Revista "HAIKAI - com Amor"
Nº 05 - Novembro de 2006

Editora: Benedita Azevedo

Formatação e Arte: Iara Melo

 

Caríssimos leitores!

Continuando as informações sobre o HAIKAI, sua história e consolidação à Literatura Brasileira, queremos agradecer ao coordenador do Grêmio Haicai Ipê, poeta haicaísta Edson Kenji Iura, que nos colocou à disposição as matérias do seu site
www.kakinet.com, e também nos tem indicado os links para pesquisas sobre os mestres do Haikai. Ao Douglas Éden Brotto, também poeta haicaísta do Grêmio Haicai Ipê, que gentilmente nos tem sugerido a seqüência desta apresentação.  À amiga Teruko Oda ( Escritora haicaista e coordenadora de eventos haicais brasileiros e mundiais – de São Paulo) pelos estudos realizados nas oficinas do Grêmio Haicai Ipê. São três grandes estudiosos do haicai com os quais tenho a honra de partilhar experiências e deles receber orientações. 


 


Seção 01  -  Os mestres do haikai


Nesta seção apresentaremos alguns dados sobre Takahama Kiyoshi discípulo de Shiki e mestre de Nempuku Sato, dois mestres já divulgados por nós em revistas anteriores.

 
 

Seção 02 –  Poetas haikaístas


Na Revista Nº 04, dando uma seqüência cronológica aos primeiros haikais publicados no Brasil,  falamos  sobre o português Wenceslau de Moraes, que em 1926 publicou: Relance da Alma Japonesa, considerado marco da introdução da cultura japonesa no Brasil. 


Nesta edição daremos algumas considerações sobre Waldomiro Siqueira JR. Autor da primeira coletânea de haicais no Brasil. Em edições posteriores apresentaremos um estudo mais aprofundado sobre o assunto.


Poetas haicaístas contemporâneos


Agradecemos ao poeta haikaísta, José Marins, editor de meus dois livros de haicai “Canto de Sabiá - Haikai” e “Praia do Anil - Haikai”, de quem recebi boas orientações sobre este gênero poético. Ele nos enviou um interessante artigo sobre o haicai e alguns poemas de sua autoria.




Seção 03 – Notícias

 
O destaque é para o 18º ENCONTRO BRASILEIRO DE HAICAI “a maior festa do haicai brasileiro que completa 20 anos. São Paulo, 25 de novembro de 2006. Saiba de tudo que vai acontecer”

 

Seção 01
  
Takahama Kyoshi 


           Poeta haiku e romancista, nascido em 1874 na província de Ehime, em Shikoku. Seu nome real era Takahama Kiyoshi. 
            Durante o ensino intermediário, foi da mesma classe que Kawahigashi Hekigoto. Mais tarde, ambos se tornaram discípulos do poeta Masaoka Shiki. 
            Em 1897, Kyoshi, ao lado do amigo Hekigoto, auxiliava Shiki, que era o editor literário de uma recém-lançada revista de haiku da cidade de Matsuyma, denominada Hototogisu. No ano seguinte, Kyoshi assumiu a função que era de Shiki e mudou a revista para Tóquio. Como editor, Kyoshi expandiu o escopo da Hototogisu, incluindo poemas waka e prosa, transformando, assim, a revista em uma revista de literatura em geral. Inclusive, foi nesta revista que a famosa obra de Natsume Soseki, Wagahai wa Neko De Aru, foi publicada pela primeira vez. Além disso, o próprio Kyoshi contribuía para a revista com contos e romances. 
            Depois da morte de Shiki, em 1902, Hekigoto começou a se inclinar em direção ao “shinkeiko haiku” (nova tendência de haiku), que ignorava a métrica tradicional e o kigo, enquanto Kyoshi renovou seu interesse no haiku ortodoxo. Kyoshi defendia uma observância estrita às convenções do haiku e encorajava a observação objetiva e tópicos baseados na natureza. Kyoshi escreveu de quarenta a cinqüenta mil haiku durante toda a sua vida, os quais aparecem em antologias tais como Kyoshi Kushu e Gohyaku Ku (Quinhentos Haiku). Fora da poesia, seus trabalhos mais conhecidos são as coleções de histórias curtas Keito e o romance Kaki Futatsu. 
            Como editor da Hototogisu, Kyoshi foi fundamental ao trazer novos escritores e poetas ao mundo literário, entre eles encontram-se Mizuhara Shuoshi, Yamaguchi Seishi e Takano Suju. Ele também encorajou sua segunda filha, Hoshino Tatsuko, a publicar seu própria revista de haiku, intitulada Tamano. 
            Kyoshi se mudou para Kamakura em 1910 devido à saúde de seus filhos e também para dar um novo começo para si mesmo. Viveu em Yuigahama por aproximadamente 50 anos, até a sua morte em 1959, aos 85 anos de idade. 

