COELHOS (bairro, Recife)
Semira Adler Vainsencher
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

Durante o século XVI,
as cidades do Recife e Olinda receberam muitos
imigrantes judeus que fugiam das perseguições
inquisitórias existentes na Península Ibérica. Na época
dos descobrimentos, a população judaica, em Portugal,
era bem significativa, correspondendo a 30% do total dos
habitantes lusos. De acordo com Kaufman (2000), durante
a ocupação holandesa vieram para o Recife judeus,
alemães e poloneses, fugindo da Guerra dos Trinta Anos
(1620), e dos massacres de 1648 e 1649.
Desconhece-se o tamanho exato da população judaica em
Pernambuco, após o descobrimento. Mas, os pesquisadores
estimam que, durante o domínio holandês, viviam no
Recife cerca de 300 judeus (MELLO, 1996). Durante o
período de dominação flamenga, as terras que pertencem
ao atual bairro dos Coelhos eram chamadas de Cemitério
dos Judeus, porque ali eram realizados os sepultamentos
de judeus.
Segundo Moura (2002), o cemitério judaico já havia sido
assinalado em mapas da época dos holandeses. Gonsalves
de Mello, com base nesses mapas, admite que o cemitério
se localiza no atual Sítio dos Coelhos, no bairro da Boa
Vista. E o historiador Mota Menezes aponta, com relativa
precisão, o lugar onde está o cemitério, partindo de
sobreposições dos mapas mais antigos aos mais recentes.
O escritor José Alexandre Ribemboim, além disso, informa
que, visitando pessoalmente os sítios descampados,
situados nos fundos de duas instituições religiosas na
rua da Glória - o Recolhimento de Nossa Senhora da
Glória e o Dispensário Santo Antônio – como, ainda, de
uma empresa privada - o Armazém de Madeiras de Amadeu
Barbosa - foi-lhe possível delimitar três retângulos
onde se devem processar as prospecções arqueológicas
(MOURA, 2002, p. 290).
Sabe-se que eram cristãos-novos (judeus recém
convertidos ao catolicismo para escapar da Inquisição)
os portugueses Gaspar da Gama (o intérprete da armada de
Cabral), Fernando de Noronha, João Ramalho, o donatário
Duarte Coelho Pereira, o poeta Bento Teixeira, e tantos
outros. A capitania de Pernambuco, portanto, foi
povoada, inicialmente, por muitos judeus, dos mais
distintos lugares e profissões.
Com a invasão holandesa e a chegada do conde Maurício de
Nassau para Pernambuco, os judeus passaram a usufruir a
liberdade disponibilizada para as suas práticas
religiosas e costumes próprios.
As terras dos Coelhos, por terem sido adquiridas pelos
descendentes da família Coelhos Cintra, ficaram
conhecidas como Sítio dos Coelhos. Em 1818, a
propriedade pertencia aos herdeiros de João Coelho da
Silva, contendo uma grande casa de vivenda (com um
sobrado), uma capela e uma senzala de escravos.
Em 13 de agosto de 1824, as terras foram vendidas por
Elias Coelho e adquiridas pelo governo para servir de
local para um matadouro e currais de gado. Lá foram
estabelecidos, inclusive, um curtume e uma fábrica de
atanados.
Uma lei estabelece, em 13 de outubro de 1831, que fosse
fundado nos Coelhos um hospital de caridade: o hospital
São Pedro de Alcântara. Em 1846, porém, o hospital é
transferido para a antiga construção da casa de vivenda
dos proprietários do Sítio dos Coelhos, porque ela
possuía grandes dimensões, comportava dois pavimentos,
uma fachada e fundos bem largos, prestando-se, portanto,
para tal finalidade.
No ano de 1847, o governo adquire um terreno, de
propriedade de João José dos Anjos Pereira, e constrói
um prédio nas imediações, que foi chamado de hospital
Pedro II. Na entrada da construção existe um pequeno
pórtico de cantaria portuguesa, entre duas colunas que
sustentam o frontão onde se vê a escultura de uma mulher
(simbolizando a caridade) e uma criança.
No vestíbulo do hospital estão duas lápides:
Hospital Pedro II. Creado pela lei provincial de 17
de novembro de 1846. Collocou-se a primeira pedra sob a
presidência do exmo. sr. conselheiro d. ANTONIO PINTO
CHICHORRO DA GAMA, em 25 de março de 1847.
Santa Casa de Misericórdia do Recife. Autorizada
pela lei provincial de 12 de junho de 1838. Inaugurada
em 29 de julho de 1860 pelo zelo infatigável do dr.
Ambrozio Leitão da Cunha, presidente de Pernambuco.
