FORTE DAS CINCO PONTAS (Recife, PE)
Semira Adler Vainsencher
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

O Forte de São Tiago das Cinco Pontas situa-se no atual bairro de
São José, próximo à antiga Estação Rodoviária de Santa Rita. É a
última construção holandesa no Recife e um dos monumentos mais
representativos da arquitetura colonial. Foi edificado pelos
flamengos, no ano de 1630, por determinação do Príncipe de Orange -
Frederik Hedrik -, tendo como seu idealizador o comandante Teodoro
Weerdemburgh. Chamou-se, primeiramente, de Forte Frederico Henrique.
Construída em taipa sobre um solo alto, e dominando, por completo, o
porto do Recife, a fortaleza possuía como padroeira Nossa Senhora da
Assunção. Ficava em uma área próxima às cacimbas de água potável de
Ambrósio Machado, um abastado senhor de engenho na ilha de Antônio
Vaz. Em decorrência de sua proximidade com tais cacimbas, também foi
denominada de Forte das Cacimbas de Ambrósio Machado e de Forte das
Cacimbas das Cinco Pontas.
Os objetivos mais relevantes daquela fortaleza eram os de garantir à
população o suprimento de água potável, mediante a proteção das
cacimbas (ponto vital para o abastecimento d’água do Recife), e
impedir que os navios inimigos circulassem pelas águas do rio
Capibaribe, e chegassem até a Barreta dos Afogados (através de uma
passagem existente nos arrecifes), podendo se evadir, a partir daí,
com os barcos carregados de açucar.
Com a vinda do Conde João Maurício de Nassau-Siegen para o Recife,
os holandeses iniciaram a construção de um canal de trinta metros de
largura, partindo do Forte Frederico Henrique e se estendendo até o
local onde se encontra, hoje, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário
dos Homens Pretos. Em 1637, por sua vez, as muralhas e a
profundidade do fosso da fortaleza foram reformados.
No século XVII, ela é destruída por João Fernandes Vieira e ocupada
por tropas luso-brasileiras, sob o comando de André Vidal de
Negreiros e do general Francisco Barreto de Menezes. A capitulação
dos holandeses ocorre na campina do Taborda, perto do atual Cabanga
Iate Clube. Quando o Forte foi rendido, em 1654, havia os seguintes
elementos em seu inventário oficial: 17 canhões de calibre 2 a 24,
dois alfanges de cortar cabeça e vários outros apetrechos bélicos.
A esse respeito, existe hoje, na entrada do Forte, uma placa que
registra a rendição holandesa:
Próximo a este forte das Cinco Pontas, um dos últimos baluartes
flamengos, na chamada campina do Taborda, existiu a porta sul de
Mauricéia, onde o mestre de campo general Francisco Barreto, chefe
militar da campanha de libertação e restauração de Pernambuco,
recebeu a 28.1.1654, na qualidade de vencedor, as chaves da cidade,
que lhe foram entregues pelo general Segismundo von Schkoppe,
comandante das forças holandesas que, na ante-véspera se haviam
rendido. Esta memória foi mandada colocar pelo Exército, no ensejo
das comemorações do tricentenário da Restauração. 1654 – 1954.
Compreendendo a importância da fortaleza para a segurança e o
controle da cidade, do ponto de vista estratégico, Fernandes Vieira
ordena que a construção comece a ser restaurada em 1677. Dessa vez,
os portugueses empregam um material mais resistente do que a taipa
(que os flamengos utilizaram na construção primitiva), e as obras
são concluídas em 1684.
Durante essa restauração, porém, um dos baluartes (ou pontas) do
forte é suspenso, e o local fica reduzido a quatro pontas apenas
(adquire a forma quadrangular), ao invés da pentagonal do início. De
1746, encontra-se preservada a seguinte descrição do Forte das Cinco
Pontas: "um quadrado com quatro baluartes, com fossos e estrada
coberta, e montava 8 peças de bronze de calibre 6 a 14, 8 de ferro
de calibre 6 a 30, e 6 pedreiras de bronze de calibre 1 e 2; era
comandado por um Capitão que recebia 16$000 de soldo por mês e mais
3 quartas de farinha, tinha um destacamento de fuzileiros e
artilheiros, com um sargento e um condestável."
Mas, continua a ser chamado, por todos, de Forte das Cinco Pontas
(ou Vijfhoek, em holandês), por ter a forma de uma estrela. A
despeito da perda de um baluarte, o local termina ficando, mediante
a nova configuração, com uma área total bem maior que a anterior.
Cabe dizer ainda que, durante muitos anos, a fortaleza funcionou
como uma prisão.
O último nome adquirido pelo forte, finalmente, é o de São Tiago das
Cinco Pontas, pelo fato de haver, em seu interior, uma pequena
capela dedicada a São Tiago Maior, um dos seus santos padroeiros.
