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GRANDES
ENTREVISTAS
Artur da Távola |
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CARLOS LEITE RIBEIRO |
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Carlos Leite Ribeiro entrevistando

Artur da Távola
O avião por fim levantou voo do Aeroporto Internacional de Lisboa
(Portela), com rumo à Cidade Maravilhosa de São Sebastião do Rio de Janeiro. Ia
ser uma viagem demorada e algo maçadora, mas para ir ao Rio de Janeiro, nem que
fosse a nado, seria sempre um enorme prazer. Tentei dormir, mas isso em viagem,
é praticamente impossível. Depois da servida a refeição, abri a pasta para reler
mais uma vez uns apontamentos que tinha tirado da pessoa que ia entrevistar, o
Artur de Távola, que tem dois apelidos bem portugueses: Monteiro e Barros:
TÁVOLA Moretzsohn Monteiro de Barros
Data de nascimento: 03 de janeiro de 1936
Naturalidade: Rio de Janeiro-RJ
Filiação: Paulo de Deus Moretzsohn Monteiro de Barros
Magdalena Koff Monteiro de Barros
Profissões: Advogado, Jornalista, Radialista, Escritor e Professor.
Peguei numas revista que tinha trazido, mas não me apetecia ler – só
vi as fotografias e os bonecos. A minha parceira de banco ressonava quase desde
que levantámos voo. Tentei contar quantos roncos dava a senhora por minuto. Por
fim, a tal senhora acordou e logo me perguntou se tinha ressonado e me
incomodado muito. Respondi-lhe que não tinha a ouvido ressonar e que não me
incomodava nada, antes pelo contrário, que era um prazer tê-la como companheira
de viagem. Metemos conversa e soube que era carioca, que morava em Santa Tereza
e que tinha um comércio de roupa num shoppig no aterro de Botafogo. Mostrou-me
fotografias do marido e dos filhos e foi dizendo que tinha passado uns dias na
bela cidade de Lisboa, onde tinha assistido a várias apresentações de moda
feminina.
Por fim, a tão desejada comunicação do comandante do avião: "Senhores
passageiros, estamos a fazer-nos à pista do Aeroporto Internacional de Tom
Jobim, onde devemos aterrar daqui a 10 minutos. Por favor, vejam se têm os
cintos apertados...".
Pouco tempo depois começámos a ver o Rio, o incomparável Rio de
Janeiro !
Encravada entre a montanha e o mar, o Rio de Janeiro é uma cidade
incomum por sua geografia, e é seguramente o ponto do território brasileiro mais
conhecido em todo o mundo. Mesmo quem tem apenas um mínimo de conhecimento sobre
o Brasil, ao ouvir falar do país associa-o automaticamente à "cidade
maravilhosa". A capital do estado do Rio de Janeiro reúne belezas naturais que
vão das praias que recortam sua costa, como as do Arpoador, Ipanema e
Copacabana, a morros que marcam sua paisagem, como o Corcovado e o Pão de
Açúcar. No Rio fica a maior floresta urbana do mundo, a da Tijuca, inteiramente
reflorestada na segunda metade do século XIX. A cidade é ainda um dos principais
centros irradiadores de cultura nacional, berço de géneros musicais.
Por fim aterrámos. Sentimos aquela sensação que nos dá, a nós lusos,
quando pisamos solo brasileiro. – Porquê? Ninguém consegue explicar !
Apanhei
um táxi: "Leve-me por favor à Rua República do Peru, esquina com a Barata
Ribeiro". Tinha que ir ao hotel fazer o chek in, tomar um banho e ir apanhar sol
e passear no belo calçadão. As horas passam a correr, quando estamos no Brasil,
nomeadamente no Rio. Pensei fazer uns telefonemas a uns amigos, mas desisti na
altura. Senti grande ansiedade em sair do hotel e dirigir-me para a beira mar,
para o calçadão. A entrevista estava marcada para as 11 horas, no posto 6 de
Copacabana, na entrada do Forte do mesmo nome. Estava no posto 3 e tinha muito
tempo de chegar ao Forte. Parei no caminho várias vezes para voltar-me para trás
e admirar aquelas maravilhas que Deus criou e presenteou não só os cariocas,
como também que visita o Rio. Bebi água de dois cocos – que delícia e
fresquidão.
