IGREJA DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO
DOS HOMENS PRETOS (Recife, PE)
Semira
Adler Vainsencher
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

Situada na rua
Larga do Rosário, no bairro de Santo Antônio, a
Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos
foi edificada em 1630 pela Irmandade do Rosário dos
Homens Pretos, uma associação formada por escravos
negros.
Cabe ressaltar que os africanos, que foram
transportados como escravos para o Brasil,
pertenciam a tribos (ou nações) distintas, tais como
as de Angola, Benguela, Cambinda, Moçambique, Congo,
Cassanges, entre outras. E cada uma delas possuía as
suas línguas (ou dialetos), os seus costumes
(conselho de anciãos, festas), e rituais sagrados e
religiosos específicos (ritos de Xangô, festas dos
mortos e festas dos reis magos).
No Congo, em particular, os negros possuíam certos
privilégios, podendo eleger um rei (no idioma
pátrio, o seu Muchino riá Congo), e reinar sobre as
pessoas das demais nações da África, fossem elas
crioulas ou africanas, livres ou escravas. Neste
sentido, o primeiro compromisso da Irmandade de
Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos,
autorizando a coroação de um rei do Congo, em suas
festas, está registrado no dia 8 de maio de 1711.
Foi para sobreviver à dor da escravidão e do exílio
(tanto da terra natal, quanto dos familiares e
amigos) que os escravos trataram de se unir no novo
habitat, harmonizando os seus ritos ancestrais, da
melhor forma possível. Dessa maneira, as agremiações
religiosas representavam um elo importante, através
das quais os negros podiam expressar as suas
necessidades de defesa e proteção, os seus desejos
de liberdade, de caridade para com o próximo e de
solidariedade humana.
As festas da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário
dos Homens Pretos eram constituídas, então, por
danças e batuques que não faziam parte da liturgia
católica. Sendo assim, os rituais manifestados por
esses irmãos chegaram, até, a ser proibidos pela
Inquisição.
Os quilombos, em particular, tanto o de Palmares
quanto os demais, entre o Cabo de Santo Agostinho e
o rio de São Francisco, eram expressões do espírito
associativo dos africanos. E essa tendência
associativa, advinda dos quilombos (que se situavam
em pleno meio rural), estendeu-se, também, às zonas
urbanas.
A Irmandade conservava o sistema de coroação
presente na África, com os rituais e as procissões
em maracatu, mantendo os arqueiros à frente, dois
cordões de damas de honra, os símbolos religiosos,
as bonecas enfeitadas, os jacarés, os gatos, os
dignitários e, finalmente, o rei e a rainha do
Congo, seguidos por músicos. No primeiro domingo de
outubro de 1645, segundo os registros, Henrique Dias
festejou, com os seus irmãos negros, na Igreja de
Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, todas as
pompas de sua padroeira.
Também estão registrados nos livros da Irmandade,
até o ano de 1888, todos os coroamentos que se
fizeram dos reis e rainhas da Angola, do Congo e de
Cambinda. Foi mediante essas coroações que se
originou o maracatu, uma das manifestações mais
belas e expressivas do folclore nordestino.
A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens
Pretos, no período do Brasil colonial, a despeito da
condição miserável dos seus integrantes, não mediam
esforços para construírem templos tão ricos quanto
aqueles erigidos pela nobreza, fosse através do
fornecimento de mão-de-obra gratuita ou fosse
através da aquisição de materiais.
Quanto a isto, existem as escrituras feitas pelos
vários tesoureiros, ao longo dos séculos. Por vezes,
os irmãos pagavam os débitos através da confecção de
doces. Em um dos registros, por exemplo, lê-se as
seguintes rubricas como forma de pagamentos: "aos
tocadores das danças sete patacas e cordas de viola
640 e mais dois pares de sapatos aos dançantes, com
uma esmola que se pagou ao capelão".
