ARTESANATO DO NORDESTE DO BRASIL
Semira Adler Vainsencher
semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

O primeiro artesão foi Deus, que,
depois de criar o mundo todo, pegou o barro e fez Adão.
(artesão anônimo da Paraíba)
A arte é uma das manifestações mais antigas do ser humano, tendo a
sua origem na era paleolítica (12.000 a.C.), quando o homem
primitivo vivia em bandos nômades dependendo da caça e da coleta de
alimentos para sobreviver. O homem de Pequim e o de Neandertal, por
exemplo, já sabiam pintar e fabricar instrumentos de pedra, de osso
e de madeira. Como prova disso, estão as paredes das grutas e
cavernas da França e da Espanha (Lascoux, Niaux, Altamira e tantas
outras), representando a fauna daquela época (cavalos, bisões,
mamutes e renas).
Com a vinda de artistas e artesãos portugueses para o Brasil,
durante o século XVI, a produção artesanal deixa de ser, apenas, uma
manifestação artística e adquire um status profissionalizante. A
expressão arte popular, porém, foi usada primeiramente pelo
pesquisador japonês Soetsu Yanagi, em 1926. Ele criou o termo mingei
(min = povo; gei = arte), para designar os trabalhos elaborados
pelos artistas populares desconhecidos, que tinham em comum a
simplicidade e um estado de espírito desengajado da idéia de beleza
ou feiúra.
Hoje, os estudiosos do assunto definem artesanato como sendo
qualquer objeto comercializável, fruto de um trabalho
predominantemente manual, feito com a ajuda de ferramentas simples
ou máquinas rudimentares, que se baseia em temática popular e
utiliza a matéria-prima local ou regional. Para se inserir na
categoria artesanato, então, o objeto necessita ainda: ser produzido
na casa do próprio artesão ou em alguma cooperativa do artesão,
englobar um número reduzido de peças, ser proveniente de concepção e
execução individual, familiar ou grupal, e ter sido elaborado sob o
regime de não assalariamento.
E o II Encontro Nacional do Artesanato, ocorrido no final de 1979,
define o artesão como sendo aquele indivíduo que produz objetos
manualmente, sem utilizar moldes repetitivos, com o auxílio de
ferramentas simples ou máquinas não automatizadas, e usando matéria
prima regional. O objeto criado, por sua vez, deve transmitir
aspectos da cultura regional e exprimir originalidade étnica e
geográfica.
Remanescente do processo pré-industrial de produção, a elaboração
artesanal consiste em um sistema de produção que se situa entre a
arte popular e a pequena indústria. Tal sistema está subordinado ao
meio ambiente, ou seja, à abundância local de determinada matéria
prima, e representa uma alternativa de emprego e renda firmada na
tradição: o indivíduo produz determinado objeto, de uma determinada
forma, porque os seus pais e avós faziam assim.
Neste sentido, a característica de artesanal não recai sobre o
produto, porém sobre o sistema específico através do qual o produto
é elaborado, vinculando-se à necessidade que o ser humano possui de
individualização, de não padronização, em um mundo que se apresenta
cada vez mais massificado. E a confecção de objetos, por intermédio
de técnicas primitivas, fica atrelada a uma temática relativamente
nova: a do folclore.
O Brasil, por ser muito extenso e ter sofrido a influência de
diversos povos, possui uma produção artesanal bastante rica e
diversificada, que varia de região para região. No Nordeste, em
particular, é uma das importantes atrações turísticas. Para elaborar
os artesanatos, os nordestinos utilizam vários materiais oriundos da
flora e da fauna nativas, tais como:
1. palha (de bananeira, de brejauva, de milho);
2. juta
3. fibra do tronco do mandioqueiro; de taboa; fio da folha da
piteira;
4. cipó de bambu, taquara, cipó-caboclo, cipó-imbé, cipó-uma, flexa
de ubá;
5. bambu;
6. bucha;
7. cera de abelha-cachorro ou abelha-europa;
8. semente de planta nativa (como a lágrima-de-nossa-senhora);
9. vime (vara tenra e flexível do vimeiro);
10. areia colorida;
11. tinta de casca de árvore (urucum, safroa, anil do mato, aroeira,
murici, imbiruçu);
12. pedra;
13. concha;
14. barro;
15. casca de coco;
16. chifre;
17. couro;
18. tecido;
19. pena;
20. linha;
21. madeira (cedro, vinhático, jaqueira, aroeira, peroba, jequitibá,
canela e outros);
22. osso;
23. dente;
24. flandre;
25. casca de tartaruga;
26. sucata, entre outros elementos.
