
Enquanto o presépio representa uma das
tradições natalinas, assim como a árvore-de-Natal, a lapinha (ou
pastoril) ainda se encontra bem conservada, particularmente no Nordeste
do Brasil.
Câmara Cascudo ressalta, em seu Dicionário do folclore brasileiro, que,
por tradição, a Sagrada Família se recolheu a uma caverna (uma lapa ou
gruta), tendo lá nascido o Menino Jesus. Vem, daí, o termo lapinha. Diz
o folclorista, ainda, que a lapinha é a denominação popular do PASTORIL,
com a diferença de que era representada a série de pequeninos autos,
diante do PRESÉPIO, sem interferência de cenas alheias ao devocionário.
Por lapinha, segundo Cascudo, seria denominado o pastoril que se
apresentava diante dos presépios, ou seja, o grupo de pastoras que
faziam as suas louvações na noite de Natal, cantando e dançando diante
do presépio, divididas por dois cordões – o azul e o encarnado, as cores
votivas de Nossa Senhora e de Nosso Senhor. Em outras palavras,
tratava-se de uma ação teatral de tema sacro.
Somente por volta do século XVI, ou seja, três séculos depois de ter
sido criada a simbologia do presépio, é que a dramatização da
Natividade, com danças e cantos, teve o seu início. Entoada diante do
presépio, a lapinha, do final do século XVIII até o princípio do século
XX, exibia-se diante do presépio, cantando e dançando em igrejas ou
residências particulares, divididas em cordões encarnado e azul.
O desvirtuamento da lapinha acentuou-se em 1801, quando o bispo de
Olinda protestou contra as pastorinhas, pela alta percentagem de
mundanidade que escurecera a transparência inocente dos doces autos
antigos.
Antigamente, a lapinha era também representada por um arcabouço de
ripas, onde se viam entrelaçados ramos de folhagens de pitangueira e de
canela, que perfumavam o ambiente, sendo enfeitadas por rosas e cravos.
Na atualidade, a lapinha é o ramo profano da representação dramática da
Natividade, relacionando-se mais às iniciativas leigas, por ocasião do
Natal. Neste sentido, representa mais um simples teatro popular, sem as
comemorações religiosas do nascimento de Jesus.
Na Idade Média, afirmava-se que Jesus havia nascido em uma lapa (uma
espécie de gruta ou caverna), a morada dos primeiros homens. Por essa
razão, foram criadas as lapinhas. Estas se modificaram, segundo Câmara
Cascudo, perderam a religiosidade de outrora, assimilaram costumes
africanos e indígenas, tornando-se um auto profano, passando a incluir
danças modernas e cantos estranhos ao auto. Hoje, ressalta o
folclorista, os termos lapinha e presépio são considerados como
sinônimos.
Fontes consultadas:
BENJAMIN, Roberto. Pequeno dicionário do Natal. Recife: Sociedade
Pró-Cultura, 1999.
BRITO, Ronaldo Correia de. Os vários motivos pagãos na cena do presépio.
Suplemento Cultural, D. O. PE, Recife, ano 15, p. 3-4, dez. 2000.
CÂMARA CASCUDO, Luís da. Dicionário do folclore brasileiro. 9. ed. Rio
de Janeiro: Ediouro, 1998.
FERREIRA, Ascenso. Presépios e pastoris. Arquivos, Recife, ano 2, n.
1-2, dez. 1943.
GUTEMBERG, Luiz. Auto da lapinha mágica. Cultura, Brasília, DF, ano 3,
n. 11, p.4-18, out./dez. 1973.
MELQUÌADES, José. A história do presépio e a natividade. Revista da
Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, Natal, v. 39, n. 27, p. 110-115,
1998.
SILVA, Leny de Amorim (Org.). Em louvor do Natal. Recife: Academia
Pernambucana de Música, 1992/1993.
VALENTE, Waldemar. O presépio dos Valença. Recife: Instituto Joaquim
Nabuco de Pesquisas Sociais, Centro de Estudos Folclóricos, 1979. (Série
Folclore, n. 79)
________. Pastoris do Recife antigo e outros ensaios. Organização e
apresentação de Mário Souto Maior. Recife: 20-20 Comunicação e Editora,
1995.
Semira Adler Vainsencher