Fonte: History of Japanese Literature – Volume 3 – The Modern Years 



Kyoshi
                 
kozo kotoshi
tsuranuku bô no
gotoki mono
                
Tradução:

O ano velho e o novo,

Como se houvesse um cajado

A trespassá-los..


tanabata no
uta kaku hito ni
yorisoinu
                
Tradução:

A moça rodeia

O poeta que escreve versos

Para Tanabata.

mono okeba
soko ni umarenu
aki no kage
                
Tradução:

Em qualquer lugar

Onde se deixem as coisas

As sombras do outono.
  

ran no ka mo
hôryûji ni wa
ima mekashi
                
Tradução:

No Templo Horyuji

O perfume das orquídeas

Parece moderno.

tabi sen to
omoishi haru mo
kure ni keri
                 
Tradução:

Quando penso

Em partir em viagem,

O fim da primavera.

Fonte:
http://www.nippobrasil.com.br/zashi/haicai.html



 

Seção 02 – Poetas Haikaístas


Waldomiro Siqueira Júnior

      Segundo estudos de  Masuda Goga,  começou na década de 1920 o esforço de abrasileiramento do haiku, isto é, tentativas de exprimir em português as qualidades de concisão e mistério (sabor de haiku) dessa modalidade poética japonesa. Mas, a mais antiga coletânea de haicai é Haikais de Waldomiro Siqueira Júnior (um livro elegante, contendo 56 poemas, um poema por página). Já ficou dito que essa obra foi publicada em São Paulo, em janeiro de 1933.

      Waldomiro Siqueira adota atitude liberal afirmando: “manifesto respeito à tradição do Japão, mas faço meus versos, interpretando à minha maneira, como ocidental”.



NATAL

Sapatos vazios...
Não podia compreender
O pobre orfãozinho.

Kurisumasu

Kutsu wa kara
nattoku ikanu
koji aware

Waldomiro Siqueira Júnior 


Haikais
          
Poetas Contemporâneos

O Haicai vem da vivência do poeta
   
José Marins


            O haicai vem da vivência do poeta tornada experiência poética junto à natureza e ao mundo humano. Como nos orienta o monge Francisco Handa quanto à forma de haicai buscada por Basho, “acreditamos ser aquela que prioriza a experiência”.O poeta se torna poeta do haicai (haijin) porque ama suas vivências estéticas,

            colhidas pelos sentidos: a riqueza de cores e detalhes do sentido da visão(o amarelo da folha que cai, o brilho que voa com o colibri); a sonoridade da natureza, as notas musicais do canto dos pássaros, captados

            pelos ouvidos treinados; o sabor das frutas e o aroma das flores; o registro, na memória, sempre ampliada, das vivências humanas (a alegria da festa junina, o drama do pescador, o susto do menino com o balão que estoura).

            É o “detalhe”, na ‘cena haicaística’ (como nos ensinou Nihira) que importa ao haicai. O pequeno poema deve conter a parte significativa de um todo, e ser capaz de reproduzir a sensação, ou a emoção, retratada pela vivência dos sentidos,da memória, do pensamento, como matéria da criatividade do poeta. Handa nos diz: “...a experiência devia ser o centro da atividade criativa. O inverso da experiência é o haicai composto nos gabinetes, sem uma relação objetiva com o mundo. O vício mais comum entre os haicaístas é a composição “imaginada”

            apenas, o que pode incorrer em erro”. Ao poeta do haicai cabe, primeiramente treinar-se na habilidade de observar, de captar detalhes, de registrar a memória dos momentos. Só depois é que deve se preocupar em escrever o que vivencia, dentro da forma,das regras e princípios que formam os cânones desse tipo de poema. Então as regras vêm facilitar a tarefa de tornar poemas-haicai aquilo que ele, poeta, vivenciou no cotidiano das estações. Só então faz sentido captar o kigo (palavra de estação), pois terá percebido o seu significado vivencial, sua sazonalidade, seu poder de imantar o pequeno haicai para a noite dos tempos. José Marins, é poeta e haicaísta.   (Francisco Handa escreveu na seção Haicai do jornal Nippo-Brasil). 



