TEATRO DE AMADORES DE PERNAMBUCO
E
TEATRO VALDEMAR DE OLIVEIRA
Semira Adler Vainsencher
semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação
Joaquim Nabuco
(foto de: http://oabelhudo.com.br)
O surgimento do Teatro Valdemar de Oliveira se
confunde com a própria estória do Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP).
Neste sentido, fica muito difícil falar de um, sem falar do outro.
Sem sombra de dúvidas, o TAP foi uma criação do médico Valdemar de
Oliveira, surgindo por acaso.
Como é que tudo isso aconteceu?
Primeiramente, o teatrólogo Samuel Campelo criou o Grupo Gente
Nossa, em 2 de agosto de 1931. O Grupo foi fundado no Teatro Santa
Isabel, e estreou no Recife com a peça A Honra da Tia, de sua
autoria, que fez um grande sucesso. O Grupo Gente Nossa, por outro
lado, estava sob a responsabilidade do Teatro Infantil, cuja
primeira peça encenada foi A Princesa Rosalinda, em 26 de março de
1939. Ela foi dirigida pelo seu próprio autor, Valdemar de Oliveira.
Aproximadamente dois anos depois do surgimento do Teatro Infantil,
por ocasião do centenário da Sociedade Pernambucana de Medicina,
Otávio Freitas - o então presidente da entidade - chamou o médico e
amigo, Valdemar de Oliveira, para uma conversa reservada: ele
desejava criar uma atividade cultural para comemorar a importante
data. Este último resolveu ousar e sugeriu a montagem de uma peça
teatral. O presidente da entidade indagou, então, se ele não tinha
se tornado insano. O médico Valdemar de Oliveira, porém, não
titubeou um segundo sequer: reuniu a própria família e os amigos e
encenou a peça Dr. Knock, escrita pelo francês Jules Romains.
Na época, um dos seus maiores desafios foi o combate ao preconceito.
Isto porque atores e atrizes não eram bem vistos pela sociedade. Os
primeiros, não tinham classificação social e, as segundas, eram
consideradas como possuidoras de comportamento suspeito. Na primeira
metade do século XX, ninguém aceitava que uma mulher entrasse em
cena. Tampouco as representantes do sexo feminino ingressavam em
universidades e trabalhavam fora do lar. E, para piorar as coisas, o
teatro era considerado como uma arte baixa. Mesmo diante dessas
circunstâncias, Valdemar de Oliveira jamais se intimidou: decidiu
convocar somente os médicos e as suas respectivas esposas para
integrar o elenco do espetáculo que se propunha a montar.
A peça Dr. Knock obtém um grande êxito artístico, social e
financeiro. Dessa maneira, estava formado o Teatro de Amadores de
Pernambuco, grupo que foi forjado e moldado nos ideais de Samuel
Campelo, ídolo maior de Valdemar de Oliveira. A primeira plaqueta
oficial do TAP, porém, datou de 4 de abril de 1941. Somente a partir
daí, então, o grupo ganhou status cultural no Recife.
O TAP ficou constituído como um departamento do Grupo Gente Nossa,
mas independente no que diz respeito ao elenco profissional. Mais
uma vez: foi a admiração pela competência e pelo idealismo de Samuel
Campelo o que fez Valdemar de Oliveira criar o Teatro de Amadores.
E, desde a sua fundação, há mais de sessenta anos, já atuou no
grupo, como artistas amadores, um número superior a oitocentos (800)
atores e atrizes.
Em se tratando dos diretores artísticos e musicais do TAP, desde a
sua criação, existe a seguinte lista por ordem alfabética: Adacto
Filho, Alfredo de Oliveira, Adhelmar de Oliveira Sobrinho, Bibi
Ferreira, Clenio Wanderley, Clóvis Pereira, Fernando de Oliveira,
Flamínio Bollini Cerri, Geninha Sá da Rosa Borges, Graça Melo,
Guedes Peixoto, Hermilo Borba Filho, Luciana Lyra, Luís de Lima,
Jorge Kossowski, Milton Baccarelli, Nelson Ferreira, Raul Antônio,
Reinaldo de Oliveira, Renato Phaelante, Ricardo Mourão, Rogério
Costa, Valdemar de Oliveira, Valter de Oliveira, Vanda Phaelante,
Willy Keler, Zbignief Ziembinski e Zigmunt Turkof.
