
JOÃO 5º
Cognome histórico: o "MAGNÂNIMO"
João Francisco António José Bento Bernardo

Nasceu a 22 de Outubro de 1689 |

Como D. Pedro 2º (pai de D. Afonso 5º) tinha sucedido a seu irmão, D. Afonso 6º,
resolveu D. Pedro reunir as Cortes, em 1697, porque lhe interessava esclarecer o problema
da sucessão do Príncipe D. João, seu filho e, mais tarde D. João 5º. Entendia-se, de
harmonia com a tradição das Cortes de Lamego, cujos assentos eram considerados como a
base fundamental do direito público português, que, falecendo o rei sem filhos, passava
o reino para o irmão, caso o tivesse, mas que o filho deste não seria soberano sem
primeiro as Cortes o pronunciarem como tal. Ora, como fora este o caso de D. Pedro 2º,
tornava-se necessário resolver o assunto, para que, após a sua morte, se não
levantassem dúvidas quanto à sucessão do Príncipe D. João. As Cortes propuseram a
revogação daquele princípio; e, nestas condições, foi publicado um decreto que
estabeleceu a seguinte doutrina: " No caso de sucederem os irmãos aos reis que não
tiverem filhos, os seus filhos e descendentes suceder-lhe-ão como sucederiam sendo filhos
e descendentes de qualquer outro rei, sem necessidade de aprovação prévia dos três
Estados do rei". Os seus sucessores fizeram o mesmo e, assim, as Cortes acabaram
inteiramente banidas dos costumes políticos da nação portuguesa.
D. João 5º, tinha fama e proveito
de ser uma grande galanteador. O monarca não só saciava a sede da esposa como de outras
damas. Até em matéria de amores era magnânimo. Quando lhe chamaram a atenção para as
suas aventuras amorosas, que não eram do particular agrado do Prior da Corte, o monarca
encarregou o cozinheiro de servir somente um prato de galinha ao eclesiástico. Farto de
só comer galinha às refeições, o Prior questionou o monarca sobre tão estranha
ementa. Subtil, D. João 5º ter-lhe-ia dito: "Prior, nem sempre galinha, mas,
também, nem sempre rainha
".
D. João 5º, deixou numerosos
descendentes (legítimos e ilegítimos): -
- Maria Bárbara Xavier Leonor
Teresa Antónia Josefa nascida em Lisboa, a 4 de Dezembro de 1711 e faleceu
em Madrid a 27 de Agosto de 1758. Casou em 1729 com D. Fernando, príncipe das
Astúrias, que subiu ao trono de Espanha como Fernando VI;
- D. Pedro nascido em Lisboa,
a 19 de Outubro de 1712 e faleceu na mesma cidade, a 29 de Outubro de 1714. Foi
príncipe do Brasil;
- D. José, que sucedeu no trono
(D. José 1º);
- D. Carlos, nascido em
Lisboa, a 2 de Maio de 1716 e falecido nesta cidade, a 30 de Março de 1730. Teve o
título de infante;
- D. Pedro Clemente Francisco José
António, nascido em Lisboa, a 5 de julho de 1717 e falecido nesta cidade, a 25 de Maio de
1786. Foi príncipe do Brasil e, pelo casamento com a sobrinha D. Maria 1ª, veio a ser o
rei consorte D. Pedro 3º.
- D. Alexandre Francisco José
António Nicolau, nascido em Lisboa, a 24 de Setembro de 1723 e falecido a 2 de
Agosto de 1728).
Fora do casamento, teve D.
João 5º os seguintes filhos:
- D. Maria Rita, filha de D. Luísa
Clara de Portugal. Foi monja do Convento de Santos, em Lisboa, e conhecida como a
«Flor de Murta»;
- D. António nascido em Lisboa, a
1 de Outubro de 1704; faleceu na capital, a 14 de Agosto de 1800. Filho de uma nobre
francesa e um dos três «Meninos de Palhavã», por ter sido criado neste palácio. Foi
reconhecido em 1742, tendo obtido o grau de doutor em Teologia pela Universidade de
Coimbra. Esteve desterrado no Buçaco, por ordem do Marquês de Pombal, de 1760 a
1777.