Haicais de José Marins


vento frio de julho
nos galhos nus da tipuana
sementes sonoras

trote de cavalo
antes da chuvarada
ruidosa carroça

dia de primavera
se passa sempre tão doce
qual a cor do vento?

merecida pausa
a lua no campanário
e a brisa da tarde

rio de primavera
na canoa sobre o lodo
nome de mulher

pequena lagoa
na imensidão refletida
o salto do sapo

lampeão apagado
no interior da palhoça
lua cheia no céu


Dados do autor:
José Marins, é poeta, haicaísta e escritor.
Autor de Fazendo o Dia (poemas); POEZEN (haicais livres); Monalisa, a conchinha sabida (infantil); O dia do porco (romance, inédito); Karumi (haikai, inédito); Bico do joão-de-barro (haikai, inédito).


 

Seção Nº 03 - Notícias

Destaque
 
18º Encontro Brasileiro de Haicai

“A maior festa do haicai brasileiro que completa 20 anos. São Paulo, 25 de novembro de 2006”.


                  Mini-poema de origem japonesa é cada vez mais popular entre os brasileiros. Evento realizado há 20 anos é a oportunidade de conhecê-lo.

                  São Paulo, 13 de novembro de 2006 – Acontece no próximo dia 25 de novembro, no Colégio Santo Agostinho, bairro da Liberdade, São Paulo, o 18º Encontro Brasileiro de Haicai. Realizado desde 1986, portanto há 20 anos, é uma grande confraternização de admiradores e praticantes do haicai, pequeno poema originário do Japão, caracterizado por “fotografar” em palavras um instante da realidade. Consistindo de palestras e de um concurso, que propõe aos presentes a composição de um haicai em 20 minutos, seguido de julgamento e premiação, o evento é aberto a todos os interessados e não cobra entrada.

                  A capacidade de um minúsculo fragmento de texto (três versos de 5-7-5 sílabas) despertar um universo de sentimentos e associações em quem o lê faz com que o haicai cative admiradores no mundo inteiro, estimulando todos os tipos de pessoas a praticar a sua composição, inclusive no Brasil. E em português.

                  É imensamente popular no Japão, onde existem revistas e programas especializados de rádio e TV. Nos EUA e na Europa já é bem conhecido e seus praticantes formam associações locais e nacionais de estudo e prática do haicai. 

                  Baseando-se na observação da natureza, o haicai não necessita de um grande conhecimento teórico. Ao principiante, basta conservar a mente aberta ao que acontece ao redor, escrevendo frases curtas que representem apenas aquilo que ele vê e sente. O haicai é acessível a pessoas de todas as classes sociais, não fazendo distinção de raça, gênero ou idade. 

Noite escura
Fogos de artifício
Estrelas de mentira.
André Luiz Rodrigues de Oliveira (oito anos)

                  O Encontro Brasileiro de Haicai é promovido pelo Grêmio Haicai Ipê, associação de brasileiros praticantes de haicai fundada em 1987 (
http://www.kakinet.com/ipe).

Serviço
 
18º Encontro Brasileiro de Haicai

Data: 25 de novembro de 2006 (sábado)
Local: Colégio Santo Agostinho
Praça Santo Agostinho, 79, Liberdade
São Paulo, SP
(subindo as escadarias ao lado do Metrô Vergueiro)

Programa
Não é necessário participar de todas as atividades. O ingresso é gratuito.
Hora – Atividades
08h30 - Recepção dos visitantes de outras cidades.
10h00 - Abertura - Início das inscrições para o Grande Desafio.
10h30 - O Haicai e os nossos (seis) sentidos - Palestra de Sérgio Francisco Pichorim sobre a importância das sensações no haicai, com a participação da platéia
12h00 – Intervalo
14h30 - Grande Desafio - Tradicional concurso, promovido desde 1986, onde os participantes são desafiados a escrever um haicai em 20 minutos, a partir de um tema proposto na hora. Os vencedores serão conhecidos no mesmo dia.
15h30 -  Dois poetas: Bashô e Shiki - Bate-papo entre Guin Ga Eden e Celso Pestana expõe as diferenças entre os principais haicaístas japoneses
16h30 - Premiação dos vencedores do Grande Desafio.
17h00 -  Encerramento.
 
