Batalha de Aljubarrota
  

15 de Agosto de 1385

    Com a subida ao trono do Mestre de Avis, D. João, produziu-se nova quebra na continuidade dinástica, já que não era filho legítimo de D. Pedro I; assim sendo, para se distinguir adicionou às armas nacionais a flor-de-lis verde que constituía o símbolo da Ordem de Avis, com cada uma das pontas representada ao centro de cada um dos lados da bordadura dos castelos; tal facto ditava também a integração do mestrado da dita ordem na Coroa Portuguesa. É a primeira bandeira cuja historicidade está comprovada; todas as anteriores são reconstruções.

          Aljubarrota, talvez a mais importante batalha entre os exércitos português e o castelhano, foi travada no dia 14 de Agosto de 1385, no chamado planalto cumeira de Aljubarrota, que fica a cerca de 10 Km da localidade do mesmo nome. O exército português era comandado por D. João 1º de Portugal e o espanhol por João 1º de Castela (na altura, Espanha era formada por vários condados). Esta batalha marcou o fim de diversas tentativas feitas pelo rei de Castela para dominar Portugal, após a morte de D. Fernando 1º.
          As tropas invasoras tentaram manobrar de forma a evitar o confronto com as tropas portuguesas, o que não conseguiram, acabando por ter de bater-se. O local havia sido escolhido pelos portugueses devido à sua situação, que oferecia vantajosas condições defensivas, condições essas ainda aumentadas por outras defesas feitas pelos portugueses, como fossos e paliçadas.
          Tudo isso contribuiu para que o exército inimigo, muito superior em número, fosse completamente derrotado, no espaço de algumas horas.
          As invasões espanholas, começaram na Batalha de Trancoso, quando um troço de castelhanos invadiu Portugal e, tendo passado por Almeida e Pinhel, chegou até Viseu. Uma hoste disciplinada de portugueses, comandada por Martim Vasques da Cunha e Gonçalo Coutinho, partiu ao encontro do inimigo que foi completamente derrotado nas proximidades de Trancoso.
          Então, deu-se a Batalha de Aljubarrota, pois o rei de Castela, a quem a sorte de armas tinha corrido desfavorável, resolveu invadir novamente Portugal, com um poderoso exército, formado por cerca de 32 mil homens. Entrando pela Beira, foi conquistado algumas terras por onde passou, seguindo sempre na direcção de Leiria.
          Às dez horas da manhã do dia 14 de Agosto de 1385, encontraram-se frente a frente, os exércitos português e castelhano, formando em linha de batalha. O exército português era formado na vanguarda por 1.700 lanças, 800 besteiros e 4.000 infantes sob o comando do Condestável Nuno Alvares Pereira, e na retaguarda por 700 lanças e 300 besteiros sob o comando de D. João I. O exército castelhano era formado por 5.000 lanças francesas e doutras nações, 2.000 ginetes, 8.000 besteiros e 15.000 infantes com apoio de artilharia, sob o comando do Rei de Castela. Depois de três quartos de hora de renhido combate, onde de parte a parte se feriram sem dó, a vitória declarou-se a favor dos portugueses, tendo o Rei de Castela fugido. Ficou esta grande batalha, memorável pelo grande feito das forças portuguesas em desvantagem de homens e armamento. Em comemoração da Batalha de Aljubarrota, edificou D. João I o Convento de Santa Maria da Vitória na Batalha, e D. Nuno Alvares Pereira o Convento do Carmo em Lisboa.  
          D. João 1º e D. Nuno Álvares Pereira, reunindo as suas melhores tropas, num total de um pouco mais de 6 mil homens, onde se encontra a famosa Ala dos Namorados, formada por estudantes da Universidade de Coimbra, comandados Rui de Vasconcelos e Mem Martins, resolveram impedir o avanço dos Castelhanos, para o que tomaram posições de combate nos campos de Aljubarrota. Os dois exércitos encontraram-se no dia 14 de Agosto de 1385. Em face da grande diferença de número entre os combatentes, o Condestável do Reino, D. Nuno Álvares Pereira anima a sua gente com palavras de conforto e patriotismo, repassadas de fé em Deus e na Virgem. Trava-se depois uma grande Batalha, que terminou pela derrota completa dos invasores. O rei de Castela, abandonando o campo mesmo antes de a luta terminar, fugiu a toda a pressa para Santarém e dali para Lisboa, onde embarcou para Sevilha (Andaluzia – Sul de Espanha).
          Após a Batalha de Aljubarrota, D. Nuno Álvares Pereira, passou à ofensiva. Saindo de Extremoz com um reduzido exército, invadiu o reino de Castela pela fronteira de Badajoz e derrotou mais uma vez os castelhanos, em Outubro de 1385, na Batalha de Valverde.
          Apesar de estar absolutamente garantida a independência do Reino de Portugal com as continuas derrotas infligidas aos castelhanos, as hostilidades continuaram ainda durante alguns anos. O rei de Castela, porém, sentindo-se cada vez mais enfraquecido, propôs a paz, que só veio a assinar-se em 1411. Assim, terminou a Guerra da Independência, que durara 27 anos.
          Durante este período, a forma de governo foi monarquia hereditária, sob o regime absoluto. As três classes ainda se mantiveram, ou seja: clero, nobreza e povo. Embora a Santa Fé, como Beneplácito régio, tivesse perdido parte da sua da sua preponderância, o clero continuou a gozar de muita consideração e influência. A nobreza perdeu grande parte do seu prestígio e poderios antigos. O povo, desde de D. João 1º até D. João 2º, cresceu na estima e importância, tendo defendido em cortes, muitas vezes convocadas, os seus direitos.
         
