
Rafael Bordalo Pinheiro, foi um caricaturista de grande imaginação e de inesgotável bom
humor, que, nas publicações "Lanterna Mágica", "Álbum das Glórias",
"António Maria", "Pontos nos ii", "Paródia", deixou páginas
deliciosas de fantasia e de espírito. Foi também ceramista notável e fundou nas Caldas da
Rainha uma fábrica de louça, cujos produtos se inspiravam da tradição e dos costumes
portugueses, bem como da fauna e flora de Portugal, atingindo por vezes grande valor
artístico.
Na madrugada de 23 de Janeiro de 1905
não resiste a uma lesão no coração e morre em Lisboa, no nº 28 da Rua da Albegoaria
(actual Largo Rafael Bordalo Pinheiro). O desenhador e aguarelista, ilustrador de obra vasta
dispersa por largas dezenas de livros e publicações, precursor do cartaz artístico em
Portugal, decorador, caricaturista político e social, jornalista, ceramista e professor,
morreu no princípio do séc.XX mas a actualidade da sua obra faz com que seja intemporal.
Raphael Augusto Bordallo Prestes
Pinheiro nasceu a 21 de Março de 1846 no nº 47 da Rua da Fé, em Lisboa. Apaixonado pelo
lado boémio da vida lisboeta e avesso a qualquer disciplina, matriculou-se sucessivamente na
Academia de Belas-Artes (desenho de arquitectura civil, desenho antigo e modelo vivo), no
Curso Superior de Letras e na Escola de Arte Dramática, para logo de seguida desistir.
Estreia-se como actor no Teatro Garrett e no luxuoso Theatro Thalia na costa do Castelo.
Preocupado com o futuro do filho,
Manuel Maria arranja-lhe um lugar na Câmara dos Pares (1863) onde recebia 25 mil reis
mensais. Se Rafael ainda estava indeciso, depressa descobriu a sua verdadeira vocação a
partir das intrigas políticas nos bastidores, óptimo campo aberto à veia humorística.
Casado desde 1866 com Elvira Ferreira
de Oliveira, contra a vontade dos pais da noiva, procura primeiro ganhar a vida como artista
plástico, influenciado pelo ambiente familiar. Em Setembro de 1968 inscreve-se como membro da
Sociedade Portuguesa concorrendo com regularidade, entre 1868 e 1874, às exposições
promovidas pela Sociedade Promotora de Belas-Artes com composições realistas. Na 7ª
exposição (1868) apresenta 8 aguarelas inspiradas nos costumes e tipos populares, com
preferência pelos campinos de trajes vistosos.
Começou a fazer caricatura por
brincadeira. Mas é a partir do êxito alcançado pel'O Dente da Baronesa (1870), folha de
propaganda a uma comédia em 3 actos de Teixeira de Vasconcelos, que Bordalo entra
definitivamente para a cena do humorismo gráfico. "Comecei a sentir um formigueiro nas
mãos e vai pus-me a fazer caricaturas", explica em tom irreverente o artista para quem o
propósito das "caricaturas é estragar o estuque de cada um com protesto do
senhorio". Em 1870 publica o álbum Calcanhar de Aquiles, a 1ª série da colecção A
Berlinda e a revista O Binóculo.
No ano seguinte, o quadro de vastas
dimensões desenhado numa simples folha de papel - "Bodas de Aldeia" -, inspirado
numa cena ribatejana, é premiado na Exposição Internacional de Madrid e, no ano seguinte,
conclui o ciclo de desenhos a carvão com "O Enterro na Aldeia". Ao mesmo tempo que
concorre às exposições da Promotora, desenvolve paralelamente a faceta de ilustrador e
decorador, compondo desenhos para almanaques, anúncios e revistas estrangeiras como "El
Mundo Comico" (1873-74), "Ilustrated London News", "Ilustracion Española
y Americana" (1873), "L'Univers Illustré" e "El Bazar".
Artes e Letras (1872)Até à Lanterna
Mágica publicada em 1875, berço de origem do Zé Povinho, são numerosos os trabalhos. Em
1872 entra no universo da histórias aos quadradinhos a partir de uma sátira à viagem de D.
