CHESF
(Companhia Hidro Elétrica do São Francisco)
Semira Adler
Vainsencher
Pesquisadora
da Fundação Joaquim Nabuco

A Companhia Hidro Elétrica do São
Francisco (Chesf) uma empresa do Governo Federal ligada ao Sistema
Eletrobrás, representa a maior rede de geração e transmissão de energia
elétrica em alta tensão do País e, ao mesmo tempo, um antigo sonho de muitos
brasileiros.
A Companhia começou a funcionar em meados do século XX, e a sua força vem,
fundamentalmente, das águas do
rio São Francisco, o
grande rio perene que cruza o interior de Minas Gerais e passa por quatro
Estados do
Nordeste do Brasil:
Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco. Ele possui uma extensão de 3.200 km e
sua bacia compreende uma área de 490.770 km2.
O português Pero de Magalhães Gandavo, que esteve no Brasil em 1576, já
deixava registrado, bastante admirado, que o São Francisco era navegável por
sessenta léguas. Escrevia ainda que, a partir de certo ponto, não se podia
passar, devido a uma grande cachoeira, cujas águas caiam de uma altura muito
grande.
Há tempos, o aproveitamento daquele rio vinha sendo imaginado. Em 1801, o
naturalista J. V. Couto chamava a atenção para a potencialidade oferecida
pelo São Francisco, no sentido de beneficiar a agricultura de suas regiões
ribeirinhas. E vários pedidos relativos à exploração do seu potencial
hidráulico foram efetuados ao longo dos anos.
Só para exemplificar, em 1910, o cidadão inglês Richard G. Reidy tentou
requerer a concessão das cachoeiras de um trecho do rio, assim como de
certos terrenos marginais, que se afiguravam necessários à instalação de sua
empresa. Tratava-se de uma tentativa semelhante à da Light, nos Estados do
Rio de Janeiro e São Paulo. Entretanto, o Governo do Marechal Hermes da
Fonseca indeferiu o requerimento, por não concordar com a cláusula referente
à concessão dos terrenos marginais.
No ano seguinte, um pedido semelhante ao de Reidy foi concedido ao
engenheiro Francisco de Paula Ramos. Porém, duas semanas depois de
aprová-lo, o mesmo Marechal tornou a indeferir o processo, alegando, entre
outros motivos, a falta de idoneidade do engenheiro.
Na mesma época, o legendário industrial
Delmiro Gouveia já
sonhava em aproveitar a força das águas da cachoeira de
Paulo Afonso,
para construir uma usina hidrelétrica. Com tal objetivo, ele encabeçou a
criação de uma empresa de capital misto, juntamente com um milionário e um
engenheiro norte-americanos, e o seu primeiro passo foi comprar as terras
que se localizavam nas margens da cachoeira, do lado alagoano, e
incorporá-las ao domínio particular. Em seguida, conseguiu obter vários
privilégios: o direito de exploração sobre as terras improdutivas em Água
Branca; a concessão para captar o potencial hidrelétrico da cachoeira de
Paulo Afonso e produzir eletricidade; e a isenção de impostos para a sua
fábrica de linhas para costura. Entre 1910 e 1911, todas essas concessões
foram transformadas em decretos-lei pelo Estado de Alagoas. Desse modo, o
industrial criava a usina de Angiquinho, a primeira hidrelétrica
aproveitando a força das águas do chamado “Velho Chico”.
No ano de 1921, durante o Governo de Epitácio Pessoa, realizava-se o
primeiro levantamento topográfico da cachoeira de Paulo Afonso.
Cerca de duas décadas depois, visando-se aproveitar o potencial energético
da bacia do São Francisco para a Região Nordeste, estudos e pesquisas foram
intensificados. No dia 4 de abril de 1944, o ministro da Agricultura do
Governo Getúlio Vargas, Apolônio Sales, propôs a criação da Companhia
Nacional Hidrelétrica do São Francisco.
Em se tratando da existência da própria CHESF, no dia 3 de outubro de 1945,
Getúlio Vargas assinava três decretos-leis: 1) o de nº 8.031, autorizando a
organização da empresa; 2) o de nº 8.032, abrindo um crédito especial, junto
ao Ministério da Fazenda, para subscrever as suas ações ordinárias; e 3) o
de nº 19.706, outorgando à empresa a concessão, por 50 anos, do
aproveitamento progressivo da força hidráulica do rio São Francisco, no
trecho entre Juazeiro (BA) e Piranhas (AL), com o objetivo de fornecer
energia elétrica em alta-tensão aos concessionários de serviço público, na
área compreendida por uma circunferência de 450 km de raio, centralizada na
cachoeira de Paulo Afonso.