Aberta como azilo ao infortúnio pelos esforços e piedade
do mesmo presidente. Aos 10 de março de 1861.
Existe, também, uma placa ao indigente, com uma frase de
Gustavo Corção:
Não há vidas inúteis: a mais obscura, que ainda
traga aceso e quente o mais malogrado coração, é ainda
um bem inestimável e insubstituível, único no gênero,
necessário à harmonia do universo. Gustavo Corção.
Homenagem dos médicos de 1954 ao Indigente.
Às margens de todo o rio Capibaribe, dentro da água e da
lama, a população pobre constrói palafitas, fazendo
surgir grandes favelas urbanas em locais alagados. A
esse respeito, o convívio de pessoas e animais, no mesmo
habitat, deu margem a que o escultor pernambucano
Abelardo da Hora desenhasse uma série de gravuras que
formaram a preciosa coleção Meninos do Recife.
O atual bairro dos Coelhos tem sido alvo de constantes
melhorias, por parte da Prefeitura do Recife e dos
governos estaduais. Eles vêm preservando as fachadas
antigas, pavimentando as ruas, restaurando e ampliando a
ponte Velha, a balaustrada da rua Dr. José Mariano (a
chamada, também, de Cais Zé Mariano), entre outros
benefícios.
A igreja de São Gonçalo, depois de restaurada, adquiriu
características de "bolo de noiva". Nela se encontram
imagens de valor: duas estátuas de São Benedito; uma de
São Gonçalo, no altar-mor, o Bom Jesus das Dores
crucificado, e a popular Nossa Senhora dos Impossíveis.
Na capela-mor está registrada uma data: 1712.
A rua de São Gonçalo possui algumas casas com fachada em
azulejos: as de números 30, 34, 42, 212. Na rua Santa
Cruz, encontra-se o pórtico do Mercado Municipal da Boa
Vista. E na rua Leão Coroado existiu a sinagoga
Talmud-Torá (fundada em 1936 pelo Sr. Jaime Kelner e
filhos).
Chamada antigamente de rua Nova da Boa Vista, a rua
Velha apresenta vários sobrados interessantes nos
números 180, 182, 186, 201, 228, 233, 239, 302, 308,
327, e 408.
Na rua Dr. José Mariano (o também chamado Cais Zé
Mariano) pode-se observar uma série de armazéns de
madeira e lojas comerciais. Na casa de número 186, vale
registrar, foi construída, em 1972, a Igreja
Presbiteriana Fundamentalista do Recife: um templo
quadrangular com vitrais (contendo muitos versículos),
rosácea e arco em ogiva.
Na primeira metade do século XX, na rua da Glória número
215, funcionava uma Sinagoga dos Sefaradim. Chamam-se de
sefaradim os judeus provenientes da Espanha (sefarad),
que emigraram para Portugal e, posteriormente, foram
para os Países Baixos, sul da França, Inglaterra,
Itália, e norte da África. Nesse mesmo local, foi
construído o Centro Cultural Israelita de Pernambuco,
que funcionou até a década de 1950 (KAUFMAN, 2000).
No número 375, da mesma rua, além de várias casas com
fachadas de azulejos, encontra -se hoje a Congregação
das Irmãs de Nossa Senhora da Glória, e a data 1791.
Antigamente, a instituição tinha o nome de Recolhimento
de Nossa Senhora da Glória do Recife. Na capela desse
convento, estão os jazigos de dois padres, que faleceram
no final do século XVIII. Nessas mesmas terras, foram
sepultados os judeus que vieram para o Recife no século
XVI, fugindo da Santa Inquisição.
Fontes consultadas:
COSTA, F. A. Pereira da. Arredores do Recife.
Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1981.
GALVÃO, Sebastião de Vasconcellos. Diccionario
chorografico, histórico e estatístico de Pernambuco.
Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1908. 4 v.
GUERRA, Flávio. Velhas igrejas e subúrbios
históricos. Recife: Fundação Guararapes, 1970.
KAUFMAN, Tânia Newmann. Passos perdidos, história
recuperada – a presença judaica em Pernambuco.
Recife: Edição do Autor, 2000.
MELLO, José Antônio Gonsalves de; SANTOS, Maria Helena
Carvalho dos. Gente da nação; cristãos-novos e
judeus em Pernambuco – 1542, 1654. Recife: Fundaj,
Ed. Massangana, 1996.
MOURA, Hélio Augusto de. Presença judaico-marrana
durante a colonização do Brasil. Cadernos de Estudos
Sociais, Recife, v. 18, n. 2, p. 267-292,
jul./dez., 2002.
ZISMAN, Meraldo. Jacob da balalaica. Recife:
Bagaço, 1998.