Por volta do ano 1817, o local abriga, também, a sede do Quartel
General Militar. Antigamente, o forte possuía uns subterrâneos que
serviam de prisão, mas eles foram demolidos no ano de 1822, por
ordem de Gervásio Pires Ferreira, que dirigia a Junta do Governo
Provisório de Pernambuco. Tais subterrâneos, vale salientar, eram
verdadeiros túmulos dos vivos. Um dos presos mais ilustres, em 1935,
tratou-se do romancista Graciliano Ramos. Em Memórias do cárcere,
seu famoso livro, Graciliano se refere à Estação de Cinco Pontas
como sendo um quartel.
O Forte de São Tiago das Cinco Pontas possui um pátio interno,
várias celas com grades pesadas, feitas em ferro, e um túnel oculto,
planejado para os holandeses fugirem, caso sofressem uma invasão. As
muralhas da construção, por outro lado, se apresentam recortadas nos
pontos em que aparecem os antigos canhões de bronze. Pode-se
apreciar um belo portão na entrada da fortaleza, todo feito em
madeira de lei. As demais portas e janelas do forte foram
confeccionadas com material idêntico.
Ao lado da fortaleza há um histórico paredão onde, no dia 13 de
janeiro de 1825, foi morto o frade carmelita Joaquim do Amor Divino
Caneca - o conhecido Frei Caneca. Tal paredão ficava junto à forca,
onde deveria morrer o célebre mártir pernambucano.
No início do século XX, o Instituto Arqueológico e Geográfico
Pernambucoano mandou colocar uma lápide em mármore, na parede onde
Frei Caneca foi morto, contendo os seguintes dizeres:
NESTE LARGO FOI ESPINGARDEADO
JUNTO À FORCA, A 13 DE JANEIRO DE 1825
POR NÃO HAVER RÉO QUE SE PRESTASSE
A GARROTEÁ-LO O PATRIOTA
Homenagem do Instituto
Archeologico e Geogrraphico
2-7-1917 Pernambuco
Além de servir como prisão, o Forte de São Tiago das Cinco Pontas
funcionou, ainda, como quartel do Esquadrão de Cavalaria, e como
sede da Secretaria de Planejamento (Seplan) da Presidência da
República.
A fim de preservar a memória nacional, o então prefeito Gustavo
Krause, no dia 14 de dezembro de 1982, transformou o Forte das Cinco
Pontas em um museu: o Museu da Cidade do Recife. Com exceção das
segundas-feiras, esse museu está aberto à visitação pública todos os
dias, incluindo sábados e domingos. O local possui um vasto e
importante acervo iconográfico, recolhido em Pernambuco e em
Portugal, onde se encontram expostos projetos originais de
construções civis, militares e eclesiásticas, cartografias,
pinturas, desenhos, esculturas e gravuras.
No museu, dentre as peças importantes podem ser apreciadas as
seguintes: maquetes das distintas formas da fortaleza; pinturas de
Franz Prost, expondo o Recife e a sua população durante o período
holandês; fotografias antigas do Recife; coleção de gravuras
antigas; portas entalhadas da Igreja dos Martírios (todas em madeira
de lei); peças arqueológicas do próprio forte; pinhas de louça
portuguesa de Santo Antônio do Porto; canhões de várias
procedências; barra de ouro (de 1645) com um sinete da Companhia das
Índias Ocidentais (que foi encontrada em Pernambuco); e uma chave
simbólica (em ouro e prata) entregue a Dom Pedro II, por ocasião de
sua visita ao Recife em 1859.
O Museu da Cidade do Recife abriga, além dessas relíquias, uma parte
do acervo da igreja dos Martírios, um conjunto de 150 mil mapas e
fotografias, incluindo 1.114 negativos em vidro, telas, assim como
uma exposição de 800 peças que registram o desenvolvimento da cidade
do Recife.
Fontes consultadas:
BARBOSA, Antônio. Relíquias de Pernambuco: guia aos monumentos
históricos de Olinda e Recife. São Paulo: Fundo Educativo
Brasileiro, 1983 .
BARBOSA, Fernanda de Paula. O Forte das Cinco Pontas. Recife:
Secretaria de Educação e Cultura, 1972. Separata da Revista do
Departameto de Cultura, n. 5.
FRANCA, Rubem. Monumentos do Recife. Recife: Secretaria de
Educação e Cultura, 1977.
MOTA, Mauro. Fortalezas do Recife: Cinco Pontas e Brum. Arquivo
Público Estadual, Recife, n. 1, p. 79-86, jan./jun. 1946.
RIBEMBOIM, José Alexandre. As comunidades esquecidas: estudo
sobre os cristãos-novos e judeus da vila de Igarassu, capitania de
Itamaracá e cidade Maurícia. Recife: Officina das Letras, 2002.
SILVA, Leonardo Dantas. Pernambuco preservado: histórico dos
bens tombados no Estado de Pernambuco. Recife: Ed. do Autor,
2002.