GETÚLIO CAVALCANTI
Semira Adler Vainsencher
Pesquisadora da Fundação Joaquim
Nabuco

Segundo filho de Aluísio Holanda
Cavalcanti e Marina Matias de Souza,
Getúlio de Souza Cavalcanti nasceu
na cidade de Camutanga, na Zona da
Mata Norte, Estado de Pernambuco, no
dia 10 de fevereiro de 1942. Antes
dele, nasceriam Darcy (a
primogênita) e, posteriormente,
Aluísio Júnior. Em sua cidade natal,
cursou as primeiras quatro séries do
ensino fundamental nas escolas
Típica Rural e Manoel Guedes, sendo
transferido, depois, para o Ginásio
Timbaubense, onde permaneceu interno
para poder concluir o curso
ginasial. Em 1957, ele veio morar no
Recife, onde cursou o ensino médio
no então Colégio Padre Félix, no
bairro da Boa Vista.
Ainda adolescente, Getúlio
participaria de muitas serenatas e
serestas sob o luar de Camutanga,
que marcaram substancialmente toda a
sua obra poético-musical. Ao iniciar
as suas atividades laborais no
Recife, o compositor ajudaria o pai
em seu estabelecimento comercial e,
depois, exerceria a função de
encarregado de depósito no Diario de
Pernambuco.
Em 1966, Getúlio casa com Rosileide
Loyo (carinhosamente chamada de
Rose) e, dessa união, nascem Hélio
(em 1967), Ângelo (em 1969),
Alessandra (em 1971) e Cassius (em
1974). Em 1970, o compositor conclui
o curso de Administração de
Empresas, na Universidade Federal de
Pernambuco, mas nunca se preocupou
em receber o diploma.
Compor, cantar e interpretar músicas
representa um hobby que Getúlio
possui desde a adolescência. Porém,
como artista propriamente dito,
iniciou no ano de 1962, cantando na
extinta Rádio Clube de Pernambuco.
Nesse mesmo ano, ele criaria o
frevo-canção Você gostou de mim, que
a fábrica Rozemblit gravou em forma
de LP, no mesmo ano. Vale salientar,
também, que o talentoso compositor
trabalhou durante 18 anos na
International Business Machine
(IBM), empresa da qual se aposentou;
e que, há 11 anos, se tornou um
empresário no ramo da informática.
De 1962 em diante, Getúlio compôs e
gravou muitas músicas de grande
sucesso, a exemplo de: O bom
Sebastião (frevo-de-bloco, 1975);
Antônio Maria (frevo-de-bloco,
1976); Clube do limão (frevo-canção,
1977); Boi castanho (frevo-de-bloco,
1978); Sete anos de saudade (frevo-de-bloco,
1979); Recado a Capiba
(frevo-canção, 1980); Último
regresso (frevo-de-bloco, 1981);
Cantigas de roda (frevo-de-bloco,
1982); Freviocando (frevo-canção,
1983); O frevo tá na praça
(frevo-canção, 1984); Tributo a
Faustino (frevo-de-bloco, 1985);
Chora batutas (frevo-de-bloco,
1986); Um amor a mais (frevo-de-bloco,
1987); Agonia de um bloco (frevo-de-bloco,
1988); No pequeno olhar e Tributo a
Bajado (frevos-de-bloco, 1990);
Escuta boêmio e Cadê o apito (frevos-de-bloco,
1991); Sai pra lá baiano
(frevo-canção, 1992); Relembrando
Moysés (frevo-de-bloco, 1993);
Cheirando a motel (frevo-canção,
1994); Revendo Olinda (frevo-de-bloco,
1995); Maré me leva (frevo-canção,
1995); Depois de banhistas (frevo-de-bloco,
1996); Bloco das Flores (frevo-de-bloco),
Madrigal (frevo-de-bloco); Ilusão
fatal (frevo-de-bloco); Urso safado
(frevo-canção); Segurando o talo
(samba-canção); Cinco anos de
ilusões (frevo-de-bloco); Blocos da
minha vida (frevo-de-bloco); Aurora
dos carnavais (frevo-de-bloco);
Estrela guia (frevo-de-bloco);
Perseguidor (frevo-de-bloco); De
volta ao Chantecler (frevo-canção);
Velho coração (frevo-de-bloco), e
outros.
Ele compôs ainda em outros gêneros
musicais, tais como baiões, baladas,
marchas-rancho, sambas, maracatus,
sambas-canção, toadas, rocks e
boleros. Suas composições são as
seguintes: Estranho amor, Meu pé de
macarrão, Violação, Badia, Ave Maria
nordestina, O mensageiro, É tarde,
Estrada de verdade, Cantiga de quem
vive só, Por amor ao Recife, Hoje
tem galo, O frevo ta na praça, Vovó
Severina, Eu acho é pouco, Doce com
queijo, Por paixão, Teorias, A dona
daquele sorriso, Perdão, Ao mestre,
com saudade, Quero ser o seu amor,
Pêlo de cana, Estrela-guia, Pelas
ruas de Olinda, Foi o galo que
passou em minha rua, Braços abertos,
Paixão medrosa, Dá licença Recife, A
mais de mil, Lá vem meu bloco azul,
Casa de camelo, Solteirão, Um amor a
mais, Nelson Ferreira, Meu pastoril,
Um ano depois, Bloco para um poeta,
Velho bandolim, Quando as ilusões
regressam e Salve, salve Emiliano .
