
A
Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul

A partida do hidroavião
perto da Torre de Belém (Lisboa), de onde também partiu Pedro Álvares Cabral
17 de Julho de 1922 |

Para comemorarem o Centenário da Independência do Brasil, entre os dias 30 de Março e
17 de Junho de 1922, os portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral realizaram a travessia
do Oceano Atlântico a bordo de um hidroavião Fairey IIID. Carlos Viegas Gago Coutinho
nasceu em Lisboa, no Bairro da Madragoa, no dia 17 de Novembro de 1869. Frequentou a
Escola Politécnica e a Escola Naval, cujo curso concluiu e 1888. Como comandante do barco
"Pátria", tomou parte activa na campanha de Timor, em 1912. A partir de
1898 notabiliza-se pelos levantamentos geográficos e delimitações de fronteiras dos
territórios ultramarinos. No decurso destes trabalhos, Gago Coutinho fez a travessia da
África.

Gago Coutinho e Sacadura Cabral
Associando-se a Sacadura Cabral realizou em 1921 a travessia aérea Lisboa-Funchal e, em
1922, a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, durante a qual se fez navegação
aérea com grande rigor, utilizando o sextante de sua invenção. Gago Coutinho
desempenhou ainda um grande número de missões e comissões de serviço, e nos últimos
anos da sua vida dedicou-se ao estudo da história dos Descobrimentos e das navegações
portuguesas, escrevendo vários trabalhos compilados na Náutica dos Descobrimentos.
Dedicou-se ao estudo da navegação
aérea, juntamente com o capitão-tenente Sacadura Cabral, seu amigo e aviador da Marinha
de Guerra. Efectuou, com ele, no hidroavião Lusitânia, a travessia aérea do Atlântico
Sul, de Lisboa ao Rio de Janeiro, a primeira realizada entre a Europa e a América do Sul,
tendo chegado ao Rio em 17 de Julho de 1922. Na sua viagem os aviadores serviram-se de
tábuas de navegação, adaptadas para esse fim e de um sextante inventado por Gago
Coutinho, instrumento ainda hoje considerado mundialmente indispensável na navegação.
Após esta travessia foi promovido a contra-almirante e recebeu muitas condecorações,
entre elas a Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, lealdade e Mérito, e
o mesmo grau da Ordem Militar de Santiago da Espada. A França concedeu-lhe a Legião de
Honra, tendo sido, também, condecorado pelo Brasil e pela Espanha.
No dia 30 de Março de 1922, partiu
de Belém, Gago Coutinho e Sacadura Cabral, tripulando um pequeno hidroavião Farey
baptizado com o nome de "Lusitânia". No dia 31 aportavam às Canárias de onde
saíram em 5 de Abril rumo a Cabo Verde, chegando a S. Vicente nesse mesmo dia. Em 17
fizeram o percurso até à Cidade da Praia, partindo no dia seguinte para o maior voo sem
escala. Ao chegarem aos penedos de S. Pedro e S. Paulo onde se deveriam reabastecer de
gasolina, o mar levou-lhes um dos flutuadores, pelo que tiveram de interromper a viagem,
até que o paquete brasileiro "Bagé" lhes trouxe novo Farey 16 enviado de
Lisboa. Pouco depois, quando tinham largado com destino a Fernando Noronha, o Farey 16
caiu no mar por avaria no motor, andando à deriva sem esperanças de salvamento, por
estarem fora das linhas normais de navegação! Passados oito longos dias, foram
recolhidos pelo vapor carvoeiro inglês "Paris City" que os desembarcou em
Fernando Noronha, onde aguardaram a chegada de novo aparelho. O Farey 17 foi-lhes levado
pelo cruzador Carvalho Araújo (*) , e a viagem dos dois aviadores continuou, chegando ao
Recife a 5 de Junho, e ao Rio de Janeiro a 17 do mesmo mês, terminando assim a histórica
"Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul" que muito glorificou a aviação
portuguesa.

