GRANDES ENTREVISTAS

Tito Olívio Henriques

CARLOS LEITE RIBEIRO

Carlos Leite Ribeiro entrevistando

Tito Olívio Henriques

 

          Na nossa juventude em Lisboa, morámos perto um do outro, mas devido à diferença de idades, nunca nos encontrámos. Foi pela bendita Internet que nos encontrámos.
        Como já há anos que não vou ao Algarve (que já teve a categoria de Reino), resolvi telefonar a Tito Olívio para que ele me indicasse como poderia chegar a Faro, a capital do distrito: -
Tito: - Olha Carlos, quem vem por terra pode utilizar o comboio (trem) Alfa, que faz a viagem em duas horas e meia, ou o Inter-Cidades, que demora três horas, ambos com muita comodidade; ainda o autocarro (ônibus) Expresso de Qualidade, que leva três horas, com trânsito normal. A estação de caminho de ferro e a estação rodoviária situam-se no centro da cidade, podendo ir-se a pé até aos dois melhores hotéis, o EVA e o Faro, ambos de 4 estrelas. Quem vier de carro, terá auto-estrada desde Lisboa até Faro, podendo fazer a viagem em duas horas e vinte minutos, sem exceder a velocidade máxima. A forma menos cansativa, mas não a mais rápida, de vir a Faro é de avião, com uma viagem de menos de meia hora, mais uma hora para fazer o chek-in no aeroporto, mais a demora na espera pelas malas e mais os habituais atrasos. Chegado ao moderno Aeroporto de Faro, pode ainda ter o azar de dar com um daqueles taxistas que, desiludidos por não lhes ter calhado um daqueles turistas que vão para Albufeira ou para a Praia da Rocha, levam o percurso até à cidade a lamentar-se, em voz alta, da sua pouca sorte por uma corrida tão curta.
        Combinámos então o encontro para o bar do Hotel EVA, situado no último piso do edifício, de onde se desfruta de uma bela panorâmica sobre a cidade e sobre a marina (mais conhecida por Doca). O Hotel EVA remonta ao fim da década de 60, quando se iniciou o desenvolvimento turístico do Algarve, mas recebeu importantes obras de beneficiação na década de 80. Possui 150 quartos e uma piscina no último piso.
       
Depois dos habituais cumprimentos e enquanto tomávamos uma bebida, começámos a entrevista: -
Carlos: - Tito Olívio, qual foi o maior desafio que aceitou até hoje ?: -
Tito: - Olha Carlos, acho que foi o de ser pai. Tenho três filhos, que são inteiramente independentes, licenciados, com carreira promissora, respeitados e respeitadores.
Carlos: - Qual a característica que mais aprecia em si, e, nos outros ?: -
Tito: - Tenho dificuldade em reconhecer uma característica, porque a minha personalidade é feita de um somatório de características; nos outros, a lealdade, que é a mãe da confiança. Sem confiança não se pode viver com os amigos.
Carlos: - Seus passatempos preferidos ?: -
Tito: - Escrever e ler, que são actividades que me acalmam.
Carlos: - Quando o Tito era criança ?: -
Tito: - Acho que fui uma criança feliz, amada, embora não mimada. Fazia amigos muito facilmente, mas com tendência para a liderança.
Carlos: - Como vai de amores ?: -
Tito: - Enviuvei há quatro meses e estou ainda em fase de letargia, em adaptação a viver sozinho. Na minha vida tenho tido sorte nos amores.
Carlos: - Que género de filme daria sua vida ?: -
Tito: - Talvez a de um vencedor, porque nasci pobre e hoje considero-me rico. Um menino que frequentou a escola primária oficial, onde era o melhor da classe, cujo destino seria o curso comercial, o que já não era mau, pois a quase totalidade dos meus colegas foi para oficinas e estabelecimentos comerciais como aprendizes. O conselho das tias (solteironas) movimentou as vizinhas para pressionarem o meu pai a meter-me no liceu, de onde passei para o Instituto Superior Técnico. Meti-me na construção civil e fui o precursor no Algarve da propriedade horizontal. Aos 40 anos de idade já tinha um rendimento igual ao do meu vencimento na função pública.
Carlos: - Como se auto-define ?: -
Tito: - Tenho dificuldade em dar uma auto-definição, que seria, talvez, narcisista.
