ANA AURORA DE JESUS RIBEIRO

Semira Adler Vainsencher
psicóloga e pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco



Antes de se discorrer sobre Ana Aurora de Jesus Ribeiro, cabe informar alguns dados sobre a Revolução Praieira, a maior insurreição popular contra a monarquia e os poderosos senhores de engenho, que ocorreu no Segundo Reinado, na província de Pernambuco. Enquanto as províncias de São Paulo, Minas Gerais e do Rio de Janeiro prosperavam, do ponto de vista econômico, as condições em Pernambuco - bem como no Nordeste, de um modo geral - eram de pobreza absoluta e franca decadência.
Os portugueses monopolizavam, praticamente, todo o comércio local - armazéns, padarias, quitandas, lojas de retalhos, vestuários, utensílios domésticos - e não empregavam a mão-de-obra brasileira. Além do mais, vendiam as mercadorias pelo preço que desejavam, tinham privilégios comerciais na província, e, a cada dia, o custo de vida aumentava.
Neste sentido, em 1842, um grupo de democratas pernambucanos liderados por Joaquim Nunes Machado, Inácio Bento de Loiola, Borges da Fonseca, Abreu Lima e Pedro Ivo, descontentes com o status quo, fundaram o Partido da Praia, se organizaram politicamente, e elaboraram o denominado Manifesto ao Mundo, documento este que exigia a proclamação da república, o fim da monarquia, o fim do voto censitário (para que todos pudessem votar), a extinção do Senado vitalício, a liberdade de imprensa, entre outros. Os focos de revoltas se alastraram e os líderes desencadearam um Movimento de revolta que ficou sendo conhecido por Revolução Praieira, e que começou em Olinda.
Joaquim Nunes Machado era o chefe do Partido Popular, havia concluído o Curso de Direito, era Juiz de Direito em Goiana, em seguida, assumiu a Primeira Vara Criminal do Recife e chegou a ser Desembargador. Era um homem alto, forte e muito corajoso, e falava com eloqüência e desenvoltura, convencendo a todos. Foi eleito e reeleito Deputado. Consciente de seu prestígio junto aos revoltosos, ele decidiu se expor e propôs o assalto ao quartel. Recebeu, porém, uma bala na região temporal da cabeça que causou sua morte imediata. Era o dia 2 de fevereiro de 1848.
Para que não ele caísse nas mãos dos adversários, os seus correligionários, guiados por Inácio Ribeiro de Mendonça, decidiram esconder o corpo do líder na capela da Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Belém, um marco do início populacional do bairro de Campo Grande.
É a partir desse ponto que Ana Aurora de Jesus Ribeiro entrou para a História. Acontece que Inácio Ribeiro de Mendonça era zelador da Capela de Belém, além de ser parente de Joaquim Nunes Machado, e marido de Ana Aurora. O zelador, após ter trancado todas as portas da igreja, entregou as chaves à sua esposa, e refugiou-se em seguida em sua residência, ao lado da igreja.
Encontrando a igreja toda fechada, o capitão Figueira de Melo intimou a senhora Ana Aurora, em nome das forças policiais:
Quero as chaves, ou então mandarei passá-la pelas armas.
Ana Aurora, já com setenta anos de idade, mas sem temer as represálias, recusou-se a entregar as chaves às tropas do capitão. E, assim, lhe respondeu:
As chaves, não as tenho. E se tivesse não as dava.
Com pancadas de sabre e golpes de armas, Ana Aurora foi agredida violentamente. Mesmo assim, não entregou as chaves da Capela. O chefe de polícia ordenou, a seguir, que as portas fossem arrombadas. Feito isso, os soldados retiraram o corpo do líder praieiro, já em estado de putrefação. Enrolado em uma rede, o falecido foi transportado para o Recife pelas forças policiais.
Ana Aurora foi seviciada e arrastada, pelos soldados, até o quartel do corpo de polícia do Recife. Em seguida, condenada à prisão. Apesar da idade avançada e de suas limitações físicas, a valorosa senhora, sem pegar em armas, resistiu com os meios de que dispunha, e se tornou a heroína da Revolução Praieira.
Após alguns anos, mediante uma anistia ocorrida em 1852, Ana Aurora de Jesus Ribeiro conseguiu ser libertada do cárcere, no quartel de Polícia. Ela faleceu bem idosa, no dia 5 de julho de 1876.

Fontes consultadas:

ANA Aurora. Disponível em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ana_Aurora Acesso em: 19 jan. 2010.

CANCIAN, Renato. Revolução Praieira – Democratas pernambucanos pedem fim da monarquia. Disponível em:
http://educacao.uol.com.br/historia-brasil/ult1689u42.jhtm Acesso em: 23 jan. 2010.

CAVALCANTI, Carlos Bezerra. O Recife e seus bairros. Recife: Câmara Municipal do Recife, 1998.

COSTA, Francisco A. Pereira da. Anais pernambucanos 1795-1817. Recife: Fundarpe, Diretoria de Assuntos Culturais, 1984. v. 5; 7.

GUERRA, Flávio. Velhas igrejas e subúrbios históricos. 2. ed. rev. aum. Recife: Fundação Guararapes, 1970. 265 p.

SAMPAIO, Wilson Vilar. Nunes Machado – herói e poeta. Disponível em:
http://www.memorialpernambuco.com.br/memorial/paginas/historia/121setembrizada_1831.htm Acesso em: 26 jan. 2010.

SCHUMAHER, Shuma; BRAZIL, Érico Vital (Org.). Dicionário mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

VAINSENCHER, Semira Adler. Campo Grande (bairro, Recife). Disponível em:
http://www.fundaj.gov.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=16&pageCode=300&textCode=961&date=currentDate
Acesso em: 30 jan. 2010.
 

 

Semira Adler Vainsencher

semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco
http://semiraadlervainsencher.blogspot.com/