António Frederico de Castro Alves, poeta brasileiro. Envolvido na política
desde os seus tempos de estudante, consciente de uma alta missão de homem e poeta,
partidário da abolição da escravatura, fez da sua poesia um palco público e belíssimo
onde não faltam o sentido dramático e o lirismo. Foi um criador de beleza, conseguindo
comunicar-nos todo o exótico encantamento do sertão, com sentido cósmico e americanizante,
dado o seu temperamento eminentemente sensorial. Morreu de tuberculose pulmonar, depois de ter
sofrido um acidente de caça, com apenas trinta e seis anos.
Sua obra literária:
- Espumas Flutuantes, em 1870
- O Gonzaga ou a Revolução de Minas
(teatro)
Postumamente:
- A Cachoeira de Paulo Afonso, em 1876
- Vozes de África, em 1880
- Os Escravos, em 1883
Biografia de Castro Alves - Por
Manoel Bandeira
Aos quatorze dias do mês de março, no
ano de 1847, nasceu Antônio de Castro Alves, na fazenda Cabaceiras, a sete léguas da vila de
Curralinho, hoje cidade de Castro Alves. Era filho do Dr. Antônio José Alves e D. Clélia
Brasília da Silva Castro.
Passou a infância no sertão natal, e
em 54 iniciou os estudos na capital baiana. Aos dezesseis anos foi mandado para o Recife. Ia
completar os preparatórios para se habilitar à matrícula na Academia de Direito. A
liberdade aos 16 anos é coisa perigosa. O poeta achou a cidade insípida. Como ocupava os
seus dias? Disse-o em carta a um amigo da Bahia: "Minha vida passo-a aqui numa rede
olhando o telhado, lendo pouco fumando muito. O meu cinismo passa a misantropia.
Acho-me bastante afetado do peito, tenho sofrido muito. Esta apatia mata-me. De vez em quando
vou à Soledade." Que era a Soledade? Um bairro do Recife, onde o poeta tinha uma
namorada. O resultado dessa vadiagem foi a reprovação no exame de geometria. Mas em 64
consegue o adolescente matricular-se no Curso Jurídico.
Se era tido por mau estudante, já
começava a ser notado como poeta. Em 62 escrevera o poema "A Destruição de
Jerusalém", em 63 "Pesadelo", "Meu Segredo", já inspirado pela
atriz Eugênia Câmara, "Cansaço", "Noite de Amor", "A Canção do
Africano" e outros. Tudo isso era, verdade seja, poesia muito ruim ainda. O menino
atirava alto. "A poesia", dizia, "é um sacerdócio seu Deus, o belo
seu tributário, o Poeta." O Poeta derramando sempre uma lágrima sobre as dores
do mundo. "É que", acrescentava, "para chorar as dores pequenas, Deus criou a
afeição, para chorar a humanidade a poesia."
Mas, no dia 9 de novembro de 1864, ao
toque da meia-noite, na sotéia em que morava, o poeta, que sem dúvida se balançava na rede,
fumando muito, sentiu doer-lhe o peito, e um pressentimento sinistro passou-lhe na alma. Pela
primeira vez ia beber inspiração nas fontes da grande poesia: essa a importância do poema
"Mocidade e Morte" na obra de Castro Alves. Uma dor individual, dessas para as quais
"Deus criou a afeição", despertou no poeta os acentos supremos, que ele depois
saberá estender às dores da humanidade, aos sofrimentos dos negros escravos (O Navio
Negreiro), ao martírio de todo um continente (Vozes d'África). Não era mais o menino que
brincava de poesia, era já o poeta-condor, que iniciava os seus vôos nos céus da verdadeira
poesia. Naquela mesma noite escreve o poema, tema pessoal, logo alargado na antítese
mocidade-morte, a mocidade borbulhante de gênio, sedenta de justiça, de amor e de glória,
dolorosamente frustrada pela morte sete anos depois.
A versão primitiva do Poema foi
conservada em autógrafo, documento precioso porque revela duas coisas: o poeta não se
contentava com a forma em que lhe saíam os versos no primeiro momento da inspiração; na
tarefa de os corrigir e completar procedia com segura intuição e fino gosto. Cotejada a
primeira versão com a que foi publicada pelo poeta em São Paulo, por volta de 68-69,
verifica-se que todas as emendas foram para melhor. Baste um exemplo: o sexto verso da segunda
oitava era na primeira versão "Adornada" com os prantos do arrebol, substituído na
definitiva por "Que" banharam de prantos as alvoradas, verso que forma com o
anterior um dístico de raro sortilégio verbal.
"vem! formosa mulher
camélia pálida,
Que banharam de pranto as
alvoradas".
Quase a meio do curso, em 67, o poeta,
apaixonado pela portuguesa Eugênia Câmara, parte com ela para a Bahia, onde faz representar
um mau drama em prosa "Gonzaga" ou a "Revolução de Minas". Era
sua intenção concluir o bacharelato em São Paulo, aonde chegou no ano seguinte. A sua
passagem pelo Rio assinalou-se pelos mesmos triunfos já alcançados em Pernambuco. Em São
Paulo, nos fins de 68, feriu-se num pé com um tiro acidental por ocasião de uma caçada, do
que resultou longa enfermidade, em que teve o poeta que se submeter a várias intervenções
cirúrgicas e finalmente à amputação do pé. O depauperamento das forças conduziu-o à
tuberculose pulmonar, a que sucumbiu em 71 no sertão de sua província natal. Antes de
regressar a ela, publicara, em 70, o livro "Espumas Flutuantes", cantos por ele
definidos como rebentando por vezes, ao estalar fatídico do látego da desgraça",
refletindo por vezes "o prisma fantástico da ventura ou do entusiasmo".
