AFOGADOS (bairro, Recife)
Semira Adler Vainsencher
semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação
Joaquim Nabuco
No começo da colonização de
Pernambuco, as terras que compreendem o bairro de Afogados, foram doadas
a Jerônimo de Albuquerque, pelo donatário Duarte Coelho. Quando Jerônimo
morreu, sua filha vendeu a parte que lhe cabia por herança, e a
localidade (que era coberta por mangues) foi sendo revendida a partir de
então. A notícia concreta sobre as vendas está documentada na escritura
passada em 24 de abril de 1593.
Outra referência importante sobre
Afogados é datada de 18 de março de 1633, ocasião em que os holandeses
tomaram de assalto uma fortificação guarnecida por 130 homens,
comandados pelo capitão Francisco Gomes de Melo, no Passo do rio dos
Afogados.
Cabe explicar que a razão desse nome,
segundo o escritor Diogo Lopes de Santiago, do século XVII, advém do
fato de muitos indivíduos, principalmente os escravos negros, se
afogarem ao tentar passar pelo rio Cedros - um braço do rio Capibaribe
que, partindo do lado da Madalena, saía pela Ilha do Retiro, beirava o
subúrbio da localidade e alcançava o coração do Recife. Durante a maré
cheia, esse rio se tornava muito arrebatado e furioso. Daí, muitos
indivíduos que desconheciam o perigo, ou que não tinham paciência para
aguardar a maré baixar, terminavam morrendo afogados durante a
travessia.
Certamente por esse motivo, no dia 17
de fevereiro de 1531, o colonizador Pero Vaz de Souza escreveu, em seu
diário de navegação, que sete homens da nau Capitania tinham se afogado
na barra do Recife. E o escritor holandês Barlaeus, em obra impressa em
1647, registrou sobre o percurso do braço do rio Capibaribe o seguinte
comentário: "passa em frente da povoação Fluvius Afogadorum: Rio dos
Afogados".
Em 1737, o governador de Pernambuco
mandou construir a ponte de Afogados e fazer um grande aterro, começando
pelo lugar onde se encontra, hoje, o Forte das Cinco Pontas. Tal obra
ficou conhecida como Aterro dos Afogados, passando a ser referida,
depois, como rua Oitenta e Nove e, no presente, é chamada rua Imperial.
Outro governador do estado empreendeu
melhoramentos no referido aterro: deu ordem para que se tirasse areia de
um terreno, fazendo surgir buracos e, em seguida, mandou que os
enchessem com água. Os referidos buracos se transformaram, então, em
grandes viveiros de peixes, ficando conhecidos como os "viveiros do
Muniz", em homenagem ao proprietário das terras: Antônio José Muniz. Num
pedaço do aterro, também foram plantadas gameleiras frondosas. Vale
ressaltar que uma pequena parte dos viveiros deu origem à atual praça
Sérgio Loreto. Mas, a rua que deságua no Mercado de São José manteve o
antigo nome: rua do Muniz.
Em meados do século XVIII, conforme
registra a obra América, do holandês Arnouldus Montanus, a povoação de
Afogados já contava com um compacto agrupamento de casas - de boa
construção e estilo flamengo -, uma capela, e um curtume de sola onde
trabalhavam 14 escravos.
Por volta de 1785, a capela foi
transformada na igreja de Nossa Senhora da Paz. Porém, somente no ano de
1873, foi criada a paróquia de Nossa Senhora da Paz.Durante a invasão
holandesa, estabeleceu-se um presídio militar em Afogados, sob o comando
do capitão Manuel da Mota Araújo. Esse presídio foi atacado por 400
homens dos mascates, no dia 7 de setembro de 1711, que tentaram se
apossar da povoação.Houve grandes lutas, ainda, durante a campanha
constitucionalista de 1821.
Um periódico da época publicou uma
matéria denunciando que o governador Luís do Rego Barreto atacou a
povoação, matou com baionetas inocentes meninos e indefesas mulheres e,
depois, saqueou as casas dos pacíficos habitantes, violando o sacrário
das igrejas e das imagens sobre os altares.
Outros renhidos combates ocorreram
entre as forças republicanas - que defendiam a povoação de Afogados -, e
um grande efetivo de tropas do exército imperial, vindo do Rio de
Janeiro para suplantar o movimento revolucionário da Confederação do
Equador (1824).
Durante a intentona comunista de 1935,
também foram travadas grandes lutas no bairro de Afogados.Em Afogados
existiram algumas tipografias, de onde saíram revistas e periódicos
pernambucanos. Na segunda metade do século XIX, em particular, ali eram
impressos os periódicos O Verdadeiro e Liberal Afogadense, ambos
redigidos pelo jornalista Antônio Borges da Fonseca. A revista Alvorada
(publicada no Recife no começo do século XX) era produzida por rapazes
daquela localidade.
Com a construção e pavimentação de
novas ruas e avenidas, o bairro de Afogados vem se desenvolvendo
bastante. Além de muitos domicílios, a localidade é, praticamente,
autônoma, comportando várias escolas, hospital, postos de saúde,
agências bancárias, metrô, supermercados, e outras casas comerciais.
Fontes consultadas:
COSTA, F. A. Pereira da. Arredores do Recife. Recife: Fundação
de Cultura Cidade do Recife, 1981.
GALVÃO, Sebastião de Vasconcellos.
Diccionario chorografico, histórico e estatístico de Pernambuco.
Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1908. 4v.
GUERRA, Flávio. Velhas igrejas e
subúrbios históricos. Recife: Fundação Guararapes, 1970.
Semira Adler Vainsencher