Cada material ou grupo de materiais dá origem a um tipo ou variedade
de produto artesanal, onde os temas e modelos advêm do próprio grupo
social. A tradição barrista dos índios, por exemplo, juntamente com
a incorporação das experiências trazidas pelos europeus e africanos,
muito contribuiu para o desenvolvimento do artesanato do barro.
Nele, costuma-se empregar alguns elementos, encontrados no meio
ambiente, tais como o massapé (de cor preta), o tauá (de cor
amarela), e o caulim (de cor branca), todos eles passíveis de formar
ligas maleáveis e de queimar com segurança.
Os produtos artesanais, em cada estado, sofrem variação de acordo
com a presença e/ou abundância dos materiais. As tribos indígenas do
Maranhão, em particular, elaboram objetos com palhas de plantas,
madeiras e penas de pássaros. O estado produz doces de frutas
nativas, além de sucos (de murici, bacuri e buriti); cerâmica
figurativa (no Vale do Parnaíba); cerâmica utilitária (em Apiaí);
rendas de almofadas (em Guimarães, São Luís, Humberto de Campos e
Praia do Raposo); cestarias (em Barreirinhas); e tecelagem e redes
de dormir (em Alcântara, Pinheiros, São Bento e Barreirinhas).
Em se tratando de rendas - herança dos portugueses - o Nordeste
produz os seguintes tipos: de bilros, labirinto, crochê, irlandesa,
renascença e filé. Por outro lado, os bordados mais comuns são:
labirinto, ponto-de-cruz, ponto-cheio, rococó, richelieu e redendê.
Seguindo uma tradição advinda dos tempos coloniais, as noivas
continuam encomendando rendas e peças bordadas para os seus
enxovais.
Nos municípios de Marechal Deodoro e Pontal da Barra, em Alagoas, as
mulheres efetuam bordados sobre o linho branco. Em Caldas de Cipó e
Tucano, é possível apreciar a confecção de rendas (de bilros,
labirintos e filés), e a tecelagem ornamental. Em Palmeira dos
Índios, Porto Real do Colégio, Água Branca e Igreja Nova fabricam-se
peças de barro: potes, jarras pintadas com tauá vermelho e branco e
moringas em formatos antropomórficos. E os municípios de Tanque
d’Arca, Penedo e Passo de Camaragibe produzem peças de cerâmica.
Muitos artefatos de pesca são fabricados em 34 municípios de
Alagoas, particularmente em Coqueiro Seco, Marechal Deodoro, Santa
Luzia do Norte e Paripureira: 13 tipos de redes de pesca, jererés e
puçás para pescar crustáceos e peixes pequenos. Igaci e Lagoa do
Félix produzem, ainda, alguns instrumentos musicais (como o bombo e
a zabumba). Em teares bastante rudimentares, Delmiro Gouveia fabrica
redes de algodão e Girau do Ponciano redes em caroá. São Sebastião
produz renda de bilros e Maceió tecelagem em labirinto. A renda
chamada filé é produzida em Pontal da Barra e Marechal Deodoro. Na
Ilha do Ferro, situada a 18 km do município de Pão de Açúcar, a
atividade principal das mulheres é o bordado "Boa Noite", o único no
Brasil.
Em Catolé do Rocha, na Paraíba, os artesãos produzem batique, uma
pintura feita à base de tinta e cera de abelha, e uma variedade de
rendas e de redes. São Mamede fabrica uma cerâmica especial, onde o
barro é vitrificado pela própria natureza. O artesanato de barro, do
tipo lúdico (bois, cavalos, elefantes, bonecos e mobiliário
infantil), pode ser encontrado em Patos. Os brinquedos de qualidade,
confeccionados em madeira, latas ou sobras de outros materiais, são
fabricados em Itabaiana. Juarez Távora e Juripiranga produzem
cestarias, trançados e tecelagem (crivos, labirintos e rendas). Os
trançados podem ser apreciados, ainda, em Salgado e Serra Redonda.
