ANTÔNIO MARIA
Semira Adler Vainsencher
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco
No dia 17 de março de 1921, na rua
da União, no Recife/Pernambuco, nascia Antônio Maria Araújo de
Morais. Ele passou a sua infância entre o engenho do seu avô e o
velho sobrado da cidade. Foi aluno do Colégio Marista e estudou,
também, piano e francês. No final da adolescência, ele já era amigo
de vários compositores, a exemplo de Fernando Lobo, Arlindo Gouveia
e Hugo Gonçalves Ferreira (Hugo Peixa).
Antônio Maria enveredou pela boemia, passando a buscar os prazeres
noturnos no Cabaré Imperial, bem como em um pequeno bar chamado
Gambrínus.
Sendo filho e neto de usineiros e estudante de agronomia, ele foi
estagiar na própria usina da família, como técnico de irrigação de
cana-de-açúcar. Por sua vez, Antônio Maria vivenciou a divisão, a
venda dos bens e a falência de seus familiares.
No tocante a esse assunto, ele esclarecia:
"Um dia amanhecemos pobres, nossos automóveis foram ser carros de
praça, o veraneio da praia ficou para quando Deus desse bom tempo."
Em 1934, Antônio Maria era admitido na Rádio Clube de Pernambuco,
como locutor e apresentador de programas musicais feitos com discos.
E, em bem pouco tempo, o seu nome já se destacava ao lado de alguns
profissionais ilustres da época, tais como
Nelson Ferreira,
José Renato, Mercedes Del Prado, Ziul Mattos, Hélio Peixoto e
Aloísio Pimentel.
Antônio Maria viajou para o Rio de Janeiro em 1940, tendo ido
trabalhar como locutor esportivo na Rádio Ipanema. Contudo, devido
ao seu estilo peculiar de irradiar os jogos, logo acabou sendo
dispensado do emprego.
Improvisava sambas com Fernando Lobo e freqüentava os bares
cariocas. Como ele não conseguia um emprego no Rio, retornou ao
Recife, indo trabalhar em jornais, produzir músicas para publicidade
sendo, inclusive, locutor esportivo.
Em 1944, Antônio Maria se casou com Mariinha Gonçalves Ferreira, a
irmã do seu amigo Hugo Peixa, e foi morar em Fortaleza. Nesta
cidade, ele trabalhou, por quase um ano, na Rádio Clube do Ceará,
graças aos esforços do seu amigo Fernando Lobo. No entanto,
retornaria logo ao Rio de Janeiro, passando a exercer o cargo de
diretor de produção da Rádio Tupi, além de publicar crônicas no
periódico O Jornal.
Atuou também como jornalista no Diário Carioca, assinando a coluna A
noite é grande; na Revista Manchete, com a coluna Pernoite, e nos
jornais O Globo e Última Hora. Por trabalhar no horário noturno,
muitos diziam que ele era um repórter das noites cariocas.
Por ser um indivíduo muito talentoso, Antônio Maria conseguiu ser
admitido, como diretor de produção, na primeira televisão brasileira
- a TV Tupi - no dia 20 de janeiro de 1951. Nessa televisão, ele
exerceu inúmeras atividades: atuou na locução esportiva, nos
jingles, nos roteiros dos espetáculos, no humorismo e na crônica.
Antônio Maria não tocava instrumento algum. Costumava cantarolar as
músicas e fazer as letras na medida em que criava as melodias. O seu
primeiro frevo intitulado Frevo no. 1 do Recife (trabalho integrante
de uma série de cinco frevos), foi composto em 1951. Neste mesmo
ano, ele criava o samba Querer bem, em parceria com Fernando Lobo.
O seu grande sucesso como compositor, entretanto, viria somente a
partir de 1952, ano em que a cantora Nora Ney iria lançar o
samba-canção Ninguém me ama, como também o samba-acalanto Menino
grande, que Antônio Maria produzira em parceria com Fernando Lobo.
Em 1955, o compositor adquiria novas e importantes parcerias, a
exemplo de
Manezinho Araújo,
Vinícius de Morais, Evaldo Gouveia, Moacir Silva, Paulo Soledade,
Zacarias, Zé da Zilda, Pernambuco, Reinaldo Dias Leme, João Roberto
Kelly e Luís Bonfá.
