IGREJA E MOSTEIRO DE SÃO BENTO
(Olinda)
Semira Adler Vainsencher
Pesquisadora da Fundação Joaquim
Nabuco

Em 1592, o terceiro donatário
de Pernambuco - Jorge de Albuquerque Coelho - solicitou à Ordem
de São Bento, em Portugal, que enviasse à capitania alguns
religiosos beneditinos. Para tanto, fez avultadas doações em
bens territoriais para o patrimônio da nova ordem religiosa,
concedendo-lhe, ainda, inúmeras vantagens, isenções e regalias.
Nas proximidades do Varadouro da Galeota, no ano de 1597, os
padres adquiriram um sítio denominado Olaria, que depois foi
ampliado através da aquisição de mais três lotes circunvizinhos.
As obras de construção do mosteiro ficaram prontas em 1599.
Naquela época, o templo se chamava Mosteiro do Patriarca São
Bento da vila de Olinda. No entanto, o incêndio ocorrido em 25
de novembro de 1632, deflagrado pelos holandeses, arruinou a
construção. Dela, porém, conseguiu-se salvar a relíquia mais
preciosa: seu arquivo. De meados a fins do século XVIII, os
religiosos decidiram demolir o que havia sobrado do mosteiro,
dando lugar à construção de um novo prédio, que é o atual.
Como o mosteiro vinha sendo mantido pela Ordem Beneditina, os
frades foram morar em um sobrado do Recife. Este local, em
documentos da época, foi descrito da seguinte forma: nos altos
de uma casa de dois sobrados situada na rua da banda do mar que
vai para a travessa da praça dos judeus. Pouco a pouco, a antiga
construção foi restaurada e voltou a funcionar em 1640.
Um dos antigos registros do mosteiro evidencia que, nos
primeiros anos do século XVIII, a comunidade beneditina de
Olinda vivenciou um período bastante conturbado. Isto começou
quando o abade Dom Diogo Rangel foi acusado de ter assassinado
uma senhora casada.
Para substituí-lo na direção da abadia, veio de Lisboa o
religioso Dom Luís. Os demais religiosos, contudo, se recusaram
a obedecer ao estrangeiro novato, alegando que ele possuía a
mesma patente do padre-geral. Desse modo, um espetáculo foi
montado: um insistia em assumir o posto, e os outros,
intransigentes, decidiam não acatá-lo como superior.
Depois de consultar várias pessoas letradas, o Governador da
Capitania ordenou, então, que o mosteiro fosse cercado pelo
terço de infantaria. Quando isso ocorreu, a única alternativa
que os religiosos tiveram foi abandonar o convento. Nos
bastidores da sacristia, dizia-se que Dom Diogo Rangel voltaria
ao seu posto regular, já que não fora provada sua culpa no
referido homicídio. E Dom Luís, por outro lado, na véspera da
partida para Lisboa, teria costurado um saco na sua batina, e
colocado dentro dele um sem número de objetos, de grande valor,
do mosteiro. Desafortunadamente, seu navio naufragou, todos
morreram, e os artefatos de ouro e de prata, pertencentes aos
beneditinos do Mosteiro de São Bento, se acomodaram no fundo do
oceano.
Com toda a paciência beneditina, em meados do século XVIII, o
mosteiro foi totalmente reconstruído e decorado, como o Mosteiro
de Tibães, em Portugal. Nessa reforma, ampliou-se o corpo da
igreja (cujo claustro permanecera inacabado desde o ano de
1764), construíram-se novas tribunas, a torre do campanário, e
levantaram o atual frontispício. Como a igreja do mosteiro foi
restaurada em épocas distintas, ela possui, hoje, um estilo
neoclássico. No óculo da portada vê-se a data 1761; no alto da
fachada lateral lê-se 1779; e, na sacristia, há uma outra
inscrição: ANNO DOMINI 1783.
O projeto do frontispício foi obra do mestre-pedreiro Francisco
Nunes Soares, que também foi autor das fachadas da Igreja de
Nossa Senhora dos Prazeres dos Montes Guararapes, e da capelinha
de Nossa Senhora da Conceição da Jaqueira. Em 1860, o mosteiro
passou por outra reforma e recebeu novo douramento. De todos
esses trabalhos, resultou um dos mais belos exemplares da arte
religiosa colonial brasileira.
Algumas imagens valem a pena ser apreciadas no acervo do
mosteiro: a do Crucificado do coro, e a do Menino Jesus de
Olinda – uma escultura em barro cozido, feita por Frei Agostinho
da Piedade, entre 1635 e 1639. No mosteiro de São Bento, em
1640, foi sepultado o sargento mor Pedro de Arenas, com grande
pompa, e os religiosos fizeram, em sua homenagem, um ofício de
corpo presente.
A fachada do mosteiro é de cantaria, sem pintura, e algumas
armas figuram no frontispício da igreja. As portas de acesso ao
coro, bem como as janelas laterais da nave apresentam ornatos
trabalhados e balaústres torneados. Os púlpitos são feitos em
talha dourada e encimados por baldaquino com dossel. No trono
principal do altar, toda em madeira e revestida em ouro,
encontra-se a imagem do patriarca São Bento.