- D. Gaspar, nascido em Lisboa, a 8
de Outubro de 1716 e falecido em Braga, a 18 de janeiro de 1789. filho de D.
Madalena Máxima de Miranda. Foi o segundo «Menino de Palhavã». Exerceu o múnus de
arcebispo de Braga, de 1758 à data da sua morte;
- D. José, nascido em Lisboa, a 8
de Setembro de 1720 e falecido na mesma cidade, a 31 de Julho de 1801. Filho da Madre
Paula, freira em Odivelas. Chamado o mais jovem «Menino de Palhavã», foi doutor em
Teologia pela Universidade de Coimbra e inquisidor-mor em 1758. Esteve desterrado no
Buçaco, com seu irmão D. António, de 1760 a 1777.
D. João 5º, Filho de D. Pedro 2º
e de Maria Sofia de Neubourg, nasceu em Lisboa, a 22 de Outubro de 1689, recebendo o nome
de João Francisco António José Bento Bernardo, e faleceu em Lisboa, a 31 de Julho de
1750. Casou em 9 de Junho de 1708 com D. Maria Ana de Áustria, nascida em Linz, a 7 de
Setembro de 1683, tendo morrido no Palácio de Belém, a 14 de Agosto de
1754. Filha do imperador Leopoldo I e de sua terceira mulher Leonor Madalena.
"Falecendo seu irmão mais
velho, do mesmo nome João, a 30 de Agosto de 1688, tendo apenas um mês de vida, foi
proclamado príncipe herdeiro em 1 de Dezembro de 1697, em acto solene na presença da
corte, e por morte de seu pai, em Dezembro de 1706, subiu ao trono, sendo solenemente
aclamado no dia 1 de Janeiro de 1707. Em 1696 fora armado por seu pai cavaleiro da ordem
de Cristo. No Anno Historico, do padre Francisco de Santa Maria, vol. I, pág. 12 e
seguintes, vem uma descrição minuciosa desta cerimónia e das festas que então se
realizaram. D. .João V herdou de seu pai uma guerra que ia começar a ser desastrosa, a
da Sucessão de Espanha. Os pretendentes eram o arquiduque Carlos e duque de Anjou, neto
de Luís XIV, Filipe V. A Espanha aceitava a realeza de Filipe V, e D. Pedro II, de
Portugal, aliara-se com os ingleses e os austríacos a favor do arquiduque. O duque
Berwick, um dos generais de Filipe V, tinha na sua frente o general português marquês
dás Minas, que na campanha de 1706 atravessou a Espanha e entrou vitorioso em Madrid,
onde fez aclamar o arquiduque com o nome de Carlos III. Mas a vontade decidida de Espanha
de querer Filipe V para seu rei, era muito poderosa. As províncias intermediárias entre
Madrid e Portugal sublevaram-se em massa, ao mesmo tempo Luís XIV, por um esforço
desesperado, reforçava as forças do duque de Berwick, e o marquês das Minas achava-se
em Madrid cortado da fronteira portuguesa. Outro general do arquiduque, lorde
Peterborough, desembarcara na província de Valência da qual tomara posse, e o marquês
das Minas, obrigado a abandonar Madrid, em vez de se retirar para Portugal, foi para
Valência. O duque de Berwick seguiu-o desejoso de dar batalha nas planícies dessa parte
da Espanha, por causa da grande superioridade da sua cavalaria. O marquês das Minas
desejava evitá-la, por isso mesmo, mas lorde Galloway, comandante das tropas auxiliares
inglesas, insistiu para que se travasse a luta. Deu-se então a batalha de Almanza a 25 de
Abril de 1707, em que ficou vencedor o partido de Filipe V. O marquês das Minas deixou
sob o comando do conde de Atalaia um pequeno exército português agregado ás tropas