Quando cheguei ao local combinado, o entrevistado já nos aguardava.
Interpelei-o :
Távola: - Sou sim. E você deve ser o Carlos, o português mais brasileiro ou o
brasileiro mais português que conheço. Mas … Artur da Távola, é pseudónimo
Depois dos cumprimentos da praxe, combinámos iniciar a entrevista
andando um pouco pelo calçadão, neste caso, em direcção ao Leme. Calmamente
passámos pelo banco de Carlos Drummod de Andrade, em frente à Rua Rainha
Elizabeth, onde o grande escritor da Língua Portuguesa, mineiro de nascimento,
passava parte das tardes meditando ou olhando para o mar.
Carlos: – Então porquê "Artur da Távola" ?: -
Távola: - Contos largos, mas vou contar-lhe: A convite do Samuel Wainer, fui
trabalhar na Última Hora com o Tarso de Castro, o Nelson Motta, que na época era
um garoto, e o Luiz Carlos Maciel. E lá encontrei Moacyr Werneck de Castro e
Otávio Malta, habituais colaboradores do Samuel. Eu era editor de Cidade na
Última Hora e assinava com o meu nome, Paulo Alberto, uma coluna chamada "Cidade
livre". Quando foi decretado o Ato Institucional nº 5, quem, como eu, já tinha
problemas políticos precisou se esconder. Quando a coisa foi-se normalizando, o
Samuel Wainer me chamou e me aconselhou a arranjar um pseudônimo e passar a
escrever sobre televisão. Aí me veio à cabeça o nome de Artur da Távola…
Carlos: - Qual era o tipo de crónica ?
Távola: - Naquela época era muito comum os intelectuais e os jornalistas
arrasarem com a televisão, veículo em que trabalhei no Chile. Mas segui a
sugestão do Samuel, no sentido de fazer uma coluna analítica. No começo eu me
apresentava como um velho aposentado, que ficava numa cadeira de rodas diante da
TV, minha única diversão. Primeiro, analisava mais do que opinava. Depois,
destacava o trabalho de profissionais sem bajular a empresa e buscava infiltrar
material de crônica na análise que fazia — especialmente nos comentários sobre
novelas, que tinha autores muito talentosos, a maioria banida do teatro pela
censura e levando material político e de reflexão para o telespectador. Depois
da UH e da Bloch, mudei-me para a Globo.
Carlos: - Depois do almoço, quer nos contar como foi essa mudança ?: -
Tínhamos chegado à porta do Restaurante "Cais da Ribeira", na Avª.
Atlântica, onde aproveitámos para almoçar, um prato típico bem português "Cozido
à Portuguesa", regado com o bom e adamascado vinho de Borba (Alentejo –
Portugal).
Depois
da refeição, apanhámos um táxi para a estação dos "Bondinhos" (carros eléctricos),
perto da Catedral Metropolitana e da Igreja de Santo António. Apanhámos o
bondinho para Santa Tereza, passando pelos Arcos da Lapa (que sensação !). .
Depois de darmos uma volta pelo Bairro, onde tentámos visitar uma chacara, mas
em vão por estar com o edifício em recuperação, apanhámos um táxi que nos levou
ao Cristo Redentor . Onde de lá de cima a panorâmica é soberba ...
 
Lá no cimo, como que abraçados por Cristo, a 710 metros de altitude,
recomeçámos a entrevista.
Carlos: - Artur da Távola, como foi essa mudança da UH e da Bloch, para a Globo
?: -
Távola: - Um belo dia, o Evandro Carlos de Andrade, que chefiava a Redação, me
chamou para escrever no jornal. Mas eu disse ao Evandro: como é que eu vou fazer
crítica de TV no Globo? Ele me disse: "Deixa comigo, vamos tentar." Durante 15
anos, ele adotou a seguinte técnica: com o Roberto Marinho, defendia a minha
posição quando eu criticava a Globo; comigo, defendia a posição do jornal.
Quando não tinha jeito, ele me aconselhava a ir conversar com o Dr. Roberto.