Acabada a nossa bebida, atravessaremos o Jardim Manuel Bívar, a pé, passando pela Santa Casa da Misericórdia de Faro e entrando pelo Arco da Vila, duas obras monumentais do fim do século XVIII, mandadas fazer pelo Bispo D. Francisco Gomes, que era Governador do Reino do Algarve. Estaremos, então, no interior das muralhas da Cidade Velha, também conhecida por Vila Adentro, com casario dos séculos XVIII e XIX, com o máximo de dois andares. Ali se encontram a Câmara Municipal, O Paço Episcopal e o Seminário, todos do séc. XIX, e a Sé Catedral, do séc. XIII, que dizem ter sido construída sobre a mesquita então existente naquele local. Por detrás da Sé, vemos a estátua de D. Afonso III, que foi o conquistador de Faro, situada no largo fronteiro ao Convento de N. Sª da Assunção, hoje Museu Municipal, e que, ao tempo da I República era uma fábrica de cortiça. Sairemos pelo Arco do Repouso, uma das três portas da Cidade Velha, onde dizem que as tropas portuguesas descansaram antes da tomada de Faro, que foi uma operação pacífica. Com efeito, fez-se sem derramamento de sangue. D. Afonso III prometeu aos mouros respeitar-lhes as vidas e os bens, se se rendessem, podendo continuar a viver em paz com os cristãos, o que veio, realmente, a acontecer. Chegaremos a um enorme parque de estacionamento, com lotação para 900 carros, onde eu deixei o meu. Aí se faz a feira de Santa Iria, que remonta à Idade Média, que decorre durante uma semana, apanhando o 17 de Outubro, o dia da Santa, e está situada a Igreja de S. Francisco e o respectivo convento, que foi quartel, até há poucos anos, e hoje é a Escola de Hotelaria e Turismo do Algarve. Paramos no parque de estacionamento subterrâneo da Pontinha, o largo que é o coração da Baixa de Faro, e percorremos, a pé, a Rua de Santo António uma artéria só para peões e cheia de comércio de qualidade, até chegar de novo ao Jardim Manuel Bívar. Subimos a Rua da Marinha, o Largo da Palmeira e regressamos à Pontinha, onde apanhamos o carro e subimos a Av. 5 de Outubro, onde se situa o Tribunal, a sede da Região de Turismo do Algarve, um edifício inteligente, todo em vidro, cujas luzes interiores se acendem automaticamente, conforme o grau de luminosidade, e o antigo liceu, agora escola secundária. Aí damos a volta à mata que envolve o liceu e visitamos, só por fora, o Palácio do Fialho, o mais belo edifício do fim do século XIX da cidade, estilo romântico parisiense, com dois andares e águas-furtadas, que é, actualmente, um colégio do ensino básico, pertença da diocese, que está metido dentro de uma grande mata. Daí vamos pela moderna Av. Gulbenkian, passamos pelo hospital distrital, pelo recém construído Teatro Municipal, pelo Fórum Algarve, que é um enorme centro comercial, subimos a estrada do Aeroporto e desviamos para a Universidade do Algarve, com os edifícios das faculdades em estilo a arremedar o árabe, mas grandiosos, envolvidos no vasto pinhal do Ludo. Daí seguimos para a Ilha de Faro, a nossa praia, que não é uma ilha, mas uma comprida restinga, cujas areias são uma barreira defensiva da zona da cidade e da Ria Formosa e dos seus canais.
Aproveitando o magnífico passeio que o entrevistado me estava a proporcionar, fui-lhe fazendo algumas perguntas para a entrevista: -
Carlos: - De que mais se orgulha ?: -
Tito: - De ter a sensação do dever cumprido, nesta fase final da vida. Para comigo, para com a família e para com os outros.
Carlos: - O arrependimento mata ?: -
Tito: - Se matasse, eu já tinha morrido muitas vezes, porque fiz bastante borrada na minha vida.
Carlos: - Qual a personagem que mais admira?: -
Tito: - Napoleão, por ter tido uma vida com bastantes semelhanças com a dele. Identifico-me com a sua força, com a sua ambição e com as suas fraquezas.
Carlos: - Que vício gostaria de não ter ?: -
Tito: - O de fumar, que deixei de ter há ano e meio.
Carlos: - O dia começa bem se ...?: -
Tito: - me sinto bem de saúde, com forças e sem dores de cabeça.