inglesas, e veio para Portugal. A guerra daí em diante foi apenas uma série de combates
de pouco valor nas fronteiras, sendo o facto mais importante a defesa de Campo Maior, em
1711, ultima façanha da guerra da Sucessão de Espanha, em que Portugal se envolvera: A
guerra expôs à perseguição dos franceses a nossa marinha e as nossas colónias. Em
1710 organizou-se em Brest uma pequena esquadra para atacar o Rio de Janeiro, mas o
comandante, Mr. du Clerc, ficou derrotado caindo em poder dos portugueses. Esta notícia
causou a maior satisfação em Lisboa, e celebrou-se um solene Te-Deum na capela real a
que assistiu el-rei e toda a régia família. No ano seguinte, 1711, uma outra esquadra,
comandada pelo célebre marítimo Du Guay-Trouin, veio atacar o Rio de Janeiro, e vingou
cruelmente o desastre do seu compatriota du Clerc, apesar da forte resistência, oposta
pelo governador Francisco de Castro de Morais. A cidade foi posta a saque. Finalmente, em
1715 assinou-se o tratado de Utrecht entre as diversas potências beligerantes, que trouxe
a paz à Europa. Nesta luta foi Portugal que menos aproveitou, porque nenhumas
compensações obteve por tantos e tão cruéis sacrifícios.
Enquanto durara a guerra com a
Espanha e a França, deu se o casamento de el-rei D. João V com a arquiduques D. Maria
Ana de Áustria, filha do imperador Leopoldo, irmã do imperador José, então reinante, e
do imperador Carlos VI. Foram assombrosas as solenidades que se realizaram em Viena e
depois em Lisboa à chegada da nossa rainha. O conde de Vilar Maior, Fernando Teles da
Silva, foi encarregado, como embaixador extraordinário, de ir pedir em casamento a
arquiduquesa. O embaixador chegou a Viena a 21 de Fevereiro de 1705, e antes de fazer a
sua entrada. pública, recebeu audiência particular do imperador, da imperatriz sua
mulher e da imperatriz viúva; dias depois também lhe foi concedida audiência das
arquiduquesas. A entrada oficial demorou-se algum tempo, porque o embaixador português
esperava que de Holanda lhe chegassem alguns coches e cavalos, que deviam figurar no acto
solene. No dia 7 de Junho é que se realizou a imponente cerimónia da apresentação. O
conde de Vilar Maior saiu de Inzerstorff, para onde partira na véspera, e entrou em Viena
com todo o aparato; aí o esperava o conde Waldestein, marechal da corte, o qual o
conduziu com dois coches do imperador, e mais 42, tirados a seis cavalos, mandados pelos
cavalheiros principais da corte com os seus gentis-homens. 0 cortejo era imponente; passou
pelo paço da Favorita, em cujas janelas se viam o imperador José, as imperatrizes e as
arquiduquesas, e seguiu até ao palácio do embaixador português. No dia seguinte, o
conde Gundacharo Poppone de Dietrichstein, com os mesmos dois coches do imperador, foi
buscar o conde de Vilar Maior, Fernando Teles da Silva, para a conduzir ao paço da
Favorita, à audiência pública dos imperadores reinantes, e pouco depois ao paço de
Viena, onde também foi recebido em audiência pela imperatriz viúva e pelas
arquiduquesas. No dia 21 de Junho é que no paço da Favorita, em solene audiência foi
pedida em casamento a arquiduquesa D. Maria Ana, em nome de el-rei de Portugal D. João V.