Pedro II pela Europa -"Apontamentos sobre a Picaresca Viagem do Imperador de Rasilb pela
Europa - que teve três impressões. Seguiram-se os frontispícios do jornal de Artes e Letras
(1872) e do Almanach das Artes e Letras (1874). Publicou 2 fascículos de M. J. ou a História
Tétrica d'uma Empreza Lyrica(1873), os 2 volumes do Almanaque de Caricaturas (1873-74),
colecção de portraits-charge de vários actores, e a admirável colecção de litografias Os
Theatros de Lisboa (1875).Almanach das Artes e Letras (1874)
A 19 de Agosto de 1875 parte para o
Brasil onde trabalha nos jornais O Mosquito, Psit!!! e O Besouro e desfruta dos prazeres do
Rio de Janeiro com os seus companheiros da "República das Laranjeiras". Do lado de
lá do oceano Atlântico continua a enviar a sua colaboração para jornais e revistas,
exemplo disso é o Álbum de Phrases e Anexins da Língua Portuguesa (1876) e o Almanaque da
Senhora Angot (1876-77). As saudades da Pátria e as constantes ameaças contra a sua vida
fazem-no regressar a Portugal, onde chega em Maio de 1879, para começar logo a trabalhar n'O
António Maria (1879). Seguiu-se o Álbum das Glórias (1880), No Lazareto de Lisboa (1881),
Pontos nos iis (1885) e, finalmente, A Paródia (1900).
Em 1884, paralelamente à sua
actividade como caricaturista e ilustrador, experimenta o barro nas oficinas de Gomes de
Avelar e, pouco tempo depois, continua durante 21 anos na Fábrica de Faianças das Caldas da
Rainha.
Em 1885 homenageia os companheiros do
Grupo do Leão com um painel decorativo no Café Leão de Ouro. E ainda tem tempo para,
juntamente com os seus irmãos Columbano e Maria Augusta participar na redecoração do
interior do Palácio do Beau Séjour. Pela decoração do Pavilhão de Portugal na Exposição
de Paris de 1889 recebe a Legião de Honra. É distinguido internacionalmente em 2
publicações parisienses de J. Grand Carteret - Bismark en Caricaturas (1890) e Crispi
Bismark et la Triplice Alliance (1891). No Lazareto de Lisboa (1881)

Extinto o Psit!!!, e auxiliado por
João José dos Reis, lança o 1º número (6 de Abril de 1878) da folha ilustrada,
humorística e satírica O Besouro com a seguinte introdução:
" Viva a alegria! Viva a
caricatura! Temos arrastado por entre vós uma existência de bicho-da-seda. Ora por cima ora
por baixo da folha. Furado o primeiro casulo por falta de água quente para matar o bicho,
saiu a borboleta que nasceu e morreu efémera como o nome Psit. Daí a semente que produziu o
besouro. Metamorfoseados hoje no corpulento Besouro, com os pulmões bem fornecidos de ar,
cravaremos de novo e com segurança a nossa velha bandeira Viveremos muito e viveremos bem se
tivermos a fortuna de lhes agradar e de os alegrar. Começamos a zumbir". A promessa
prossegue na página 8 do mesmo número: "O Besouro volteará sempre ao redor da luz
brilhante de todos os acontecimentos e de todos os casos, sem se queimar".
Nele surge pela primeira vez um novo
tipo-emblemático, o Fagundes, imagem do político brasileiro medíocre e oportunista. Uma
provocação que foi ripostada por um pedido do Barão do Lavradio ao Senado para que fossem
aprovadas medidas repressivas contra os estrangeiros que iam para o Brasil, descalços e de
jaqueta de trinta botões, para fazer fortuna e que pagavam a sua hospitalidade com a
agressão e com o escândalo. Rafael não se fez rogado, criou o personagem Manel Trinta
Botões e, dois dias depois, vestido com um jaquetão azul abotoado com 30 enormes botões e
calças brancas (cores da bandeira portuguesa durante a Monarquia), andou pelas principais
ruas da cidade. A crítica sempre afiada e a independência política produziu provavelmente o
editorial mais mordaz do jornalismo bordaliano.
Somos liberaes (nº 5 de Outubro de
1878):
Quando nos curvamos, como hoje, diante
do Sr. Leoncio de Carvalho, e o felicitamos pelo cuidado e esforços que emprega para evitar
as fataes epidemias deste paiz, pelas suas idéas avançadas com respeito á instrucção
publica e ensino obrigatorio, e pelo muito que está fazendo pela educação. E' um político
que por agora se esquece de si para só lembrar-se do seu paiz. - E' raro! - Honra lhe seja! -
Nem parece um Ministro!