Carlos: - Que influência tem em si a queda da folha e a chegada do frio?: -
Tito: - A mesma que a Primavera. Deprimem-me.
Carlos: - O Cúmulo da beleza, e, da fealdade ?: -
Tito: - Beleza, um anjo; fealdade, o mal que os grandes do mundo fazem aos do seu país e aos de outros.
Carlos: - Uma imagem do passado que não quer esquecer no futuro ?: -
Tito: - Algumas borradas que fiz e que me serviram de exemplo e de experiência.
Carlos: - Para o Tito Olívio, Deus existe ?: -
Tito: - Para mim, sim. Sou agnóstico e, portanto, o meu Deus não coincide com o de nenhuma das religiões conhecidas.
Carlos: - Acredita em histórias fantásticas ?: -
Tito: - Não. Para se acreditar, é necessário acreditar em entes fantásticos.
Carlos: - O que é para você o termo Esoterismo?: -
Tito: - Não me interessa esse tema, não me desperta curiosidade. Dediquei-me ao estudo das religiões, para uma análise comparativa e mais nada.
Carlos: - Acredita na reencarnação ?: -
Tito: - Não. Acho absurdo que alguém possa acreditar na reencarnação em animais.
Carlos: - E em fantasmas ou em "almas do outro mundo" ?: -
Tito: - Não acredito. Verdadeiramente, nunca nenhum morto cá voltou, nem mesmo em espírito.
Carlos: - O imaginário será um sonho da realidade ?: -
Tito: - Pode ser. O imaginário não pode deixar de assentar na realidade e é muito mais belo que esta.
A determinada altura do nosso passeio, o entrevistado olhou para mim, dizendo: - "Não vamos ver o Estádio Algarve, que fica longe, nos limites do concelho com o de Loulé e é pertença de ambas as autarquias, porque só pode ver-se por fora e estamos sobre a hora do almoço.
Concordei logo com o Tito e atrevi-me a perguntar-lhe: "Então onde vamos almoçar ?". Sorrindo, respondeu-me: -
Tito: - Não há na cidade ou seus arrabaldes um restaurante de luxo, porque os turistas e os algarvios preferem locais onde se pague menos e coma bem. Quem quiser obsequiar um convidado com um serviço de categoria, terá de levá-lo a um dos dois hotéis já referidos e tomar uma refeição igual à de todos os outros hotéis. Como o meu convidado prefere a comida algarvia, escolhemos, de entre os muitos restaurantes da Baixa, o «Arcádia», que teve grandes tradições nos anos 60 e 70, quando se chamava «O Joaquim das Iscas». Hoje deram-lhe um nome mais fino, mas continua a comer-se bom peixe fresco e, nas noites de fim-de-semana, pode jantar-se com fados. À entrada, um cartaz avisa que «Hoje há caracóis», mas para entrada, escolhemos conquilhas, abertas com azeite e alhos, a que se junta coentros no fim, onde até se molha pão no delicioso molho. Dos diversos pratos à escolha, alguns dos quais iguais aos do resto do País, escolhemos ferreiras grelhadas, que pudemos ver na montra frigorífica com aspecto de acabadas de pescar, acompanhadas de vinho alentejano, pois não se comercializa o vinho algarvio, desde que fecharam as Cooperativas de Lagoa, Lagos, Portimão e Tavira. Para sobremesa, dom Rodrigo, que é um doce de fios de ovos tostados, embrulhados em papel de estanho.
Enquanto esperávamos pela refeição, o Tito Olívio foi falando da cidade de Faro: -
Tito: - "Faro é a capital do Algarve, uma cidade que aumentou em área e em população, devido ao desenvolvimento turístico da região. O facto de ter uma única praia, a Ilha de Faro, que dista 10 km da cidade, impediu o seu maior crescimento e a construção de bons hotéis. Teve colónias, desde os tempos mais remotos, havendo vestígios fenícios, gregos e romanos, onde se fazia a salga de peixe para abastecer os barcos de então, havendo mesmo quem defenda que é a lendária Ossónoba romana. Foi devastada pelo Conde de Essex, durante a ocupação espanhola, que roubou e incendiou a biblioteca da diocese, levando para Londres obras valiosas, entre as quais o único exemplar existente do primeiro livro impresso em Portugal, numa oficina de Faro, pertença de um judeu. Foi na Praça da Rainha que foi fuzilado «O Remexido», bandoleiro miguelista, que deu muito trabalho às tropas governamentais liberais, andando a monte e assaltando entre Messines e Loulé. Faro foi uma das poucas cidades portuguesas onde se fez uma Exposição dos Centenários, em 1940.