Em 1739, a fachada do templo estava em ruínas. A
Irmandade decidiu, então, construir um novo
frontispício. Pela Igreja dos Homens Pretos passaram
famosos entalhadores, tais como Manuel Pais de Lima
(que se encarregou do frontispício) e Manuel
Alvarez, além de uma série de oficiais marceneiros e
carpinteiros que trabalharam arduamente, durante
muito tempo, para recuperar o edifício.
O templo teve a sua reconstrução iniciada em 1750 e,
em 1777, as obras foram concluídas. Inspirada nos
conventos franciscanos, a igreja se tornou um ícone
da arte barroca. Em se tratando de estilo, portanto,
a construção é típica daquelas existentes na segunda
metade do século XVIII.
A construção possui um estilo colonial, mas um
conjunto dos seus altares conserva o estilo rococó.
O mesmo se diz de sua fachada: simples e
autenticamente do século XVIII: apresenta uma só
torre, um frontispício alto com volutas e um rosário
que ocupa o lugar dos brasões tradicionais das
igrejas pernambucanas. A igreja tem cinco grandes
portas em sua fachada. No nicho de uma delas, por
sua vez, observa-se uma imagem secular de Nossa
Senhora do Rosário, proveniente do tempo em que a
igreja foi fundada, como também uma antiga imagem de
São Benedito, presente no consistório, datando de
1753.
Bastante conservados são as talhas no altar-mor, o
painel, pintado em seu forro primitivo (a imagem da
Virgem Maria, ladeada por querubins mulatos,
entregando o rosário a São Domingos, inspirador da
Ordem), e os móveis presentes na sacristia. Há uma
galeria de arte no corredor lateral.
A imagem da padroeira, um dos mais belos exemplos da
arte luso-brasileira, merece destaque: possui
tamanho natural, é feita em madeira policromada, e
apresenta olhos de vidro e alfaias de prata. Em seu
interior, as pilastras, as arquitraves e os arcos
são jaspeados.
Excetuando-se Nossa Senhora do Rosário, Nossa
Senhora da Boa Hora e São Domingos, todas os outras
imagens presentes nos altares representam santos
negros. São eles: São Benedito, São Baltazar, Santa
Efigênia e São Moisés, Santo Antônio de Catalagirona
e Santo Elesbão.
O sistema religioso da Irmandade se modificou após o
advento da República, passando a receber pessoas de
qualquer cor, com direito a voto e a julgamento, bem
como o direito a modificar as festas religiosas e o
sistema administrativo. Desse modo, a Irmandade dos
Homens Pretos passa a se enquadrar nas conjunturas e
cânones vigentes nas irmandades católicas e ordens
religiosas.
No começo do século XX, ocorreu um incidente
desagradável entre as irmandades de São Benedito e a
Ordem Terceira de São Francisco: ao se instalarem no
convento de Santo Antônio do Recife, os irmãos
pretos começam a notar o desprezo dos irmãos da
Ordem Terceira, como ainda uma série de exigências
descabidas por parte desses últimos - homens
brancos, ricos e de destaque.
No dia 29 de setembro de 1907, após uma assembléia
geral, em decorrência desse desprezo, os irmãos
pretos de São Benedito decidiram sair em procissão,
carregando o andor com a imagem do seu padroeiro - o
venerado santo preto - abandonaram a Igreja da Ordem
Terceira, e pediram guarida no templo dos irmãos de
Nossa Senhora do Rosário.
Fontes consultadas:
BARBOSA, Antônio. Relíquias de Pernambuco: guia aos
monumentos históricos de Olinda e Recife. São Paulo:
Editora Fundo Educativo Brasileiro, 1983.
FRANCA, Rubem. Monumentos do Recife. Recife:
Secretaria de Educação e Cultura, 1977.
GUERRA, Flávio. Velhas igrejas e subúrbios
históricos. Recife: Fundação Guararapes, 1970.
SILVA, Leonardo Dantas. Pernambuco preservado:
histórico dos bens tombados no Estado de Pernambuco.
Recife: Ed. do Autor, 2002.