Dia de São João
24 de Junho



          A festa popular por excelência da cidade do Porto, é o São João (de 23 para 24 de Junho): numa manifestação ímpar milhares de pessoas de todas as idades vêm para as ruas "armadas" com martelinhos e alho porro. Durante TODA a noite, passeiam pelas diversas ruas a acertam nas cabeças uns dos outros sem excepções (incluindo agentes da autoridade, presidentes da república e outros políticos). Normalmente a "actividade" começa na zona da baixa e Fontaínhas por volta das 21:00 deslocando-se depois para a ribeira para ver o fantástico fogo de artifício à meia-noite na Ponte D. Luís, depois há que aproveitar os vários bailaricos e, para aqueles com melhores pernas, a noite acaba nas praias da foz.
          Dos santos populares de Junho o dia 24 de Junho foi consagrado a São João Baptista por ser a data do seu nascimento sendo que é também o que mais se festeja na Europa – João, Joan, Jean, John, Iván, Sean, consoante o país onde a festa aconteça, mas apesar de ser o padroeiro de muitas terras, na noite de São João, a cidade do Porto é a que mais festeja!
          S. João tripeiro (gíria popular que se refere a natural do Porto) é uma grande manifestação de massas, eminentemente festiva, de puro cariz popular e que dura toda uma noite, com uma cidade inteira na rua, em alegre e fraterno convívio colectivo.
          Nas ruas os foliões passeiam o alho-porro, os martelos de plástico, compram manjerico e comem sardinha assada, aliás, é com uma boa sardinhada e um bom caldo verde que começa a farra! Fazer subir balões confeccionados com papéis de várias cores que passeiam no ar como sóis iluminados sob o impulso do fumo e o calor de uma chama que consome uma mecha de petróleo ou resina. É este cheiro a gente, a manjerico e erva cidreira, é esta poesia popular impregnada do espírito folião do povo que enche Junho no Porto e se expande do coração da gente, sobe ao ar como um fogo de artifício que ilumina a noitada.
          Tudo começa na Ribeira, mas depois do Fogo de Artifício, todos os anos à meia-noite em ponto, a festa espalha-se pelos quatro cantos da cidade e só termina ao nascer do sol.
          As rusgas de São João espalham-se de bairro em bairro, de freguesia em freguesia.
          Nas ruas mais centrais que, nessa noite, até ao nascer do sol, registam invulgares enchentes de povo, aparecem à venda as ervas santas e plantas aromáticas com evidente predominância do manjerico, a planta símbolo por excelência desta festa; o alho-porro, os cravos e a erva-cidreira. E para espantar o cansaço vai-se parando nos bailaricos de bairro, salta-se a fogueira e pára-se nas tasquinhas que se espalham pela cidade!
          E no Porto a festa tem como ponto de honra as Cascatas S. Joaninas (colocar a imagem do Santo num altar com o seu inseparável carneirinho e um sem fim de elementos que simbolizam o arraial) e que servem de disputa entre freguesias e bairros num concursos de beleza e homenagem
          Manda a tradição que a festa culmine com um banho de mar na Foz!
          E no dia do padroeiro o manjar tradicional é o anho ou cabrito assado com batatas assadas e arroz de forno.
          A festa de São João dá inicio às festas do Verão, daí as fogueiras e todas as "loucuras" da noite deste santo popular.
          SARDINHA COM PÃO
          A sardinha é o prato forte das noites de bailaricos. O peixe é estendido numa fatia de pão, podendo ou não levar um fio de azeite. O gosto pela sardinha é acompanhado por batata cozida e salada de tomate e pimentos. O caldo verde e o arroz doce são obrigatórios.
          MARTELINHOS
          É a imagem de marca da Noite de São João, no Porto. A festa de 23 para 24 de Junho celebra-se na rua. De martelo em riste, a martelada é dada a quem passa. É já tradição o Presidente da República sujeitar-se à martelada do povo.
          Jornal "Correio da Manhã"
          Junho é mês de festa em Portugal. O pulsar da fé pelos Santos Populares é festejado na rua por milhares de portugueses, num ritual com origens pagãs que celebra a chegada dos dias quentes de Verão.