Carlos: - Amigo Tito, qual a sua melhor qualidade, e, seu maior defeito ?: -
Tito: - Qualidade, a solidariedade, porque sempre senti necessidade de me dar aos outros; maior defeito ... A vaidade, porque sempre gostei da minha pessoa e sempre me tive em alta consideração.
Terminado o almoço, entrevistado, convidou-me: -
Tito: - "O café, vamos tomá-lo na Esplanada da Doca, para onde podemos ir a pé, que é uma construção moderna, envidraçada, encostada à Doca, no Jardim Manuel Bívar, que foi, outrora, a Praça da Rainha, dado que a cidade pertencia às rainhas de Portugal. A acompanhar, bebemos um medronho, um álcool tipicamente da serra algarvia, cuja venda é proibida, mas que, curiosamente, todos os cafés têm para vender, servido em cálice".
E foi na esplanada que fizemos a última parte desta entrevista: -
Carlos: - Que livro anda a ler ?: -
Tito: - «O Código Da Vince», mas com esforço, porque o assunto não me interessa.
Carlos: - A cultura será uma botija de oxigénio ?: -
Tito: - Acho que é antes o pão do espírito, o alimento de que vivemos.
Carlos: - O filme comercial que mais gostou ?: -
Tito: - «E tudo o vento levou». A tecnologia existente na época fez deste filme um verdadeiro fenómeno, artístico e comercial.
Carlos: - Música e autores preferidos ?: -
Tito: - Toda a obra de Beethoven, Mozart e Shubert.
Carlos: - Autores e livros preferidos: -
Tito: - No romance, «Equador», de Miguel de Sousa Tavares, e as obras de Eça de Queiroz, Emílio Zola e Victor Hugo; na poesia, as obras de Guerra Junqueiro e de Florbela Espanca.
Carlos: - Tito Olívio, para finalizar, vamos falar de sua obra literária ?: -
Tito: - Comecei a escrever na «Gazeta do Sul», do Montijo, em 1951, quando tinha 20 anos de idade. Eram apenas contos, que vim a compilar em livro em 1963. Vinte anos depois, em 1983, publiquei o meu primeiro livro de versos, também uma compilação de entre os poemas que tinha feito desde os catorze anos. A partir daí, nunca mais parei e quase todos os anos publiquei livros, cujo total é de 22, abarcando as áreas do romance, do conto, do ensaio e da poesia. Escrevi regularmente para o «Correio da Manhã», para semanários algarvios e alentejanos e para revistas. Tenho quase centena e meia de prémios literários, no País e no Brasil. Tenho algumas Home Pages e todas estão abandonadas há anos, porque foram feitas por outros e não sei actualizá-las.
E, assim falámos de:
Tito Olívio Henriques
(que segundo nos contou "por engano de registo, pois tinha-me sido destinado o nome de Tito Lívio)
nascido a 23 de Março de 1931
reformado da função pública, onde trabalhou como engenheiro civil, no ramo da Hidráulica.

O ZÂNGÃO E A FLOR - Tito Olívio

          Tarde calma. Uma encosta virada ao mar, com profundas rugas traçadas pelas chuvas e pelo vento, terminava na crista da arriba, como se amparasse o terreno em declive, lá em cima, que parecia cair para as profundezas do mar. Entre tojos, carrascos e outras plantas eriçadas de picos, preparadas para afugentar as investidas permanentes dos insectos inimigos, uma flor bravia, pintalgava de cor a rudeza do solo semeado abundantemente de pedras escurecidas pelo tempo, como uma deusa milenária. Erecta em toda a sua formosura majestosa, radiosa de luz, envolvida por enigmáticos perfumes, cuja magia era uma irresistível atracção, natural e pura, lembrava uma dama medieval, que mirasse o oceano do alto das ameias das muralhas do castelo, onde se sentia prisioneira.
          Não era uma daquelas flores de jardim, raras e valiosas, que mãos delicadas de jardineiro profissional tivessem cuidado com desvelo, nem sequer de canteiro ou de vaso de janela, habituada aos carinhos de uma qualquer alma sensível de mulher.
