, a Ditadura Militar e, depois, o Estado Novo tomaram conta do País, por várias vezes movimentos de oposição, alguns deles de carácter militar, tentaram apoderar-se do Poder em acções revolucionárias, que quase sempre foram reprimidas violentamente. Impossível se torna, num simples apontamento, referir todos os pormenores desses movimentos.
         
          7 DE FEVEREIRO DE 1927
          Menos de um ano após a instauração da Ditadura, em 3 de Fevereiro de 1927, eclodiu no Porto um movimento revolucionário de forças militares que se estendeu, quatro dias depois, a Lisboa.
          O general Gastão Dias explicou os objectivos do movimento num manifesto igualmente subscrito por Jaime Morais, Jaime Cortesão, capitão Sarmento Pimentel e João Carvalho. O comando das tropas pertencia ao coronel Freiria.
          A demissão do Governo e o regresso à Constituição eram os principais objectivos, embora não houvesse quaisquer garantias individuais, dada a situação de ditadura.
          Em Lisboa foi apreendido o jornal "O Mundo", porque saiu sem "censura", e o jornal, "A Batalha" foi suspenso. O general Carmona foi entrevistado por "O Século" e revelou que já tinha conhecimento da sublevação. Em Lisboa e no Porto houve troca de tiros, registaram-se alguns incêndios e nas ruas ergueram-se barricadas.
          Os revoltosos prenderam os ministros do Comércio e dos Negócios Estrangeiros. Aviões fiéis ao Governo bombardearam o Arsenal, onde estavam os revoltosos, e, após alguns combates, os insurrectos foram dominados. Comandava as forças fiéis o general Agostinho Domingues.
          O balanço final referia cerca de 50 mortos e 300 feridos.
         
          20 DE JULHO DE 1928
          Durou pouco mais de 12 horas um movimento que eclodiu em Lisboa em 20 de Julho de 1928 e foi dominado pelas forças fiéis do Governo.
          O sinal da revolta partiu do Castelo de São Jorge, de onde foram disparados tiros de canhão, o que responderam algumas unidades sublevadas.
          Forças da G. N. R., Cavalaria 2 e 7 e Infantaria l comandadas pelo general Farinha Beirão, dominaram a situação. Uma proclamação assinada pelos coronel Mascarenhas, antigo ministro da Guerra; comandante Filomeno de Almeida, ex-ministro das Colónias, e major Sarmento de Beires não chegou a ser distribuída.
          Ao movimento aderiram unidades de Setúbal, Castelo Branco, Pinhel e Guarda, enquanto se registavam incidentes no Barreiro e no Entroncamento. No Porto, a revolta foi abortada devido a prisões efectuadas anteriormente.
          O balanço final referiu 7 mortos e 30 feridos graves.
         
          REVOLTA DA MADEIRA
          Na sequência de uma greve geral e tumultos no princípio do ano de 1931, em 4 de Abril, eclodiu um movimento na ilha da Madeira mais propriamente chamado "golpe de Estado".
          Encontravam-se presos na Madeira os chefes da revolta de 7 de Fevereiro, que participaram no golpe com apoio de unidades militares.
          Foi enviada uma mensagem ao Governo, na qual se solicitava a restauração de liberdades públicas e o regresso à normalidade constitucional.
          O Governo fez divulgar uma nota dizendo da tranquilidade absoluta no Continente, Açores e Colónias, enquanto se sabia que tinham aderido ao movimento unidades de Ponta Delgada, Angra do Heroísmo, Graciosa e Faial.
          Do Continente partiram contingentes militares, e um deles, comandado pelo capitão Jorge Botelho Moniz, apoderou-se do Machico, facto importante que fez gorar o movimento, cujos componentes se entregaram em 2 de Maio.
         
          26 DE AGOSTO DE 1931
          Em 26 de Agosto de 1931, em Lisboa, rebentou mais uma revoluç5o, que viria a causar 40 mortos e cerca de 200 feridos.
          O Governo distribuiu uma nota oficiosa referindo que civis tinham assaltado quartéis em Lisboa mas forças da G. N. R., da Polícia e de uma unidade de Mafra tinham dominado a situação.
          Cerca de 250 presos foram levados para a Penitenciária.
         
          18 DE JANEIRO DE 1934
          Em 18 de Janeiro de 1934, eclodiu uma greve geral, com atentados à bomba, a tiro e sabotagens em várias localidades, com maior incidência na Marinha Grande.
          Foram feitas centenas de prisões, e os principais responsáveis foram deportados para Angola.
          A vila da Marinha Grande foi ocupada por forças policiais, idas de Leiria, e, a seguir, militarmente.
          O Governo considerou a greve movimento revolucionário e ordenou julgamentos sumaríssimos e outros no campo de concentração. As forças da ordem que actuaram foram louvadas e demitido o comandante do posto da G.N. R. da Marinha Grande, porque não disparou um tiro.
         
          10 DE SETEMBRO DE 1935
          A Polícia de Vigilância e Defesa Social teve conhecimento antecipado de um movimento previsto para 10 de Setembro de 1935, e cujos chefes seriam o capitão-de-mar-e-guerra Mendes Norton e o dr. Rolão Pedro, advogado.
          Os assaltos ao destacamento da Penha de França e ao aviso "Bartolomeu Dias" faziam parte das operações, que não chegaram a desenrolar-se devido às prisões feitas.
         