          De Norte a Sul, arraiais, feiras e fogo-de-artifício animam uma tradição que remonta há vinte séculos a.C., no qual "o Homem celebrava o Deus Sol, Deus Pai, aquando do Solstício de Verão", recorda o sociólogo Moisés Espírito Santo.
          Na era da informação, o professor da Universidade Nova de Lisboa entende que os Santos Populares permanecem bem vivos no espírito dos portugueses. O sociólogo lança, no entanto, preocupação quanto ao hábito de acender e saltar a fogueira, gesto sobretudo comum aos jovens. "As fogueiras como locais de enamoramento estão a perder-se", referiu o professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.
          O investigador sublinha a tradição única de Portugal de celebrar o Solstício de Verão, logo a partir do Dia de Santo António, quando no resto da Europa esta só ocorre em torno do Dia de São João. "É uma associação exclusiva ao nosso País", disse.
          "São João é a festa solar por excelência no calendário popular e teve a sua origem na actividade agrícola, quando as populações festejavam o amadurecimento do trigo."
          A festa coincide também com a ocorrência do Solstício do Verão, fenómeno astronómico que este ano ocorre a 21 de Junho pelas três da madrugada e que marca o dia mais longo do ano.
          A festa do Solstício tem o seu ponto alto na noite de São João, "até há 50 anos todas as aldeias a festejavam", precisou Moisés Espírito Santo, com "marchas populares, cantigas, bailaricos e fogueiras".
          O sociólogo defende que a igreja católica "a partir do século IV e V teve uma clara preocupação de cristianizar a festa solar pagã". Um exemplo dessa influência crescente foi a inclusão do Dia de São Pedro, a 29 de Junho, no período em que decorrem as festas do Solstício.
         
          Cidade de Braga (Minho - Portugal) : Muita festa para celebrar o São João.
          PUBLICADA: 23/06/2004
          Embora as celebrações da noite de S. João no Porto sejam as mais conhecidas, há festa noutras cidades e vilas do norte de Portugal e animação é coisa que não falta. É o caso de Braga, onde esta noite bandas filarmónicas, grupos de gaiteiros, bombos, gigantones e cabeçudos desfilam pelas ruas num colorido cortejo até ao grande arraial de São João da Ponte, onde haverá fogo-de-artíficio e muita música. Amanhã, o ponto alto das festividades será o cortejo do Rei David, dos Carros das Ervas e dos Pastores, com um desfile de carros alegóricos e figurantes em trajes medievais ao som de violinos e flautas.
          A animação também será grande em Vila do Conde, onde a partir das 22 horas as marchas luminosas dos ranchos das Rendilheiras do Monte e da Praça começam a percorrer as principais avenidas da cidade. Às duas da madrugada, na marginal à beira do rio Ave, um espectáculo de fogo-de-artíficio e música promete manter o espírito festivo e encorajar os foliões a acabar a noite no Cais das Lavandeiras ou na Alameda dos Descobrimentos, onde não faltarão ritmos variados para dançar.
          São João (Nordeste Brasileiro): - 24 de junho
          Outro santo muito comemorado no mês de junho é São João. Esse santo é o responsável pelo título de "santo festeiro", por isso, no dia 24 de junho, dia do seu nascimento, as festas são recheadas de muita dança, em especial o forró.
          No Nordeste do País, existem muitas festas em homenagem a São João, que também é conhecido como protetor dos casados e enfermos, principalmente no que se refere a dores de cabeça e de garganta.
          Alguns símbolos são conhecidos por remeterem ao nascimento de São João, como a fogueira, o mastro, os fogos, a capelinha, a palha e o manjericão.
          Existe uma lenda que diz que os fogos de artifício soltados no dia 24 são "para acordar São João". A tradição acrescenta que ele adormece no seu dia, pois, se ficasse acordado vendo as fogueiras que são acesas em sua homenagem, não resistiria e desceria à terra.
          As fogueiras dedicadas a esse santo têm forma de uma pirâmide com a base arredondada.
          O levantamento do mastro de São João se dá no anoitecer da véspera do dia 24. O mastro, composto por uma madeira resistente, roliça, uniforme e lisa, carrega uma bandeira que pode ter dois formatos, em triângulo com a imagem dos três santos, São João, Santo Antônio e São Pedro; ou em forma de caixa, com apenas a figura de São João do carneirinho. A bandeira é colocada no topo do mastro.