          Era, simplesmente, uma flor campestre, filha de uma semente vadia, levada pelo vento para aquele local inóspito e que, na sua voluntariosa força de vida, lançou raízes por entre os pedregulhos, furando a escassa terra arenosa, também ela ali depositada pela ventania e abrigada da brisa salgada do mar.
          Nem por isso, porém, era menos bela e deslumbrante a flor, na humildade da sua singeleza e na sua condição de filha de ninguém. As pétalas rosadas, formando uma cruz perfeita, em homenagem ao Criador, chegavam, por vezes, a fazer inveja ao Sol, de tal modo sobressaíam do verde seco das plantas ressequidas que habitavam o lugar e do cinzento escuro da penedia. Afastada das pedras mais altas, dir-se-ia que ela tinha procurado nascer num lugar soalheiro e quente, onde nunca a sombra lhe roubasse a incidência dos raios solares.
          Guloso, o zângão, no esvoaçar constante de quem não foi fadado com muito tempo para gozar as coisas da vida, deparou com aquela mancha cor de fogo e todos os pelos do seu corpo roliço se eriçaram de prazer. Mirou a flor, apetitosamente bela e fresca. Não estava suficientemente perto para lhe sentir o perfume nem o aveludado das pétalas coloridas de rosa pálido, com dois laivos curvos de carmim forte, cuidadosamente desenhados para chamar a atenção dos passantes descuidados, mas não demasiado longe, para se não encandear com aquela luminosidade quente, para não ver distintamente que a aragem lhe fazia ondear a roupa de folhagem verde, com um fru-fru que causava arrepios de gozo.
          É que, ao olhá-la, imaginava o seu corpo despido daquelas tolas vaidades, que o escondiam teimosamente, oferecendo a sua nudez virgem, impudicamente.
          Daquela distância, não podia fiar-se senão na vista arguta, porque todos os outros sentidos estavam manietados perante a muralha de ar que se movia pela encosta acima, empurrada pela brisa marítima, fresca e pura. O insecto percorria, então, com o olhar, todas as curvas eróticas daquele ser perfeito e apetecível, daquela flor silvestre, que nascera no campo, sem ser semeada nem tratada e crescera para o Sol, numa ânsia desmedida de se mostrar, de se dar e de ser colhida.
          Visitara já, por mil vezes, flores de corpo frágil e doce como aquele e, por isso, associou à visão deslumbrante, que lhe chegava do solo, outras sensações gravadas na memória, como o odor perfumado que a corola aberta exalava, e a doçura do néctar que o gineceu perdulariamente oferecia ao prazer da gula da sua insaciável boca de zângão apreciador e guloso.
          Ali estava ela, a flor, perdulariamente oferecida, que punha no ar um inebriante hálito de frescura; o aveludado das pétalas lisas e sedosas, pele macia que foi feita para se acariciar com ternura. A magia estonteante daquele corpo de curvaturas harmoniosas era um verdadeiro hino de louvor à Natureza. Corpo rosado, vivo e puro na sua naturalidade singela de quem nasceu só para agradar.
          Estava ali, oferecida aos passantes, que tivessem olhos de ver para além do tapete pedregoso, pintalgado de mato verde seco, e não se deixassem enfeitiçar pela magia enganadora do mar pujante, cuja cor queria imitar o céu, ora de azulina brandura, ora de pardacenta ira, ciumento das coisas da terra, que encanta a atenção desprevenida, como a serpente atrai irresistivelmente o pobre passarinho indefeso, na rede das suas artes mágicas, misteriosas.
          Ali estava ela, a flor, impudicamente oferecida.
          O zângão não era um caloiro naquelas andanças, um recém transformado da larva feia, saída do ovo gelatinoso, que andasse ainda a aprender as coisas da vida. Tinha currículo. Sabia fazer a abordagem com suavidade e carinho, conhecedor que era da fragilidade própria das flores campestres, que se entregam com indiferença aos zângãos menos cuidadosos, como quem exerce uma função natural com uma fria precisão mecânica.