O Teatro Valdemar de Oliveira, por sua vez, está localizado na Praça
Osvaldo Cruz número 412, no bairro da Boa Vista, defronte da
Sociedade Pernambucana de Medicina. Foi construído pela família
Oliveira, possui quatrocentos (400) lugares e foi chamado,
inicialmente, de Nosso Teatro. No salão do teatro nobre podem ser
apreciadas duas telas de Murillo La Greca: um retrato do Conde da
Boa Vista e um outro do engenheiro Louis Vauthier.
Em 23 de maio de 1971, o Teatro de Amadores passou a chamar o Nosso
Teatro de Teatro Valdemar de Oliveira, como uma justa homenagem ao
seu fundador. Além de médico e professor, Valdemar de Oliveira foi
ainda advogado, higienista, musicólogo, escritor, diretor e crítico
de arte.
Até hoje, o Teatro Valdemar de Oliveira mantém uma estrutura do tipo
familiar. Nele, o ator não é tratado como um artifício em cena, mas
como uma parte relevante do grupo. O trabalho do elenco, por sua
vez, continua sendo filantrópico: todo o capital financeiro, depois
de tiradas as despesas de custeio da montagem e o pagamento do
pessoal fixo - secretárias, contra-regras, arquivo - é revertida
para várias entidades sem fins lucrativos.
Dito de outra maneira, a receita do TAP (o seu lucro), em qualquer
espetáculo que faça, conforme estabelecido no próprio estatuto, é
destinada a auxiliar uma série de associações de caráter social,
inclusive em vários Estados do País, tais como educandários, asilos,
leprosários, cruzadas de ação social, institutos de proteção e
assistência à infância, entre outras. No Recife, por exemplo, a
renda do Teatro de Amadores vai para a Maternidade do Hospital Pedro
II, a Sociedade de Medicina, o Abrigo Cristo Redentor, o Instituto
dos Cegos e a Caixa Escolar da Escola Normal Pinto Júnior.
Embora não seja regra geral, os risos da platéia indicam que muitas
dos espetáculos apresentados pelo TAP tendem a ser do tipo comédia,
bem como regionalistas. Neste sentido, é importante registrar que a
peça Um sábado em trinta, de Luiz Marinho, ficou vinte e nove (29)
anos em cartaz. E que a peça Está lá fora um inspetor, de autoria do
escritor inglês J. B. Priestley, obteve o maior número de
apresentações.
O Teatro de Amadores de Pernambuco já construiu um teatro próprio,
realizou cinqüenta e quatro (54) excursões, em mais de vinte e oito
(28) cidades do Brasil, encenou cento e dez (110) originais,
beneficiando mais de cem (100) instituições sociais. Em 1953, levou
para o Rio de Janeiro, inclusive, as peças A Casa de Bernarda Alba,
de Garcia Lorca, Sangue Velho, de Aristóteles Soares e Valdemar de
Oliveira, e Esquina Perigosa, de J. B. Priestley. E, além desses
autores, encenou obras de Molière, Tennessee Williams, Thornton
Wilder, Arthur Miller, Oscar Wilde, Eugene O'Neill e Dias Gomes.
Moldado através do idealismo, o Teatro de Amadores de Pernambuco e o
Teatro Valdemar de Oliveira representam marcos de suma relevância no
Estado e no País, sendo respeitados por todos aqueles que amam o
teatro. O TAP, por um lado, foi engendrado através de caráter
revolucionário; e o Teatro Valdemar de Oliveira, por outro, é filho
legítimo daquele.
Ainda insistindo em sobreviver dos ecos do passado, mantendo o
estilo peculiar, os fins não lucrativos, o espírito de família,
ambos conseguiram, definitivamente, um lugar na História do Brasil.
O palco, por fim, para os artistas amadores do Estado, não significa
apenas uma arena, um mero local de trabalho: continua sendo, tal
qual bandeira desfraldada, a fonte dos seus maiores sonhos. E o
Teatro Valdemar de Oliveira, abraçando a todos, a sua própria
morada.
Fontes consultadas:
FRANCA, Rubem. Monumentos do Recife: estátuas e bustos, igrejas e
prédios, placas e inscrições históricas do Recife. Recife:
Secretaria de Educação e Cultura, 1977.
FUNDAÇÃO de Cultura Cidade do Recife: teatros. Disponível em http://www.recife.pe.gov.br/pr/seccultura/fccr/teatros.php.
Acesso em: 11 nov. 2002.
SANTA CRUZ, Angélica; BENFICA, Miguel. O sucesso do TAP parece ser
eterno. Veja. São Paulo, n.29, p. 6-8, jul. 1992.
OLIVEIRA, Valdemar. Teatro de Amadores de Pernambuco. Disponível em
http://www.tap.org.br. Acesso em: 20 nov. 2002.