SUAPE - PORTO E COMPLEXO INDUSTRIAL
Semira Adler Vainsencher
semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

(foto de
http://www.agenciat1.com.br)
Antes de falar do Complexo
Industrial-Portuário de Suape, faz-se necessário discorrer um pouco
sobre a descoberta do Cabo de Santo Agostinho, que fica situado no
perfil do mapa de Pernambuco, e alguns outros dados históricos
referenteS ao mesmo. Segundo os registros que remetem aos tempos do
descobrimento da América, no dia 26 de janeiro de 1500, Vicente
Yanez Pinzón, um dos companheiros de viagem de Cristóvão Colombo,
foi o primeiro europeu a chegar no local, três meses antes do
próprio Pedro Álvares Cabral. Pinzón chamou a nova terra descoberta
de Santa Maria de la Consolatión, em homenagem à santa protetora das
embarcações, hoje denominado Cabo de Santo Agostinho. Trata-se de um
local belíssimo, que se encontra a 40 km ao sul da cidade do Recife.
No dia 28 de outubro de 1580, foi instituído o morgado de Nossa
Senhora da Madre de Deus do Cabo de Santo Agostinho, vinculando-se a
ele o engenho Madre de Deus que, posteriormente, foi chamado de
Engenho Velho. Na época, o povoamento da área compunha-se de algumas
casas distantes umas das outras.
Cabe ressaltar que Suape era o nome de um ancoradouro existente na
ilharga do Cabo, que ficava separado do mar por um cordão de recifes
de arenito. Em sua extremidade norte, no qual desembocavam três rios
importantes - o Massangana, o Tatuoca e o Ipojuca - uma muralha de
aproximadamente 800 metros permitia o acesso de pequenas
embarcações. Quando somente os índios viviam ali, o atual rio
Massangana era chamado de Suape - que, em tupi, significa caminho
incerto - devido à própria trajetória incerta desse rio. Desde o
começo da civilização, então, por seu alto valor estratégico, a
posição do Cabo de Santo Agostinho e a configuração das regiões
adjacentes deram margem à utilização do estuário de Suape como base
de infra-estrutura portuária, bem como à disputa de holandeses e
portugueses pelo seu domínio, em grandes batalhas. Desde sempre,
portanto, aquele estuário exerceu funções econômicas e estratégicas.
No século XVII, quando os holandeses fortificaram um reduto do Cabo
de Santo Agostinho, o conde Bagnoli construiu uma fortaleza nas
imediações, para proteger o porto de Santo Agostinho. A mesma,
chamada depois de Nazaré, foi uma edificação inútil porque não
conseguiu defender o lugar nem a barra. Posteriormente, mudaram o
seu nome para Forte de Nazaré e Forte do Pontal de Nazaré. Era desse
porto que os pernambucanos embarcavam os seus produtos e recebiam
provisões e socorros da Europa e das demais capitanias, além de
desembarcarem os escravos africanos. Na localidade, ainda é possível
se apreciar as ruínas daquele Forte.
Em 1635, a área capitulou: os portugueses perderam o domínio do
porto de Santo Agostinho e abandonaram o território da Capitania.
Somente em 1646, o porto retomou as suas funções de apoio à
Insurreição Pernambucana. Por ele, passaram uma caravela (repleta de
armas, munições e mantimentos) e quatro pesados navios ingleses que
abasteceram os restauradores. Entre outros, a disputa também
terminou quando Vidal de Negreiros mandou obstruir a barra do porto
com pedras. Depois disso, e até meados do século XIX, por ali só
navegaram pequenos barcos e jangadas.
Um outro espaço, por sua vez, foi se formando no Cabo de Santo
Agostinho, a partir da substituição da Mata Atlântica pela cultura
da cana-de-açúcar, fazendo predominar, na região, a atividade
econômica da agroindústria açucareira. Através dessa atividade,
começou a verdadeira colonização daquelas terras, assim como a
implantação das usinas. A vila do Cabo de Santo Agostinho foi criada
por força do alvará de 27 de julho de 1811, e da Provisão Régia de
15 de fevereiro de 1812. Só a partir de 9 de julho de 1877 a cidade
tomou o nome de Cabo de Santo Agostinho.
Durante muito tempo, e na maior parte do século XX, o distrito
industrial de Pernambuco concentrou-se no município do Cabo, na
Região Metropolitana do Recife, porque a capital do Estado não
dispunha de um espaço adequado para tal finalidade. O crescimento
das regiões urbanas, entretanto, veio provocar uma maior sobrecarga
no Porto do Recife, o que contribuiu para se pensar em alternativas
portuárias ao sul do litoral. O recôncavo do Cabo de Santo
Agostinho, e uma área ao seu redor, foram escolhidos como a melhor e
mais próxima opção.
Em 1973/1975, o Governo de Pernambuco concebeu um Plano Diretor e
deu início à luta pela implantação de um Complexo
Industrial-Portuário no Cabo de Santo Agostinho, uma vez que a
própria posição geográfica do Estado, no centro da Região Nordeste,
facilitaria a implantação do Porto de Suape. Levou-se em
consideração, ainda, três elementos fundamentais: 1. a pouco mais de
1 km do cordão de arrecifes, junto à linha da costa, a localidade
possuía águas com profundidade de 17 metros; 2. havia um quebra-mar
natural formado pelo cordão de arrecifes; e, 3. existiam na região
extensas áreas reservadas à implantação de um grande parque
industrial.