Mais informações sobre o Encontro: http://www.kakinet.com/encontro
Sobre haicai em geral:
http://www.kakinet.com
Por email:
encontro@kakinet.com
Por telefone: Sra. Teruko Oda, (11) 4611-0166



 

O que é haicai

Haicai é uma forma de poesia curta, normalmente escrita em três linhas e fazendo referência à natureza. É originário do Japão, onde evoluiu de um passatempo até atingir valor literário graças ao mestre Matsuo Bashô (1644-1694). Espalhou-se pelo mundo e chegou ao Brasil, introduzido no início do século 20 por Afrânio Peixoto. Aqui, até recentemente, o haicai seguiu dois caminhos paralelos:
O primeiro caminho é o dos imigrantes japoneses, que escrevem haicais em japonês seguindo tradições rigorosas, num contexto de afirmação de identidade cultural. A prática do haicai em japonês no Brasil tomou grande impulso com o mestre Nempuku Sato (1898-1979), cujo trabalho ergueu as bases de uma das mais importantes comunidades do gênero fora do Japão. 
O segundo caminho é o dos poetas brasileiros que reinterpretam e adaptam o haicai e sua prática às mais diversas tendências literárias. Identificam-se com o haicai brasileiro nomes como Guilherme de Almeida, Millôr Fernandes, Haroldo de Campos e Paulo Leminski.
O crescimento recente do número de poetas brasileiros interessados em assimilar e aplicar as tradições de origem, beneficiados pelo intercâmbio direto com o haicai dos imigrantes, indica o estabelecimento de um terceiro caminho. Alice Ruiz, os poetas do Grêmio Haicai Ipê e os estudos de Paulo Franchetti, da Unicamp, fazem parte desta vertente.
 
O Primeiro Encontro Brasileiro de Haicai (1986)
“Foi um grande sucesso: o I Encontro Brasileiro de Hai-Kai, realizado no hall de entrada da biblioteca do Centro Cultural São Paulo no dia 6 de dezembro. Era esse o comentário que se ouvia dos participantes e principalmente dos palestristas e dos jurados que avaliaram os trabalhos dos 63 inscritos para uma oficina literária em forma de concurso, que se realizou durante o evento cultural. Os nossos convidados foram: Paulo Leminski, Alice Ruiz, Olga Savary e Roberto Saito, todos haikaístas com livros publicados; Mitsuko Kawai e Paulo Colina, ambos poetas e o editor Massao Ohno”. (leia a matéria completa da extinta revista Portal na internet:
Especialmente desde o fim do século 19, artistas, escritores e poetas têm sido influenciados pela descoberta de tradições distintas da matriz cultural européia, tais como as provindas da China e do Japão. Em muitos casos, o contato com estas tradições deixou marcas profundas na maneira como nos relacionamos hoje com a arte e a literatura.
 
O velho tanque –
Uma rã mergulha,
Barulho de água.
 
Bashô (Japão, 1644-1694)
Tradução de Paulo Franchetti e Elza Dói

Há quase um século, o haicai, pequeno poema de origem japonesa com origens no século 16, começou a servir como tema de reflexão e inspiração para a literatura ocidental, como atestam os imagistas liderados por Ezra Pound. No Brasil, apesar dos pioneiros esforços de divulgação de Afrânio Peixoto, dos haicais “parnasianos” de Guilherme de Almeida e das reflexões bem-humoradas em três versos de Millôr Fernandes, o haicai não era mais do que uma curiosidade, talvez ao mesmo nível das árvores-anãs (bonsai) cultivadas pelos imigrantes nipônicos.
 
Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se "Agora".
 
Guilherme de Almeida (1890-1969)

Este cenário só se alterou a partir da década de 1950, com a eclosão do movimento concreto, liderado por Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari. Fazendo da síntese e da visualidade do haicai um dos pilares da nova poesia, divulgando traduções e escrevendo ensaios sobre o poema japonês, o movimento concreto elevou o haicai a um novo patamar de respeitabilidade. E ao partir das idéias do movimento concreto, Paulo Leminski, um dos poetas brasileiros mais influentes do século 20, prosseguiu com a trajetória de renovação poética. Desta vez aliando a tradição do poema curto à estética libertária da contracultura e ao poder de síntese da frase publicitária, Leminski elegeu novamente o haicai como um de seus pólos inspiradores.
 
abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri
antigamente eu era eterno
 
Paulo Leminski (1944-1989

Passando ao largo de todas as polêmicas literárias, a produção cultural dos imigrantes japoneses no Brasil permanece anônima em sua maior parte e, salvo algum esforço de divulgação, não sobreviverá à morte de seus praticantes, isolados pela língua e pela conseqüente dificuldade de comunicação com sucessivas gerações de descendentes. O primeiro haicai em japonês escrito em nosso país é tão antigo quanto a própria história da imigração, que completa um século em 2008. A produção de haicais em língua japonesa no Brasil esteve, durante muitas décadas, sob o comando de um mestre originado da melhor tradição literária. O também imigrante Nempuku Sato (1898-1979) teria formado, segundo algumas fontes, cerca de seis mil discípulos, o maior número de poetas de língua japonesa fora do Japão.
 