Repetiu-se depois a mesma cerimónia no paço da imperatriz viúva. O embaixador entregou
à futura rainha o retrato de D. João V, guarnecido de diamantes de grande valor. Neste
mesmo dia se assinou o contrato de casamento. À noite houve baile no Paço, e no dia
seguinte realizou-se no palácio do embaixador um magnífico cortejo, a que assistiu toda
a corte austríaca. Em 9 de Julho efectuou-se a cerimónia nupcial, sendo o imperador quem
recebeu a rainha por procuração do rei de Portugal; foi celebrante o cardeal de Saxónia
Zeits, a quem o conde embaixador presenteou com um dos seus coches, tirado a seis cavalos,
presenteando também com diversas dádivas todos os demais capelães que assistiram à
solenidade. Na viagem para Portugal tocou em diversos portos, realizando-se sempre
pomposas festas, até que em 26 de Outubro chegou a Lisboa, onde teve uma imponentíssima
recepção. No paço da Ribeira houve serenatas e músicas. No Terreiro do Paço
queimaram-se fogos de artifício, e armou-se um anfiteatro, onde em três tardes
sucessivas se realizaram corridas de touros. No dia 22 de Dezembro, seguidas dum pomposo
cortejo, foram as pessoas reais e toda a corte à Sé, onde se cantou um solene Te-Deum.
No Anno Histórico do Padre Francisco de Santa Maria, vol. II, pág 334 e seguintes, vêem
minuciosamente descritas as esplêndidas festas, os deslumbrantes cortejos e cerimónias,
que se realizaram em Viena de Áustria e em Lisboa, assim como a descrição do dote da
rainha. do contrato do casamento, e de muitas ofertas feitas pelo imperador da Áustria
às pessoas que compunham a embaixada portuguesa.
Em Lisboa houve por esta época uma
notável contenda com os embaixadores das principais potências, que insistiam para terem
umas franquias incompatíveis com o regular andamento da justiça. D. João V foi sempre
muito enérgico em todas estas contendas com os ministros estrangeiros, mantendo as
prerrogativas da Coroa e as preeminências marcadas pela etiqueta com a mais severa
austeridade. Também pode dizer-se que em poucas épocas teve Portugal diplomatas tão
hábeis como no tempo de. D. João V, em que se encontram os nomes de D. Luís da Cunha,
Diogo de Mendonça Corte Real e de Alexandre de Gusmão. O monarca era extremamente
devoto, e dessa exagerada devoção resultou intervir Portugal numa guerra entre o papa,
os venezianos e os turcos. Em 1716 enviou em socorro do papa uma luzida esquadra,
comandada pelo conde do Rio Grande, que tomou parte na gloriosa vitória do cabo Matapan,
mas que sobrecarregou a fazenda com uma despesa enorme. Descuidava das causas urgentes do
país, e despendia largas e fabulosas somas com a cúria romana, com igrejas e monumentos
religiosos. Construiu o grandioso convento de Mafra que custou 120 milhões de cruzados; a
capela de S. João Baptista na igreja de S. Roque, obra riquíssima que se construiu em
Roma pelo desenho de Vanvitelli, e enquanto se não concluiu, D. João V mandava repetidas
vezes importantes quantias exigidas pelo papa, então Benedito XIV. Em 1744 ficou pronta a
capela, que se armou dentro da igreja de S. Pedro, e depois de sagrada em 15 de Dezembro
do referido ano, o papa oficiou de pontifical. El-rei, por esta distinção feita à sua
devota capela, presenteou o pontífice com 100.000 cruzados. Em 1746 foi toda desarmada e
cuidadosamente encaixotada, transportando-se assim para Lisboa, sendo acompanhada por
alguns dos artistas que tinham trabalhado na obra e do escultor afamado Alexandre Giusti,
que nunca mais abandonou Portugal. Quando a capela chegou a Lisboa, achava-se D. João V
gravemente doente, e já não pôde ver realizada a sua monumental obra, porque faleceu
pouco tempo depois. A capela somente se colocou em S. Roque já no reinado de D. José, em
13 de Janeiro de 1751. No vol. XI do Gabinete Historico, de Fr. Cláudio da Conceição,
vem descrita a história da capela de S. João Baptista na igreja de S. Roque e de todas
as suas grandiosas riquezas.