A capela-mor da igreja do convento, em estilo barroco, pela sua
ornamentação e douramento, é uma das mais belas do Brasil. O
altar-mor, por sua vez, ressalta aos olhos pelo esplendoroso
trabalho em talha dourada.
Em 2001, o altar da igreja foi totalmente desmontado e
restaurado pela Fundação Joaquim Nabuco, e, no ano seguinte, foi
transportado para os Estados Unidos, ficando exposto no Museu
Guggenheim, de Nova York. Encontram-se nesse altar, ainda, as
imagens de São Bento e de Santa Escolástica.
No mosteiro podem ser apreciadas sanefas de talha dourada,
grades de jacarandá e pinturas de episódios da vida de São
Bento. Em algumas das salas, encontram-se retratos de velhos
abades e mestres da ordem beneditina no país. Tais retratos,
segundo a opinião de especialistas, foram tão mal retocados que,
hoje, mais parecem caricaturas.
Uma das mais ricas de Pernambuco é a sacristia do mosteiro.
Nela, em 1785, trabalhou o pintor e dourador José Eloy da
Conceição, autor de outros trabalhos, inclusive, na Igreja de
São Pedro dos Clérigos e na Matriz de Santo Antônio, no Recife.
Foi José Eloy que elaborou a pintura de três grandes painéis do
forro, que evidenciam algumas cenas da vida de São Bento.
Na sacristia, observa-se uma pintura de São Sebastião, em óleo
sobre madeira, pertencente à escola italiana e elaborada no
século XIV, que foi transportada para o mosteiro em fins do
século XIX; espelhos de cristais; painéis ressaltando a vida
penitente de São Bento; além de obras entalhadas em jacarandá e
um grande lavabo, esculpido em mármore policromado e
confeccionado em Estremoz, Portugal. Em cima desse lavabo,
destacam-se quatro golfinhos que escorregam por baixo de um
globo decorado.
Presentes na rica sacristia monástica estão, ainda, um retábulo
de talha dourada e um painel retratando Nossa Senhora das Dores.
O frontispício do templo, no entanto, é primitivo, com volutas
em cantaria e o brasão da Ordem Beneditina. Localizado na única
torre do templo beneditino, seu carrilhão de sinos é o mais
sonoro de Olinda.
Existe um grande oratório do coro superior de São Bento, que foi
entalhado no mesmo estilo das obras da cidade de Braga, em
Portugal. A portaria do convento é primitiva, com portas
coloniais que dão acesso ao claustro. Neste, por sua vez, estão
sepultados vários monges da abadia.
As janelas da galeria apresentam guarda-corpos decorados e, no
altar-mor, há um retábulo de influências barroca, neoclássica e
rococó. A capela possui uma porta de duas folhas contendo
adornos, uma porta lateral em arco, um teto pintado, um altar e
um retábulo com nichos dourados.
Em se tratando de trabalhos de madeira, é possível apreciar três
cadeiras de braços que apresentam altos espaldares, rodeados por
painéis de abacaxis, equipados com cruzetas que aparecem nas
mesas; dois armários embutidos na parede da sacristia; e
cadeiras semelhantes às da Igreja de São Pedro dos Clérigos do
Recife, baseadas em modelo português, cujas guardas, pernas e
braços são entalhados com ornamentos rococó.
De acordo com documentos datados de 13 de setembro de 1850, o
mosteiro possuía, na época, os seguintes bens: 16 casas de
sobrado, 24 casas térreas (quase todas, no Recife), prédios
rústicos, uma fazenda de plantação, um engenho de açúcar movido
à água (em Mussurepe), um sítio de lenha com casa de vivenda (em
Beberibe), além de 254 escravos.
Hoje, o Mosteiro de São Bento vem se mantendo, graças ao seu
patrimônio, e às doações recolhidas nas capelas da Igreja de
Nossa Senhora do Monte, de Olinda, e da Igreja de Nossa Senhora
dos Prazeres dos Montes Guararapes.
Fontes consultadas:
BARBOSA, Antônio. Relíquias de Pernambuco. São Paulo: Fundo
Educativo Brasileiro, 1983.
DUARTE, Luiz Vital. Olinda na formação da nacionalidade. Recife:
Imprensa Universitária da UFRPE, 1976.
FREYRE, Gilberto. Olinda: 2º guia prático, histórico e
sentimental de cidade brasileira. Rio de Janeiro: José Olympio,
1968.
MOSTEIRO de São Bento. Almanach de Pernambuco, Recife, ano 17,
p. 65-68, 1915.
MOSTEIRO de São Bento. In: GALVÃO, Sebastião de Vasconcelos.
Diccionario chorographico, historico e estatistico de
Pernambuco. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1927. v. S a Z.
p. 93.
MUELLER, Bonifácio. Olinda e suas igrejas: esboço histórico.
Recife: Livraria Pio XII, 1945.