Vencedor de vários concursos de
músicas carnavalescas, as
composições musicais de Getúlio
foram gravadas por vários cantores e
conjuntos brasileiros renomados,
tais como o Coral Banhistas do Pina,
o Coral Mocambo, o Maestro Zezinho e
a Banda Capibaribe, a Orquestra de
José Menezes e o Coral de Joab, o
Conjunto Romançal, as Pastoras do
Boi Castanho, o Coral Bloco da
Saudade, o Coral Bloco das Ilusões,
a Banda de Pau e Corda, a Turma do
Pingüim, o Coral Frevança, o Coral
Vitória Régia, Guedes
Peixoto/orquestra e coral,
Claudionor Germano, Noite Ilustrada,
André Rio, Nando Cordel, Leonardo,
Altemar Dutra, Antônio Nóbrega, Têca
Calazans, Alessandra (sua filha), e
outros. Em 1987, gravou algumas
músicas pela Fundação Joaquim
Nabuco, através de um LP da série
“Compositores Pernambucanos”.
Ao ser entrevistado pela autora do
presente trabalho, o compositor
deixaria registrado que, um dos seus
maiores sonhos, era o de poder
vivenciar a valorização dos
compositores pernambucanos, por
parte das autoridades e das
entidades que atuam em prol da
divulgação cultural. A esse
respeito, ele lembrou o incidente
ocorrido durante o Baile Municipal
do Recife, no carnaval de 2005,
quando o prefeito da cidade
contratou Elza Soares para cantar,
ao invés de valorizar e trazer os
compositores e intérpretes
pernambucanos e/ou nordestinos, e o
público presente, como forma de
protesto, vaiou a famosa cantora,
que não possuía qualquer relação com
músicas carnavalescas.
São da autoria de Getúlio as nove
músicas que compõem, hoje, o
repertório do Bloco da Saudade:
Último regresso, O bom Sebastião,
Cantigas de roda, Chora Batutas,
Relembrando Moysés, Os blocos estão
voltando, Tributo a Bajado, Adeus
saudade e Salve, salve Emiliano.
Como a grande maioria dos
compositores pernambucanos - como
Capiba, José Menezes, Alírio Moraes,
Antônio Maria e Nelson Ferreira -
Getúlio nunca conseguiu sobreviver
dos ganhos advindos dos direitos
autorais. Quando recebe alguma
importância financeira, esta é
pequena e chega às mãos do artista
quatro meses depois da divulgação da
música, através da União Brasileira
dos Compositores (UBC), uma empresa
arrecadadora à qual está vinculado.
Cabe ressaltar que um livro do
compositor, intitulado “Por quem os
blocos cantam?”, uma espécie de
autobiografia que ele escreveu
durante 20 anos, foi lançado
recentemente em São Paulo, pela
Editora Vitale.
Um dos maiores sucessos musicais de
Getúlio é o frevo-de-bloco Último
regresso, cuja letra é apresentada a
seguir.
Falam tanto que meu bloco está
Dando adeus prá nunca mais sair
E depois que ele desfilar
Do seu povo vai se despedir
No regresso de não mais voltar
Suas pastoras vão pedir
Não deixem não
Que um bloco campeão
Guarde no peito a dor de não cantar
Um bloco a mais
É o sonho que se faz
Nos pastoris da vida singular
É lindo ver o dia amanhecer
Com violões e pastorinhas mil
Dizendo bem
Que o Recife tem
O carnaval melhor do meu Brasil.
O poeta e compositor Getúlio
Cavalcanti, ao mesmo tempo em que
prima pela simplicidade, possui um
enorme talento, carisma e
inteligência. Através da beleza e da
simplicidade dos seus versos, ele
vem abrilhantando sempre o carnaval,
ao mesmo tempo em que deixa um
legado inestimável para a cultura do
País, e mais especificamente para o
carnaval de Pernambuco, que
representa, sem dúvida alguma, a
festa mais popular de todo o Brasil.
Fontes consultadas:
BARRETO, José Ricardo Paes.
Getúlio Cavalcanti: o menestrel do
frevo-de-bloco. Recife: Cia.
Pacífica, 2000.
______; PEREIRA, Margarida M. de
Souza; GOMES, Maria J. Pereira.
Dicionário dos compositores
carnavalescos pernambucanos.
Recife: Cia. Pacífica, 2001.
GETÚLIO Cavalcanti: 40 anos de
carnaval. Recife: [s. n], [19--].
(Série nossos valores).
GETÚLIO Cavalcanti. Disponível em:
Acesso em: 18 fev. 2005.
GETÚLIO Cavalcanti. Disponível em:
Acesso em: 18 fev. 2005.