BÁRBARA PEREIRA DE ALENCAR

Semira Adler Vainsencher
psicóloga e pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco
 


No dia 11 de fevereiro de 1760, em uma casa-grande de Caiçara, em Exu, nasceu Bárbara Pereira de Alencar, filha de Joaquim Pereira de Alencar e Theodora Rodrigues da Conceição. Ainda adolescente, a jovem migrou com a família para a Vila do Crato, no Ceará. Lá foram morar em uma casa colonial (de beira e bica), construída em pedra e cal, próxima à Matriz de Nossa Senhora da Penha.
Quando tinha vinte e dois anos de idade, Bárbara se casou com o fazendeiro José Gonçalves dos Santos, instalou-se, tranquilamente, na propriedade do Sítio Pau-Seco, e teve três filhos: José Martiniano de Alencar (pai do escritor José de Alencar), Tristão Gonçalves Pereira de Alencar e Carlos José dos Santos. O primeiro e o último citados tornaram-se padres.
Na época, a elite liberal nordestina se engajou na Revolução Pernambucana de 1817 e, em seguida, na Confederação do Equador. Ambos os movimentos revolucionários eram contrários à política absolutista de Dom Pedro I, e favoráveis à idéia de uma República Separatista. Em maio de 1817, ao grupo favorável à instauração de um sistema republicano de governo, se engajaram Dona Bárbara, um irmão dela, e dois de seus filhos. Todos decidiram, então, lutar pelo fim da monarquia, e se envolveram na conspiração republicana deflagrada no Nordeste.
No que diz respeito à dona Bárbara, uma mulher culta e em contato com as idéias revolucionárias, em ebulição nos seminários de Recife/Olinda, é preciso se dizer que, ousando lutar em prol da deposição do rei português, ela se transformou em sua inimiga pública. Neste sentido, abriu mão de toda uma vida de comodismos e individualidades, juntou-se aos revolucionários, e passou a viver de maneira muito perigosa.
Vale registrar que a República do Ceará durou, apenas, uma semana (de 3 a 11 de maio). E a República de Pernambuco prolongou-se um pouco mais: cerca de um mês e meio (de 6 de março a 20 de maio).
Um compadre de dona Bárbara - o capitão-mor Filgueiras - traiu os republicanos e os integrantes dos motins foram presos. A jovem senhora tentou fugir, porém foi cercada no sítio Lambedor, em Barbalha, que pertencera ao seu bisavô. Após a rendição, transferiram-na para Fortaleza, onde ficou presa em um espaço tão pequeno, uma espécie de poço, que não podia, sequer, se levantar. Gritava sem parar, durante dias seguidos, e seus lamentos eram ouvidos ao longe.
Depois de algum tempo, foi transferida (com os filhos) para uma prisão em Pernambuco e, em seguida, para um cárcere em Salvador (na Bahia). Nessas transferências, foi bastante humilhada: vestiram-na com um camisolão igual ao da escrava que a acompanhava. No entanto, ao embarcar em um navio, uma negra que a observava, no cais, lhe jogou um xale, para que se cobrisse e ficasse um pouco menos constrangida.
Naquele tempo era expressamente proibido se tentar tocar na monarquia. Esta parecia ser revestida por uma aura divina. Dessa forma, seus combatentes atraíram muitos inimigos e eles, logo, foram transformados em traidores. Assim, os prisioneiros ficaram encarcerados até 1820, ano em que veio a anistia de Portugal.
Dona Bárbara Pereira de Alencar é uma heroína pernambucana que foi presa em nome de ideais libertários. Apesar de sua importância no contexto histórico do Ceará, restam poucas lembranças dela. A casa onde morou, na Praça da Sé, no Crato, foi demolida, dando lugar a um prédio que pertence à Secretaria da Fazenda do Estado. No sítio Pau Seco, hoje, situado no município de Juazeiro do Norte, restam somente os escombros da velha casa de campo, onde ela e seus três filhos conspiraram contra a monarquia.
A despeito da anistia política, dona Bárbara continuou sendo perseguida e teve que peregrinar por vários lugares. Findou morrendo em 1832, na cidade piauiense de Fronteiras, e sepultada em Campos Sales, no Ceará. Um dos seus últimos desejos foi ter um enterro simples, dentro de uma rede, da mesma forma como eram sepultados seus escravos. Estes, ela declarou, foram os amigos mais leais que teve na vida.
Decorridos quase dois séculos da morte da heroína, seu túmulo está em processo de tombamento, e a família tenta resgatar sua memória. Para tanto, foi criado o Centro Cultural Bárbara de Alencar (CCBA), cujas metas principais são:
-perpetuar os ideais, os feitos e a memória da revolucionária;
-difundir os valores da cultura nordestina, através de obras, no âmbito das Ciências Sociais, e promover eventos culturais de caráter educativo;
-desenvolver projetos e atividades de pesquisa, visando o desenvolvimento cultural no Nordeste brasileiro;
-difundir, através de publicações (livros, periódicos, jornais e outros) informações e conhecimentos considerados relevantes, para a consolidação dos objetivos do Centro Cultural Bárbara de Alencar; e
-realizar parcerias com instituições públicas e privadas, nacionais e internacionais para consolidar os objetivos do CCBA.
Na Fortaleza Assunção, até os dias de hoje, as pessoas visitam o poço onde dona Bárbara permaneceu encarcerada. Segundo a lenda, seus gritos de sofrimento são ouvidos, ainda, nas madrugadas locais. E, para que ninguém esqueça o sofrimento da heroína, uma placa foi afixada, com os seguintes dizeres:
Aqui gemeu Bárbara Pereira de Alencar sob a tirania do Governador Sampaio.
Por fim, cabe salientar que duas mulheres ilustres - Raquel de Queiroz e Heloneida Studart - são descendentes da revolucionária republicana Bárbara Pereira de Alencar.

Fontes consultadas:

ALENCARES em destaque. Disponível em:
http://barbaradealencar.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=17&Itemid=33 Acesso em: 30 jan. 2010.

BÁRBARA de Alencar – a heroína de fato e de direito. Disponível em:
http://cariricult.blogspot.com/2009/04/barbara-de-alencar-heroina-de-fato-e-de.html Acesso em: 31 jan. 2010.

BÁRBARA Pereira de Alencar. Disponível em:
http://wapedia.mobi/pt/B%C3%A1rbara_de_Alencar Acesso em: 25 jan. 2010.

CAMPOS Sales, CE. Disponível em:
http://www.apontador.com.br/local/ce/campos_sales.html Acesso em: 25 jan. 2010.

CASTRO, Ticiana de. A inimiga do rei. Disponível em:
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=424137 Acesso em: 29 jan. 2010.

SCHUMAHER, Shuma; BRAZIL, Érico Vital (Org.). Dicionário mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

VICELMO, Antônio. Museu resgata história de Bárbara de Alencar. Disponível em:
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=168360 Acesso em: 28 jan. 2010.

 

 

semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco
http://semiraadlervainsencher.blogspot.com/