No Piauí (em Pedro II, Simplício, Mendes, Parnaíba, Oeiras, Floriano
e Teresina) encontram-se os grandes centros produtores de cerâmica
decorativa: moringas, potes, alguidares, pratos e panelas. Aquele
Estado confecciona também objetos com fibras de buriti, tábua,
tucum, carnaúba e agave (em Campo Maior e Piracuruca). As cestarias
e trançados são produzidos em Parnaíba (o maior centro produtor). O
município de Pedro II é o mais expressivo centro de produção de
tecelagem artesanal. Às margens do rio Parnaíba, encontra-se uma
variedade de artesanatos feitos com palha de coco babaçu, assim como
esteiras de folha de carnaúba ou babaçu, para funcionar como
divisórias de cômodos em casas humildes. Os troncos de carnaubeiras,
por sua vez, são trabalhados para servir de bancos ou depósitos de
mantimentos.
Outros municípios do Piauí fabricam objetos em madeira: gamelas,
pilões, colheres de pau, santos e anjos. Teresina, Picos e Campo
Maior produzem também artigos em couro (malas, arreios, roupa de
vaqueiro). O Estado fabrica tecidos com fibras vegetais, bem como
rendas, labirintos, bordados, crochês, colchas, tapetes e toalhas.
O município de Neópolis, em Sergipe, representa o grande centro
produtor de cerâmica, mais conhecida como cerâmica de carrapicho,
onde os objetos apresentam o fundo com motivos de espinha de peixe,
contorno de aves, asas de passarinho, pintados com tinta preta e
frisos finos. Itabaianinha fabrica muita cerâmica, além de trançados
e cestarias (em palha de coco); e em Divina Pastora as mulheres
fazem renda irlandesa.
Cascavel, no Ceará, é o maior centro produtor de cerâmica, mas os
municípios de Juazeiro do Norte e Sobral também fabricam objetos em
barro (como figuras do Padre Cícero e bois pintados com flores). Em
Fortaleza, Cascavel, São Mamede, Maranguape, Quixeramobim, Camocim e
Aracati, são fabricados rendas e objetos artesanais (chapéus e
bolsas); e Caicó produz trabalhos em couro: cartucheiras, selas,
chapéus e chicotes, entre outros.
O Ceará produz cestarias e trançados nos municípios de Limoeiro,
Russas, Ipu, Aracati, Itaiçaba e Jaguarana. Sobral, em particular,
confecciona chapéus com palha de carnaúba. Fortaleza, Araçoiaba,
Pacajus e Capistrano fabricam uma tecelagem de qualidade. E Juazeiro
do Norte destaca-se pela produção de artefatos em couro, metal e
ourivesaria. Cabe ressaltar o município de Itarema, no litoral, onde
a população local é remanescente dos índios Tremembé, como uma das
poucas regiões nordestinas que não vivenciou o impacto do turismo.
Lá, pode-se apreciar a fabricação de redes de fibras (em pequena
escala), que é executada em teares verticais rudimentares.
O Rio Grande do Norte utiliza as areias coloridas de suas praias
para enriquecer a produção artesanal. O estado produz, também,
objetos de palha, e trançados de cipó (bolsas, vassouras, esteiras,
abanos e cestas). Santo Antônio dos Barreiros produz a cerâmica
decorativa (galos policromados); Mossoró e Nísia Floresta fabricam
rendas e cerâmica utilitária; de Caicó saem os artigos em couro; em
Luzia, Ana Dantas e Currais Novos são produzidas as esculturas de
santos e animais em madeira (sem pinturas); e Júlio Cassiano e
Jardim do Seridó fazem santos e bandas de pífano em madeira.
O estado da Bahia é um grande centro produtor de artesanatos em
madeira, palha e prata. O município de Maragogipinho produz
moringas, jarros e tigelas em cerâmica, feitos com barro amarelo e
vitrificados em seu interior. As rendas de almofadas são
confeccionadas em Castro Alves e Santa Terezinha; os trabalhos em
couro, em Ipirá; as peças utilitárias (em miniatura) em Nazaré das
Farinhas; as redes de pesca em Xique-Xique; as colchas de algodão e
de seda e espanadores de sisal, em Caldas de Cipó e Tucano. Itiúba
fabrica chapéus de fibra, artigos de palha de ouricuri ou ariri, e
bolsas de sisal. As cestarias e trançados, em geral, são fabricados
na região do Médio São Francisco.