A prática do haicai
 
E quanto aos haicaístas, os poetas que escrevem haicais em português, quem são e quais são as questões e desafios ante os quais se colocam? O haicai japonês tem se prestado esplendidamente a objeto de reflexão para a literatura brasileira. Mas, quando poetas brasileiros propõe-se a escrever haicais na língua de Camões, será que se pode levar esse esforço a sério? Parafraseando Caetano, só será possível escrever haicais em japonês?
Qual é o objetivo dos haicaístas? Influenciados pelas filosofias orientais, em especial o zen-budismo, muitos buscam alcançar em cada poema, um instante de plenitude e de comunhão com o universo. Outros talvez só procurem um passatempo, atraídos pela convivência social dos grêmios de haicai.
Escrevem-se haicais em português desde o início do século 20. Mas, naquela época, a característica mais ostensiva e atraente dessa poesia era a sua brevidade. Isto deu aos poetas o ensejo de praticarem haicais como exercícios de virtuosismo, concentrando um pensamento ou um provérbio no reduzido espaço de três versos de 5, 7 e 5 sílabas, a “forma” do haicai japonês. O gosto pela frase de efeito, pela “sacada” esperta e luminosa, está presente até hoje em boa parte da produção dos haicaístas.
Impulsionada pela crescente oferta de traduções e obras de crítica e divulgação em línguas ocidentais e por um ainda incipiente intercâmbio com poetas imigrantes, uma nova geração de haicaístas vem tomando contato com outras facetas do haicai, tão importantes quanto era a brevidade no século passado. 
Se, hoje, a métrica cerrada 5-7-5 já não é mais um dogma, é corrente no haicai a necessidade de menção à natureza através de imagens objetivas. Ao lado disso, timidamente, contra toda a improbabilidade de um país tropical, procura-se estabelecer a tradição do uso de palavras e expressões indicativas das estações do ano, conhecidas por kigo, requisito tido por indispensável ao haicai. 
                  
Noite de insônia –
O grilo atrás da janela
também sem sono.
Teruko Oda
 
Outra tendência interessante é a utilização do haicai como ferramenta de iniciação poética entre crianças e adolescentes. Por ser pequeno, objetivo e ter regras claras, é o veículo ideal para exercitar o interesse pela poesia. Ao desenvolver o gosto pela observação e o amor à natureza, presta-se também como instrumento de conscientização ambiental. Uma importante iniciativa a respeito é o Concurso Brasileiro de Haicai Infanto-juvenil, promovido há quatro anos pelo Grêmio Haicai Ipê, que na edição de 2006 julgou os haicais de 2635 crianças de quatro estados.

Manhã de inverno
A borboleta se esquenta
No raio de sol.
Guilherme Lucas da Silva (11 anos)

O futuro
 
Em tempos de internet, a produção e a discussão de haicais são turbinadas por fóruns, blogs e sites de poesia. O Orkut conta com mais de vinte comunidades dedicadas ou relacionadas ao haicai. As pequenas dimensões de um haicai parecem perfeitas para a difusão por meio de novas mídias, como os torpedos via telefone celular e as mensagens instantâneas do MSN. Com o aquecimento global tomando conta das manchetes, quem sabe o casamento da tecnologia de ponta com a poesia mais tradicional não restitua ao homem a unidade perdida com a natureza?
 
Matéria enviada pelo Coordenador do Grêmio Haicai Ipê e do Site
www.kakinet.com Edson Kenji Iura


Observação

Aos demais poetas que enviaram seus haicais, terão seus trabalhos publicados na Revista Nº 06,  que será enviada para publicação até o dia 30/11/2006.

Praia do Anil, Guia de Pacobaíba, Magé - RJ

15 de novembro de 2006

1º lugar no 17º Encontro Brasileiro de Haicai/2005

Dentro do balaio
Enroscados uns nos outros
Filhotes de gato.

Benedita Azevedo



 

FORMATAÇÃO E ARTE: IARA MELO