Na década de 1950, Antônio Maria iria compor com Vinícius de Morais
os sambas Quando tu passas por mim e Dobrado de amor a São Paulo,
ambos gravados por Aracy de Almeida. Ainda em parceria com aquele
poeta, ele criava outra música: Bate, coração. E, com Zé da Zilda,
produzia os sambas Não fiz nada, Meu contrabaixo e Não vá embora.
Ismael Neto representou um importante parceiro para Antônio Maria.
Com ele, compôs Valsa de uma cidade, o choro lento Carioca, e o
samba-canção Sei perder a canção da volta. Em 1959, comporiam Manhã
de carnaval e Orfeu do carnaval, duas músicas que integraram a
trilha sonora do filme Orfeu do carnaval.
Com Moacir Silva foram produzidas as músicas Vem hoje, Ninguém sabe
de nós, Fique comigo e Quando ela se foi. Com o amigo e cunhado Luís
Bonfá, Antônio Maria faria Cajueiro doce, Faça o que quiser e Canção
da mulher amada.
As músicas Preconceito, Vou pra Paris e A noite é grande, Antônio
Maria compôs com Fernando Lobo. Com o compositor Pernambuco, viria
Concerto no céu, Dorme, Suas mãos, Desse amor melhor, Mais que a
minha vida, Amor de janela, O amor e a rosa e Coisas do amor.
Cajueiro doce, por sua vez, foi criada em parceria com Manezinho
Araújo.
Antônio Maria compôs ainda muitas outras músicas: Frevo número dois
do Recife, Frevo número três do Recife, Domingo, Fulana de Tal,
Menino grande, Minha amada dormiu, Portão antigo, Recife, Canção da
volta, Podem falar e Madrugada 3 e 5 (em parceria com Reinaldo Dias
Leme), Dez noites, Parceria, O Rio amanhecendo, Sei perder e Ai! Que
medo.
Entre os seus importantes intérpretes, pode-se destacar Dolores
Duran, Ângela Maria, Nora Ney, Aracy de Almeida, Emilinha Borba,
Elizeth Cardoso, Jamelão, Agostinho dos Santos, Dircinha Batista,
Silvia Teles, Dóris Monteiro, e os pernambucanos Claudionor Germano
e Luiz Bandeira.
Como uma peça pregada pelo destino, Antônio Maria - um ferrenho
combatente do Golpe Militar de 1964 - faleceu no dia 15 de outubro
desse mesmo ano, vítima de um enfarte.
Desde a sua morte, porém, o célebre compositor vem sendo reconhecido
e homenageado. Em 1970, por exemplo, houve um espetáculo no Rio de
Janeiro com Maria Betânia e Raul Cortês, apenas com as suas obras.
Algumas biografias suas foram escritas e, em 1997, a cantora Marisa,
Gata Mansa, gravou o CD Encontro com Antônio Maria, que reuniu
catorze de suas músicas, entre as quais O amor e a rosa, Manhã de
carnaval, Samba de Orfeu e A canção dos seus olhos.
Transcreve-se, abaixo, uma das mais belas composições de Antônio
Maria: o Frevo no. 1 do Recife. Esta música foi composta quando ele
morava no Rio de Janeiro.
Ô Ô saudade
Saudade tão grande
Saudade que eu sinto
Do Clube das Pás, do Vassouras
Passistas traçando tesouras
Das ruas repletas de lá
Batidas de bombos são maracatus retardados
Chegam da cidade cansados
Com seus estandartes no ar.
Que adianta se o Recife está longe
E a saudade é tão grande
Que eu até me embaraço
Parece que eu vejo Walfrido Cebola no passo
Haroldo, Mathias, Colaço
Recife está dentro de mim.
O parceiro e amigo Vinícius de Moraes, entre outras coisas,
escreveria o seguinte no prefácio do livro O Jornal de Antônio
Maria, cuja edição foi censurada e sustada pelos militares:
[...] Às vezes eu fico pensando. Não sei se você gostaria de estar
vivo agora, meu Maria, depois de 1964. Tudo piorou muito, o Governo,
o caráter, a música, perdeu-se aquela criatividade boa e gratuita da
década de 50. Em resumo, Maria, não se perdeu a música; perdeu-se a
sua dignidade.
Fontes consultadas:
ACERVO da Fonoteca da Fundação Joaquim Nabuco.
MARCONDES, Marcos Antônio (Org.). Enciclopédia da música brasileira:
erudita, folclórica e popular. 2. ed. São Paulo: Art Editora, 1998.