No Mercado Modelo, em Salvador, encontra-se uma grande variedade de
produtos artesanais: talhas, estátuas, berimbaus, santos, terços,
instrumentos musicais, pilões, frutas, pratos, colheres de pau; e
uma série de artigos de metal como facas, sinetas, chocalhos,
esporas, castiçais, campainhas, punhais, brasões entre outros. São
encontrados, ainda, pilões e colheres de pau, de Porto Seguro;
bonecas de pano, caminhões, jipes e carros de bois (feitos em
madeira de buriti) da Barra.
O estado de Pernambuco possui uma grande produção artesanal. Na Casa
da Cultura, situada no centro do Recife, e no Mercado da Ribeira, em
Olinda, é possível apreciar uma amostra dessa produção. Na direção
das praias do norte, a famosa tapeçaria Casa Caiada vem sendo
elaborada por artesãs locais.
O maior centro produtor de cerâmica é Tracunhaém, um município
localizado na Zona da Mata, a 58 km de Recife. Lá, cada casa
representa um atelier, onde as pessoas vivem com as mãos na massa,
moldando e/ou esculpindo objetos. O município de Goiana também
produz muitos objetos em barro (especialmente santos, em tamanhos
regulares).
De Ibimirim, município do sertão do Moxotó localizado a 380 km de
Recife, saem as imagens religiosas em madeira, feitas de troncos de
umburana; de Passira, a 109 km da capital, vêm os bordados; e em
Caruaru, em pleno agreste pernambucano, são produzidos os bonecos de
barro, herança da famosa escola do Mestre Vitalino, assim como uma
série de outros objetos em cerâmica, palha e madeira. Todos os
sábados, na Feira de Caruaru vêem-se expostos todos os tipos de
artesanato, assim como uma grande variedade de trabalhos em couro:
trajes típicos de vaqueiro, luvas, cintos, sandálias, bainha para
facas, arreios para cavalos, entre outros.
Em Bezerros, pode-se acompanhar a produção de xilogravura (gravura
feita em madeira e impressas em papel ou tecido), feita por Amaro
Francisco e J. Borges. Itamaracá produz inúmeros objetos em chifre
de boi: anéis, figas, animais, pássaros, navios, peixes, cabos e
outros; cestarias e trançados, objetos em pedras e conchas.
Itamaracá e Fazenda Nova produzem, ainda, objetos em conchas e
pedras; Pesqueira e Poção fazem doces (de goiaba e de tomate),
rendas e bordados; e Timbaúba e Taracatu fabricam redes.
Santa Cruz do Capibaribe, localizada a 215 km do Recife, em pleno
agreste de Pernambuco, possui uma das economias mais sólidas do
Estado, há quatro décadas. Na feira da sulanca, encontram-se as
roupas e tecidos mais baratos do Nordeste. O município conta com
1280 estabelecimentos comerciais e, de lá, saem para o restante da
região cerca de 1 milhão de metros de jeans, semanalmente, e 500
toneladas de malha por mês. Santa Cruz do Capibaribe possui 38.000
habitantes e 40.000 máquinas de costura.
Nos arredores de Fazenda Nova, ainda no agreste do Estado,
encontra-se o Parque das Esculturas: um conjunto de 21 esculturas em
rocha granito, elaboradas por artesãos, que pesam entre 10 e 20
toneladas, cada uma delas.
O Programa Nacional de Desenvolvimento do Artesanato, um projeto do
Ministério do Trabalho, trouxe novas perspectivas profissionais,
econômicas e sociais para um milhão de artesãos. Estes possuem,
hoje, uma série de direitos: profissão reconhecida, assistência
previdenciária, associação em cooperativas, isenção de tributos e
autorização para expor e vender produtos em feiras e mercados.
O trabalho artesanal, no entanto, uma atividade intensamente
ocupadora de mão-de-obra no Nordeste, representa uma ocupação
secundária e complementar para quem o executa. A cadeia de
atravessadores, além do mais, que se estende do produtor até o
cliente, contribui para diluir o pequeno lucro do artesão. O criador
de riqueza passa a ser, então, o que menos a usufrui. Para ser
compensatório, do ponto de vista econômico, a produção artesanal
necessita se tornar uma atividade de mercado, deixando de ser,
apenas, uma mera atividade de subsistência.
Fontes consultadas:
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profundo. São Paulo: Associação Brasil +500, 2001.
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BORBA FILHO, Hermilo; RODRIGUES, Abelardo. Cerâmica popular do
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DE retalho em retalho, a certeza de um dia melhor. Diario de
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PROJETO de apoio ao artesanato para geração de renda. [s.l.]:
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