          A REVOLTA DOS BARCOS DE GUERRA
          Em 9 de Setembro de 1936, dois navios de guerra - o aviso "Afonso de Albuquerque" e o contratorpedeiro "Dão" - pretenderam sair a barra para se juntar às forças republicanas que combatiam em Espanha.
          O primeiro daqueles barcos tinha chegado, há dias, de Valência, aonde fora buscar famílias portuguesas, e nessa viagem tinham-se registado insubordinações a bordo.
          Na noite de 8 de Setembro, o capitão Agostinho Lourenço, da Polícia de Informação, sabendo da chegada aos navios dos respectivos tripulantes, facto que não estava previsto, avisou o ministro da Marinha.
          Os dois barcos começaram a preparar-se para partir do Tejo, e o ministro, além de acertar as baterias de artilharia de costa, enviou aos navios o tenente Henrique Tenreiro, que, ao ver os preparativos e as metralhadoras nos conveses, voltou para terra. Os implicados (208) foram pronunciados e responderam em Outubro. Sobre os navios foram disparados 21 tiros de canhão, dos quais, 18 atingiram os alvos e determinaram a rendição. No processo foram condenados 82 participantes na revolta.
         
          O ATENTADO A SALAZAR
          Nunca ficou bem definido o que foi o atentado a Salazar cometido na manhã do domingo 4 de Julho de 1937. A P. V. D. E. (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado) afirmou, pela voz do célebre capitão Catela, que teriam sido cinco indivíduos pertencentes à Legião Vermelha, aliás já conhecidos da Polícia, os autores do atentado.
          Naquela manhã, deflagrou uma potente bomba num colector de uma rua por onde passaria Salazar, a caminho da missa de domingo, mas o veículo em que o então chefe do Governo se transportava não foi atingido.
          Prisões e uma manifestação seguiram-se ao acto, que teve como consequência secundária a abertura de uma enorme cratera na Avenida Barbosa do Bocage.
          Chantemps, Mussolini e Hitler felicitaram Salazar por ter escapado ileso do atentado.
         
          O CASO DA MEALHADA
          Não regista a Imprensa desde 1937 até 1946 qualquer movimento com importância, facto que não é de causar admiração, dada a situação existente nessa época.
          Até 1939 evoluía a guerra civil em Espanha e de 1939 a 1945 decorreu a segunda guerra mundial, que nos primeiros anos expressava a vitória das forças do Eixo.
          No nosso país, tentativas de greve ou manifestações de qualquer género eram reprimidas violentamente. O caso da "praça de touros do Campo Pequeno" ainda está na memória dos mais idosos como as "inconveniências" de usar o emblema da Royal Air Force no tempo da guerra.
          De qualquer modo, só em 1946 a Imprensa regista um novo movimento - o da Mealhada -, perpetrado por oficiais milicianos do Regimento de Cavalaria 6, do Porto.
          Em 11de Outubro, uma coluna daquela unidade, comandada por "milicianos licenciados e outros demitidos do Exército", segundo os termos da nota oficial do acontecimento, dirigiu-se ao Sul, mas foi interceptada, próximo da Mealhada, por forças de Coimbra, Aveiro e Figueira da Foz.
          O tenente Queiroga Chaves foi considerado o principal organizador do movimento.
         
          10 DE ABRIL DE 1947
          Em 10 de Abril de 1947, 5 generais, 6 oficiais-superiores e 13 professores universitários são demitidos das suas funções por terem participado numa conjura que se manifestou através de greves e de uma tentativa de revolta na região de Tomar.
          Entretanto, no ano seguinte, em 8 de Outubro de 1948, são presos vários oficiais-superiores e oficiais-generais, entre os quais o almirante Cabeçadas, acusados de terem fomentado uma terceira conjura.
         
          RESCALDO DE ELEIÇÕES
          Em 12 de Março de 1959, portanto, após as eleições de 1958, ano em cujo final a oposição esboçou alguns movimentos, um grupo designado por Movimento Militar Independente pretendeu levar por diante uma sublevação militar em Lisboa.
          Na conjura estiveram envolvidos elementos civis e militares, dos primeiros dos quais fazia parte Manuel Serra, dirigente católico, e dos segundos, o major Calafate.
          Recorda-se que a defesa afirmou, durante as audiências, a tendência católica do movimento.
         
          O AVIÃO DOS T. A. P.
          No dia l de Dezembro de 1961, foi assaltado, por um grupo chefiado por Henrique Galvão, um avião dos T. A. P, que voava de Casablanca para Lisboa.
          Lançar panfletos sobre Lisboa, Barreiro, Beja e Faro foi o principal objectivo do movimento.
         
          O CASO DE BEJA
          Mais uma tentativa para deposição do Governo começou em l de Janeiro de 1962, com o assalto ao quartel de Beja.
          O principal impulsionador do movimento - capitão Varela Gomes - foi ferido pelas forças governamentais, e a acção, de que resultariam quatro mortos, entre os quais o subsecretário de Estado do Exército, fracassou.
          Manuel Serra, que estava no estrangeiro, entrou clandestinamente no País e conseguiu aliciar elementos militares, que foram a Beja para conseguir armas.
          O então major Calapez Martins fez fogo sobre o capitão Varela Gomes e pôs-se em fuga, para alertar a G. N. R. e a P. S. P., que, com auxílio de forças de Évora e Estremoz, se dirigiram ao quartel e dominaram a situação.
          O julgamento dos implicados demorou meses e só veio a realizar-se em 1964.
         
         
16 DE MARÇO DE 1974
          Uma companhia de infantaria das Caldas da Rainha sublevou-se na madrugada de 16 de Março e caminhou sobre Lisboa, onde foi forçada a parar.
          Admite-se que um erro de informação tenha levado à saída daquela coluna militar, que não recebeu o apoio indispensável ao prosseguimento da sua acção.
          25 DE ABRIL DE 1974
          ENFIM, O DIA GLORIOSO !
         

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro - Marinha Grande - Portugal
                                                                    

 

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