          Ele tinha consciência de que a sua vida era tão curta como a da flor e o voo já o cansava, porque deixara de bater as asas com a desenvoltura de semanas atrás. Não tinha precisado de ir à escola para saber que há tantas flores na terra como estrelas no céu; que muitos milhares de concorrentes procuravam igualmente o saboroso néctar, como borboletas, pássaros, moscas e até formigas; que as fêmeas não escolhem os machos e são estes que decidem, entre si, qual é mais forte e digno de deixar descendência; que o mundo era dos mais belos, dos mais fortes e dos mais audazes.
          Por tudo isso, doía-lhe não ter conhecido ainda o amor, quando era já tão curto o seu futuro.
          E ali estava ela, a flor, impudicamente oferecida, talvez à sua espera, como parceira da união perfeita.
          Queria colher o mel que lhe revestia os carpelos, cuja doçura conhecia de outras flores, mas desejava que, desta vez, a entrega fosse um acto de ternura e não uma colheita sensaborona de quem cumpre o fado estipulado pela Natureza, que nem sempre é pródiga e justa, pois distribui de forma cega os atributos pelos seres viventes e carecidos de amor, indiferente às reais necessidades de cada um. Sabia que o dar e o receber é um acto de amor, uma transcendente troca, em que cada parte sorve, por si e pelo outro, a sua quota do infinito prazer de cumprir de forma afectuosa a sua função natural.
          Dar por dar e receber por receber não são trocas, não passam de funções unilaterais de incompleta satisfação, que deixam na boca o amargo do imperfeito, pois só com a estreita comunhão dos seres se atinge a suprema elevação.
          O zângão sabia que a exterioridade da beleza é, muitas vezes, ilusória e que flores há, cuja formosura deslumbra os sentidos, como a rosa, mas com a qual se corre o risco de picar-se nos seus acerados espinhos, se não for abordada com mil cuidados; sabia que outras, no esplendoroso colorido das suas pétalas, ocultam o vazio do interior de um cálice sem néctar, do nada absoluto, como se a Natureza as tivesse construído só por fora, completamente ocas por dentro; sabia, ainda, que outras, as plantas carnívoras, usam a beleza da sua corola para fins maléficos, como um feitiço diabólico, um atractivo irresistível e fecham as pétalas com uma velocidade incrível, sobre o corpo do incauto que sobre elas poise, para o devorar, depois, lentamente, no interior daquela prisão colorida e odorífera, de onde não pode mais libertar-se.
          O zângão sabia, então, que beleza pura e simples tem a flor silvestre, que ostenta a formosura sem dissimuladas falsidades, odorada por perfume inebriante, e que possui um conjunto de perfeição, em que o exterior, colorido e atraente, supremamente apetecível, comunga na união com o seu interior de incalculável riqueza em sabor divinal, cujo néctar meloso só pode conhecer verdadeiramente quem consiga penetrar no âmago do seu mais íntimo dos íntimos.
          Só lá, no mais recôndito do gineceu, na intimidade secreta da câmara abrigada pelo cálice fértil, a sua boca gulosa podia conhecer a magia de uma lauta refeição, escutando a música sofrida dos violinos, com acompanhamento de harpas. Depois, seria o silêncio absoluto, o merecido nada, que não é o vazio, pois também o nada é uma parte do tudo, como se o completasse numa eterna harmonia.
          Mesmo dali, até onde a brisa marítima permitiu que fosse no seu voejar, era como se o zângão estivesse envolto já pelo perfume suave da flor de corola rosada e sentisse nos lábios a doçura do néctar melado, delicioso, porque a memória lhe transmitia todas as sensações já sentidas e a imaginação o colocava no interior mágico da flor, no seu desejo ardente de colheita farta, num direito que a Natureza concede aos seres vivos, estimulando-os com efeitos mágicos, como a sedução, a atracção e a satisfação plena e total.
          De repente, porém, o Sol escondeu-se por detrás de nuvens cerradas, que formavam castelos de chumbo, tal como a donzela púdica foge para trás das cortinas da janela, ao ser cortejada da rua por qualquer atrevido. O astro, no entanto, não se ocultou de todo. Tal como a menina envergonhada, que depois de se pôr atrás das cortinas, fica sempre a espreitar através da transparência do tecido do cortinado, de onde pode mirar, sem receio e à vontade, o audaz adulador, os raios solares, quentes e dourados, furavam a maciez dos vapores do tecto nublado, pardacento, e alcançavam a superfície do mar em cordões de luz, como amarras de estranha nave espacial, vinda de um qualquer planeta desconhecido.