A NOITE é grande: Antônio Maria. Encarte integrante do LP nº. PA
89.022.
No dia 17 de marçoo Gonçalves Ferreira (Hugo Peixa). Antônio Maria
enveredou pela boemia, passando a buscar os prazeres noturnos no
Cabaré Imperial, bem como em um pequeno bar chamado Gambrínus. Sendo
filho e neto de usineiros e estudante de agronomia, ele foi estagiar
na própria usina da família, como técnico de irrigação de
cana-de-açúcar. Por sua vez, Antônio Maria vivenciou a divisão, a
venda dos bens e a falência de seus familiares. No tocante a esse
assunto, ele esclarecia: "Um dia amanhecemos pobres, nossos
automóveis foram ser carros de praça, o veraneio da praia ficou para
quando Deus desse bom tempo." Em 1934, Antônio Maria era admitido na
Rádio Clube de Pernambuco, como locutor e apresentador de programas
musicais feitos com discos. E, em bem pouco tempo, o seu nome já se
destacava ao lado de alguns profissionais ilustres da época, tais
como Nelson Ferreira, José Renato, Mercedes Del Prado, Ziul Mattos,
Hélio Peixoto e Aloísio Pimentel. Antônio Maria viajou para o Rio de
Janeiro em 1940, tendo ido trabalhar como locutor esportivo na Rádio
Ipanema. Contudo, devido ao seu estilo peculiar de irradiar os
jogos, logo acabou sendo dispensado do emprego. Improvisava sambas
com Fernando Lobo e freqüentava os bares cariocas. Como ele não
conseguia um emprego no Rio, retornou ao Recife, indo trabalhar em
jornais, produzir músicas para publicidade sendo, inclusive, locutor
esportivo. Em 1944, Antônio Maria se casou com Mariinha Gonçalves
Ferreira, a irmã do seu amigo Hugo Peixa, e foi morar em Fortaleza.
Nesta cidade, ele trabalhou, por quase um ano, na Rádio Clube do
Ceará, graças aos esforços do seu amigo Fernando Lobo. No entanto,
retornaria logo ao Rio de Janeiro, passando a exercer o cargo de
diretor de produção da Rádio Tupi, além de publicar crônicas no
periódico O Jornal. Atuou também como jornalista no Diário Carioca,
assinando a coluna A noite é grande; na Revista Manchete, com a
coluna Pernoite, e nos jornais O Globo e Última Hora. Por trabalhar
no horário noturno, muitos diziam que ele era um repórter das noites
cariocas. Por ser um indivíduo muito talentoso, Antônio Maria
conseguiu ser admitido, como diretor de produção, na primeira
televisão brasileira - a TV Tupi - no dia 20 de janeiro de 1951.
Nessa televisão, ele exerceu inúmeras atividades: atuou na locução
esportiva, nos jingles, nos roteiros dos espetáculos, no humorismo e
na crônica. Antônio Maria não tocava instrumento algum. Costumava
cantarolar as músicas e fazer as letras na medida em que criava as
melodias. O seu primeiro frevo intitulado Frevo no. 1 do Recife
(trabalho integrante de uma série de cinco frevos), foi composto em
1951. Neste mesmo ano, ele criava o samba Querer bem, em parceria
com Fernando Lobo. O seu grande sucesso como compositor, entretanto,
viria somente a partir de 1952, ano em que a cantora Nora Ney iria
lançar o samba-canção Ninguém me ama, como também o samba-acalanto
Menino grande, que Antônio Maria produzira em parceria com Fernando
Lobo. Em 1955, o compositor adquiria novas e importantes parcerias,
a exemplo de Manezinho Araújo, Vinícius de Morais, Evaldo Gouveia,
Moacir Silva, Paulo Soledade, Zacarias, Zé da Zilda, Pernambuco,
Reinaldo Dias Leme, João Roberto Kelly e Luís Bonfá. Na década de
1950, Antônio Maria iria compor com Vinícius de Morais os sambas
Quando tu passas por mim e Dobrado de amor a São Paulo, ambos
gravados por Aracy de Almeida. Ainda em parceria com aquele poeta,
ele criava outra música: Bate, coração. E, com Zé da Zilda, produzia