Somos liberaes com o Sr. Leoncio, como
o seremos com todos os que procederem com o desinteresse de S. Ex. Não somos liberaes, quando
o partido se faz apenas valer pelos seus chás de familia - com BISCOITINHOS... Desta vez o
Besouro comeu bola do partido liberal. Como comeu a semana passada do partido conservador.

A proposito de bolas cabe-nos fazer
aqui um pedido a todos os que, por ignorancia ou malvadez, se ocupam em propalar injurias. O
pedido é o seguinte: o favor de não medirem o nosso caracter pela craveira dos vossos. A
vossa altura é a do estomago; a nossa é um pouco mais elevada. Agora uma explicação: não
estamos filiados a nenhum partido; se o estivessemos, não seriamos de certo conservadores nem
liberaes. A nossa bandeira é a Verdade. Não recebemos inspirações de quem quer que seja e
se alguem se serve do nosso nome para offerecer serviços, que só prestamos á nossa
consciencia e ao nosso dever, - esse alguem é um infame impostor que mente.
A razão porque não applaudimos a
cunhadite é a mesma porque não applaudimos a commandita Masset & C. Tanto valem para
nós uns como outros.
O despedimento voluntário de dois
colaboradores, por causa do explosivo e quadriculado folheto O Besouro de Chicote, em resposta
a uma insinuação* de Angelo Agostini (desenhador apreciado pelas histórias aos
quadradinhos), e duas tentativas de assassinato, obrigaram Rafael a cancelar a publicação da
revista em Março de 1879 e a regressar a Portugal.
*Intrigas no bairro da caricatura in
Besouro (7 de Dezembro de 1878):
Ha pouco deu-se na rebista um equivoco
a meu respeito; logo veio a explicação amavel, que eu transcrevo agora a proposito do
equivoco que se dá a vosso respeito.
Dizia: «Intrigas - Procuram
intrigar-nos com o nosso collega Angelo Agostini. Desde que conhecemos Angelo Agostini, foi
sempre por nós tratado com a maior consideração, não fazendo mais com isso sinão render
homenagem ao seu talento e sempre entretivemos com elle relações amigaveis. Se ha carapuça
n'algum trecho do Besouro, o Angelo sabe perfeitamente que ella não lhe assenta. O melhor,
pois, é rir dessas pequenas intrigas. Não acha, collega?»
Atirar pedras no dia 30, que o collega
recebe no dia 27, é atirar para traz, e isso é comsigo. Mas, collega, se é jogo em que
nunca ensaiei as minhas forças? Não fui eu que offereci a caixa no dia 27; foi antes il mio
collega que me engraxou no dia 27 pelo pecado do dia 30.
Iremos jogar, não a pedra, mas a móra
de traz para diante. Você já disse: Uno! Eu: due! Tre! E logo xinque! E assim estaremos até
acertar! E' uma massada, convenho. Mas o que se lhe ha de fazer? Você quer... demais usa das
respostas antes das perguntas. E' como o Ferrari. 6 antes de 5. Que gajo!
Antes de começar, previno-o de uma
coisa simples: é que costumo sustentar em todos os terrenos e por todas as fórmas as
questões em que me metto. Também sei descalçar o tamanco quando é preciso. Não o tenho
feito, pelo muito respeito que me merece o publico. Enfim, bem sei que uma ferradura é mais
dura que um tamanco; mas cá estemos...
Sabbado de nossa Sra. é hoje.
O collega do Vesoiro, Rafael Bordalo
Pinheiro
A figura caricatural do Zé Povinho,
representativa do povo português, tanto o nome como a imagem tornaram-se imediatamente
populares e simbólicos. As características de Zé Povinho são a candura, a mansidão, a
paciência sofredora e a credulidade.
POIS BONS-DIAS MEUS SENHORES...
Ainda não se deram bem conta da minha existência. E sou personagem importante, o meu nome é
Zé Povinho. Lá mais para o fim do século hei-de ser bem representado mas quem me vai dar
vida ainda não nasceu.
O país anda às voltas. Parece que
não se entendem. Isto do Rei ter fugido para o Brasil veio trazer grandes complicações. Ora
uns, ora outros, todos querem o poder.
