Dona Santa

Semira Adler Vainsencher
psicóloga e pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco
 

 

Maria Júlia do Nascimento nasceu no dia 25 de março de 1877, no pátio de Santa Cruz, no bairro da Boa Vista, no Recife. Filha e neta de africanos, ela trazia no sangue o ritmo da zabumba e do “baque virado” do maracatu. Por ser uma criança dócil e querida por todos, seus familiares apelidaram-na de Santa e Santinha, mas, posteriormente, ela ficou sendo chamada Dona Santa.

Antes de reinar nos maracatus, ela batalhou como plebéia e marcou seu nome nos carnavais recifenses, participando de congadas e das troças Missangueira e Verdureiras. Fundou a troça carnavalesca Rei de Ciganos, que se transformou depois no Maracatu Porto Rico do Oriente. Filha de Oxum e Ialorixá, Dona Santa driblou a ditadura de Getúlio Vargas, utilizando os ensaios do maracatu para realizar cerimônias do candomblé.

Apaixonada por maracatus de baque virado e pelo som do tarol e da alfaia, ela se tornou rainha do Maracatu Leão Coroado. Lá, conheceu João Vitorino e com ele se casou. Quando Vitorino foi escolhido como rei do Maracatu Nação Elefante, Dona Santa não teve dúvidas: abdicou do trono do Leão Coroado e entrou nas fileiras do Elefante.

Quando Vitorino faleceu, Dona Santa assumiu a direção do Maracatu Nação Elefante, porém, sua coroação só ocorreu no dia 27 de fevereiro de 1947, aos cinqüenta e nove anos de idade. Vale ressaltar que esse Maracatu foi criado em 1800, no atual bairro da Boa Vista, no Recife. E que a escolha do elefante, como símbolo, deveu-se ao fato de esse animal ser protegido por Oxalá, orixá do candomblé. Uma de suas peculiaridades é a condução de três calungas (bonecas) - Dona Leopoldina, Dom Luís e Dona Emília - que representam, respectivamente, os orixás Iansã, Xangô e Oxum.

Dona Santa foi rainha do Maracatu Nação Elefante durante dezesseis anos. A agremiação se apresentava na segunda-feira de carnaval, e Dona Santa desfilava com um vestido à moda européia, do século XIX, feito de seda, veludo, cetim e bordado com lantejoulas, miçangas e fios dourados. A rainha, além de coroa, cetro, capa de gola alta, sapatos de salto fino, anéis, brincos, pulseiras e broches, levava, ainda, um espadim de metal, com o qual abençoava os “súditos”. Suas cores preferidas eram amarelo, azul, branco e verde.

Figura tradicional dos carnavais recifenses, Dona Santa teve um longo reinado e foi objeto de estudo de vários pesquisadores. Em 1962, ela morreu no Recife, aos oitenta e cinco anos.

Segundo o seu desejo, o rico acervo da agremiação Nação Elefante foi doado ao Museu do Homem do Nordeste, do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, atual Fundação Joaquim Nabuco. Em 1977, esta Fundação comemorou o centenário de nascimento de Dona Santa.  

Como parte das políticas municipais de preservação e valorização da Cultura Popular, o Recife ganhou uma nova obra de arte, esculpida pelo artista plástico Abelardo da Hora: o monumento ao maracatu. Com uma altura de quatro metros, o monumento possui o maior conjunto de esculturas trabalhadas em bronze. A peça é composta por oito figuras fundidas em bronze patinado, cada uma delas com dois metros de altura, que foram fixadas sobre um pedestal de concreto, revestido de granito verde ubatuba.

A obra apresenta o cortejo de um maracatu de baque virado: o rei, a rainha, a dama de companhia, a dama da boneca, o porta-estandarte, o porta-lanterna, o carregador do elefante e o ogan (batuqueiro do maracatu) com sua alfaia. Observam-se, também, as seguintes alegorias: o elefante, o guarda-sol, o estandarte e a lanterna. Essa escultura encontra-se em frente ao Forte das Cinco Pontas, no atual bairro de São José, no Recife.

Como não podia deixar de ser, o monumento rende homenagem à rainha mais importante que o Maracatu Nação Elefante teve. Desse modo, o rosto da rainha do cortejo, no comando de um cortejo solene, é uma reprodução do rosto de Dona Santa. Na placa informativa, pode-se ler um texto detalhando que a obra foi esculpida em homenagem à rainha das rainhas, à nobre figura que transformou a cidade do Recife com sua nação imperial.

Portanto, se, em vida, Dona Santa já era considerada nobre, ao falecer, a deusa dos carnavais recifenses se transformou em mito.  

Fontes consultadas:
 
BRITO, Ronaldo Correia de. A rainha sem coroa. Continente Multicultural, Recife, ano 3, n.  26, p. 76-77, fev. 2003.

DICIONÁRIO Houaiss Ilustrado da Música Popular Brasileira. Disponível em:

http://veja.abril.com.br/idade/estacao/veja_recomenda/151106/dicionario.html Acesso em: 23 jun. 2009.

SOUTO MAIOR, Mário. Dicionário de folclore para estudantes. Disponível em:

http://www.soutomaior.eti.br/mario/paginas/dic_d.htm Acesso em: 21 jun. 2009.

Dona Santa. Disponível em:

http://www.fundaj.gov.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=16&pageCode=301&textCode=2970&date=currentDate Acesso em: 21 jun. 2009.

Dona Santa. Disponível em:

http://www.memorialpernambuco.com.br/memorial/116musica/dona_santa.htm Acesso em 20. jun. 2009.

OLIVEIRA, Gilka Corrêa de; SILVA, Maria Regina Martins Batista e. Exposição do Centenário de Dona Santa. Recife: IJNPS, 1977.
RECIFE ganha monumento ao maracatu de Abelardo da Hora. Disponível em:

http://www.recife.pe.gov.br/2008/12/27/recife_ganha_monumento_ao_maracatu_de_abelardo_da_hora_165282.php Acesso em: 22 jun. 2009.

SILVA, Maria Regina M. Batista e. Dona Santa: rainha do Elefante. Recife: Fundaj, Inpso, Centro de Estudos Folclóricos, 1976. (Folclore, 2).

 

Semira Adler Vainsencher

semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco
http://semiraadlervainsencher.blogspot.com/