Carlos: - Pelo que me conta, nessa época, digamos, foi tudo cor-de-rosa ?: -
Távola: - Não direi assim, porque, quando ele demitiu o Walter Clark e assumiu a
TV, achei que ia complicar, pois, se eu criticasse, estaria criticando o patrão.
Mas foi justamente nesse período que ele absorveu muito melhor as minhas
críticas. Para alguns colegas, eu fazia "o jogo" da TV Globo. Não era verdade.
Muita gente da TV pediu minha cabeça diversas vezes e dizia que eu não podia
emitir opiniões contrárias à emissora sendo funcionário das Organizações Globo.
Eu me demiti em 87, quando fui eleito Deputado e o Mário Covas me convidou para
ser relator, na Constituinte, de um capítulo grande que incluía educação,
cultura e comunicação, segmento da empresa em que eu trabalhava.
Quando
vínhamos a descer, o Artur de Távola encontrou um casal amigo que nos levou à
Praia Vermelha, onde apanhámos um "bondinho" para subirmos ao morro da Urca.
Já lá em cima e enquanto esperámos outro "bondinho" para subirmos ao
alto do Pão de Açúcar; e a entrevista continuou: -
Carlos: - Como considera o seu trabalho como constituinte ?: -
Távola: - Bem, o capítulo da comunicação até hoje está aí, ninguém nunca tentou
mudar nada. Todas as defesas contra a censura e pela regionalização de produção
e a criação do Conselho de Comunicação nós conseguimos ganhar.
Carlos: - Escreveu sobre a liberdade de imprensa. A pergunta impõe-se: - Como
está essa liberdade no Brasil ?: -
Távola: - De uns dez anos para cá, tem havido um grande aparelhamento partidário
nas redações. É preciso ressaltar que a liberdade de imprensa deverá respeitar
também os direitos do receptor da informação, que deverá recebê-la sem
condicionamentos, vista de todos os ângulos. Nós, jornalistas, nos preocupamos
muito mais com a nossa liberdade de comunicar, que é fundamental, do que com o
direito de quem está do outro lado da notícia.
Carlos: - É uma figura pública de enorme prestígio, não só no Brasil. Actua no
política, na imprensa e na literatura. – Como consegue dimensionar o seu tempo,
para estas actividades ?:
Távola: - Não me considero um intelectual de prestígio, sou uma pessoa
respeitada. Inclusive, nos meus livros, eu confesso que sinto falta de prestígio
intelectual.
Carlos: - Não será de sua parte "uma falsa modéstia" ?: -
Távola: - Não é não, Carlos. Intelectual não lê o que eu escrevo, porque eu
tenho muita preocupação de escrever para o grande público. E eu escrevo crônica,
que é considerado um gênero menor. Não é, mas foi caracterizado assim.
Carlos: - Como qualifica o mídia de hoje, em comparação com o antigamente ?: -
Távola: - Ninguém faz cobertura de Comissão ou de trabalho. E isso vem sendo o
comportamento geral, principalmente depois que o jornalismo enveredou pela linha
da notícia como entretenimento. Este fenômeno não acontece apenas no Brasil, mas
no mundo inteiro. Vivemos uma era em que os modelos televisivos influenciam o
formato do telejornalismo e da imprensa, embora os jornais ainda tenham
articulistas capazes de exercer um papel de reflexão de muito boa qualidade. O
Carlos é desse tempo. Hoje, é opinar em manchete. Sou de uma geração que nunca
usou esse expediente; manchete era só para informar, ainda que fosse sobre algo
grandioso e brutal como a guerra. De uma década para cá, é possível observar o
quanto as editorias opinam na edição da matéria e das manchetes, muitas vezes em
função da competição entre os jornais. E repare, É opinar em manchete. Sou de
uma geração que nunca usou esse expediente; manchete era só para informar, ainda
que fosse sobre algo grandioso e brutal como a guerra. De uma década para cá, é
possível observar o quanto as editorias opinam na edição da matéria e das
manchetes, muitas vezes em função da competição entre os jornais.