Como se não bastasse a política,
juntou-se-lhe uma guerra de irmãos - D. Pedro (o Liberal) , D. Miguel (o Absolutista). E o
poder vai saltando de mãos durante algum tempo até que as coisas se estabilizem.
No meio cá ando eu. Lá vou observando
o que se passa. Não sou político, mas vou tirando as minhas conclusões. Não é que elas
valham muito agora, mas há-de chegar um dia que todos encherão a boca com o meu nome.
Aguento como posso, e quando as coisas me irritam, encho-me de força. Arreda que vai tudo em
frente. Não acreditam? Pois bem, eu vos conto.
Lá por volta de 1842, estava tudo mais
sereno quando um camponês, vindo da Beira, faz um golpe de direita que o leva ao poder. Não,
não é o tal, este chama-se Costa Cabral e é formado em Direito e o outro será em
Finanças. Só que às vezes, com homens da mesma laia, a história repete-se...
A ditadura não é do meu agrado. Em
1846 vem a proibição de enterrar os mortos nas igrejas. Mais me faz desconfiar a história
dos registos de propriedades. Só me faltava agora virem mandar nas nossas terras, e ao que
consta querem vendê-las aos estrangeiros. Eu rebento. Pego nas forquilhas, nas enxadas, e vou
em frente. Não é o governo que se vem meter agora nos meus assuntos. A revolta é geral.
Depressa se espalha pelo país. Começo lá no Norte e vou descendo por aí abaixo. Chamam-lhe
Maria da Fonte. Mas eu acho que sou apenas eu - o povo. Repito: o meu nome é Zé Povinho,
pois então!
Tudo se complica, depressa a revolta se
transforma em guerra civil - é a Patuleia.
RAFAEL BORDALO PINHEIRO E A
FÁBRICA DE FAIANÇAS DAS CALDAS DA RAINHA
João B. Serra*
A aventura de Rafael Bordalo Pinheiro
no domínio da cerâmica principiou tarde, relativamente, quando o artista fizera já 38 anos,
mas não se resumiu a um punhado de tentativas mais ou menos bem sucedidas.

Pelo contrário. De 1884 até 1905
Rafael manter-se-ia não apenas ligado por um compromisso sentimental, mas efectivamente
responsabilizado - e cada vez mais, se assim se pode dizer - pelos destinos da unidade de
produção cerâmica criada, na primeira daquelas datas, com a designação de Fábrica de
Faianças das Caldas da Rainha, na vila do mesmo nome.
Foram praticamente 20 anos de uma
actividade constante, ao longo dos quais percorreu diversas modalidades de expressão,
processos técnicos, formas de execução, conceitos formais e recursos tecnológicos
próprios do barro. Rafael Bordalo Pinheiro foi um ceramista e não só um artista plástico
que também se interessou pelo barro. Aliás, nunca é de mais sublinhar, o estatuto de
ceramista foi, com a obra de Rafael, elevado a um plano nunca antes atingido em Portugal.
O projecto original e o seu modelo
inspirador
É possível reconstituir com
segurança o projecto original da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, cujos estatutos
seriam aprovados em reunião dos seus principais promotores em Outubro de 1883. A empresa
adoptaria o figurino das sociedades anónimas, com uma gestão separada da propriedade. A
direcção foi entregue pelos accionistas fundadores a dois directores, Feliciano Bordalo
Pinheiro (responsável pelos aspectos organizativos) e seu irmão Rafael (responsável pelos
aspectos técnico-artísticos). O destaque ia desde logo para o lugar de director técnico,
nomeado por um período de 20 anos e beneficiando de um vencimento superior.
De acordo com os referidos estatutos, a
empresa tinha como finalidade explorar a indústria cerâmica no ramo especial das faianças,
e propunha-se vir a lançar no mercado, além de produtos de cerâmica ornamental e de
revestimento e louça do tipo que se manufacturava nas Caldas, objectos da mais fina faiança
estampados com gravuras originais para usos ordinários e louça ordinária para os usos das
classes menos abastadas. Efectivamente a unidade fabril era formada por três sectores
produtivos: materiais de construção, da louça decorativa, e louça comum. O primeiro entrou
em funcionamento em meados de 1884, o segundo um ano depois e o terceiro em 1888.