          O responsável pelo mastro, que é chamado de "capitão" deve, juntamente com o "alferes da bandeira", responsável pela mesma, sair da véspera do dia em direção ao local onde será levantado o mastro.
          Contra a tradição que a bandeira deve ser colocada por uma criança que lembre as feições do santo.
          O levantamento é acompanhado pelos devotos e por um padre que realiza as orações e benze o mastro.
          Uma outra tradição muito comum é a lavagem do santo, que é feita por seu padrinho, pessoa que está pagando por alguma graça alcançada.
          A lavagem geralmente é feita à meia-noite da véspera do dia 24 em um rio, riacho, lagoa ou córrego. O padrinho recebe da madrinha a imagem do santo e lava-o com uma cuia, caneca ou concha. Depois da lavagem , o padrinho entrega a imagem à madrinha que a seca com uma toalha de linho.
          Durante a lavagem é comum lavar os pés, rosto e mãos dos santos com o intuito de proteção, porém, diz a tradição que se alguma pessoa olhar a imagem de São João refletida na água iluminada pelas velas da procissão, não estará vivo para a procissão do ano seguinte.

          Maranhão (Brasil) : - A dança-mãe do espetáculo maranhense
          Com a mesma caracterização histórica que originou o folguedo no Brasil, no Maranhão porém o bumba-meu-boi diferenciou-se das demais formas nacionais, adotando um conteúdo ritualístico próprio, diversificando seus estilos e sotaques; criando novas formas de apresentação, de músicas, de adereços e pautando sua sobrevivência pelo gosto popular, sem, no entanto, desrespeitar a lenda que dá origem ao auto.
          Ao contrário de outros locais em que é apresentado entre o natal e a festa de reis, portanto de dezembro a janeiro, no Maranhão o bumba-meu-boi faz parte do ciclo das festas juninas, dedicadas a Santo Antonio, São João, São Pedro e São Marçal; um tempo que coincide com o verão e com o período da colheita. Isto porque, antes de serem consagradas aos santos populares, estas festas eram pagãs na Roma antiga, ligadas às colheitas, e onde eram cultuados vários deuses e, dentre eles, o Imperador Constantino.
          Só com a conversão do Imperador ao Cristianismo, através do batismo, é que o Papa Gregório I (590-604) transforma o calendário romano em calendário cristão, ligando a cada dia um santo. Como, presumivelmente, São João nasceu no solstício de verão, ele ficou com o dia 24 de junho. Não é à toa que alguns autores assemelham a origem do boi às festas do solstício de verão da Roma Antiga, ligadas às colheitas e realizadas entre os dias 24 e 25 de junho do calendário romano, mais tarde transformado no calendário cristão como festa de São João Batista - não por acaso, o protetor do boi.
          É no alargamento das fronteiras sociais e dos limites culturais que se dá o reavivamento dos contatos coletivos, que se dá o contexto da festa, e dentre estas, as festas de santos que são realizadas como pagamento de promessas feitas para pedir uma boa colheita, para curar uma doença, para conseguir dinheiro, para o filho passar de ano na escola, para a filha arranjar um marido. É um tempo sagrado, que transpassado para o bumba-meu-boi, funciona como o tempo de preparação.
          Esse tempo sagrado também inicia o ciclo ritualístico com os ensaios que vão do sábado de aleluia até o sábado próximo, ou que coincide com o dia de Santo Antonio; prossegue com o batismo a 23 de junho, véspera do dia de São João - inicio do período junino da temporada de apresentações, cujo ápice são as vésperas do dia de São Pedro e de São Marçal, respectivamente 29 e 30 de junho, e depois continuam até setembro ou outubro, quando acontece a matança do folguedo.
          Tal como ocorre ainda hoje em Portugal, e principalmente na região Norte deste pais, o período junino maranhense é o tempo das fogueiras, dos balões, das bandeirinhas, dos ariris, dos arraiais, das brincadeiras de roda, dos fogos de artifícios, das simpatias casamenteiras, dos bailes a céu aberto, das comidas e bebidas típicas, dos namoros à meia luz, dos arranjos e casamentos, dos santos populares, das estórias e narrativas, lendas e mitos, das noites de lua cheia, das estrelas cadentes...