          O zângão, esqueceu, por breves instantes, a sua desejada flor e desfrutou, extasiado, aquele espectáculo deslumbrante de negro e ouro, sem pensar sequer que o céu podia abrir-se em catadupas de água cristalina e benfazeja, mas perigosa para a sua sobrevivência. É que a flor estava lá, predestinadamente à sua espera, presa irremediavelmente ao solo duro e seco, enquanto que a visão que surgira diante dos seus olhos era uma magia fugaz e talvez nunca mais a pudesse presenciar.
          Quando as nuvens se fecharam e o Sol recolheu os tentáculos de oiro, a sua atenção retornou para a florinha rosada, tímida, mas desejada. Apesar da clara luz do dia se ter tornado turva de cinza, permitia-lhe, ainda, uma visão perfeita e concisa da paisagem que estava por baixo dele e todos os atributos da flor eram nítidos e perfeitos, mostrando-se em todo o seu encantamento.
          A brisa marítima, escoada por entre as feridas escancaradas dos muros em ruínas, continuava a agitar a roupagem de folhas verdes da bela flor silvestre, como num convite mudo para uma dança fantástica, sobrenatural, estonteante, como se ela fosse uma vestal de antigo oráculo misterioso, bailando por entre as labaredas rubras duma ara de tentação, e ele o Ulisses cobiçado pelas sereias do mar, que cantassem para o encantar.
          Entretanto, o medo tinha-se apoderado dos seres vivos, porque a Natureza é mãe, mas também é, por vezes, madrasta. Castiga a torto e a direito, sem olhar a quem, como se fosse cega de nascença. Nem um pássaro se atrevia a cruzar os céus, nem uma ave do chão procurava alimento por entre a teia do tapete de verdura. Todas haviam fugido a abrigar-se nos ramos das árvores mais fortes ou na segurança dos buracos. A aranha abandonou o seu ponto de vigia no centro da teia sedosa, mas fatal, e foi refugiar-se numa das bordas, encolhida entre as longas patas peludas.
          O zângão apercebeu-se de que se aproximava uma borrasca, que em breve as nuvens se desfariam em água e que urgia apressar-se, pois o mel devia ser colhido sem chuva. A suave brisa marítima estava a transformar-se em ventania, redobrando a fúria a cada instante, e ele sabia que podia ter de deixar de voar, se queria continuar vivo. Fixou os olhos no local onde estava a flor e foi descendo na sua direcção, em voo circular.
          E foi então que toda a magia se desfez na tarde pardacenta, onde só os ralos e as cigarras pareciam ter vida, pois persistiam nos seus trilos monótonos, indiferentes à tempestade que se avizinhava. Era como se alguém de alma dura tirasse à criança o brinquedo de que gostava muito e restasse insensível às suas lágrimas desesperadas; ou como a noiva que, no cais, vê partir o seu amado para uma viagem sem regresso marcado e fica chorando a dor de não saber quando se irá casar; ou como a promessa não cumprida, ou como o amor atraiçoado.
          Desesperado, lutando contra os elementos adversos, o zângão acelerara o batimento cadenciado das asas hirtas e membranosas e chegou junto da flor apetitosa, no desejo secreto de lhe sugar as entranhas adocicadas. Quando se preparava para pousar as peludas patas sobre as pétalas da flor, deparou-se-lhe uma visão totalmente inesperada, impossível de descortinar das alturas, em que estivera.
          A bela e apetecida flor rosada, com pétalas raiadas de fios de carmim, estava completamente coberta por um enxame de pequenos insectos, que lhe sugavam o néctar, e ela, passivamente, entregava-se sem revolta aqueles pequeninos seres, que a Natureza fizera agentes polinizadores. Parecia ter a felicidade das mães quando estão a amamentar os filhos.
          Como por efeito dum cataclismo diabólico, a esperança do zângão no amor cada vez menos provável ruiu num instante, como altaneira e velha fronde partida pela violência de um furacão. Ficou ali, varado, mudo e quedo como uma estátua, sobre uma grande pedra a servir-lhe de pedestal, e nem deu por que a chuva começara a cair sem dó nem piedade, enquanto o negrume do céu se abria em fugidios raios de fogo. Era o fogo de artifício celeste, de fim de festa, a rir-se da sua desgraça.

Formato de:
Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal