
Caríssimos leitores!
Até a Revista Nº 06 mostramos as origens do Haicai. A partir deste
número dedicar-nos-emos ao Haicai Brasileiro, suas variações, afirmação
e seus escritores. Estudiosos que fizeram escola como cultores desta
poesia que um dia, tal qual o soneto, estará definitivamente incorporada
à Literatura Brasileira.
Seção 01 – Poetas haikaístas
Na revista Nº05 fizemos algumas considerações sobre Waldomiro Siqueira
JR. Autor da primeira coletânea de haicais no Brasil. Nesta edições
falaremos sobre Guilherme de Almeida que fez escola criando sua própria
maneira de escrever haicais.

O haicai de Guilherme de Almeida
Guilherme de Almeida começou a escrever haicais em
1936, ano de seu encontro com o cônsul japonês no Brasil, Kozo Ichige.
Em 1937, publicou o artigo Os Meus Haicais, em que sistematizava as suas
idéias sobre o que seria o haicai em português: um terceto com 5-7-5
sílabas, dotado de título, sendo que o primeiro verso rima com o
terceiro, além de contar com uma rima interna no segundo verso, entre a
segunda e a sétima sílabas. Seus haicais foram publicados no livro
"Poesia Vária", de 1947. Dada a sua influência sobre outros poetas,
pode-se falar de uma escola "guilhermina" dentro do movimento haicaísta
brasileiro. Guilherme de Almeida foi um dos fundadores e primeiro
presidente da Aliança Cultural Brasil-Japão.
Guilherme de Almeida e eu
H. Masuda Goga
Em 1952, Guilherme de Almeida assumiu o cargo de presidente da Comissão
Executiva do IV Centenário de São Paulo, cujo escritório foi
estabelecido no edifício dos Diários Associados, sito à rua Sete de
Abril, no centro da cidade.
Como repórter do Jornal Paulista - diário bilíngüe em japonês e
português, publicado em São Paulo - queria indagar se a referida
comissão aceitaria a doação comemorativa a ser oferecida pela colônia
japonesa aos cidadãos da capital bandeirante. Por esse e por outros
motivos, avistei-me repetidas vezes com o responsável pela comissão,
durante todo o período de preparação das festividades.
Na primeira entrevista, o poeta perguntou-me se apreciara a coletânea
Poesia Vária, publicada em 1947. A minha resposta foi positiva. Ele
ficou contentíssimo e começou a falar sobre o haicai.
Além da obra acima citada, um trabalho intitulado Os meus haicais já
havia sido publicado em O Estado de S.Paulo do dia 28 de fevereiro de
1937. Perguntou-me o que eu achava dos seus haicais. Eu, com bastante
coragem, apresentei-lhe algumas opiniões. Gostando de minha atitude
sincera e honesta, ele, por sua vez, expôs seus pontos de vista
relativos ao haicai, que adorava imensamente.
Sua admiração pela forma concisa de apenas 17 sílabas, ou melhor, 17
sons, era máxima. Após agradável conversação, leu um trecho de Os meus
haicais, com gesto algo didático:
- Uns 30 livros de versos escritos e uns 20 publicados levam-me à
conclusão calma (que não é uma negação à minha nem um sarcasmo à obra
dos outros) de que não há idéia poética, por mais complexa, que despida
de roupagens atrapalhantes, lavada de toda excrescência, expurgada de
qualquer impureza, não caiba estrita e suficientemente , em última
análise, nas 17 sílabas de um haicai.
A seguir, explicou-me um aspecto lingüisticamente semelhante que se
observa nas duas línguas (português e japonês), citando como exemplos:
"Leva-me esta carta
Ao meu namorado"
"Nem tudo o que é luz é ouro"
"Tanto dá até que fura"
Guilherme queria mostrar-me que as frases faladas ou escritas em
português de cinco ou sete sílabas não faltam no diálogo cotidiano ou na
poesia popular, tal qual acontece no idioma nipônico. Por minha parte,
fiz explanação sobre os conceitos mais importantes do haiku original,
historicamente chamado “hokku”, que exige o termo de estação do ano e
dei-lhe o meu parecer sobre o título que se coloca para cada haicai.
Entretanto, não toquei no assunto da rima, porque o haicai em língua
luso-brasileira soa suave e agradável quando rimado. Apenas informei-lhe
que o haiku original ignora a rima propriamente dita. Ele aceitou
parcialmente o meu critério; sustentou, porém, o seu próprio ângulo e
disse-me que estaria contrariando, até certo ponto, a autoridade de
Kyoshi Takahama, grande mestre do haiku e defensor do tradicionalismo.
Acho que a atitude de Guilherme resida, talvez, na adaptação do haiku
mais livre, a qual evitaria mera imitação do original.
Guilherme mantinha relações de amizade com Kozo Itige (1894-1945), cujo
nome haicaístico era Gyosetsu e que era cônsul-geral do Japão em São
Paulo, no fim da década de 30. Convidado pelo cônsul-haicaísta, teve
oportunidade de assistir a reuniões de haiku, realizadas pelo pessoal
ligado ao mestre Keiseki Kimura (1867-1938), que liderava um grupo de
“haijin” paulistano.
Quando teve lugar o simpósio sobre cultura japonesa, em comemoração ao
60º aniversário da imigração japonesa para o Brasil, em 18 de junho de
1968, Guilherme foi convidado como um dos palestrantes pelo centro de
Estudos Nipo-Brasileiros de São Paulo, organizador do evento, e do qual
sou associado. Esperei, até o último momento, a sua presença; mas, por
algum motivo, ele não compareceu.
Relembrando-me, agora, daquela troca de idéias sobre o haicai, devo
reconhecer o esforço dinâmico do saudoso Príncipe dos Poetas
Brasileiros: sem dúvida, ele estimulou o abrasileiramento da mais
concisa poesia de origem japonesa.
Fonte:
www.kakinet.com
Veja também:
Guilherme de Almeida e a história do haicai no Brasil
http://www.revista.agulha.nom.br/pfr01.html

Seção 02 - Poetas haicaístas contemporâneos
Nesta seção ofereceremos aos nossos leitores uma antologia de haicais de
inverno de nossos haicaístas contemporâneos, garimpados in
Natureza-Berço do Haicai de H. Masuda Goga e Teruko Oda.
Passa pelos pampas
o carro-de-boi cantando...
Que dia gélido!
H. Masuda Goga
Coberto de musgos
Esperando a primavera
Um vaso sem flores.
Teruko Oda
Os dias se alongam
As sombras do meio-dia
Ficam mais curtas.
Douglas Éden Brotto
Atrás da vidraça
Espiando o frio lá fora
O garoto espirra.
Clicie Pontes
As rochas resistem
mar espumando de raiva
inverno nas águas.
Sérgio Dal Maso
Mesmo sob garoa
as ruas não são tão tristes:
lindas minissaias.
Edson Kenji Iura
Geou de manhã:
passarinho congelado
aquecendo os ovos.
Francisco Handa
Vento frio migrante
Assobia canções gaúchas
Na nudez dos galhos.
José N. Reis
Vento repentino
Pitangas caídas no chão
Tapete vermelho.
Eunice arruda
Cinza na fogueira
Uma sanfona chorando
Fim da festa junina.
Hazel de São Francisco
Manhã de frio –
Com o agasalho, visto
Saudades de minha mãe.
Paulo Franchetti
Sobre ondas bravias
Do agitado mar de inverno,
Surfista corajoso.
Alberto Murata
Coruja me vê
As asas batem ligeiro
Susto para dois.
Neide Rocha Portugal
É pasto cheiroso:
Capim-gordura na altura!
Mugido moroso...
Manoel F. Menendez
Alguns haicais garimpados in Jornal Nippo Brasil, caderno Zashi – Haicai
Brasileiro de 11 a 17 de julho de 2007 e 19 25 de julho de 2006.
Primeiros clarões –
Do alto da árvore seca
Pássaro vigia.
Regina Alonso
Coruja na toca.
Satisfeita a caçadora
De dia descansa.
Iraí Verdan
Árvore seca
Envolta pela bruma
Só melancolia.
Mário Kassawara
Repentinamente
Rasga o silêncio da noite
O canto da coruja.
Neiva Pavesi
O salão em festa
E a mulher descendo aos braços
Seu xale de prata.
Analice Feitosa de Lima
Agosto ao final –
Gramado volta a crescer
pelas laterais.
Benedita Azevedo

Seção 03 –
Notícias
II CONCURSO NACIONAL DE HAICAIS CAMINHO DAS ÁGUAS
O Grêmio de Haicai Caminho das Águas, Santos-SP, realizou concurso em
homenagem ao Centenário da Imigração Japonesa no Brasil (1908 - 2008),
com o objetivo de incentivar a prática desta modalidade poética. Os 10
(dez) primeiros classificados receberão certificados de participação e
terão seus haicais publicados em Boletim Especial do Grêmio de Haicai
Caminho das Águas, www.kakinet.com e outros sites. A solenidade de
premiação será no dia 11 de agosto de 2007, segundo sábado do mês, às 14
horas, numa das salas do SESC-Santos, sito à Rua Conselheiro Ribas, 136,
Bairro Aparecida, Santos - SP.
1.º colocado: João Toloi (Guarulhos / SP)
Noite de inverno -
Sob a marquise do hotel
Morador de rua
2.º colocado:Reneu de Amaral Berni ( Goiânia /GO)
Perdi toda pressa -
Cerejeiras-de-okinawa
Cobertas de flores.
3.º colocado: Francisco Handa (São Paulo / SP)
Na noite de inverno
a cachaça repartida
-Roda de mendigos.
4.º colocado: Benedita Silva de Azevedo (Magé / RJ)
Noite de inverno-
A tremer sob jornais
O pobre na esquina
5.º colocado: Rogério Koiti Togashi (São José dos Campos / SP)
Gramado macio -
Cerejeira-de-okinawa
cercada de gente.
6.º colocado: João Toloi ( Guarulhos / SP)
Portal da cidade
Cerejeira-de-okinawa
Dá boas vindas
7.º colocado: Franklin Magalhães (Mesquita / RJ)
Distante de casa
cerejeira-de-okinawa
de novo a florir.
8.º colocado: Francisco Handa (São Paulo / SP)
Frente ao cemitério
cerejeiras-de-okinawa
dão cores à vida!
9.º colocado: Marcelo de Andrade Brum (Santa Maria / RS)
Noite de inverno
a lua brilha despida
na face do lago
10.º colocado: Renata Paccola (São Paulo /SP)
Entre os arrozais
cerejeira-de-okinawa
enfeitando a ilha.

Grêmio Haicai Sabiá realizou Oficinas Nas escolas públicas do Rio de
Janeiro
 |
14 de março de 2007: Oficinas de haicai - Tema: Nossas aves que voam.
Foram selecionados 31 trabalhos que participam do
V! Concurso Nacional de Haicai Infanto-juvenil
Escola Municipal Acre – Cidade do Rio de Janeiro
Rua Santos Gitara, 50 – Engenho de Dentro
Ao final da prova
Chapéus voam pro alto –
Festa do peão.
Benedita Azevedo
Praia do Anil, Magé – RJ, 18 / 07 / 2007

FORMATAÇÃO E ARTE: IARA MELO