D. João V engrandeceu bizarramente
a capela real que ele elevou a uma sumptuosa patriarcal com um numeroso cabido, musicas e
cantores. (V. Patriarcal). Dividiu Lisboa em duas partes: Lisboa Oriental e Lisboa
Ocidental; a primeira metropolitana e a segunda patriarcal. As negociações para a
concessão desta igreja custaram também importantíssimas somas, que se enviaram à
Cúria romana; conseguiu igualmente do Papa a 22 de Dezembro de 1748, a troco de grandes
dádivas, a denominação de rei fidelíssimo para si e para os seus descendentes,
considerando assim como a maior glória da sua raça o ter sido sempre fiel à Santa Sé.
As prodigalidades deste monarca eram extraordinárias; enriqueceu os conventos, deu
dinheiro ilimitado aos fidalgos; nos últimos anos da sua vida mandou rezar para cima de
700.000 missas; por urna imagem que o papa benzeu, de prata dourada, deu 120.000 cruzados;
para Jerusalém mandou 1.377 cruzados; fundou o convento do Louriçal dotando-o com 6.000
cruzados, e deu-lhe muitas alfaias e pratas; ceou dois bispados no Brasil; mandou para
diferentes igrejas do estrangeiro alfaias e adornos de incalculável valor; em
indulgências e canonizações enviou para Roma perto de 1,38 milhões de cruzados; na
missão que foi a Roma assistir a um conclave gastou-se para cima de dois milhões de
cruzados; ao núncio Bichi, quando se retirou de Lisboa, mandou dar-lhe 1.000 moedas para
ajuda da viagem; ao cardeal Oddi deu-lhe uma caixa de brilhantes no valor de 20.000
cruzados, etc. Apesar da sua exagerada devoção, não tinha escrúpulo em profanar a
clausura das virgens do Senhor, o que lhe adquiriu o titulo de rei freirático,
transformando, por exemplo, o convento de Odivelas, sustentando escandalosamente os seus
amores com a madre Paula, freira sua predilecta.
O que bastante ilustra este reinado
foi a edificação do Aqueduto das Aguas Livres, melhoramento de grande importância (V.
Águas Livres, aqueduto das), e a fundação da Academia Real da História Portuguesa,
pelo decreto de 8 de Dezembro de 1720. Esta Academia tinha por fim escrever a história
eclesiástica destes reinos, e depois tudo o que pertencesse à história deles e de suas
conquistas. (V. Academia Real da História Portuguesa). Também neste reinado se deu muita
atenção aos estudos de cirurgia; em 1715 foi impressa a tradução da Cirurgia de Le
Clerc; em Abril de 1731 estabeleceu-se no hospital real de Todos os Santos uma escola
cirúrgica, dando as lições Isaac Eliot com cirurgiões de partido, aos quais el-rei
assignou o vencimento de um tostão por dia. No Porto estabeleceu-se em 1746 a Academia
Cirúrgica Protótipo-Lusitânica Portuense (V. este nome), cujos estatutos foram
aprovados por D. João V. Na Historia dos Estabelecimentos scientificos, litterarios e
artisticos, de José Silvestre Ribeiro, vol, I, pág. 174 e seguintes, encontram-se
notícias circunstanciadas acerca desta academia. D. João V tinha constante desvelo em
favorecer os autores pobres, habilitando-os a publicar os seus escritos, que sem a
protecção do monarca, ficariam por imprimir. Se alguma obra lhe era indicada como
excelente, e já rara, não hesitava em a mandar reimprimir. Foi assim que se publicou a
Historia Genealogica da Casa Real Portugueza, por D. António Caetano de Sousa; O
Vocabulario portuguez e latino de Bluteau; o Corpus poetarum lusitanorum, do padre
António dos Reis, e outras muitas obras. Reuniu, com grande dispêndio, uma rica livraria
no seu palácio, bem como numerosos e interessantes objectos de estudo. D. António
Caetano de Sousa dá curiosas notícias a este respeito: «Assim tem, diz ele, uma
numerosa e admirável livraria, que se vêem as edições mais raras, grande número de
manuscritos, instrumentos matemáticos, admiráveis relógios, e muitas outras coisas
raras que ocupam muitas casas e gabinetes. Não havia no Paço mais que um pequeno resto
da Livraria antiga da Sereníssima Casa de Bragança: El-rei o fez colocar em esta Real
biblioteca, que se compõe de muitos mil volumes, que quase não cabem no grande edifício
chamado o Forte.» Determinou ao seu enviado junto à Santa Sé, Manuel Pereira de
Sampaio, que formasse uma colecção de tudo quanto pudesse descobrir nas bibliotecas da
Cúria Romana, que dissesse respeito à história do reino. Do cumprimento desta ordem
proveio talvez a colecção que tem o título de Symmicta Lusitanica, que existe na
Biblioteca Real da Ajuda, excedente a 200 volumes. A Sebastião José de Carvalho, quando
foi ministro plenipotenciário na Grã-Bretanha, ordenou que reunisse uma colecção de
bíblias hebraicas, e de tudo quanto pertencesse a seus ritos, leis, costumes e polícia,
em qualquer das línguas vivas. Aquela preciosa colecção chegou a Lisboa no ano de 1743.