Vulgarmente melodramático na
desgraça, simples e gracioso na ventura, o que constituía o genuíno clima poético de
Castro Alves era o entusiasmo da mocidade apaixonada pelas grandes causas da liberdade e da
justiça as lutas da Independência na Bahia, a insurreição dos negros de Palmares, o
papel civilizador da imprensa, e acima de todas a campanha contra a escravidão. Mas este
último tema não figurava nas "Espumas Flutuantes". As composições em que o
tratava deveriam formar o poema "Os Escravos", o qual teria como remate "A
Cachoeira de Paulo Afonso", publicada postumamente. Deixava ainda o poeta outras poesias
avulsas, que era seu propósito reunir em outro livro intitulado "Hinos do Equador".
Ao livro "Os Escravos"
pertenceriam "Vozes d'África" e "O Navio Negreiro", os dois poemas em que
o poeta atingiu a maior altura de seu estro. O primeiro é uma soberba apóstrofe do
continente escravizado, a implorar justiça de Deus. O que indignava o poeta era ver que o
Novo Mundo, "talhado para as grandezas, pra crescer, criar, subir", a América, que
conquistara a liberdade com formidável heroísmo, se manchava no mesmo crime da Europa.
No "O Navio Negreiro" evocava
o poeta os sofrimentos dos negros na travessia da África para o Brasil. Sabe-se que os
infelizes vinham amontoados no porão e só subiam ao convés uma vez ao dia para o exercício
higiênico, a dança forçada sob o chicote dos capatazes.
Em Castro Alves cumpre distinguir o
lírico amoroso, que se exprimia quase sempre sem ênfase e às vezes com exemplar
simplicidade, como no formoso quadro do poema "Adormecida", o poeta descritivo,
pintando com admirável verdade e poesia a nossa paisagem, tal em "O Crepúsculo
Sertanejo", cumpre distingui-lo do épico social desmedindo-se em violentas antíteses,
em retumbantes onomatopéias. A este último aspecto há que levar em conta a intenção
pragmática dos seus cantos, escritos para serem declamados na praça pública, em teatros ou
grandes salas , verdadeiros discursos de poeta-tribuno. E há que reconhecer nele, mau
grado os excessos e o mau-gosto ocasional, a maior força verbal e a inspiração mais
generosa de toda a poesia brasileira.
Manoel Bandeira
ESPUMAS FLUTUANTES
Castro Alves
Prólogo
ERA POR UMA dessas tardes em que o azul do céu oriental - é pálido e saudoso, em que o
rumor do vento nas vergas - e monótono e cadente, e o quebro da vaga na amurada do navio - e
queixoso e tétrico.
Das bandas do ocidente o sol se atufava
nos mares ''como um brigue em chamas..." e daquele vasto incêndio do crepúsculo
alastrava-se a cabeça loura das ondas.
Além... os cerros de granito dessa
formosa terra de Guanabara, vacilantes, a lutarem com a onda invasora de azul, que descia das
alturas... recortavam-se indecisos na penumbra do horizonte.
Longe, inda mais longe... os cimos
fantásticos da serra dos Órgãos embebiam-se na distância sumiam-se, abismavam-se numa
espécie de naufrágio celeste.
Só e triste, encostado à borda do
navio, eu seguia com os olhos aquele esvaecimento indefinido e minha alma apegava-se à forma
vacilante das montanhas - derradeiras atalaias dos meus arraiais da mocidade.
E que lá, dessas terras do sul, para
onde eu levara o fogo de todos os entusiasmos, o viço de todas as ilusões, os meus vinte
anos de seiva e de mocidade, as minhas esperanças de glória e de futuro;. . . é que dessas
terras do sul, onde eu penetrara "como o moço Rafael subindo as escadas do
Vaticano";... volvia agora silencioso e alquebrado... trazendo por única ambição - a
esperança de repouso em minha pátria.
Foi então que, em face destas duas
tristezas - a noite que descia dos céus, - a solidão que subia do oceano -, recordei-me de
vós, ó meus amigos!
E tive pena de lembrar que em breve
nada restaria do peregrino na terra hospitaleira, onde vagara; nem sequer a lembrança desta
alma, que convosco e por vós vivera e sentira, gemera e cantara. . .
Ó espíritos errantes sobre a terra!
Ó velas enfunadas sobre os mares!.. . Vós bem sabeis quanto sais efêmeros... - passageiros
que vos absorveis no espaço escuro, ou no escuro esquecimento.
E quando - comediantes do infinito -
vos obumbrais nos bastidores do abismo, o que resta de vós?
- Uma esteira de espumas.. - flores
perdidas na vasta indiferença do oceano. - Um punhado de versos... - espumas flutuantes no
dorso fero da vida!...
E o que são na verdade estes meus
cantos?...
Como as espumas, que nascem do mar e do
céu, da vaga e do vento, eles são filhos da musa - este sopro do alto: do coração - este
pélago da alma.
E como as espumas são, às vezes, a
flora sombria da tempestade, eles por vezes rebentaram ao estalar fatídico do látego da
desgraça
E como também o aljofre dourado das
espumas reflete as opalas, rutilantes do arco-íris, eles por acaso refletiram o prisma
fantástico da ventura ou do entusiasmo - estes signos brilhantes da aliança de Deus com a
juventude!
Mas, como as espumas flutuantes levam,
boiando nas solidões marinhas, a lágrima saudosa do marujo... possam eles, ó meus amigos! -
efêmeros filhos de minh'alma - levar uma lembrança de mim às vossas plagas!
CASTRO ALVES

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro -
Marinha Grande - Portugal
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