os sambas Não fiz nada, Meu contrabaixo e Não vá embora. Ismael Neto
representou um importante parceiro para Antônio Maria. Com ele,
compôs Valsa de uma cidade, o choro lento Carioca, e o samba-canção
Sei perder a canção da volta. Em 1959, comporiam Manhã de carnaval e
Orfeu do carnaval, duas músicas que integraram a trilha sonora do
filme Orfeu do carnaval. Com Moacir Silva foram produzidas as
músicas Vem hoje, Ninguém sabe de nós, Fique comigo e Quando ela se
foi. Com o amigo e cunhado Luís Bonfá, Antônio Maria faria Cajueiro
doce, Faça o que quiser e Canção da mulher amada. As músicas
Preconceito, Vou pra Paris e A noite é grande, Antônio Maria compôs
com Fernando Lobo. Com o compositor Pernambuco, viria Concerto no
céu, Dorme, Suas mãos, Desse amor melhor, Mais que a minha vida,
Amor de janela, O amor e a rosa e Coisas do amor. Cajueiro doce, por
sua vez, foi criada em parceria com Manezinho Araújo. Antônio Maria
compôs ainda muitas outras músicas: Frevo número dois do Recife,
Frevo número três do Recife, Domingo, Fulana de Tal, Menino grande,
Minha amada dormiu, Portão antigo, Recife, Canção da volta, Podem
falar e Madrugada 3 e 5 (em parceria com Reinaldo Dias Leme), Dez
noites, Parceria, O Rio amanhecendo, Sei perder e Ai! Que medo.
Entre os seus importantes intérpretes, pode-se destacar Dolores
Duran, Ângela Maria, Nora Ney, Aracy de Almeida, Emilinha Borba,
Elizeth Cardoso, Jamelão, Agostinho dos Santos, Dircinha Batista,
Silvia Teles, Dóris Monteiro, e os pernambucanos Claudionor Germano
e Luiz Bandeira. Como uma peça pregada pelo destino, Antônio Maria -
um ferrenho combatente do Golpe Militar de 1964 - faleceu no dia 15
de outubro desse mesmo ano, vítima de um enfarte. Desde a sua morte,
porém, o célebre compositor vem sendo reconhecido e homenageado. Em
1970, por exemplo, houve um espetáculo no Rio de Janeiro com Maria
Betânia e Raul Cortês, apenas com as suas obras. Algumas biografias
suas foram escritas e, em 1997, a cantora Marisa, Gata Mansa, gravou
o CD Encontro com Antônio Maria, que reuniu catorze de suas músicas,
entre as quais O amor e a rosa, Manhã de carnaval, Samba de Orfeu e
A canção dos seus olhos. Transcreve-se, abaixo, uma das mais belas
composições de Antônio Maria: o Frevo no. 1 do Recife. Esta música
foi composta quando ele morava no Rio de Janeiro. Ô Ô saudade
Saudade tão grande Saudade que eu sinto Do Clube das Pás, do
Vassouras Passistas traçando tesouras Das ruas repletas de lá
Batidas de bombos são maracatus retardados Chegam da cidade cansados
Com seus estandartes no ar. Que adianta se o Recife está longe E a
saudade é tão grande Que eu até me embaraço Parece que eu vejo
Walfrido Cebola no passo Haroldo, Mathias, Colaço Recife está dentro
de mim. O parceiro e amigo Vinícius de Moraes, entre outras coisas,
escreveria o seguinte no prefácio do livro O Jornal de Antônio
Maria, cuja edição foi censurada e sustada pelos militares: [...] Às
vezes eu fico pensando. Não sei se você gostaria de estar vivo
agora, meu Maria, depois de 1964. Tudo piorou muito, o Governo, o
caráter, a música, perdeu-se aquela criatividade boa e gratuita da
década de 50. Em resumo, Maria, não se perdeu a música; perdeu-se a
sua dignidade. Recife, 6 de abril de 2004. FONTES CONSULTADAS:
ACERVO da Fonoteca da Fundação Joaquim Nabuco. MARCONDES, Marcos
Antônio (Org.). Enciclopédia da música brasileira: erudita,
folclórica e popular. 2. ed. São Paulo: Art Editora, 1998. A NOITE é
grande: Antônio Maria. Encarte integrante do LP nº. PA 89.022.
(Texto atualizado em 13 de setembro de 2007) Semira Adler
Vainsencher semiraadler@gmail.com Pesquisadora da Fundação Joaquim
Nabuco