A empresa anunciou a intenção de
promover o ensino profissional da especialidade, o que de facto sucedeu, mediante um protocolo
celebrado com o Governo em 1887. A qualificação da mão-de-obra no podia deixar de
constituir uma exigência estratégica para quem pretendia pôr em marcha uma profunda
renovação da cerâmica industrial portuguesa. A fábrica dirigida pelos irmãos Bordalos
estava implantada numa região de tradições artesanais, certamente úteis na montagem do
sector da louça decorativa, mas pouco relevantes para a organização de um sector de louça
de uso comum. Aqui, onde os processos de produção em larga escala eram dominantes e a
divisão de trabalho própria da indústria pós-máquina a vapor imperava, tornava-se
necessário formar novos operários.
A faiança utilitária de pasta branca
gozava de um favor crescente entre as classes médias urbanas. Aparentemente, as duas únicas
fábricas existentes em Portugal, a Fábrica de Sacavém e a de Fábrica de Alcântara, não
satisfaziam o mercado, permitindo que os equivalentes estrangeiros (alemães, ingleses,
franceses, espanhóis) adquirissem uma presença cada vez maior no mercado nacional. Em 1884
importaram-se 220,6 toneladas de artigos cerâmicos de faiança fina e porcelana e, em 1889,
281,5 toneladas.
O projecto da Fábrica de Faianças das
Caldas da Rainha remete para esse enquadramento. É por ele que se explica também o apoio
recebido do Governo e o estímulo que lhe foi dispensado por eminentes intelectuais (como
Ramalho Ortigão, Joaquim de Vasconcelos, Fialho de Almeida). Propunha-se contribuir para
fortalecer a economia nacional, colocando no mercado um produto competitivo, de boa qualidade,
e decorado com motivos nacionais, desse modo inaugurando um novo ciclo das artes decorativas
portuguesas.
Não é difícil reconhecer neste
projecto a influência do "Arts and Crafts", movimento surgido em Inglaterra na
década de 1860 e que se prolongou até finais do século. A articulação da indústria com o
ensino das "artes e ofícios" - corporizada neste caso por um contrato celebrado
pelo Governo com a fábrica, mediante o qual esta se comprometia a dispensar o ensino dos
ofícios cerâmicos aos alunos que a Escola Industrial das Caldas da Rainha lhe apresentasse,
a troco de um subsídio anual - e a criação de um lugar de director técnico, preenchido por
um artista, são sinais claros dessa filiação. Ramalho Ortigão, um crítico de arte amigo
de Rafael Bordalo Pinheiro, e que viria a reivindicar para si o patrocínio intelectual da
iniciativa fabril, vinha defendendo com insistência a necessidade e oportunidade de
renovação das artes aplicadas nacionais, a exemplo do que sucedia em Inglaterra onde
"arquitectos, pintores e escultores se consagram, paciente e humildemente, a desenhar
modelos para todas as indústrias". No seu entender, "Bordalo era pois o único
homem, mas era-o de um modo completo, para intervir em Portugal numa indústria de arte,
remanejando-a em concorrência com as indústrias similares do restos da Europa e fazendo ela
um novo elemento de riqueza e glória nacional".
A crise. Proposta de um novo modelo
Em finais de 1884, os dois irmãos
Bordalo Pinheiro iniciaram um périplo por França, Bélgica e Inglaterra, a fim de se
inteirarem dos processos de fabrico e adquirirem maquinaria necessária. Efectivamente, ao
longo dos dois anos seguintes, enquanto os sectores fabris dos materiais de construção e da
louça decorativa trabalhavam já, com base numa tecnologia tradicional, a implantação do
sector da faiança utilitária obrigava à importação de um técnico para acompanhar a
construção de dois fornos de tipo Minton, uma máquina a vapor, uma caldeira multibular,
muflas, uma máquina para a purificação de pastas.
Em meados de 1886 a fábrica de louça
comum dos Bordalos já se devia encontrar, no essencial, montada e, se não iniciou nessa
altura a laboração, é porque, segundo julgo, a empresa, entretanto, sofreu o seu primeiro e
grave abalo financeiro. A subscrição pública de acções anteriormente realizada não teria
tido grande sucesso. Muitos dos accionistas não cumpriram os seus compromissos. As
subscrições efectuadas no Brasil a partir das diligências pessoais a que Feliciano Bordalo
Pinheiro aí procedeu, entre Novembro de 1883 e Março de 1884, perderam significado com
oscilações cambiais supervenientes. Só o apoio do Governo permitiu relançar o sector em
1887. A 2 de Agosto de 1888 era finalmente inaugurado. Mas uma segunda crise, cedo se abateu
sobre ele, inviabilizando a sua continuidade.