Por este tempo foi Martim de Mendonça nomeado bibliotecário de el-rei e adiantou este
ramo de erudição, mandando vir obras da mesma natureza na língua original, em que era
muito versado. Para aumentar a Biblioteca Real sustentou o soberano muitos amanuenses fora
do país por alguns anos. Para o mesmo fim fez comprar diversas colecções de livros,
tiveram ordem os livreiros Gendeon e Reycend de mandar vir os que pudessem alcançar.
Destes livros repartiu el-rei com as bibliotecas das Necessidades e de Mafra, por sua
ordem se abriram nesta última casa, em Janeiro de 1731, escolas públicas, com sete
cadeiras. Em Outubro deste mesmo ano chamar a Lisboa Martim de Pina de Proença, para
formar o catálogo da livraria real, na ocasião em que tinham chegado 20.000 volumes. A
Universidade de Coimbra não possuía uma casa competente para acomodação duma livraria.
0 reitor Nuno da Silva Telles solicitou e obteve do soberano a permissão de construir um
bom edifício. A provisão régia, que deu esta licença, tem a data do de 31 de Outubro
de 1716. A casa da livraria veio a concluir-se, sendo reitor Francisco Carneiro de
Figueiroa. D. João V, também elevou a 100$000 réis anuais a verba de 40$000 réis, que
a Universidade tinha para a compra de livros. Promoveu os estudos militares, mandando
traduzir e imprimir algumas obras de fortificação e artilharia; Assistindo a actos
solenes dos exames de tais disciplinas, e decretando em 24 de Dezembro de 1732, que, além
da Academia Militar estabelecida na corte, e a da praça de Viana do Minho, se
estabelecessem outras academias militares: uma na praça de Elvas e outra na de Almeida.
Em 1713 já o monarca havia mandado traduzir e imprimir a Fortificação Moderna, de
Pfeffinger. Foi protector e académico, com o título de Pastor Albano, da Academia dos
Árcades, de Roma, e ali comprou um sítio em que se estabeleceu a Academia, para se
realizarem as suas assembleias. Sobre a porta do edifício está, colocada uma inscrição
latina. Esta Arcádia fora fundada em 1690 por alguns poetas célebres. Mandando D. João
V vir par a sua igreja patriarcal músicos e cantores italianos, começou em Portugal a
influencia da musica italiana.
As solenidades que se realizavam
naquele sumptuoso templo, eram imponentes, executadas por um coro de 70 cantores, muitos
deles escolhidos entre os melhores que se podia encontrar em Itália, dirigidos pelos
professores Scarlatti, João Jorge, Jomelli e David Peres, os mais eminentes mestres
então conhecidos no referido país. D. João V também mandou vir de Roma cantocanistas e
liturgistas, enviando para aquela cidade a estudar alguns pensionistas. De todos os livros
do coro usados no Vaticano, mandou tirar cópias para servirem na sua real capela, em
observância rigorosa do uso e ritual pontifício. D. João V também prezava a música
profana. Os saraus do Paço eram frequentemente entretidos com peças teatrais ornadas de
música. As mais antigas representações neste género, de que há notícias, são as
festas realizadas em 1711, 1712 e 1713 nos dias dos anos do rei e da rainha. Em 1733 um
violinista italiano ao serviço do Paço, Alexandre Paghetti, obteve privilégio para dar
representações públicas de óperas no teatro armado junto ao convento da Trindade, em
que se cantaram algumas óperas nos anos de 1737 e 1738. No teatro da Rua dos Condes
também se cantaram em 1738, 1739 e 1740. D. João V mandou construir um teatro no
palácio de Belém, que tinha comprado em 1726 ao conde de Aveiras, e foi este o primeiro
teatro régio especialmente construído para esse fim, inaugurando-se a 4 de Novembro de
1739, o monarca instituiu um seminário destinado ao ensino especial da música,
organizado à semelhança do de Vila Viçosa, e cujas despesas eram pagas pelas rendas da
Capela Real. Tem a data de 9 de Abril de 1713 o decreto que fundou este novo seminário de
música, o qual começou logo a funcionar no antigo paço dos arcebispos; pouco depois,
para ter mais largueza, foi transferido para o convento de S. Francisco.
Em 1729, D. João V casou seu
filho, o príncipe D. José, com a princesa espanhola D. Mariana Vitoria, e sua filha, D.
Maria Bárbara, com o príncipe das Astúrias, D. Fernando, que depois foi Fernando VI,
rei de Espanha. A troca das duas princesas efectuou-se na presença dos dois soberanos das
duas cortes, num pavilhão que se ergueu na ponte sobre o rio Caia, exactamente na
fronteira dos dois estados, fazendo-se tudo com extraordinária pompa. Em 1742 foi o
monarca atingido pelo primeiro ataque de paralisia. Reconhecendo o seu estado melindroso,
dedicou-se a Deus, temendo a morte que o esperava. Os frades estimulavam-lhe o fervor
religioso, e os físicos lhe aconselhavam o emprego das águas das Caldas da Rainha. D.
João V utilizou efectivamente estas águas, acompanhando o tratamento com exercícios
devotos e muitas rezas. Fez treze jornadas às Caldas, seguido de frades e de freiras. Em
1717 ordenou que o hospital fosse refundido, ficando as obras concluídas em 1750. Em
Julho deste ano piorou consideravelmente, e foi sacramentado. Os frades foram chamados,
recitaram-se salmos e jaculatórias, e o núncio veio administrar-lhe o sacramento da
extrema unção. 0 rei expirou pouco depois, tendo a seu lado a rainha, o príncipe D.
José, os infantes D. Pedro e D. António, o cardeal da Cunha e os médicos da corte.
Assim terminou o rei D. João V,
deixando pobre o país pelas suas prodigalidades e desperdícios.
(Fonte: "Portugal -
Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico,
Numismático e Artístico, Volume III, págs. 1048-1051".
D. João 5º, exerceu o governo
absoluto e nunca se dignou reunir Cortes. Provenientes das minas de ouro e de diamantes do
Brasil, entraram em Portugal, durante este reinado, incalculáveis riquezas, mas, em vez
de as empregar em benefício e no desenvolvimento da indústria e da agricultura, foram
estas riquezas esbanjadas em doações a igrejas e a mosteiros, e, em prodigalidades
insensatas. A edificação do Convento de Mafra, custou-lhe 120 milhões de cruzados; as
quantias enviadas para Roma (Vaticano), em pagamento de indulgências, canonizações e
outros, como embaixadas, passaram dos 200 milhões. O luxo da sua Corte era esplendorosa,
só comparado na Europa, à Corte Francesa do Rei Sol. Quando foi preciso construir uma
obra tão necessária ao povo, como o Aqueduto das Águas Livres (Lisboa), o povo teve de
contribuir com um novo e pesado imposto. A fundação da Academia Real de História, do
Arsenal da Marinha, da Casa da Moeda e de umas poucas fábricas industriais, não basta
para reabilitar este grande gastador e esbanjador de fortunas, como fez no seu reinado.

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite
Ribeiro - Marinha Grande - Portugal
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