          Por exemplo, no lugar Parceiros de São João, região do Ribatejo, em Torres Novas, alguns costumes permanecem, como a queima de alcachofra pelas moças para encontrar namorado/marido: "alcachofra florida / florida te apanhei / Se o meu amor me quiser bem / amanhã de manhã florida te acharei". Os rapazes confeccionam uma coroa de cravos, escrevem uma mensagem e colocam à porta da moça com quem querem namorar. Outro costume é uso da água para beber, tomar banho ou lavar a casa, nessa época, numa alusão ao batismo de São João. Mais do que isso? Só no São João do Porto onde não faltam a sardinha e o pimentão assados, o alho porro, o martelo, o caldo verde, o vinho de garrafão, os manjericões, os fogos de artifício, o chouriço, o cabrito e o café cimbalino.
          No Maranhão, mais precisamente em São Luís, as ruas enchem-se de luzes e cores, de alegria, de danças, de noites que se confundem com os dias, de sons exuberantes, exóticos e sensuais, de arraiais que proliferam a cada esquina, denunciando a presença de bailes, forró, reggae, concursos, bingos, jogos da sorte, leilões, shows e das adivinhações para todos os gostos.
          É assim que, ao lado de danças como Quadrilha, Tambor de Mina, Tambor de Crioula, Portuguesa, Espanhola, Do Vaqueiro, Coco, Cacuriá, Bambaê de Caixa, São Gonçalo e Da Fita, o bumba-meu-boi aparece como uma dança à parte, como a dança-mãe de todos os bailados, o núcleo gerador da identidade maranhense; o espetáculo mais representativo do período junino, o único que não pode faltar nos arraiais, clubes, associações, residências ou na rua, onde a festa acontece. É o que inicia e é o que termina a programação de cada local, levantando poeira, movimentando os mutucas¹ turistas e nativos, o que anima e chama o povo.
          É a figura do boi, sua imagem e identidade, que serve de base para propagandas e publicidades turísticas e governamentais; como motivo de inspiração de músicas populares, de reggae, forró, samba, merengue e baião; para slogans de campanhas públicas; para programas eleitorais; para vender artesanato, como decoração de terreiros e arraiais; para divulgação da imagem do Maranhão; para organização de shows, exposições e atos beneficentes; para programas e páginas especiais de jornais, rádios e TV's durante todo o ano.
          A identificação do bumba-meu-boi como a dança-mãe é um fenômeno recente, depois que os rebanhos² puderam sair dos seus terreiros³ para brincar e se apresentar em toda a ilha, nos anos 70. Alguns fatores contribuem para a sua popularização: a ida do Boi de Pindaré ao Rio de Janeiro, levado pelo governo para apresentações públicas e gravação do seu primeiro disco; a gravação da música Boi da Lua, de César Teixeira, no disco Bandeira de Aço; a criação do programa Raízes pelo radialista José Raimundo Rodrigues; as apresentações fora de época para turistas, dos grupos de Apolônio Melônio e Madre Deus; a expansão dos grupos de orquestra; a organização em associações culturais e em federações folclóricas, definem um novo papel para o folguedo.
          Há, dessa forma, um processo de identificação coletiva que se solidifica nos finais dos anos 70 e início da década de 80, quando ocorre a inclusão de mulheres na brincadeira e quando passa a ser interessante dançar o bumba-meu-boi porque isso dá status. Já na década de 60 as mulheres participam do bumba-meu-boi em papéis secundários como mutucas ou, em raros casos, como caboclas rajadas, mas nunca no cordão, porque isso é coisa de homem.
          Elas acompanham os namorados, amantes, maridos, irmãos, amigos, filhos e netos na organização do grupo, confecção das roupas e adereços, guarda de chapéus, bebidas e instrumentos ou como torcedoras, indispensáveis para o sucesso do folguedo. No final da década de 70 e inicio de 80, passam a disputar o mesmo espaço dos homens e a assumir responsabilidades na produção do folguedo como diretoras das sociedades folclóricas, mas também como brincantes de cordão, vaqueiras e amas.
          É o tempo em que aparecem as variações modernas para competir de igual para igual com os grupos mais antigos, aumentando a popularidade e a empatia social pelo folguedo. A empatia, no entanto, não é gratuita. Ela é resultado da diversidade dos estilos e gostos estéticos que caracterizam o espetáculo de cada grupo que, apesar das semelhanças gerais, mantém diferenças sutis que os tornam único, às vezes pela riqueza das roupas, às vezes pelo ritmo mais ou menos acelerado, ou ainda às vezes pelo tipo de adereço utilizado.
