
Dia Internacional do Vidreiro
18 de Maio |


Nota: O Dia do
Vidreiro é comemorado na Marinha Grande (Leiria Portugal)
no dia 18 de Janeiro

O vidro é um produto inorgânico de fusão( passagem de uma substância do estado sólido
para o líquido) que tenha sido resfriado em condições rígidas, sem que ocorra mudança
novamente de seu estado.
O vidro é feito de areia,
barrilha, calcário, alumina e caco de vidro
São adicionados aditivos
específicos para a coloração.
· Âmbar (carvão, sulfato,
hematita)
· Verde (cromo)
· Azul (cobalto, cobre)
· Rubi (ferro, cobre)
As matérias-primas (areia,
barrilha, feldspato etc.) são misturadas e levadas ao forno à uma temperatura de 1500º
C, transformando-se em uma massa de vidro.
A massa de vidro é então
transportada pelo canal onde sua temperatura é reduzida à 900º C até máquina que
produz a embalagem.
Conforme o tamanho e formato da
embalagem, será necessário fazer uma gota de massa de vidro cujas características são
diâmetro, comprimento e formato.
A formação da embalagem é
dividida em 2 fases; a primeira é a do molde, onde formamos a boca da embalagem e sua
pré-forma. A segunda fase é a forma, onde através de um sopro será formado o corpo da
embalagem, com as respectivas gravações.
O vidro é feito de uma mistura de
matérias-primas naturais. Conta-se que ele foi descoberto por acaso, quando navegadores
fizeram fogueiras na praia. A areia e o calcário (conchas) se combinaram através da
acção da alta temperatura.
Hoje o vidro está muito presente
em nossa civilização e pode ser moldado de qualquer maneira: nos pára-brisas e janelas
dos automóveis, lâmpadas, garrafas, compotas, garrafões, frascos, recipientes, copos,
janelas, lentes, tela de televisores e monitores, fibra óptica e etc....
As matérias-primas do vidro sempre
foram as mesmas, desde milhares de anos atrás. Somente a tecnologia é que mudou,
acelerando o processo, e possibilitou maior diversidade para seu uso.
O vidro é 100% e infinitamente
reciclável. Isto quer dizer que todos os recipientes de vidro, mesmo os quebrados, podem
ser transformados em novos produtos.
Existem muitos tipos de vidros que
apesar de partirem da mesma base, possuem composições diferentes, de acordo com a
finalidade a que se destinam. Veja a tabela a seguir.
Vidro para embalagens garrafas,
potes, frascos e outros vasilhames fabricados em vidro comum nas cores branca, âmbar e
verde;
Vidro plano vidros planos lisos,
vidros cristais, vidros impressos, temperados, laminados, aramados e coloridos fabricados
em vidro comum;
Vidros domésticos tigelas,
travessas, copos, pratos, panelas e produtos domésticos fabricados em diversos tipos de
vidro;
Fibras de vidro mantas, tecidos,
fios e outros produtos para aplicações de reforço ou de isolamento;
Vidros técnicos lâmpadas
incandescentes ou fluorescentes, tubos de TV, vidros para laboratório, para ampolas, para
garrafas térmicas, vidros oftálmicos e isoladores eléctricos.
Os produtos de vidro devem ser
separados por tipo e cores. Por exemplo, as embalagens de geléia e os copos comuns não
devem ser misturados aos vidros de janela. As cores mais comuns são o âmbar (garrafas de
cerveja e produtos químicos), o translúcido ou "branco" (compotas), verde
(refrigerantes) e azul (vinho).
O vidro usado retorna às
vidrarias, onde é lavado, triturado e misturado com mais areia, calcário, sódio e
outros minerais. Tudo é derretido em fornos com temperatura de até 1500 ºC.
Em média, 1/3 dos vidros usados
são empregados como matéria-prima para fabricação de novas embalagens de vidro.
Quando enviamos os vidros para
reciclagem, estes devem estar limpos, ou seja, sem outros materiais como metais,
plásticos, palhas e etc, pois eles provocam prejuízos ao processo industrial.
Os vidros técnicos são compostos
por matérias-primas diferentes e não são facilmente reciclados, daí tome cuidado para
não misturar com os outros tipos de vidro.
A descoberta
Tem-se como a data
provável da descoberta do vidro, algo em torno de 4000 a.C.. Os mais antigos objectos
fabricados em vidro que se conhecem foram encontrados em túmulos egípcios, com 4000 anos
de idade.
Em estado natural, o vidro existe
na natureza desde os tempos pré-históricos, muitos milênios antes de ser elaborado pelo
primeiro artesão.
Essas rochas vítreas se formaram a
partir de magmas, rochas vulcânicas que tiveram um resfriamento tal que não chegaram a
cristalizar. A rocha vítrea mais empregada pelo homem pré-histórico foi a obsidiana,
rocha encontrada em antigas regiões vulcânicas dos atuais México, Canárias, Hungria,
Islândia, etc.
Esse tipo de vidro era empregado
desde o período neolítico, aproximadamente 8000 a.C., para a fabricação de diferentes
utensílios domésticos e, principalmente, armas rudimentares de defesa, além de serem
utilizados como amuleto e elemento decorativo.
Alguns autores supõem que o vidro
foi descoberto pelos primeiros fundidores de metais ou até pela vitrificação acidental
de uma peça de barro cozido.
Como toda boa história pressupõe
uma lenda, com o vidro não poderia ser diferente. O historiador Caio Plínio II (27-79
d.C), em sua obra "Historia Natural", atribuiu o descobrimento do vidro a
mercadores fenícios que desembarcaram nas costas da Síria e, necessitando de fogo,
improvisaram fogões, usando blocos de salitre (trona) sobre a areia.
Passado algum tempo, notaram que do
fogo escorria uma substância líquida e brilhante, que se solidificava imediatamente: o
vidro. Os inteligentes Fenícios teriam, então, dedicado-se à reprodução daquele
fenómeno, chegando à obtenção de materiais utilizáveis.
O vidro é um material tão comum
em nossas vida que, muitas vezes, nem percebemos o quanto ele está presente. Porém,
basta olharmos à nossa volta com um pouco de atenção e vamos encontrá-lo nas janelas,
nas lâmpadas, na mesa de refeições, na forma de garrafas, copos, pratos, travessas.
Além disso, muitos estarão vendo
tudo isso através de óculos com lentes de vidro.
E o que faz este material ter
tantas aplicações e continuar sendo usado por milhares de anos?
Segundo definição aceita
internacionalmente, "o vidro é um produto inorgânico, de fusão, que foi resfriado
até atingir a rigidez, sem formas cristais".
O elemento básico do vidro é a
sílica, fornecida pela areia, óxidos fundentes, estabilizantes, e substâncias corantes.