Mapa da Travessia
Preparado o hidroavião em Fernando de Noronha, a partida se deu no dia cinco (5) de
junho, avistando-se a terra continental do Brasil às onze horas e quarenta minutos
(11h40min). Ultrapassados o Rio Mamanguape, a Paraíba, o Cabo Branco, às treze horas e
dois minutos (13h02) Olinda foi sobrevoada em meio ao "estalejar de numerosos
foguetes" e dezoito (18) minutos após Sacadura Cabral e Gago Coutinho executavam o
pouso no porto artificial do Recife. Estava concluída a primeira travessia aérea do
Atlântico Sul. Narrando as comemorações havidas e as grandes manifestações de alegre
recepção em cada cidade cujos ares o aparelho cortava, o relato contém os informes das
etapas seguintes do Recife a Salvador, desta a Porto Seguro, de lá a Vitória e daí ao
Rio de Janeiro, tendo sido tocadas as águas da Baía da Guanabara às catorze horas e
trinta e dois minutos (14h32min) de dezassete (17) de Julho de 1922.
A preparação para a 1ª Travessia
Aérea do Atlântico Sul é da iniciativa de Sacadura Cabral, que expôs o projecto a Gago
Coutinho, o que motivou que este acelerasse a adaptação do sextante clássico de
navegação marítima à navegação aérea. A travessia iniciou-se em 30 de Março de
1922, em Belém no hidroavião "Lusitânia". A primeira escala foi nas
Canárias, de onde partiram para S. Vicente, em Cabo Verde. Daqui partiram para o Penedo
de S. Pedro, com problemas de consumo de combustível. Ao amarar uma vaga arrancou um dos
flutuadores do "Lusitânia", o que provocou o afundamento do avião. Tendo sido
recolhidos pelo navio "República". O "Lusitânia" acabara de realizar
uma etapa de mais de onze horas sobre o oceano, sem navios de apoio, mantendo uma rota
matematicamente rigorosa, o que mais uma vez veio provar a precisão do sextante
modificado, pois os Penedos de S. Pedro podem considerar-se um ponto insignificante na
enorme vastidão atlântica. O governo enviou um outro hidroavião Fairey 16, cujo motor
veio a avariar no percurso entre o Penedo de S. Pedro e a ilha de Fernando de Noronha. Foi
pedido novo Fairey ao governo português, que foi enviado no " Carvalho Araújo
". Três dias depois partiram para o troço final, chegando à Baía de Guanabara e
terminando a viagem no Rio de Janeiro a 17 de Junho, depois várias escalas.
(*) : - Carvalho Araújo, nome de
um ilustre e valente oficial da Marinha de Guerra Portuguesa: -
" No dia 13 de Outubro largou
da Madeira com destino aos Açores o vapor São Miguel, transportando carga e duzentos e
seis passageiros, escoltado pelo patrulha Augusto de Castilho comandado pelo
primeiro-tenente Carvalho Araújo. O patrulha era um antigo arrastão transformado em
navio de guerra pela adição de duas pequenas peças, uma de 65 mm à proa e outra de 47
mm à popa. Parte da sua guarnição era constituída por pessoal da Armada e outra parte
pelos seus antigos tripulantes. Nesta viagem, levava ainda seis passageiros: dois
aspirantes em férias e quatro operários da Madeira. Ao amanhecer do dia 14 de Outubro de
1918 encontravam-se os dois navios a cerca de duzentas milhas de Ponta Delgada quando,
subitamente, começaram a ver cair à sua volta granadas de grosso calibre que levantavam
enormes gerbes. Só então se aperceberam de que estavam a ser atacados a tiro de canhão
por um submarino navegando à superfície. Aos gritos de «submarino!», «submarino!», o
vapor aumentou a sua velocidade para catorze nós, que era a sua velocidade máxima,
enquanto o patrulha passava a postos e combate, aumentava também a velocidade para dez
nós, que para mais não davam as suas máquinas, começando a disparar a peça de ré
contra o submarino e a lançar uma cortina de fumo para se encobrir a si e ao São Miguel.
O submarino era o U-139, um poderoso cruzador submarino alemão, armado com dois enormes
canhões de 150 mm. O seu comandante era o capitão-tenente Von Arnaul de La Periére.