Cabe ressaltar que a área de concessão da CHESF localizava-se no chamado
Polígono das Secas e, inicialmente, a Companhia iria beneficiar os seguintes
Estados nordestinos: Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco e Paraíba. Na
época, 89% do território de Pernambuco estava em regime de seca; 54%, na
Bahia; e, 39%, em Alagoas.
No dia 15 de março de 1948, realizou-se a Assembléia Geral de constituição
da CHESF, sendo eleitos os engenheiros Alves de Souza, como presidente, e
Otávio Marcondez Ferraz, como diretor técnico. Como parte fundamental de sua
primeira usina – a de Paulo Afonso – foi construída a barragem de Paulo
Afonso, em um arquipélago fluvial distando 250 km da foz do rio São
Francisco.
A CHESF terminava o projeto piloto da usina no dia 23 de março de 1949, e o
encaminhava ao presidente Gaspar Dutra. Aprovado o mesmo, foi escolhido o
diretor técnico Marcondes Ferraz para elaborar o projeto executivo, e ser o
superintendente geral das obras.
Em 1954, a usina de Paulo Afonso I era inaugurada. Nela, funcionavam duas
máquinas geradoras de 60.000 kW cada uma. Por sua vez, a ensecadeira do lado
baiano, que iria permitir a finalização das comportas restantes, ainda se
encontrava no leito do rio São Francisco. Para testar a usina e treinar os
futuros operadores, a CHESF contou com o apoio das empresas Westinghouse,
Electricité de France e Light. Com a mesma capacidade das anteriores, uma
terceira máquina foi instalada depois, possibilitando à Companhia triplicar
o seu mercado de energia regional.
Apolônio Sales assumia a presidência da CHESF em 1962. Nesta ocasião, a
empresa receberia um considerável aumento do seu capital, por intermédio da
ELETROBRÁS, que se destinava a ser a holding das principais empresas de
geração de energia elétrica do País.
No início da década de 1970, a Companhia conseguia triplicar a marca dos
310.000 kW atingidos em 1962. Sua expansão, neste sentido, ocorreu mediante
a ampliação do complexo de Paulo Afonso (através da construção das usinas
hidrelétricas de Boa Esperança, Paulo Afonso III e Paulo Afonso IV), da
incorporação de usinas pertencentes a outras empresas e autarquias e,
sobretudo, da construção das barragens de Sobradinho, Moxotó e Itaparica. A
CHESF ficou, então, com uma potência de 10.700 MW.
Vale registrar que, em 1970, o raio de extensão da CHESF já se estendia por
700 km, tendo o seu centro em Paulo Afonso, e o sistema contava com 115
subestações e uma rede de transmissão que ultrapassava 10.000 km.
Atualmente, a CHESF fornece energia elétrica para os Estados da Bahia,
Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí,
através de várias usinas e termelétricas, que possuem a capacidade de gerar
10 milhões e 703 mil kW, e atendem a uma área de mais de um milhão de km2,
correspondente a 15% do território nacional. São as seguintes as suas
usinas: Piloto, Paulo Afonso I, Curemas, Paulo Afonso IIA, Funil, Araras,
Paulo Afonso IIB, Boa Esperança, Paulo Afonso III, Apolonio Sales, Pedra,
Paulo Afonso IV, Sobradinho, Luiz Gonzaga e Xingó.
Só para se ter uma idéia do tamanho de Sobradinho, vale salientar que este
representa um dos maiores lagos do mundo, equivalendo a quatro vezes a baía
de Todos os Santos. Aquele reservatório, também chamado de lago de
Sobradinho, possui 34 bilhões de metros cúbicos de água, e o seu espelho
d’água tem 4.200 km2 e um remanso de 300km. O lago da barragem de Itaparica,
por outro lado, possui um espelho d’água de 11 bilhões de metros cúbicos de
água e um remanso de 150 km. Como um todo, os reservatórios da CHESF
armazenam cerca de 50 bilhões de m3 de água, mas somente 34 bilhões formam o
volume útil disponível para a geração de energia elétrica.
Movidas a gás natural, um combustível ecologicamente aprovado, Camaçari e
Bongi - as duas termelétricas da Companhia - estão localizadas,
respectivamente, nas regiões metropolitanas de Salvador (BA) e do Recife
(PE).
Utilizando sempre as mais modernas tecnologias, a CHESF busca, também,
fontes alternativas de energia. Entre outras, a empresa tem investido em
sistemas de geração de energia solar, bem como na implantação de estações
que medem o potencial eólico da Região Nordeste.
Fontes consultadas:
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LINS, Rachel Caldas. Uma aproximação hidrográfica com as perspectivas
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