          No fim do século XIV, a Europa encontrava-se a braços com uma época de crise e revolução. A Guerra dos Cem Anos devastava a França, epidemias de peste negra levavam vidas em todo o continente, a instabilidade política dominava e Portugal não era excepção.
          Em 1383, el-rei D. Fernando 1º morreu sem um filho varão que herdasse a coroa. A sua única filha era a infanta D. Beatriz, casada com o rei D. João de Castela. A burguesia mostrava-se insatisfeita com a regência da Rainha D. Leonor Teles e do seu favorito, o conde Andeiro e com a ordem da sucessão, uma vez que isso significaria anexação de Portugal por Castela. As gentes alvoroçaram-se em Lisboa, o conde Andeiro foi morto e o povo pediu ao mestre de Avis, filho natural de D. Pedro 1º de Portugal, que ficasse por regedor e defensor do Reino.
          O período de interregno que se seguiu ficou conhecido como crise de 1383-1385. Finalmente a 6 de Abril de 1385, D. João, mestre da Ordem de Avis, é aclamado rei pelas cortes reunidas em Coimbra, mas o rei de Castela não desistiu do direito à coroa de Portugal, que entendia advir-lhe do casamento. Em Junho invade Portugal à frente da totalidade do seu exército e auxiliado por um contingente de cavalaria francesa.
          Quando as notícias da invasão chegaram, João 1º encontrava-se em Tomar na companhia de D. Nuno Álvares Pereira, o Condestável do reino, e do seu exército. A decisão tomada depois de alguma hesitação foi a de enfrentar os castelhanos antes que pudessem levantar novo cerco a Lisboa. Com os aliados ingleses, o exército português intersectou os invasores perto de Leiria. Dada a lentidão com que os castelhanos avançavam, D. Nuno Álvares Pereira teve tempo para escolher o terreno favorável para a batalha, assistido pelos experientes ingleses. A opção recaiu sobre uma pequena colina de topo plano rodeada por ribeiros, perto de Aljubarrota. Pelas dez horas da manhã do dia 14 de Agosto, o exército tomou a sua posição na vertente norte desta colina, de frente para a estrada por onde os castelhanos eram esperados. Seguindo o mesmo plano de outras batalhas do século XIV (Crécy e Poitiers são bons exemplos), as disposições portuguesas foram as seguintes: cavalaria desmontada e infantaria no centro da linha, rodeadas pelos flancos de archeiros ingleses, protegidos por obstáculos naturais (neste caso ribeiros). Na retaguarda, aguardavam os reforços comandados por D. João 1º de Portugal em pessoa. Desta posição altamente defensiva, os portugueses observaram a chegada do exército castelhano protegidos pela vertente da colina.
          A vanguarda do exército de Castela chegou ao teatro da batalha pela hora do almoço, sob o Sol escaldante de Agosto. Ao ver a posição defensiva ocupada por aquilo que considerava os rebeldes, o rei de Castela tomou a acertada decisão de evitar o combate nestes termos. Lentamente, devido aos 30 mil soldados que constituíam o seu efectivo, o exército castelhano começou a contornar a colina pela estrada a nascente. As patrulhas castelhanas tinham verificado que a vertente Sul da colina tinha um desnível mais suave e era por aí que pretendiam atacar.
          Em resposta a este movimento, o exército português inverteu a sua disposição e dirigiu-se à vertente Sul da colina. Uma vez que era muito menos numeroso e tinha um percurso mais pequeno pela frente, o contingente português atingiu a sua posição final ao início da tarde. Para evitar o nervosismo dos soldados e manter a moral elevada, D. Nuno Álvares Pereira ordenou a construção de um conjunto de trincheiras e covas de lobo em frente à linha de infantaria. Esta táctica defensiva, muito típica dos exércitos ingleses, foi talvez uma sugestão dos aliados britânicos presentes no terreno.