Iniciou-se então um insólito duelo de artilharia entre a minúscula peça de ré do
patrulha e os dois monstros do submarino que, para poder usar ambos, era obrigado a guinar
ora para um bordo ora para o outro o que fazia aumentar a distância. O certo é que,
graças à cortina de fumo lançada pelo patrulha e à pequena dimensão do alvo, os
artilheiros alemães não conseguiam acertar com nenhum tiro. Mas as caixas de fumo
acabaram-se, a visibilidade melhorou, o submarino aproximou-se e as granadas alemãs
começaram novamente a cair muito perto dos dois navios portugueses. Receando que o São
Miguel fosse atingido, Carvalho Araújo inverteu o rumo e avançou direito ao submarino.
Von Arnaul sabia que a guerra estava a acabar, que a derrota da Alemanha era inevitável,
tinha partido um periscópio num ataque anterior e não estava disposto a correr mais
riscos. Por isso guinou também para sul, de forma a poder continuar a usar as suas duas
peças e conservar-se fora do alcance das peças do patrulha. Mas com esta manobra
permitiu que o vapor lhe ganhasse grande avanço. Entretanto o Augusto de Castilho
começava a ser atingido por estilhaços de granadas e a ter os primeiros mortos e
feridos. Cerca de uma hora depois de ter começado o combate, Carvalho Araújo, vendo que
o São Miguel já estava muito afastado, inverteu novamente o rumo e tomou o caminho do
vapor perseguido pelo submarino que continuava a bombardeá-lo intensamente. É certo que
nenhuma das granadas alemãs até então lhe tinha acertado em cheio, mas as que caiam
mais perto produziam uma chuva de estilhaços que continuavam a fazer vítimas. Pelas oito
da manhã acabaram-se as munições da peça de ré do patrulha. Mais uma vez Carvalho
Araújo inverteu o rumo e aproou ao submarino unicamente com a intenção de gastar todas
as munições da peça de vante antes de se render. Quando estas se esgotaram mandou parar
as máquinas e colocar a bandeira a meia adriça. Mas o fogo do submarino continuava.
Mandou então içar uma bandeira branca juntamente com a bandeira nacional. Mas nem por
isso o fogo do submarino abrandou. Nessa altura uma granada acertou em cheio no patrulha e
uma onda de estilhaços varreu o navio. O comandante caiu morto e o imediato,
guarda-marinha Armando Ferraz, sofreu ferimentos ligeiros pela segunda vez. Foi então que
ocorreu um acidente grave a bordo do submarino. Uma das suas granadas explodiu
prematuramente ao sair da boca da peça provocando avarias no seu casco exterior e em
alguns tanques de combustível. É óbvio que Von Arnaul se tinha apercebido de que o
Augusto de Castilho se rendera mas continuara a fazer fogo na intenção de o afundar
antes de se lançar na perseguição do São Miguel. Vendo-se agora obrigado a reparar as
avarias produzidas pela sua própria peça, deu finalmente a ordem de cessar-fogo, pondo
termo ao combate. Ao ser içado o sinal de rendição, a guarnição do patrulha
apressara-se a pôr as embarcações na água e a abandonar o navio. Mas uma das baleeiras
estava muito danificada e foi ao fundo. A outra com vinte e nove homens a bordo, muitos
deles feridos, seguiu à vela, sob o comando do aspirante Samuel Vieira, para a ilha de
Santa Maria onde chegou dois dias depois, tendo-lhe morrido um dos feridos durante a
viagem. Os restantes doze homens, que tinham sido os últimos a deixar o navio,
conseguiram, com um sobretudo dobrado, remendar o bote no qual, sob o comando do
guarda-marinha Armando Ferraz, alcançaram a ilha de São Miguel após uma portentosa
viagem de cerca de duzentas milhas a remos, sem comida e praticamente sem água. O Augusto
de Castilho acabou por ser afundado com cargas explosivas colocadas a bordo".

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite
Ribeiro - Marinha Grande - Portugal
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