A 22 de Janeiro de 1891, noticiava o
semanário O Caldense que a Fábrica de Faianças tinha suspendido a laboração. Nos
armazéns repletos de serviços de mesa por vender, várias dezenas de modelos, resultado da
criatividade extraordinária de Rafael Bordalo Pinheiro.
Mau grado nesta crise confluírem
factores emergentes da especificidade da situação quer da empresa quer da indústria
cerâmica em Portugal, a conjuntura do país não deverá ser negligenciada. Importará
recordar que em Maio de 1891 é declarada a bancarrota do Estado, depois de esgotados os
equilíbrios financeiros baseados nas remessas de emigrantes (nomeadamente dos emigrantes para
o Brasil) e nas exportações de produtos primários, principalmente o vinho. O agravamento do
défice comercial e da dívida pública fazem dos anos finais da década de 1880 e primeiros
da de 1890 um tempo dramático para a economia portuguesa.
O encerramento da fábrica em
princípios de 1891 não atraiu qualquer movimento solidário da parte de potenciais
investidores. É lógico que assim sucedesse. A queda de dividendos em sociedades anónimas
dos diversos ramos industriais era já suficientemente preocupante para que alguém se
dispuzesse a tentar salvar da falência uma que, desconfio, nunca distribuíra qualquer
dividendo.
Alarmados, diversos intelectuais clamam
por uma intervenção dos poderes públicos. Toma forma a proposta de um novo modelo
institucional da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha. Formulou-a pela primeira vez
Joaquim de Vasconcelos, em 1891, ao advogar o reconhecimento da Fábrica como Escola Nacional
de Cerâmica. Vasconcelos colheu decerto inspiração na experiência francesa da Manufactura
Nacional de Sévres, com o seu programa de estímulo à indústria nacional, através da
formação e da promoção de um vocabulário decorativo. Charles Lepierre, um técnico
francês que se radicou em Coimbra nos finais do século lembrava os objectivos enunciados em
Sévres desde 1891 e que conviria adoptar em Portugal: fabricar porcelana dura e produtos
cerámicos que oferecessem interesse de arte ou de ensino; estudar e vulgarizar os processos
artísticos e químicos aplicados à arte e indústria cerâmicas; efectuar o ensino normal da
cerâmica (Sévres formava artistas e operários e divulgava fórmulas e processos para
desenvolver a produção nacional).
Não creio que tais propostas tenham
encontrado interlocutores nos Governos portugueses da década de 90. A pressão financeira
agiu com um factor de ensurdecimento do Estado. Mas o Banco de Portugal acedeu a não executar
a dívida que a sociedade da Fábrica de Faianças contraíu.
A cerâmica decorativa da Fábrica de
Faianças das Caldas da Rainha
A escolha das Caldas da Rainha para
implantação da Fábrica de Faianças deveu-se, entre outros motivos, ao reconhecimento de
que aí existia um saber, uma experiência e uma tradição nacional e internacionalmente
reconhecidas na faiança decorativa, e com as quais o próprio Rafael se identificava.
A louça bordaliana é certo que
transgrediu os cânones dessa expressão regional da arte popular do barro que lhe
pré-existia nas Caldas. Mas rendeu-lhe homenagem, nela buscando inspiração, um sentido,
reinterpretando-a. Naturalmente que essa renovação cedo se repercutiu na restante produção
local, também ela adoptando e adaptando Bordalo, reinventando e reformulando essa herança,
numa linhagem que chega até aos nossos dias.
A cerâmica produzida sob a direcção
de Rafael Bordalo Pinheiro distribui-se por géneros tão diversos como materiais de
construção, azulejo, louça utilitária, escultura, louça decorativa e artística. Foi este
último que aqui privilegiámos, em atenção à natureza do certame que se efectua sob a
égide do artesanato. A Fábrica de Faianças original encontrava-se, aliás, organizada em 3
sectores, com tecnologia e organização produtiva distintas (sector dos materiais de
construção, sector da louça decorativa e sector da louça comum). Mas após uma grave crise
financeira declarada em 1892, ela dirigiu a sua actividade basicamente para a área da
cerâmica decorativa e artística, aquela que sem dúvida mais interessou e absorveu Rafael
Bordalo Pinheiro.