          Pelas seis da tarde, os castelhanos estão prontos para a batalha. De acordo com o registo escrito por el-rei de Castela depois da batalha, os seus soldados estavam bastante cansados do dia de marcha em condições de muito calor. Mas não havia tempo para voltar atrás e a batalha começou.
          A iniciativa de começar a batalha partiu de Castela, com uma típica carga da cavalaria francesa: a toda a brida e em força, de forma a romper a linha de infantaria adversária. Mas tal como sucedeu na batalha de Crécy, os archeiros colocados nos flancos e o sistema de trincheiras fizeram a maior parte do trabalho. Muito antes de sequer entrar em contacto com a infantaria portuguesa, já a cavalaria se encontrava desorganizada e confusa, dado o medo dos cavalos em progredir em terreno irregular e à eficácia da chuva de flechas que sobre eles caía. As baixas da cavalaria foram pesadas e o efeito do ataque nulo. A retaguarda castelhana demorou em prestar auxílio e em consequência, os cavaleiros que não morreram foram feitos prisioneiros pelos portugueses.
          Depois deste percalço, a restante e mais substancial parte do exército castelhano entrou na contenda. A sua linha era bastante extensa, pelo elevado número de soldados. Ao avançar em direcção aos portugueses, os castelhanos foram forçados a desorganizar as suas próprias fileiras, de modo a caber no espaço situado entre os ribeiros. Enquanto os castelhanos se desorganizavam, os portugueses redispuseram as suas forças dividindo a vanguarda de D. Nuno Álvares em dois sectores, de modo a enfrentar a nova ameaça. Vendo que o pior ainda estava para chegar, D. João 1º de Portugal ordenou a retirada dos archeiros ingleses e o avanço da retaguarda através do espaço aberto na linha da frente. Foi então que os portugueses necessitaram chamar todos os homens ao combate e tomaram a decisão de executar os prisioneiros franceses.
          Esmagados entre os flancos portugueses e a retaguarda avançada, os castelhanos lutaram desesperadamente por uma vitória. Nesta fase da batalha, as baixas foram pesadas para ambos os lados, principalmente no lado de Castela e no flanco esquerdo português, recordado com o nome Ala dos Namorados. Ao pôr-do-sol a posição castelhana era já indefensável e com o dia perdido, D. João de Castela ordenou a retirada. Os castelhanos debandaram desordenados do campo de batalha. Soldados e povo das redondezas seguiam no seu encalço e não hesitavam em matar os fugitivos.
          Da perseguição popular surgiu uma tradição portuguesa em torno da batalha: uma mulher, de seu nome Brites de Almeida (*), recordada como a Padeira de Aljubarrota, muito forte alta e com seis dedos em cada mão, emboscou e matou pelas próprias mãos muitos castelhanos em fuga. Esta história é apenas uma lenda popular, mas o massacre que se segui à batalha é histórico.
          Na manhã de 15 de Agosto, a catástrofe sofrida pelos castelhanos ficou bem à vista: os cadáveres eram tantos que chegaram para barrar o curso dos ribeiros que flanqueavam a colina. Para além de soldados, morreram também muitos fidalgos castelhanos, o que causou luto em Castela até 1387. A cavalaria francesa sofreu em Aljubarrota mais uma derrota contra tácticas defensivas de infantaria, depois de Crécy e Poitiers. A batalha de Azincourt, já no século XV, mostrou que Aljubarrota não foi o último exemplo.
          Com esta vitória, D. João 1º tornou-se no rei incontestado de Portugal, o primeiro da dinastia de Avis. Para celebrar a vitória e agradecer o auxílio divino que acreditava ter recebido, D. João I mandou erigir o Mosteiro de Santa Maria da Vitória e fundar a vila da Batalha.
          Fontes Consultadas:
          A.H. de Oliveira Marques, História de Portugal, vol. 1, Lisboa, Presença, 1997
          Fernão Lopes, Crónica de D. João I, vol. 1, s.l., Civilização, imp. 1994.
          João Gouveia Monteiro, Aljubarrota: 1385: a batalha real, Lisboa, Tribuna da História.