Uma das razões de o vidro ser tão
popular e duradouro, talvez esteja na sua análise, pois os vidros mais comuns, aqueles
usados para fazer os vidros planos e embalagens e que, tecnicamente, são denominados
"sodo cálcios", têm uma composição química muito parecida com a da crosta
terrestre, que é a camada externa de nosso planeta e onde vivemos.
MARINHA GRANDE - Memória
viva da resistência e luta de um povo - de António Marques
Marinha Grande, cidade do Litoral
da Região Centro de Portugal, ao norte da Estremadura, a meia distância entre Lisboa e
Porto, a 10 quilómetros da linha do mar, rainha do vidro e do cristal, capital da
indústria dos moldes, menina bonita nascida no Pinhal do Rei, com uma actividade
económica notável, sobretudo na indústria e no turismo. Marinha, referência nacional
na luta do povo contra a opressão, a fome e a miséria símbolos da ditadura. Marinha
Grande, chão simbólico onde os operários e a sua dignidade elevaram uma data de
calendário a monumento nacional o 18 de Janeiro de 1934.
O concelho tem quase 20 mil
hectares, dois terços cobertos por um manto florestal verde a perder de vista, povoado
sobretudo pelo pinheiro de porte altivo, mandado plantar pelo Rei D. Dinis, e de onde
serradores hercúleos cortaram as madeiras que enformaram os cavernames das nossas naus e
caravelas que mar em fora deram novos mundos ao mundo, espalhando a nossa gesta por outros
povos e outras culturas.
O pinhal foi por certo o seu
primeiro motor quando o Rei Lavrador ali colocou alguns colonos que desenvolveram o lugar
da Marinha, assim chamado porque desde tempos remotos se explorava o sal nas terras baixas
que o rio Lis, então navegável até Leiria, e os seus riachos afluentes inundavam com as
marés permitindo o seu aproveitamento.
Pelo menos desde o século XI que
se regista a história do lugar, cuja população passou de 80 almas em 1527, para 1100
habitantes em 1748, data em que foi criada a primeira fábrica de vidro.
Dez anos depois, quando Guilherme
Stephens restaura a indústria vidreira, a Marinha tinha crescido enormemente e possuía
então 2120 moradores.
Os padres Cruzios (do Mosteiro de
Stª Cruz de Coimbra) foram os primeiros administradores destas terras conquistadas aos
mouros, em 1142, por D. Afonso Henriques. Em 1309, D. Dinis tomou conta dos terrenos,
enxugou os campos do Lis e das terras arenosas e barrentas e fez nascer o mais belo pinhal
de Portugal.
A Freguesia da Marinha foi criada
em 1600 e o concelho em 1836 após a revolução da Maria da Fonte. Contudo, sem que a
comissão instaladora fosse empossada, um decreto de 17 de Abril de 1838 elimina o
concelho da Marinha e anexa as suas freguesias a Leiria.
O Povo Marinhense não aceita a
decisão e em 1917, após 81 anos de luta e empenhamento, vê finalmente publicada, em 20
de Janeiro, a lei 644 que restaurava o Concelho da Marinha Grande.
Foi por certo neste caldo de
cultura que se forjou a valentia do Povo Marinhense e viria a prová-lo dezassete anos
depois, em 1934.
Em 1748 o irlandês John Beare
transfere a sua fábrica de vidro de Coina para a Marinha, para a situar junto dos pinhais
nacionais e assim se abastecer de material lenhoso que alimentasse em energia os grandes
fornos. Pouco durou esta unidade fabril.
No reinado de D. José I o todo
poderoso ministro Sebastião José de Carvalho e Melo concede ao inglês Guilherme
Stephens 32 mil reis sem juros e a utilização gratuita da lenha do pinhal. Assim se
funda a Real Fabrica de Vidros da Marinha Grande.
Guilherme Stephens é a figura
central do desenvolvimento moderno da região. Preocupa-se com a formação técnica e
cívica dos operários, é um verdadeiro mestre e pedagogo cimentando o conhecimento e a
solidariedade, enriquecendo culturalmente o povo, dotando-o de infra-estruturas, escolas,
teatro e sobretudo dando-lhe a consciência de classe que foram sempre a matriz do
operário vidreiro.
Stephens morre em 1802 e o seu
irmão sucede-lhe até 1826, altura em que a fábrica é doada ao estado mantendo-se em
laboração até 1992. A indústria mãe da Marinha Grande, está hoje perpetuada no Museu
do Vidro, instalado desde 1998 no Palácio Stephens, residência do prestigiado
industrial, e aí se estuda, conserva, divulga e mostra o património histórico e
cultural vidreiro.
Hoje, para além do vidro e dos
plásticos sobressai no concelho a moderna indústria dos moldes e das suas unidades saem
verdadeiras maravilhas para o mundo inteiro, alimentando todo o género de fábricas com a
sua capacidade tecnológica.
A população laboriosa e lutadora
do concelho da Marinha Grande, que vive sobretudo do sector secundário mas também dos
serviços e do comércio, não esquece a sua história de povo trabalhador, profundamente
marcada por heróicas lutas sem quartel contra a ditadura de Salazar, pela conquista dos
direitos.
Em 1929 o País e a Europa
mergulhavam numa crise económica sem precedentes. As liberdades individuais são
suprimidas por um jovem estadista que assume o poder em 1932, e alinha o País pelo eixo
italo-alemão.
Os sindicatos livres são abatidos
e em seu lugar é imposto o Estatuto do Trabalho Nacional corporizado em torno de
organizações sindicais e grémios fascizantes.
O desemprego arrasa as famílias
dos operários e a fome e o desespero apoderam-se dos homens e das mulheres marinhenses.
Na madrugada e durante todo o dia
de 18 de Janeiro de 1934 o povo da Marinha Grande sai à rua e luta pelos seus direitos,
sendo esmagado pela repressão do regime de Salazar.
Do exemplo desta luta heróica fica
a memória, traduzida em Monumento do escultor Joaquim Correia, situado da rotunda do
Vidreiro, mas perpetua-se até hoje esse rastilho de liberdade que não morreu nem
morrerá jamais. O Homem só o é verdadeiramente quando não tem medo de lutar pelos seus
ideais. Aos heróicos operários da Marinha Grande, e ao seu exemplo em 18 de Janeiro de
1934, devemos hoje uma parte da esperança que pomos num futuro melhor para nós e para
Portugal.
Lisboa
· 11 de Dezembro de 1998
Retalhos da Real Fábrica de Vidros
(Marinha Grande)
Criado há meio século, o
Museu do Vidro da Marinha Grande é inaugurado no Domingo pelo Presidente da República. A
velha residência de Guilherme Stephens foi recuperada e as suas salas ocupadas por peças
que reconstituem a história de uma cidade que cresceu sob o calor dos fornos. D. José
avançou com o dinheiro, Guilherme deu o «know how». A soprar se fez uma cidade, criada
sobre a indústria vidreira.
João Figueira
No Verão de 1788 os
gastos com os trastes e «cavalharice» rondaram os 40 mil réis. Mas os 32 contos que D.
José emprestou a Guilherme Stephens estavam a ser bem aplicados. O livro da caixa da Real
Fábrica de Vidros da Marinha Grande, com a contabilidade de Julho e Agosto à mostra,
especifica numa caligrafia irrepreensível que as saídas de dinheiro «em trastes e roupa
de casa, por fitas, e feitio das cobertas de seda das cadeiras e canapés» foi de 22 710,
a que se juntam os «gastos miúdos» e «de cavalharice».
Ao longo dos três pisos da casa
que outrora foi residência dos irmãos Stephens, o Museu do Vidro que Jorge Sampaio
inaugura no domingo, na Marinha Grande, é uma síntese da história do velho povoado que
deve quase tudo ao calor dos fornos. Áreas de exposições temporárias, espaços
dedicados aos usos e funções do vidro e a recriação do ambiente e dos modos diversos
de trabalhar o vidro compõem o museu, que durou meio século a passar à prática.
Criado por decreto-lei de 1953, o
processo de instalação do museu depressa encalhou nos corredores da burocracia. Nos anos
60, Joaquim Correia consegue que o palácio e seus jardins sejam considerados de interesse
público. No tempo do bloco central, o ministro da Indústria, Veiga Simão, cria o quadro
de pessoal do museu. Mas o processo volta a adormecer. Agora, após 150 mil contos gastos
em dois anos na recuperação do palácio e equipamentos, o museu vai finalmente abrir
portas, de terça-feira a domingo, entre as 10 e 30 e as 19 horas.
O primeiro olhar vai para a bela
fachada amarela que se oferece ao visitante, que, uma vez no seu interior, se
surpreenderá com o pormenor dos tectos, com a recuperação das velhas paredes no piso
superior - onde a Filarmonia das Beiras, num regresso às ambiências passadas, tocará
música barroca para Jorge Sampaio - e ainda com a beleza dos azulejos que bordejam a
escadaria branca.
A marquesa de Alorna tinha razão
no dia em que dedicou um poema ao industrial vidreiro: «Se a gratidão futuros adivinha,/
Guilherme, irá teu nome à Eternidade,/a par do Lavrador da Pátria minha.» Pela
dimensão empresarial que teve, a que sempre juntou preocupações de ordem artística e
cultural, fomentando o teatro e a leitura entre os operários, sem desprimor para a
memória que fica expressa no património construído, Guilherme Stephens justifica
plenamente não apenas as palavras reconhecidas da marquesa mas, sobretudo, a homenagem
que hoje os marinhenses insistem em prestar-lhe.
Por isso o antigo palácio vai
abrir as portas exibindo peças cedidas pelo Museu de Arte Antiga e objectos fabricados
por John Beare, em 1749, isto é, 20 anos antes da entrada em cena dos irmãos Stephens na
Marinha Grande. Voltando, porém, aos diferentes espaços museológicos, é de realçar,
logo à entrada, uma imponente prensa que foi a glória da indústria quando era pioneira.
No primeiro andar, o tempo
divide-se entre os séculos XVIII e XIX. Peças do século XVIII, algumas delas cedidas
pelos Museu Soares dos Reis e Museu de Arte Antiga, de que sobressai um galheteiro
entrelaçado, o expositor dos vidros prensados e a secção de vidro laboratorial,
constituem a jóia deste piso, onde não faltam, também, dos preciosos copos fabricados
por John Beare, nome que marca o início da indústria vidreira na Marinha Grande.
Os operários eram
instruídos e isentos da tropa
O encenador Norberto
Barroca reconstituiu uma obragem do século XVIII, que será representada três vezes no
domingo
«Quero que os meus operários
tenham consciência do seu estado de homens, com direitos e deveres», diz Guilherme
Stephens, ao que o seu irmão Diogo acrescenta: «O mano defende tanto os nossos
operários que fez uma escola para aprenderem a ler e até conseguiu que tenham isenção
de recrutamento militar.»
A acção passasse durante a visita
da Marquesa de Alorna à fábrica e ao palácio dos irmãos Stephens, na segunda metade do
século XVIII, sob a direcção artística de Norberto Barroca. O encenador foi a um
trabalho anterior, A Soprar Se Vai ao Longe, e reconstituiu uma obragem do século XVIII,
que será representada três vezes no domingo, como celebração da abertura do referido
museu. Actores, música popular e erudita ao vivo, guarda-roupa da época e um forno
construido para o efeito, onde os operários especializados vão fazer o vidro, são
alguns dos aspectos que pontuam a representação, na qual se distinguem, ainda, as
presenças do Marquês de Pombal e do irlandês John Beare.
E embora debruçado sobre o
passado, quanta actualidade no texto: «Espero ter mais sorte com a minha fábrica, aqui
na Marinha. Lá, em Coina, só tive dificuldades. Os mercados estrangeiros dificultavam a
nossa laboração, para poderem vender em Portugal os seus produtos», refere Beare. Pouco
depois, é o Marquês que entra em cena e, à semelhança dos apoios que hoje o Governo
presta, anuncia: «Manda Sua Majestade que, ao senhor Guilherme Stephens, cidadão de
grande empreendimento industrial, que quer desenvolver a indústria vidreira em Portugal,
agora de fabrico rudimentar, seja concedido um empréstimo do erário público, no valor
de 32 mil réis, sem encargos e sem prazo determinado». Responde Guilherme: «Tank You!
Quer dizer, obrigado! Um dia, também Portugal chegará à Europa!» E o povo agradece:
«Pegou armas e bagagens,/ o subsídio e a família, / os tarecos e a mobília/ que já
tinha em Portugal./ Ao calor do forno,/ a Marinha cresceu./O povo trabalha,/ o trabalho
aquece.»
© 1998 Diário de Notícias
José Amado Mendes -
Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra
1. INTRODUÇÃO
A historiografia do vidro
em Portugal, não obstante ter já completado mais de um século - desde que Joaquim de
Vasconcelos e, sobretudo, o incansável Francisco de Sousa Viterbo lançaram as suas
bases, respectivamente em 1887 e 1902 -, continua a registar numerosas lacunas, tanto no
que concerne ao sector propriamente dito, como a empresas e empresários, a artistas e a
técnicos vidreiros, aos produtos e respectiva proveniência. Não sendo, aliás, caso
único, devido a uma espécie de "mito das origens" que marcou, durante muitas
décadas, a produção historiográfica portuguesa, também, neste caso, o período mais
recente tem sido, por vezes, o menos estudado. Basta recordar que a obra de Vasco Valente,
intitulada O Vidro em Portugal (publicada em 1950 e considerada, por alguns, como uma
espécie de "bíblia"), nada nos diz acerca da indústria vidreira em Portugal,
desde os inícios do século XX.
Ora, foi exactamente a partir dessa
altura que se verificou uma profunda revolução no ramo, a qual passou pela
automatização de grande parte do fabrico, pela especialização e autonomização dos
segmentos hoje existentes - vidro plano, vidro de embalagem e cristalaria - e pela
transformação da indústria vidreira, de uma actividade artesanal, muito dependente do
know-how importado, cujos produtos, salvo raras excepções, apresentavam um baixa
qualidade, numa das indústrias portuguesas mais competitivas e prestigiadas, tanto no
país como no estrangeiro.
Uma das ideias feitas sobre a
evolução do vidro, em Portugal, consiste em subvalorizar ou mesmo esquecer o importante
contributo que algumas localidades têm dado à vidraria, para além, obviamente, da
Marinha Grande que, desde a 2.ª metade de Setecentos, se transformou na capital do vidro
e, mais recentemente, também na dos moldes. Refiro-me, por exemplo, ao Covo-Oliveira de
Azeméis, a Ílhavo e à Vista Alegre - frequentemente mais associada à porcelana que ao
vidro - e às margens do Douro, como, entretanto, veremos.
Recordarei, antes de prosseguir,
que aquilo que acabo de enunciar, de forma sucinta, é devidamente esclarecido e
fundamentado, num estudo mais desenvolvido, intitulado História do Vidro e do Cristal em
Portugal, há pouco publicado (Lisboa, Edições INAPA, 2002).
2. ORIGENS DA INDÚSTRIA
VIDREIRA NO VALE DO DOURO
As origens da produção
vidreira nas margens do Douro, fundamentalmente na zona de Vila Nova de Gaia, remontam ao
tempo da Revolução Liberal. Todavia, além de não dispormos ainda de um estudo
desenvolvido acerca do assunto, escasseiam as respectivas fontes. Restam-nos, pois,
informações dispersas, das quais se pode inferir o que, seguidamente, passo a
sintetizar.
Entre os anos de 1830 e os finais
do século XIX, terão existido naquela área, pelo menos, duas vidrarias: uma oficina e
uma manufactura. Vejamos o que sobre elas se conseguiu averiguar.
Fábrica de Paço de Rei. Acerca
desta escreveu Gonçalves Guimarães, após aludir a outras unidades industriais
localizadas em Gaia: «Também no sector vidreiro instala-se uma unidade em vila Nova de
Gaia mas que parece ter funcionado apenas depois da vitória liberal: Francisco da Rocha
Soares (filho) montou na sua quinta de Paço de Rei uma fábrica de vidro em data anterior
a 1839, a qual laborou pouco tempo» (GUIMARÃES, 1997: 59). Segundo informa o mesmo
autor, ainda existem ruínas daquela unidade, das quais reproduz uma fotografia (idem:
60).
Pouco mais se sabe, acerca desta
unidade. Vasco Valente, reportando-se aos negócios do dito empresário, Francisco da
Rocha Soares, falecido em 1857 (o qual obteve considerável sucesso com a sua fábrica de
cerâmica de Miragaia, inclusive exportando os respectivos produtos), notou: «Na sua
quinta de Paço de Rei, em Mafamude, montou, também, uma fábrica de vidros, empresa que
lhe acarretou grandes dispêndios e prejuízos» (VALENTE, 1936: 78-79).
Na ausência de outras
informações, pouco mais poderemos acrescentar. Pinho Leal (no seu Portugal Antigo e
Moderno, ao focar a freguesia de "Mafamude"), afirma, em 1875: «Há, nesta
freguesia, muitas e boas quintas, uma fábrica de fundição de panelas de ferro,
fábricas de louça (de barro preto e de faiança), uma fábrica de vidros e várias de
tecidos de linho e algodão». A fazer fé neste testemunho, a Fábrica de Paço de Rei
ainda estaria activa, em 1875. Ou ter-se-ia Pinho Leal equivocado, confundindo-a com a do
Cavaco, a que, entretanto aludirei? Inclino-me mais para esta segunda hipótese.
Por outro lado, também não parece
confirmar-se a existência de uma outra fábrica de vidros - Fábrica de Vidros do Bom
Sucesso, localizada em Vila Nova de Gaia, em, 1825 (COSTA,1994: 100) -, como, aliás, já
foi notado por G. Guimarães (op. cit.: 187, n. 112).
Fábrica do Cavaco ou Fábrica do
Cais do Vale da Piedade. Esta, também localizada na margem esquerda do rio Douro e a
jusante da anterior, foi instalada em 1853 e terá laborado até finais de Oitocentos.
Por ter trabalhado cerca de meio
século, pela competência técnica dos seus fundadores (franceses), pelos produtos
fabricados e pela mão-de-obra ocupada, as informações sobre ela são mais abundantes,
pelo que sublinharei, em seguida, as que considero mais significativas.
O referido ano da fundação, 1853,
deduz-se das declarações feitas pelo seu responsável, aquando do Inquérito Industrial
de 1881, das quais consta a seguinte: «Existe há 28 anos». Antes de analisarmos a sua
evolução, nas cerca de três décadas decorridas entre 1853 e 1881, vejamos algo acerca
do desenvolvimento da mencionada vidraria, nos primeiros doze anos de existência
(1853-1865).
A Fábrica do Cavaco já apresentou
os seus produtos, na Exposição Industrial do Porto de 1861. Foram também expostos
vidros da Real Fábrica de Vidros da Marinha Grande e da Fábrica do Covo, Oliveira de
Azeméis. Referindo-se àquela, escreveu um observador coevo: «A par do pequeníssimo
contingente da Marinha [Grande], sobressaem as largas vidraças e belas redomas da
fábrica do Cavaco, em Vila Nova de Gaia, que tanto crédito dá à perícia técnica dos
directores, os senhores André Michon e Casimir Pierre». E acrescenta: «As redomas,
principalmente, chamam a atenção pela barateza do seu custo, e dão explicação ao
abatimento de preço, que se havia verificado nos armazéns de venda. Pessoas vimos
admirarem o preço de 4$000 réis inscrito numa redoma, de secção oval, e o de 1$500
noutra, de secção circular» (LUCIANO, 1861: 93).
Quatro anos mais tarde, os vidros
da Fábrica do Cavaco compareceram, igualmente, na Exposição Internacional do Porto 1865
(a primeira realizada na Península Ibérica, para a qual foi edificado o Palácio de
Cristal, à semelhança do famoso Crystal Palace, destinado à 1.ª Exposição Universal
de1851, em Londres), tendo sido uma das seis unidades do país ali representadas.
Tratava-se do expositor n.º 1 287,
assim descrito no respectivo catálogo: «André Michon Casimir Pierre, Vila Nova de
Gaia.- Mangas de vidraça por estender, redomas ovadas, quadradas, cilíndricas, telha de
vidraça, vidro cortado etc.» (Catálogo da Exposição do Porto. 1865, 1865: 88).
Das informações transcritas podem
inferir-se:
1. A iniciativa, como aliás muitas
outras no sector, entre os séculos XVI e XIX, ficou a dever-se a estrangeiros, no caso
presente franceses. Tratava-se de dois empresários e não de um, como poderia deduzir-se
da forma como os nomes estão indicados no dito catálogo de 1865 (este lapso detecta-se
noutras obras, onde "Casimir Pierre" aparecem como se fossem apelidos de André
Michon). Acrescente-se que André Michon, além de empresário, era ainda um técnico
vidreiro prestigiado, inclusive como fornalista. Explorou também, durante algum tempo,
uma fábrica de vidraça na Figueira da Foz (em Buarcos, próximo do actual cemitério), a
qual foi fundada provavelmente em 1858 (MENDES, 1984: 240).
2. A manufactura do Cavaco
dedicava-se ao vidro plano, vulgarmente chamado vidraça, especialidade que se havia
aperfeiçoado consideravelmente em França (de modo especial, através dos processos de
vidro coado ou vazado e da produção de mangas). O sector do vidro de embalagem, de que
falarei posteriormente, só mais tarde viria a desenvolver-se e a autonomizar-se, entre
nós.
Ao fim de quase três décadas de
funcionamento, no Inquérito Industrial de 1881 - fonte de importância extraordinária
para o conhecimento da industrialização, em Portugal, nos primeiros três quartéis de
Oitocentos -, fornece alguns dados do maior interesse sobre a Fábrica do Cavaco. Aí se
pode ler:
«Existe há 28 anos [portanto,
como se disse já, desde 1853], sob a direcção do dono, que é em pessoa o construtor do
forno, levantado em cada campanha. Tem dado lucros consideráveis, mas há anos que os
preços de venda baixaram consideravelmente pela concorrência da fábrica da Marinha
Grande. Emprega 18 operários, franceses e portugueses. Os primeiros são 4, vencendo, 1,
1$800 réis e, 3, a 1$600 réis ao dia; os segundos, carregadores e serventes do forno,
são 14, com salários de 320 a 240 réis por dia de dez horas úteis de trabalho. Não
foi declarada a importância da produção, que acaso poderá avaliar-se, a serem exactos
os números acusados de consumo em: carvão de pedra - 500 toneladas; soda - 40 toneladas;
seixo (de Crestuma) - ? Cal (da Figueira) - ?» (Inquérito Industrial de 1881.
Relatório
: 271-272; Inquérito directo. II parte, visita às fábricas, livro 2.º:
183).
Que ilações poderão extrair-se
do exposto? Tratava-se já, para o meio industrial português, de um média empresa (com
cerca de duas dezenas de operários e ainda não mecanizada) que poderemos incluir na
categoria de manufactura. A tecnologia utilizada e os métodos produtivos eram, por certo,
de origem francesa, pois os 14 operários portugueses apenas desempenhavam funções
acessórias, designadamente como "carregadores" e "serventes do
forno". E, como o saber-fazer especializado, sobretudo se importado, tem um preço
substancialmente mais elevado que o trabalho local, os técnicos franceses ganhavam, em
média, cerca do quíntuplo dos carregadores e ajudantes portugueses.
Posteriormente, as informações
relativas à dita vidraria começam, novamente a rarear. Em 1887, referindo-se ao estado
da indústria do vidro no País, sublinhava Joaquim de Vasconcelos: «No Museu Industrial
do Porto [que havia sido inaugurado recentemente], estão representadas as fábricas do
Sr. Michon, do Cabo Mondego e a da Marinha Grande. Esta última, que produz variadíssimos
objectos (cerca de 2 000 números), organizou uma exposição muito interessante, que
produz belíssimo efeito». E acrescente o autor citado: «É inegável que a indústria
do vidro tem prosperado e trabalhado, não há dúvida, mas parece-nos que tem ainda de
fazer um grande esforço para excluir do mercado nacional artefactos [importados] que são
triviais e indispensáveis. Basta recordar só uma espécie: as garrafas pretas e brancas
para vinho, que importamos em grande escala, e que representam uma quantia avultada»
(VASCONCELOS, 1983: 107).
A Fábrica do Cavaco ainda estaria
activa em meados dos anos de 1890, segundo uma carta da empresa dos sucessores de André
Michon e Casimir Pierre, datada de Vila Nova de Gaia, 11 de Junho de 1895 (GUIMARÃES,
1997: 75). Terá encerrado pouco depois, em data desconhecida.
3. SUCESSO DA INDÚSTRIA DE
GARRAFARIA NAS MARGENS DO DOURO
Até finais do século
XIX, as unidades vidreiras instaladas, em Portugal, eram polivalentes e, logo, não
especializadas. A maior parte, tendo começado por produzir vidraça, veio depois a
dedicar-se também à produção de vidro de embalagem e de numerosos outros objectos,
genericamente incluídos no ramo da cristalaria.
A especialização, por sectores,
não obstante uma ou outra tentativa levada a cabo ao longo do século XIX, só viria a
concretizar-se, verdadeiramente, a partir de 1889-1890, com a instalação, no Seixal, da
Fábrica da Amora, exclusivamente dedicada à produção de garrafas comuns, para vinho e
outras bebidas.
Portugal seguia, afinal, na senda
daquilo que, cerca de uma década antes, já se verificava em alguns outros países, como
era sublinhado por um empresário vidreiro, em 1881: «O fabrico da garrafa preta ou verde
é no estrangeiro uma indústria à parte e as fábricas, assim como os operários que as
fazem, não se ocupam de outra coisa, nem sabem mais nada, podendo desta forma produzir
muito e barato» (Inquérito Industrial de 188. Inquérito directo, livro 1.º: 1881:
367).
Quanto à vidraça, devido à maior
complexidade do processo e aos elevados custos do investimento, só em 1941 se deu passo
análogo, com o arranque da COVINA, em Santa Iria da Azóia, nas proximidades de Lisboa.
Considerando apenas o vidro de
embalagem, de acordo com o título do trabalho que me propus apresentar, a
semiautomatização, primeiro, e a automatização, em seguida, levaram a circunscrever a
produção a um número reduzido de localidades e de fábricas.
Numa primeira fase (inícios do
século XX), a Amora concentrou a produção da garrafaria preta. A propósito, sublinha
José Pedro Barosa: «a Amora concentra [em 1903] a totalidade da produção da garrafaria
"preta", isto é, em vidro escuro. Continua apenas, nas outras fábricas, a
produção de garrafas em vidro branco, geralmente subproduto da produção de vidraça,
cujo vidro (esverdeado) é partilhado com aquela produção» (BAROSA, 1996: 68).
Mais tarde, novos centros de
produção automática de garrafa preta se foram constituindo. Assim, após a
desactivação daquela fábrica, a produção automática de garrafaria ficou a ser
assegurada, como o é actualmente, por fábricas modernas, de produção automática,
localizadas, respectivamente, na Marinha Grande, na Fontela-Figueira da Foz e em
Avintes-Vila Nova de Gaia. Pela sua relação com a temática do presente Encontro,
vejamos, em traços largos, as origens e a consolidação deste último e importante pólo
vidreiro.
Durante aproximadamente duas
décadas (anos 1890-1919), a tradição da indústria vidreira, nas margens do Douro, é
interrompida. Assim, a garrafaria ali utilizada era fornecida por unidades, situadas
noutras zonas do país, ou importada. Foi então que os responsáveis pela empresa
proprietária da já referida Fábrica da Amora (Companhia das Fábricas de Garrafas na
Amora) resolveram instalar uma fábrica de garrafas, junto ao rio Douro, desta vez na
margem direita. Com efeito, em 1918 (14 de Março), a Câmara Municipal do Porto autorizou
a dita sociedade a construir um edifício em terreno pertencente à Quinta do Freixo, em
Campanhã. Aí viria a laborar uma importante fábrica de vidro de embalagem, durante
precisamente meio século (1919-1969). Nas respectivas instalações, remodeladas e
adaptadas, está actualmente instalada a sede da empresa de construção, Mota & C.ª.
3.1. Período de
transição: 1919-1930
Pouco mais de ano e meio
após a concessão da licença, pela Câmara Municipal do Porto, para a dita construção,
no Jornal de Notícias (de 26 de Outubro de 1919), era dado grande relevo à inauguração
da Fábrica de Rego Lameiro, através de uma extensa reportagem, ilustrada
fotograficamente.
O título do relato, embora um
tanto extenso, é elucidativo do entusiasmo com que o jornalista aplaudia aquele evento:
«Sucursal no Porto da Fábrica de Garrafas da Amora. Mais uma demonstração eloquente do
engrandecimento e valor industrial da cidade do Porto. A inauguração d´uma grande
fábrica que honra sobremaneira a iniciativa portugueza - O que pode o capital, aliado ao
trabalho produtivo e fecundo - Notas impressivas d´uma visita e "reportage"
d´uma festa».
São descritas as instalações
(dois grandiosos pavilhões e suas adjacências), as gigantescas chaminés (com a altura
de 42 e de 28 metros, respectivamente), o sector da composição, os fornos, a tecnologia
instalada, a capacidade produtiva e a mão-de-obra ocupada. Esta era constituída por 450
operários; a fábrica tinha laboração contínua e a sua capacidade de produção
semanal atingia as 150 000 garrafas. Quanto à capacidade do forno (a tanque), pode
ler-se: «Também tivemos ocasião de observar o funcionamento daquela grande fornalha que
pode comportar 110 toneladas de massa». São ainda referenciados os processos de fabrico,
semiautomático (ilustrado, através de uma imagem) e manual.
Poder-se-á perguntar: que factor
ou factores terão induzido os responsáveis, pela Fábrica da Amora, a instalar uma
moderna e bem apetrechada unidade vidreira, no Norte do País? Ao invés do que sucedeu
com a deslocação da indústria vidreira, de Coina para a Marinha Grande, em meados do
século XVIII - em que o principal factor atractivo foi a proximidade do combustível, em
abundância, no Pinhal do Rei, situado muito próximo -, no presente caso o apelo já
vinha da parte de um mercado com grandes potencialidades, numa região vinícola por
excelência. É que o abastecimento de energia, de importância fundamental na produção
do vidro, com o vapor e a electricidade, havia-se libertado da lenha - e, no caso de
indústrias como a têxtil, também da água -, isto é, dos constrangimentos impostos
pela natureza.
No fundo, esta ideia encontra-se
expressa pelo autor da mencionada reportagem, destacando a necessidade de, no rescaldo de
uma guerra que tinha implicado pesados encargos (como é sabido, a I Guerra Mundial, de
1914-18), se desenvolver a produção industrial e agrícola, auxiliada pela actividade
comercial, ao sublinhar: «No artigo especial a que nos dedicamos [ou seja, no vidro],
enlaçamos aquela tríplice cooperação: no país do vinho, uma das mais valiosas
produções do nosso solo agrícola gera um movimento comercial de exportação, que é o
mais importante, e o qual nós auxiliamos, fornecendo pelas nossas empresas fabris o
invólucro indispensável - a garrafa -, conseguindo nacionalizar uma indústria,
procurando afastar do mercado a concorrência estranha, substituindo-a completamente para
que o trabalho, a mão-de-obra e o capital português aufiram os lucros que iriam, pela
importação do artigo, beneficiar outros países».
Entretanto, nos inícios da década
de 1920, a Companhia das Fábricas de Vidro na Amora passou por dificuldades financeiras -
atingindo, em 1923, um passivo de cerca de 3 000 contos -, pelo que foi decidido alienar a
Fábrica de Rego Lameiro. Assim, por escritura de 2 de Maio de 1923, aquela vende a dita
fábrica à Companhia Vidreira do Norte de Portugal, pela importância de 2 200 contos.
Do que consta da mencionada
escritura e documentos anexos permito-me destacar, pelo seu significado:
a) As duas empresas, por acordo
mútuo, deliberaram efectuar uma partilha do mercado nacional de garrafas pretas, pelo rio
Mondego, nos seguintes termos: «Dentro da orientação de exercer a nossa acção nas
regiões onde exploramos as nossas indústrias [documento da empresa compradora], ficaria
assente que essa Companhia [da Amora] não forneceria mais garrafas pretas para a parte do
norte do rio Mondego, assim como nós não as forneceremos para o sul do mesmo rio, sob
pena de importar responsabilidade por perdas e danos do infractor contra a outra parte»;
b) Por sua vez, em documento
emitido pela Amora, confirma-se a importância do mercado nortenho para o artigo
"garrafas pretas". Nele se afirma: «o facto de perdermos a clientela do Porto,
a mais importante até hoje para a Companhia por ser aquele o mercado onde tem mais largo
consumo a garrafa preta do nosso fabrico, não impede que dediquemos a nossa atenção,
dando todo o desenvolvimento de que é susceptível, à Fábrica da Amora, no fabrico de
garrafas brancas, frascaria e outros produtos desta indústria».
Em 1925, a unidade em foco já
adoptava uma nova designação: "Fábrica de Garrafas RIO DOURO". Em ofício,
então dirigido ao Governador Civil do Porto, indica-se o horário dos turnos adoptados na
Fábrica: 1.º, das 8 às 16 horas, com uma hora de descanso das 12 às 13; 2.º, das 16
às 24, com 1 hora de descanso das 20 às 21; e 3.º, das 24 às 8 horas, com uma hora de
descanso das 4 às 5 horas. Note-se que este horário dos turnos, diferente do adoptado
nas fábricas vidreiras da Marinha Grande (1.º, 5-13; 2.º, 13-21; e 3.º, 21-5 horas),
se manteve até hoje, na fábrica Barbosa & Almeida, à qual aludirei em seguida.
3.2. Barbosa & Almeida: de uma
pequena empresa comercial a um grande grupo internacional, na produção de vidro de
embalagem
Recuando um pouco no tempo,
deparamo-nos com a constituição, na cidade do Porto, de uma sociedade comercial, em nome
colectivo, denominada Barbosa & Almeida, com sede e seu principal e único
estabelecimento sito na rua Mouzinho da Silveira (n.º 44-1.º andar). Foram seus sócios
fundadores Raul da Silva Barbosa e Domingos de Almeida, cujos apelidos continuam a constar
da firma BA - Fábrica de Vidros Barbosa & Almeida, SA.
Em 1921 (por escritura de 4 de
Agosto), constitui-se nova sociedade - Barbosa & Almeida, Ld.ª -, com a entrada de
novos sócios e aumento de capital (que passa a ser de 500 contos), continuando a
dedicar-se ao ramo comercial.
Por seu turno, em 1930, a sociedade
foi remodelada - mantendo, porém a mesma designação -, com a entrada de novos sócios
(por cedência de cota de alguns dos anteriores) e um alargamento do respectivo objecto
que, além de todas as operações mercantis que a sua gerência julgue convenientes,
passaria a incluir igualmente a de «explorar a indústria de vidros na dita sua fábrica
e noutras que vier a adquirir». O capital social foi elevado para 1 000 000$00.
Deste modo, a Barbosa &
Almeida, de comerciante, de vidros e outros artigos, passava a fabricante de vidro de
embalagem (1930), pela aquisição da já referida Fábrica de Rego Lameiro
(posteriormente designada, como vimos, Fábrica de Garrafas "Rio Douro"), a
qual, aquando da sua aquisição pela Barbosa & Almeida, Ld.ª, pertencia à Empresa
de Vidros e Garrafas do Porto, Ld.ª.
Ao fim de uma década de
laboração, a unidade vidreira a que nos reportamos era assim publicitada (1940):
«Garrafas e garrafões. Todos os tipos e capacidades. Garrafas de litro e meio litro com
rolhas de parafuso. Fabrico esmerado e aos mais reduzidos preços. Barbosa & Almeida,
Lda. Escritório: Rua Mouzinho da Silveira, 62-1.º. Telefone, 1405 (P. B. X.), PÔRTO»
(Memória
, 1940).
Porém, muito mais completo e
elucidativo, para o conhecimento da Fábrica de Vidros da Barbosa & Almeida, é um
outro documento, precisamente do mesmo ano ("Inventário Geral da Fábrica, em 31 de
Dezembro de 1940"), que se encontra no arquivo da empresa. Nele se descrevem,
minuciosamente, todos os bens existentes na altura, nas diversas secções da unidade.
Através dele ficamos a conhecer: o equipamento, mobiliário e tecnologia instalados, os
tipos de artigos fabricados (por meio dos respectivos moldes), as matérias-primas e o
combustível utilizados, os produtos em "stock", etc. Das muitas ilações que
daquele se podem tirar saliento apenas os seguintes exemplos:
na casa das máquinas
encontravam-se, além do mais, uma máquina a vapor (de 50 HP) e um dínamo-motor (de
20HP);
dispunha, então, de dois fornos: o
forno n.º 1, a tanque, sistema "Siemens"; e o forno n.º 2, por certo a potes;
já então eram utilizadas 15
máquinas semiautomáticas, descritas como "máquinas de fazer garrafas e
acessórios";
na casa da composição era usado
um britador mecânico;
como meios de transporte próprios
ainda se indicam, apenas: um carro, com rodas de ferro, para transportar caixas com
garrafas; 4 barcas e acessórios.
O elevado número de moldes
referenciado (109 mecânicos e 15 manuais, para garrafas, e 9 para garrafões) revela a
grande diversidade de garrafaria produzida. Cerca de um terço dos moldes de garrafas
destinava-se ao vinho, com destaque, obviamente, para o Vinho do Porto. Várias empresas,
que comercializavam marcas de vinho bem conhecidas (entre as quais, a Companhia Velha, a
Ramos Pinto e a Porto Calém), eram, já na altura, clientes da Barbosa & Almeida.
Encontrava-se armazenado um número
considerável de garrafas e garrafões (para abastecimento normal, do mercado? Ou já como
efeito das dificuldades, resultantes do conflito mundial, desencadeado no ano anterior?);
aquelas totalizavam quase um milhão (895 934), na Barbosa & Almeida (em Campanhã) e,
os garrafões, empalhados, 22 219. Referenciam-se, também, as existentes noutras
fábricas (fornecidas por aquela, à consignação?), nomeadamente nas seguintes :
Roldão, Marinha Grande (50 909), Pataias (162 929) e Fontela (12 921).
Não sendo este o lugar adequado
para esmiuçar o desenvolvimento da empresa, nas seis décadas imediatas, apenas se
referirão alguns factos marcantes dessa trajectória.
O processo de automatização teve
início, o mais tardar, em 1947 - pois já então se encontrava instalada uma máquina
Lynch, de 6 moldes -, tendo prosseguido até ao final da década de 60, a exemplo do que
se verificara, no mesmo período, noutras unidades (como na Santos Barosa e na Ricardo
Gallo, na Marinha Grande). Em 1965, com a instalação de uma terceira máquina do mesmo
tipo, a respectiva produção semanal aumentou para 350 000 garrafas.
Entretanto, a evolução da
empresa, num período de acentuado crescimento económico - última década dos já
chamados "30 anos de ouro da economia -, levou a equacionar a problemática da
remodelação das instalações, em Campanhã, ou a construção de uma nova unidade, como
veio a suceder, em local mais espaçoso e sem os constrangimento de circulação que
rodeavam a Fábrica de Rego Lameiro.
Acrescente-se que o desenvolvimento
extraordinário da empresa, em meados dos anos 1960, foi estimulado pelo aumento da
exportação de garrafas para Espanha. Com efeito, com a proibição da venda de bebidas a
granel - e a consequente exigência do seu engarrafamento -, o consumo de garrafas, no
país vizinho, mais que duplicou, de 1962 para 1963 (passando de 150 para 360 milhões de
unidades). A Espanha passou a ter um défice anual de 1 milhão de garrafas.
Consequentemente, pode ler-se num documento da empresa (anexo à acta de 24.11.1964):
«exportando para Espanha, ainda que a preço não muito compensador, prolonga-se a nossa
campanha vidreira».
Por seu lado, também o mercado
português de garrafas se expandia. Como sublinha Gaspar Martins Pereira (Dicionário de
História de Portugal, vol. IX, supl., p. 600): «O valor das exportações [de Vinho do
Porto] quase triplicou, entre 1960-1964 e 1970-1974, passando dos cerca de 380 mil contos
para mais de 1 milhão de contos por ano. Um dos aspectos que mais pesou na valorização
do vinho do Porto exportado foi, sem dúvida, o crescimento do peso do vinho engarrafado
no conjunto das exportações».
Voltando à Barbosa & Almeida,
foi então comprado um terreno para as novas instalações (com uma área de 95 830 m2),
no lugar de D. Julião, no limite de Aldeia Nova, freguesia de Avintes, concelho de Vila
Nova de Gaia. Graças a um vultuoso investimento (inclusive com o recurso ao financiamento
de 25 000 contos, pelo Banco de Fomento Nacional) e ao apoio técnico de uma firma alemã
da especialidade ("Glasswerke Ruhr"), a nova unidade, ampla, automatizada e
utilizando equipamento do mais moderno então existente, começou a laborar em Setembro de
1969.
Nas últimas três décadas, os
responsáveis pela Barbosa & Almeida adoptaram uma estratégia de expansão,
internacionalização e modernização, transformando uma empresa, de capital familiar,
num grupo cotado em bolsa (desde 1987), o qual detém, actualmente, quatro fábricas a
produzir vidro de embalagem, duas em Portugal (uma em Avintes-Vila Nova de Gaia, onde se
localiza a respectiva sede do grupo, e outra na Marinha Grande, ex-CIVE) e duas em
Espanha.
Registou diversos aumentos de
capital, inclusive com a participação de empresas e grupos bem conhecidos (como a Santos
Barosa e a Ricardo Gallo, suas congéneres, a SOGRAPE (Sociedade Comercial de Vinhos de
Mesa de Portugal, Ld.ª) e, mais recentemente, a SONAE (1998).
A relação da empresa com o vinho
(sem esquecer, naturalmente, outros mercados: águas minerais, cerveja, refrigerantes,
etc.) e, de modo particular, com o Vinho do Porto continua a ser muito forte. A
progressiva substituição da venda de vinho a granel pelo engarrafado teve que ser
acompanhada por um aumento considerável na produção de embalagens, para o que também
contribui o uso da não reutilização da garrafa. Em 2001, foram vendidos para Vinho do
Porto, pela indústria nacional (no país e exportados), 168 milhões de embalagens.
Actualmente, a Barbosa &
Almeida é o principal fornecedor do mercado do Vinho do Porto, produzindo vidro de
diversas cores: branco, verde, verde escuro e preto. Segundo informação fornecida pela
própria Empresa (cuja colaboração me cumpre agradecer, publicamente, com destaque para
o seu Director Executivo, Eng.º António Vasconcelos), «para o Vinho do Porto Vintage,
Barbosa e Almeida desenvolveu um modelo e cor de vidro especialmente para este produto,
tendo em atenção o rigor da óptima vedação/estágio e protecção solar».
É tempo de concluir. Antes,
porém, apenas gostaria de sublinhar:
a) O Douro Litoral (concelhos de
vila Nova de Gaia e do Porto), ao longo de mais de século e meio - apenas com uma ligeira
interrupção -, têm marcado presença na produção vidreira.
b) Sem esquecer o papel, sempre
decisivo, dos empresários - a quem cabe, em última análise, tomar decisões, também no
que toca à localização das suas unidades produtivas -, o notável progresso, registado
na produção de garrafaria, a partir de 1919, não pode compreender-se sem se considerar
a proximidade de um importante mercado, constituído por vários géneros de vinho (do
Porto, em primeiro lugar, mas também dos vinhos verdes e dos vinhos da zona do
Dão-Lafões).
c) Assim, ao focar-se a
importância socioeconómica do vinho, há que aludir ao efeito indutor desse produto,
elemento importante da riqueza nacional, bem como ao cluster que o mesmo integra (além da
embalagem de vidro e da respectiva rotulagem, a indústria corticeira, ao fornecer as
respectivas rolhas, a produção de tanoaria, o transporte e a própria
comercialização), bem como ao seu contributo no conjunto das exportações.
FONTES E BIBLIOGRAFIA
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(1996), «As Fábricas de garrafas da Amora: 1888-1926, I parte: Uma empresa e uma
fábrica: 1888-1904», Estudos e Documentos, n.º 2.
Catalogo Official da Exposição
Internacional do Porto em 1865 (1865), Porto, Tipografia do Comércio.
COSTA, Maria Paula (1994), «O
Centro Vidreiro do Norte de Portugal - Origem do vidro e seu historial», Al-Vária.
Arquivo de Estudos Regionais, t. I (1-2).
GUIMARÃES, Gonçalves (1997),
Memória histórica dos antigos comerciantes e industriais de Vila Nova de Gaia. Livro do
Centenário da Associação Comercial e Industrial de Vila Nova de Gaia. 1897-1997, Vila
Nova de Gaia, Associação Comercial e Industrial de Vila Nova de Gaia.
Inquérito Industrial de 1881.
Inquérito directo, II parte: Visita às fábricas, livro 2.º (1881), Lisboa, Imprensa
Nacional.
«Inventário geral da Fábrica [de
Barbosa & Almeida] em 31 de Dezembro de 1940» (Arquivo da BA-Fábrica de Vidros
Barbosa & Almeida, S. A.).
«Sucursal no Porto da Fábrica de
Garrafas da Amora
», Jornal de Notícias, de 26 de Outubro de 1919.
LUCIANO, A., Exposição Industrial
do Porto em 1861 (1861), Porto, Tipografia do Diário Mercantil.
Memória e Descrição do Grande
cortejo do Trabalho. Porto 5 de Julho. 1140-1640- 1940 (1940), Porto.
MENDES, José Amado, A Área
Económica de Coimbra. Estrutura e Desenvolvimento Industrial, 1867-1927 (1984), Coimbra,
Comissão de Coordenação da Região Centro.
MENDES, José Amado (2002),
História do Vidro e do Cristal em Portugal, Lisboa, Edições INAPA.
PEREIRA, Gaspar Martins (1999),
«Vinho do Porto» Dicionário de História de Portugal, vol. IX, Suplemento P/Z (coords.
António Barreto e Maria Filomena Mónica) Lisboa, Livraria Figueirinhas
VALENTE, Vasco (1950), O vidro em
Portugal, Porto, Portucalense Editora.
VASCONCELOS, Joaquim (1983, 1.ª
ed., 1887), Indústrias portuguesas [«Vidros e cristais»] (org. e pref. de Maria Teresa
Pereira Viana), Estudos e Materiais, Lisboa, Instituto Português do Património
Cultural/Departamento de Etnologia.
(Nota: Barbosa & Almeida, tem
uma das maiores fábricas de embalagem de vidro (garrafas) da Marinha Grande).

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro -
Marinha Grande - Portugal
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