GRANDES ENTREVISTAS

VIEGAS FERNANDES DA COSTA

CARLOS LEITE RIBEIRO

Carlos Leite Ribeiro entrevistando

 

  VIEGAS FERNANDES DA COSTA

          É sempre um prazer visitar, embora virtualmente, Blumenau, município do Estado de Santa Catarina, Brasil. O ponto de encontro para esta entrevista ao nosso amigo VIEGAS FERNANDES da COSTA foi a entrada do Arquivo Histórico da cidade. Daí, fomos a té a um bar da Rua XV de Novembro, onde começámos a entrevista: - Amigo Viegas, quais os seus passatempos preferidos ... ?: -“Olhe Carlos, ler, ouvir música e buscar informações na Internet”. – Qual a sua melhor qualidade, e, seu maior defeito ... ?: -“Qualidade, hummmm, esta é uma pergunta que deve ser feita aos que me cercam; defeito, é a ansiedade”. – Como vai de amores ... ?: -“Êta pergunta difícil de responder”. – Qual a característica que mais aprecia em si, e, nos outros ... ?: -“Em mim, a capacidade de acreditar nas possibilidades do impossível; nos outros, a capacidade de escutar, aprender e lutar por suas utopias”. – Qual foi o maior desafio que aceitou até hoje ... ?: -“Viver”. – Quando você era criança ... ?: -“Sonhava muito ..., hoje sonho ainda mais”. – Como é que o Viegas se auto-define ... ?: -“Um sonhador inveterado, um preguiçoso compulsivo, um leitor apaixonado, um escritor inacabado ... Ou, um aprendiz do absurdo, um louco por opção, um educando educador, um educador educando ... em outros termos, defino-me tão e simplesmente como Viegas”. – Que género de filme daria sua vida ... ?: -“Um drama ? Uma comédia ? Talvez nenhum dos dois ... Há de se inventar o gênero ...”.
          – Uma imagem do passado que não quer esquecer no futuro ... ?: -“Para um historiador, estas imagens são em grande quantidade. Deixe-me ver ... O estudante enfrentando os tanques em Pequim é uma delas ...”.
– De que mais se orgulha ... ?: -“Da profissão que abracei (magistério), da minha família direta (pais e irmãos)”. – Qual a personagem que mais admira ... ?: -“Carlitos, Ernesto “Che” Guevara, o estudante que enfrentou os tanques na praça da Paz Celestial, em Pequim”. – Para o Viegas qual o cúmulo da beleza, e, da fealdade ... ?: -“Beleza, é difícil responder ... A liberdade, este sentimento que ninguém consegue definir, mas que todos acalentam no peito; fealdade, a tirania”. Que vício gostaria de não ter ... ?: - “Conversar”.
          – Para você, o arrependimento mata ... ?: - “Mata !”. – O dia começa bem se ... ?: -“Eu acordar e puder respirar”. – Que influência tem em si a queda da folha e a chegada do frio ... ?: -“Toda a influência do mundo. Amo o frio, o inverno principalmente”. – As piadas às louras são injustas ... ?: -“Completamente injustas. Não gosto das piadas que descriminam grupos étnicos, Gêneros, ou Pessoas com direitos especiais”. – Mudando de assunto: Para o Viegas, deus existe ... ?: -“Esta é uma pergunta complexa que mereceria uma resposta longa. Em rápidas palavras a minha crença em Deus se resume no seguinte: Tudo o que existe é composto por energia. A energia é a mesma, compõe-nos e compõe a todos os objetos, seres vivos e elementos perceptíveis e imperceptíveis. Portanto, a energia está em todos os lugares, é o próprio mundo. Penso que Deus é esta energia. Está dentro de nós, fora de nós, somos deus porque somos esta energia. Deus nada criou, em nada interfere, ele apenas é !”.
          – O que é para você o termo Esoterismo ... ?: -“Não aprecio muito”. – Acredita na reencarnação ... ?: -“Não, pelo menos até ao momento ninguém conseguiu me convencer dela”. – Acredita em fantasmas ou em “almas do outro mundo” ... ?: -“Fantasmas, só mesmo os que povoam o meu interior”. – O Imaginário será um sonho da realidade ... ?: -“Imaginário, realidade ? Qual a diferença ? Podemos ter certeza de alguma coisa ?”.
          – Acredita em histórias fantásticas ... ?: -“Fantásticas como ?”.

          Fantástico é que tivesse chegado a hora do almoço sem quase darmos por ela. Fomos a um restaurante que tem uma bela panorâmica para o Rio Atajaí Açu. Pelo caminho, o Viegas Fernandes da Costa, foi-nos falando um pouco de Blumenau: - “É uma cidade de porte médio, muito bonita. Merecem destaque a Rua XV de Novembro, agora reurbanizada, o Arquivo Histórico, local onde me delicio buscando os ecos do passado, o Rio Atajaí Açu (quase mitológico este rio, personagem ilustre da história do município – foi por ele que navegou o vapor “Progresso” no século passado, e é ele também o algoz do povo – as capivaras que invadem, tal qual os pombos em Paris, o espaço urbano blumenauense”.