Carlos: - Em sua opinião, a que se deve esse facto?: -
Távola: - A tecnologia ajudou muito no desenvolvimento desse campo do
jornalismo, com suas máquinas de capturar som e imagem. Mas em certos momentos
ele se deixa contaminar pelo denuncismo. Às vezes há uma tendência de se tratar
o indício como sintoma, o sintoma como fato, o fato como julgamento, o
julgamento como condenação e a condenação como linchamento.
Carlos: - Sente-se saudosista de algum modelo de linha editorial ?: -
Távola: - Do jornalismo de idéias, que marcou um tempo e também sumiu.
Carlos: - Como vê o radiojornalismo nos dias de hoje ?: -
Távola: - O radiojornalismo tornou-se mais urgente do que analítico, ou seja, a
rapidez da informação é mais importante do que aprofundar e analisar o assunto.
A pressa do furo determina algumas conclusões nem sempre adequadas, pois muitas
vezes as fontes não são checadas.
Carlos: - Como é que o Artur da Távola pegou como em Portugal se diz "o bichinho
da rádio ?:
Távola: - Na juventude. E o meu primeiro emprego jornalístico foi na Rádio MEC,
que ano que vem faz 70 anos, como eu. Ali fui obrigado a improvisar, o que era
essencial nas transmissões externas antigamente e me deu uma boa base. Outra
experiência notável na minha vida foi a passagem pelo jornal O Metropolitano, da
União Metropolitana dos Estudantes. Ele era todo feito por estudantes e
circulava encartado no Diário de Notícias, aos domingos. Foi onde eu aprendi a
fazer jornalismo impresso. Depois, tive forte influência do Samuel Wainer, que
foi um grande mestre. Atualmente sou o funcionário mais antigo da emissora.
Carlos: - E como conseguiu o seu estilo inconfundível de cronista ?: -
Távola: - Do ponto de vista literário, sempre fui um enamorado da crônica, que é
um dos gêneros mais encontrados na coleção de livros que mantenho em casa. É uma
pena que ela esteja desaparecendo do jornalismo. Na minha concepção, a crônica é
tão importante para um jornal como um jardim é para uma cidade. Além dos livros
de crônicas, também coleciono obras sobre música e biografias de santos, que
leio por um interesse misterioso que não sei qual é. Estas são as três coisas
que eu mais leio habitualmente.
Carlos: - Imprensa escrita, falada e de áudio-visual. – Qual a área que mais lhe
agrada e se sente melhor profissionalmente ?: -
Távola: - Todas se equivalem, mas tenho uma paixãozinha secreta pelo rádio. Em
função da tecnologia, sua comunicação com o ouvinte, na sua escuta solitária,
traz um grau de intimidade e aceitação maior que o da televisão. Esta é dominada
pelo olhar, mais volúvel que a audição.
Às vezes eu mesmo me espanto. Afinal, vou completar 70 anos... Toda semana, faço
três crônicas para O Dia, dois programas na Rádio MEC, quatro no Senado (três de
rádio e um de TV) e um de música erudita na TV Cultura, em São Paulo. Como gosto
de todas essas coisas, consigo dar conta.
Carlos: - Trabalhou no Ministério da Cultura, com um grande "cromo" do Brasil,
que se chama Gilberto Gil. – Como foi essa relação profissional e pessoal ?: -
Távola: - Sou suspeito para falar do Gil porque gosto muito dele, sou seu amigo,
mas discordo dos que reclamam do fato de ele estar no Ministério e continuar
sendo um artista. Acho importantíssimo ter um artista como Ministro. E o Gil
sabe perfeitamente distinguir o que é oficial da sua carreira. Ele não pode
fazer mais porque o Ministério da Cultura não tem dinheiro; a verba só dá para
fazer a manutenção do que já existe. Devemos investir mais dinheiro e considerar
que a cultura é um bem de primeira necessidade que tem tudo a ver com a evolução
civilizadora do povo. A cultura é tão importante quanto gastar dinheiro com
estrada e com saúde.
Muita coisa ficou por perguntar, mas o relógio nunca para e o nosso
entrevista tinha outros afazeres e eu, tinha de regressar a Portugal.
Agradecemos ao grande Artur da Távola a disponibilidade em dar-nos esta
entrevista. Bem-Haja !
Formato de:
Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal
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