          Dessa forma, é possível afirmar que não existe um único grupo igual a outro, de um total de mais de cem em atuação no Maranhão. O que significa; ao mesmo tempo, dizer que o bumba-meu-boi é capaz de atender ao gosto mais exigente, de alegrar a mais insossa das festas; de satisfazer a mais ferrenha das críticas.
          É importante observar que as regras básicas do bumba-meu-boi continuam sendo obedecidas, mas cada novo grupo marca sua presença por inclusões ou exclusões estéticas, por inovações de guarda-roupa, por intensificação ou moderação dos sons, por criação de outros personagens ou inclusão de novos instrumentos ou ainda por modificações de linguagem. É a marca que define um grupo de outro grupo, dentro de um contexto maior que os identifica pelo gênero.
          1- Mutuca: pequeno inseto também chamado de picopil, tuiuba e ziquizira, que ferroa o gado para se alimentar e descansar. No bumba-meu-boi são os participantes que acompanham o grupo, ajundando na distribuição de comida, bebidas e remédios, e na guarda de roupas e adereços dos brincantes. Forma uma espécie de fã-clube do grupo e é composto pelas namoradas, mães, pais, primos, sobrinhos, amigos, netos, maridos e esposas dos brincantes, podendo tornar-se brincantes substitutos ou eventuais quando um brincante não pode dançar.
          2- O Rebanho é outro nome dado aos grupos sobretudo dos sotaques de matraca e da ilha. Não por acaso, o termo significa o coletivo de gado. Foi usado por Nietzsche ao analisar as confrarias religiosas cristãs, cujo objetivo principal é a assistência mútua, o sentimento comunitário que ele chamou de formação de rebanho: os fortes aspiram a se separar, os fracos a se unir.
          3- Terreiro é o local de produção e apresentação do folguedo. Historicamente é também o local sagrado, o território de preservação das regras simbólicas, onde se estabelece o continuum cultural dos cultos, dos rituais. No Maranhão, Os povoados da Maioba, Maracanã, Iguaíba, Ribamar, Tijupá e os bairros do Caratatiua, João Paulo, Madre Deus, Floresta, Vila Passos, Fé em Deus e Liberdade são conhecidos como terreiros tradicionais. Até a década de 70 eram lugares distantes, isolados e periféricos, sem muito contato com o centro da cidade.
          (Francisca Ester de Sá Marques. - São Luís: Imprensa Universitária, 1999).

          Quem foi São João
          São João Baptista nasceu em Junho, precisamente no dia 24 de Junho. Em um cenário tão controverso, surge um homem simples, amigo do deserto, e com uma importantíssima missão: preparar o caminho para a chegada do Messias.
          Diz a história bíblica, que na antiga Judéia, as primas Isabel e Maria, mãe de Jesus, estavam grávidas. Como moravam distantes, elas combinaram, que a primeira a ganhar bebê anunciaria a novidade, acendendo uma fogueira em frente à própria casa. Santa Isabel cumpriu a promessa quando do nascimento de seu filho, João Baptista. Até hoje as fogueiras são acesas na tarde de 24 de junho, acompanhadas de foguetórios, jogos, prendas, e bailes. É a fogueira mais tradicional. Tem a base redonda, como se fosse uma pirâmide.
          João era filho de Zacarias e Isabel, e primo de Jesus Cristo. É considerado o último dos profetas, e o primeiro apóstolo. Os evangelhos dizem que, ainda no ventre de sua mãe, João percebe a presença do Messias, "estremecendo de alegria" na presença de Maria, quando esta ia visitar a prima Isabel. O evangelho de São Mateus fala das pregações e dos baptismos que realizava às margens do rio Jordão, não distante de Jericó. Foi João Baptista quem baptizou o próprio Cristo.
          Crítico da hipocrisia e da imoralidade, São João Baptista foi decapitado por capricho de Salomé, enteada de Herodes. João Baptista, juntamente com os profetas Elias e Eliseu, é considerado o protótipo do ideal ascético, e modelo de vida perfeita.