Há um nexo evidente entre o desenho e
a cerâmica de Rafael. A serôdia aproximação do artista ao barro acentuou essa relação
que constitui, por outro lado, o sinal de uma nova técnica a invadir - e até em determinada
medida e sentido a subverter - a cerâmica tradicional de raiz popular, onde o desenho está
ausente. Mas convirá não nos deixarmos iludir e supôr que se trata de dependência quando
estamos em face de integração. O desenho constitui um passo fundamental na criação, mas a
peça cerâmica não é a mera tradução nas três dimensões do motivo previamente concebido
em duas. A dezena de painéis que neste pavilhão se exibem julgo que põem em destaque não
só aquilo que a modelação em barro, a cozedura, a pintura e o vidrado acrescentam ao
desenho mas também aquilo que nele modificam. A obra de Rafael Bordalo é, igualmente nesse
aspecto, exemplar.
Propomo-vos uma viagem - curta,
praticamente introdutória - pelo universo bordaliano, através dos referidos painéis. Neles
se observar, de acordo com a nossa proposta, os vários tons, mais leves ou carregados, do
humor com que Rafael enfrentou a sociedade do seu tempo. E, em paralelo, se reconstituirá uma
arqueologia da(s) cultura(s) - aqui subsumida na designação lata de costumes - tal como se
revela em elementos que vão da indumentária ao porte físico, das feições ao gesto, dos
referentes simbólicos de grupo aos objectos de uso quotidiano, com passagem por apontamentos
do imaginário histórico e nacional.
O contraponto que cada painel
proporciona entre desenho e cerâmica traz à luz a característica tipificadora desta última
em Rafael Bordalo Pinheiro. O desenho surpreende pessoas e acontecimentos, faz a crónica, a
cerâmica fixa sobretudo tipos, faz a representaçao da situação. O Rafael ceramista foi
singularmente avaro, ao invés do Rafael desenhador, na figuração das personagens e
intérpretes da cena a que assistiu e em que participou. Ele que a si próprio se retratou nas
mais diversas circunstâncias, não modelou mais do que um retrato de corpo inteiro - e a uma
escala quase miniatural - do Bordalo ceramista. Talvez como que pretendendo sublinhar, desta
forma indirecta, a autonomia e a especificidade do seu trabalho com o barro.
* Investigador associado do Instituto
de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
Caldas da Rainha
Pelo decreto 14.157, de 11 de Agosto de 1927, Caldas da Rainha passou a ter oficialmente a
categoria de cidade.
As Caldas da Rainha foram fundadas,
como se sabe, pela rainha D. Leonor de Lencastre. Três versões explicam o modo como os
factos se passaram e outras tantas tradições nos dizem o motivo que levou a mulher de D.
João 2º a resolver edificar o Hospital Termal e, em volta dele, a então vila a que deu o
título.
Segundo a primeira, a rainha teria
passado pelo lugar das nascentes, em Julho de 1484, ao ir de Óbidos para a Batalha, onde o
marido a esperava, para juntos assistir às exéquias por alma de D. Afonso 5º. Vendo
banharem-se numas fontes fumegantes alguns doentes, teria perguntado aos da sua comitiva a
razão por que eles se banhavam, sendo-lhe respondido que as águas eram excelentes para
aliviar as dores, o que levou a rainha, impressionada pelo desconforto com que aquela gente se
tratava, a fazer o voto de construir u hospital para que eles tivessem melhor comodidade em
suas curas.
Outra versão diz que a rainha fora
àquelas águas tomar banhos, por indicação dos seus médicos.
A terceira versão refere-nos que a
rainha viajava de Coimbra para Óbidos, que ao passar pelo sítio vira os pobres a banhar-se,
e, sendo-lhe dito que as águas eram excelentes para curar dores e chagas, resolveu
experimentar o seu efeito num "cancro" de que sofria, que curou milagrosamente, pelo
que fez logo voto de erguer ali um hospital.
Estas três versões referidas pelo
mais antigo cronista das Caldas, Frei Jorge de São Paulo, que as escreveu em 1656, colhidas
por ele da tradição oral.