(*) A Lenda de Brites de Almeida - a Padeira de Aljubarrota

            A Padeira de Aljubarrota é uma das personagens mais curiosas ligadas à famosa Batalha de Aljubarrota (século XIV), onde, mais uma vez, os portugueses venceram os castelhanos.
          Não se pode afirmar com certeza que esta pessoa tenha existido, nem sequer que a história que se conta acerca dela seja verdade, mas ela vai estar sempre ligada à Batalha!
          Uma coisa é certa: existiu alguém, de nome Brites de Almeida, que foi padeira naquela terra. E parece que era tão corajosa como a da lenda.
          Brites de Almeida nasceu em meados do século XIV em Santa Maria de Faaron (hoje conhecida como Faro) e os seus pais eram gente muito humilde.
          Conta-se que quando era pequena já era alta, muito forte e musculada. E como era meio «Maria rapaz», gostava de resolver tudo com a ajuda dos punhos.
          Parece que quando tinha 20 anos os pais morreram e ela usou o pouco dinheiro que eles lhe deixaram para aprender a usar uma espada (só os homens nobres é que o faziam!).
          Então, para ganhar dinheiro, começou a usar os seus conhecimentos em feiras, onde fazia combates contra homens.
          Ora esta história chamou a atenção de um soldado que a desafiou: se o soldado ganhasse, Brites casava com ele. Se perdesse, ela matava-o. O que acabou por acontecer...
          O problema é que matar (um soldado) é crime, mesmo nessa época. Por isso Brites fugiu. Roubou um bote com o objectivo de ir para Espanha, mas um grupo de piratas raptou-a e levou-a para Argel (na Argélia), onde a vendeu a um árabe rico.
          No entanto, a «nossa Brites» não era pessoa para ficar presa. Passado um ano convence outros dois escravos portugueses a fugir para Portugal.
           Disfarçou-se de homem e seguiu para Torres Vedras, onde comprou dois machos e se transformou em almocreve (quem aluga e conduz bestas de carga).
          Mesmo assim, os sarilhos não a largaram e, depois de se envolver em várias lutas e provocar algumas mortes na zona de Lisboa, Brites apanhou um barco para Valada, de onde, já vestida de mulher, acabou por ir parar a Aljubarrota.
          Para sobreviver, já cansada e sem maneira de ganhar dinheiro, começou a pedir esmola à porta de um forno, o que chamou a atenção da padeira, já idosa, que reparou que Brites era uma mulher forte e que a podia ajudar. Assim, começou a carreira de Brites como padeira. Um dia, já depois da velha padeira ter morrido e já sendo Brites a dona do negócio, deu-se uma grande batalha em Aljubarrota. 
          Como a maioria do povo português, ela também estava do lado de D. João, Mestre de Avis, e não queria os espanhóis a governar Portugal. Conta a lenda que, depois de Nuno Álvares Pereira vencer os espanhóis nessa batalha, Brites chefiou um grupo de populares que perseguiram os espanhóis em fuga.
          Nessa noite de 14 de Agosto de 1385, ao regressar, a padeira chegou a casa e encontrou sete espanhóis escondidos no forno onde costumava cozer o pão.
          Sem hesitar, pegou na pá de levar o pão ao forno e bateu-lhes até os matar, um a um, à medida que saíam do forno.
          Várias versões desta lenda aumentam o número de castelhanos e também o número de crueldades que a padeira lhes fez...
          Nós preferimos a versão mais simples em que, mesmo assim, a Padeira de Aljubarrota faz parte da História de Portugal, nunca mais sendo esquecida.
          Claro que a sua história não acaba na época da Batalha. Parece que quando fez 40 anos se casou com um lavrador rico que a admirava muito e chegou a ter filhos.

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro - Marinha Grande - Portugal
                                                                                                                                   

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