Além de tudo isso, Suape localizava-se a, apenas, oito horas das
rotas internacionais dos grandes transportadores dos Estados Unidos
e da Europa. Desse modo, através da Lei no. 7.763/78, no dia 7 de
novembro de 1978, criou-se a empresa Suape Complexo Industrial
Portuário. A área destinada ao Complexo abrangia a faixa litorânea
entre o rio Jaboatão e a praia de Porto de Galinhas, compreendendo
parte dos municípios de Cabo e de Ipojuca.
Para que o mega empreendimento pudesse se concretizar, foram
desapropriados cerca de 13.500 hectares de terras. As operações do
Porto de Suape tiveram seu início através do Píer de Granéis
Líquidos, que foi arrendado à Petrobras, em abril de 1984, quando
foi realizado o primeiro embarque de álcool. Nesse mesmo ano, um
molhe em pedras foi construído, com o objetivo de proteger a entrada
interna do porto. Com a bacia formada depois do molhe, foi
implantada a primeira oferta portuária. Ela constou de duas
instalações de acostagem de navios - o chamado Píer de Granéis
Líquidos (PGL) e o Cais de Múltiplos Usos (CMU). Três anos depois,
em 1987, o Parque de Tancagem de Derivados de Petróleo do Porto do
Recife foi transferido para Suape; e, em 1991, o Cais de Múltiplos
Usos (CMU), que movimenta cargas de conteiners, entrou em operação.
A regularização da situação jurídico-institucional do Porto de Suape,
junto ao Governo Federal, por outro lado, efetivou-se mediante o
Departamento de Transportes Aquaviários da Secretaria Nacional de
Transportes, no ano de 1992. Isso permitiu ao Governo de Pernambuco
explorar, comercialmente, aqueles serviços portuários.
Em 1999, ocorreu a construção da primeira etapa do chamado porto
interno - 935 metros de cais e profundidades de até 15,5 metros.
Dois anos depois, iniciou-se a segunda etapa de construção, através
da dragagem de mais de 1 milhão e 300 mil m3. Em seguida, o canal de
navegação foi ampliado em mais 450 metros, o que possibilitou a
edificação do Cais 4. Em 2002, para atender às novas demandas,
empreendeu-se a duplicação da avenida portuária (uma extensão de 4,4
km), e a construção do 1º. Prédio da Central de Operações Portuárias
de Suape. No ano seguinte, o Porto recebeu, da Food and Drug
Administration (FDA), do Governo dos Estados Unidos, um certificado
atestando o seu cumprimento da lei contra o bioterrorismo.
No ano de 2004, foi instalada a Emplal, uma indústira de embalagens
plásticas por termoformagem, e inaugurado, também, o Centro de
Treinamento do Complexo Industrial Portuário de Suape, um
empreendimento voltado para o atendimento dos funcionários das
empresas instaladas no Porto, e das comunidades que vivem em suas
imediações. Em 2005, foi assinado um acordo entre a Petrobrás e a
empresa Petróleos da Venezuela S. A. no sentido de se instalar, em
2007, uma refinaria de petróleo, capaz de processar 200 mil barris
de petróleo por dia, de gerar aproximadamente 10 mil empregos
durante a sua construção e, ao ser concluída, de abrigar 1,5 mil
trabalhadores.
Presentemente, Suape representa o pólo industrial mais completo do
Nordeste do Brasil, recebendo, distribuindo e exportando matérias
primas, insumos básicos e produtos finais, além de ser incluído
entre os 11 portos prioritários do País, e a principal alternativa
para o transporte de cargas de e para toda a costa atlântica da
América do Sul, com baixos custos de fretes. Além de contar com a
presença de mais de setenta empresas (instaladas ou em fase de
implantação), possui, ainda, um porto externo, um porto interno,
alguns terminais de granéis líquidos, um cais de múltiplos usos, e
um terminal de contêineres. Com 16,5 metros de profundidade, o Porto
atende a navios de grande porte, movimentando, anualmente, mais de 5
milhões de toneladas de carga, a exemplo de granéis líquidos
(derivados de petróleo, álcool, produtos químicos, óleos vegetais, e
outros) e cargas conteinerizadas. O Porto possui eficazes sistemas
viários, de suprimento de energia elétrica, de abastecimento d´água
e de telecomunicações, e realiza, inclusive, as operações de
transhipment - que consistem na transferência de cargas, de navios
de grande porte, para as instalações portuárias, e o seu posterior
reembarque em navios menores.
O Complexo Industrial-Portuário de Suape possui mais de 6.000
hectares sob proteção ambiental e, entre as empresas já instaladas
ou em fase de instalação, estão a Aluminic Industrial S/A, a Bonesa
Borracha S/A, a Cimec - Cia. Industrial e Mercantil de Cimentos, a
Concreto Redimix do NE S/A, a Copagás Distribuidora de Gás Ltda., a
Esso Brasileira de Petróleo S/A, a Granex – Granitos de Exp. do NE
Ltda., a Indústria de Caixas Plásticas do NE Ltda., a Pedra Cerâmica
Santo Antônio S/A, a Petrobrás Distribuidora S/A, a Refresco
Guararapes Ltda. (Coca-Cola), a Shell do Brasil S/A, a Termo Fértil
S/A, a Transportadora Cometa, e a Work Mariner Ltda.
Por fim, cabe registrar que o Porto de Suape, um dos mais
importantes do mundo, opera navios em todos os dias do ano,
independentemente dos horários das marés, e dispõe de um sistema de
monitoração de atracação de navios a laser, que proporciona um
controle mais seguro, tanto para as pessoas quanto para os seus
carregamentos.
Fontes consultadas:
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SUAPE, ecologia e cultura. Recife: Instituto de Desenvolvimento de
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