          O nosso almoço fui o saboroso churrasco, com muita salada e acompanhado por vinho tinta da região. Durante a refeição, continuámos com a entrevista: - “Para o Viegas, a Cultura será uma botija de oxigénio ... ?: -“A cultura somos todos nós ! A humanidade é a cultura, a cultura é o mundo !”.
          – Que livro anda você a ler ... ?: -“Neste momento Marcel Proust, " Em Busca Do Tempo Perdido”, ainda há pouco lia Jorge Amado e Bartolomé de Las Casas”. – Vamos falar de autores e livros preferidos ... ?: -“São muito. Para facilitar, citarei os que para mim são mais significativos e, respectivamente, as obras que mais me influenciaram. Ignácio de Loyola Brandão (“Zero” e “Não Verás País Nenhum” – obras que influenciam na minha prosa), Carlos Drummond de Andrade (as suas obras poéticas), Castro Alves (“Navio Negreiro”), José Saramago (“Ensaio Sobre a Cegueira” e “Memorial do Convento” – obras antológicas !), Jorge Amado (“Mar Morto” e “Gabriela Cravo e Canela” são verdadeiras obras- primas da literatura mundial), Lima Barreto (“Os Bruzundangas” – sátira mordaz dos costumes cariocas das primeiras décadas do século XX, inspiração para o “Comentário da Semana”), João Cabral de Melo Neto (“Vida e Morte Severina” – um dos mais belos poemas que já li), Graciano Ramos (“Vidas Secas”), Augusto dos Anjos (toda a sua obra poética), Émile Zola (“Germinal”), Moacir Scliar (“Mês de Cães Danados”), Gabriel Garcia Márques (“Cien Años de Soledad”, “A Morte do Coronel” entre outros), além de muitos outros autores e obras. Realmente, são muitos para que eu cite a todos”. – Muito bem. Agora vamos falar de música e autores preferidos ... ?: -“Chico Buarque (destaque para a música “Roda Viva”), Geraldo Vandré (“Para não dizer que não falei de flores”), Raul Seixas (a maioria das suas composições, principalmente “A Maçã”, “O dia em que a Terra parou” e o “Conto do sábio chinês”), Zé Ramalho (muitas das suas composições), o cantor português Pedro Abrunhosa (pura poesia as músicas que canta, principalmente as do álbum “Tempo”), John Lennon (principalmente “Imagine”), entre tantos outros. Em verdade, gosto muito da música popular brasileira. Ahh, tem também “Ana Karenina”. – E qual o filme (ou filmes) que mais gostou ... ?: -“Esta lista também não seria pequena ... “O Carteiro e o Poeta”, mas deveria incluir também “O que é isso campanheiro ?”, “Amazônia em Chamas”, etc. Sou um apaixonado pelo cinema brasileiro e italiano, além de gostar muito dos filmes franceses, do neo-zalandês “O Piano” ... ahh, quase me esquecia, sou um grande fã do Charlie Chaplin, os filmes “O Grande Ditador”, “Tempos Modernos”, “O Garoto” são antológicas no cinema mundial”. – Para terminar, vamos falar da sua obra literária ... ?: -“Não possuo (até ao momento) livros publicados. Porém possuo grande quantidade de trabalhos (contos, crônicas, poemas e artigos historiográficos) publicados em revistas, jornais, anuários, sites e boletins, além de participar da antologia “Contos Poesia”, 1999, publicados pelo Sinergia de Florianópolis (SC), com o conto “A Voz Sem Som. Em 2003 tive 2 poemas participando de antologias nacionais publicadas pela Câmara Brasileira do Jovem Escritor. Meu livro de crônicas, "Aqueles que Desconhecemos", aguarda publicação na Editora Cultura em Movimento, de Blumenau, SC." 

          E assim falámos de: VIEGAS FERNANDES da COSTA

Nascido a 21 de Fevereiro de 1977. É Professor e Pesquisador


Viegas (de barba) e Ricardo Machado

ESPANTALHOS NO DESERTO

Espantalhos no deserto não afugentam pássaros
nada há para ciscar no calor escaldante
Espantalhos consumidos pelo tempo persistem
e ao sol assemelham-se a dois Cristos crucificados
Espantalhos, solitários, contam as horas projetadas nas sombras
dos dias carregados no árido vento
Espantalhos sem olhos relembram compungidos
do lavrador e sua enxada os gemidos

não há mais gemidos
ou enxadas para revolver a terra,
não há mais motivos
para que se estendam os braços espantalhos,
e eles desistem,
suas cabeças caem, suas vestes voam
restam apenas duas cruzes e a lembrança
de um velho doente e sua filha prostituída
sentados sob a sombra de um grande viaduto
desenganados na vida e saudosos
dos espantalhos que construíram para guardar um futuro
que nunca chegou.


RISCOS NOS MUROS

risco os muros não riscados, cobertos de musgo
os muros das esquinas, escuros, distantes dos postes
testemunhas do sexo e do medo
risco os muros cobertos de sêmen, fiapos de roupas
prostíbulos improvisados, o sangue das nádegas rasgadas
sombrias paredes que se erguem na cidade
risco a esmo riscos que não dizem nada
traços alheios ao que se passa no concreto silencioso
apenas marcas de um caminhar desorientado
risco velhos muros cobertos de limo, lisos, asquerosos
paredões de fuzilamento, guardiões da minha sombra
calçada para os meus dedos, e a tinta se gasta
risco os muros com o sangue que recolho da calçada
na concha da mão o líquido viscoso, tinta para os riscos
que risco sem dizer nada
risco os muros que rasgam a noite, rasgados por marcas indecifráveis
rascunhos para os poetas sem livros, quadros para pintores sem telas
privadas para homens sem abrigo
risco, apenas, mais nada
riscos de tinta, riscos de sangue, riscos de tédio
riscos dos riscos que corro ao riscar na noite
riscos dos riscos que conspurcam os muros
risco, apenas, mais nada