          Na tradição cristã existe um personagem que se relaciona particularmente com o fogo, e com o simbolismo do cordeiro – Ram ou Rama – que é São João Baptista. Devemos notar, que é com signo do carneiro, que se dá início ao ano astrológico, justamente no equinócio da primavera, ponto anual no qual o Sol Espiritual "nascido" na noite de 24 de dezembro e está apto, durante seis, a dispensar a sua acção benéfica em termos tangíveis, palpáveis (sementeiras e colheitas, alegria, calor, etc.) sobre os homens e suas obras.
          Podemos talvez dizer que é ele mesmo, João Baptista – e não Jesus – o próprio Agnus Dei (o Cordeiro de Deus), portador e síntese da tradição judaica mais pura, que ardia entre os Essênios, antes do novo impulso que seria à civilização, pelo Avatara de Jeoshua Bem Pandira, designado o Cristo.
          Sacrificado por degolação, o valor simbólico e filosófico de João Baptista é muito importante, e ultrapassa completamente o dogma católico: João baptizava os seus adeptos com água (ou seja, utilizando um símbolo material), mas afirmava, que o que viria depois dele "baptizaria com fogo", diríamos, envolvendo os discípulos com uma poderosa aura, ou impacto relativo ao Mundo das Causas, o Alaska, etc., etc., ou Espírito Santo.
          Na comunidade religiosa da igreja católica os missionários de São João Baptista, ou seja, seus membros (sacerdotes ou leigos) consagram a sua vida a Cristo, através dos votos de castidade, obediência, e pobreza. Numa atitude de acolhimento e de disponibilidade como Maria, alicerçados no Cristo da Eucaristia, os missionários de São João Baptista devem tornar-se para os homens de hoje, sinais do Reino, e anunciar os caminhos do senhor a exemplo do seu padroeiro.
          Deste modo, o simbolismo de "Yohanan" (João em hebarico) ganha, com os séculos, uma poderosa força, que é cultivada por várias correntes gnósticas até chegar à idade média, na qual hospitalários, e templários, desde a sua origem, invocam João Baptista para seu patrono. E os mestres construtores da época, igualmente, de modo que ainda hoje os maçons, identificam, as suas lojas como "de São João".
          São João, o fogo e o solstício de verão, no hemisfério norte, estão, então, indissoluvelmente ligados com uma acção, um trabalho essencialmente transformador, no qual o "Fogo Sagrado" agirá, quer como agente hermético-alquímico, quer como condição necessária para o trabalho com os metais – vejam-se os vários mitos maçónicos relativos ao Mestre Hiram,e à construção do Templo de Jerusalém – quer como inteligência criadora, criativa, genial, avessa a qualquer Avatara, porque compartilha desse "mesmo Fogo Divino", aquele que não reconhece poder na Terra superior a Deus...
          João Baptista é o único santo, além de Virgem Maria, de quem a liturgia celebra o nascimento para o Céu, celebrando o nascimento segundo a carne.
          A liturgia festeja no nascimento de São João Baptista, a "Aurora da Salvação", o aparecimento neste mundo do Precursor do Messias. O nascimento do Precursor, seis meses antes do nascimento de Jesus, participa da grandeza do mistério da encarnação, que ele anuncia. Isso se deve, certamente, à missão única que, na história da salvação, foi confiada a esse homem, santificado, no seio da sua mãe, pela presença do Salvador, que dirá mais tarde: "Que fostes ver no deserto""... Um profeta? Sim, Eu vos digo, é mais do que um profeta. Esta é aquele de quem foi dito: "Eis que envio a tua frente o meu anjo, mau que preparará Teu caminho diante de Ti", pois "Eu vos digo, que entre os nascidos de mulheres não há ninguém maior do que João". Mas, o que é menor no Reino de Deus é maior do que ele". (Lc7, 24 a 28).
          Foi, pois, o maior entre os profetas, porque pôde apontar o "Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo" (Jô 1, 29-36). Sua vocação profética desde o ventre materno, reveste-se de acontecimentos extraordinários, repleto s de júbilo messiânico, que preparam o nascimento de Jesus. (cf Lc 1, 14-58).
          Profeta do Altíssimo, João Baptista é prefigurado por Jeremias: - "antes de te formar no ventre materno, Eu te escolhi; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei, e te constituí profeta entre a s nações" (Jer 1, 4 – 10).
          São João Baptista foi consagrado desde o seio materno, para anunciar o Salvador, e preparar as almas para a sua vida.
          Anel de ligação entre a antiga e nova aliança, João foi acima de tudo o enviado de Deus, uma testemunha fiel da luz, aquele que anunciou Cristo, e O apresentou ao mundo. O Baptismo de penitência, que acompanha o anúncio dos últimos tempos, é figura do baptismo, segundo o Espírito (Mt 3, 11). Profeta por excelência, a ponto de não ser uma senão uma "voz" de Deus que clama, ele é o precursor imediato de Cristo: "vai à Sua frente, apontando, com sua palavra e com o bom exemplo de sua vida, as condições necessárias para receber a salvação".
          A solenidade do Precursor é um convite para que reconheçamos a Cristo, Sol que nos vem visitar na Eucaristia.
          Filho dos personagens bíblicos Isabel e Zacarias, João Baptista foi quem baptizou Jesus Cristo com a s águas do rio Jordão, rio que hoje é a fronteira natural entre Israel e Jordânia, e entre este País e a Cisjordânia.
          Diz o capítulo 1 do Evangelho de São Lucas, que a Mãe de João Baptista era Prima da Mãe de Jesus, Maria, o que tornava João, primo em segundo grau de Cristo.
          João Baptista é descrito na Bíblia como pessoa solitária, que vivia no deserto, e comia gafanhotos e mel. O caminho desse homem estranho, e recluso, mas profeta de grande popularidade, cruzou com a da família real na época, a do rei Herodes Antipas, da Galiléia.
          João condenou publicamente o fato do rei ser amante da própria cunhada, Herodíades. Salomé, filha de Herodíades, dançou tão bonito diante de Herodes, que este lhe prometeu o presente que quisesse. A mãe de Salomé aproveitou a oportunidade para se vingar: anunciou que o presente seria a cabeça de João Baptista sobre uma badeja.
          A imagem de São João Baptista é geralmente apresentada como um menino com um carneirinho no colo. É que foi ele, segundo a Bíblia, que anunciou a chegada do cordeiro de Deus. Apesar de descrito como um homem solidário, o povo se encarregou de criar o mito de que São João Baptista adora uma festa barulhenta. No entanto, ele costumava dormir, justo na noite de sua festa, 24 de junho.
          Se o estrondo dos fogos de artifício for alto, e for forte o clarão das fogueiras, o Santo acorda, e festeiro que é, desce à Terra para comemorar. Mas nesse caso, diz a tradição, existe o sério risco do mundo acabar pelo fogo.
          Que fim levou a fogueira?
          Foi engolida pelo progresso. Com o crescimento das cidades, as comemorações de São João migraram para as escolas, ou parques públicos. No interior, as festas de rua continuam mobilizando as comunidades, que preservam danças, costumes, e comidas milenares da tradição cristã.
          Uma tradição que nasceu antes de Cristo. Queimar fogueiras, naquela época, significava, saudar a chegada do verão, e apenas no século VI, o catolicismo associou as comemorações pagãs ao aniversário de São João Baptista.
          Os portugueses no século XIII incluíram São Pedro, e Santo António, e no Brasil, a data é celebrada desde 1583. De lá para cá, porém, as fogueiras juninas rarearam tanto, que é preciso descobrir onde elas vão queimar nas noites de 24 de junho.
          Cada estado brasileiro brinda o nascimento do Santo católico a seu modo. Existe uma grande confusão com o culto ao caipira. No Rio Grande do Sul as festas geralmente preservam os trajes típicos do estado, em oposição ao tradicional chapéu de palha, e roupa emendada do folclore paulista. No nordeste, a música é o forró.
          As grandes cidades acabaram engolindo os festejos de São João, que cada vez mais ocorrem em recintos fechados, pois não é seguro se fazer festa na rua, por falta de segurança, e problemas de transito.
          A cidade grande retira um pouco da referência de comunidade. Isto vale para qualquer festa popular aberta. A realidade no interior, porém é outra, onde a receptividade é mais forte e mantém viva, esta tradição.

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro - Marinha Grande - Portugal
                                                                                                                                   

 

EFEMÉRIDES - índice