Caríssimos leitores!
Continuando as informações sobre o HAIKAI,
sua história e consolidação à Literatura
Brasileira, queremos agradecer ao
coordenador do Grêmio Haicai Ipê, poeta
haicaísta Edson Kenji Iura, que nos colocou
à disposição as matérias do seu site
www.kakinet.com,
e também nos tem indicado os links para
pesquisas sobre os mestres do Haikai. Ao
Douglas Éden Brotto, também poeta haicaísta
do Grêmio Haicai Ipê, que gentilmente nos
tem sugerido a seqüência desta
apresentação. À amiga Teruko Oda (
Escritora haicaista e coordenadora de
eventos haicais brasileiros e mundiais – de
São Paulo) pelos estudos realizados nas
oficinas do Grêmio Haicai Ipê. São três
grandes estudiosos do haicai com os quais
tenho a honra de partilhar experiências e
deles receber orientações.

Seção 01 - Os mestres do
haikai
Nesta seção apresentaremos alguns dados
sobre Takahama Kiyoshi discípulo de Shiki e
mestre de Nempuku Sato, dois mestres já
divulgados por nós em revistas anteriores.

Seção 02 – Poetas haikaístas
Na Revista Nº 04, dando uma seqüência
cronológica aos primeiros haikais publicados
no Brasil, falamos sobre o português
Wenceslau de Moraes, que em 1926 publicou:
Relance da Alma Japonesa, considerado marco
da introdução da cultura japonesa no
Brasil.
Nesta edição daremos algumas considerações
sobre Waldomiro Siqueira JR. Autor da
primeira coletânea de haicais no Brasil. Em
edições posteriores apresentaremos um estudo
mais aprofundado sobre o assunto.
Poetas haicaístas contemporâneos
Agradecemos ao poeta haikaísta, José Marins,
editor de meus dois livros de haicai “Canto
de Sabiá - Haikai” e “Praia do Anil - Haikai”,
de quem recebi boas orientações sobre este
gênero poético. Ele nos enviou um
interessante artigo sobre o haicai e alguns
poemas de sua autoria.

Seção 03 – Notícias
O destaque é para o 18º ENCONTRO BRASILEIRO
DE HAICAI “a maior festa do haicai
brasileiro que completa 20 anos. São Paulo,
25 de novembro de 2006. Saiba de tudo que
vai acontecer”

Seção 01
Takahama Kyoshi
Poeta haiku e romancista, nascido
em 1874 na província de Ehime, em Shikoku.
Seu nome real era Takahama Kiyoshi.
Durante o ensino intermediário,
foi da mesma classe que Kawahigashi Hekigoto.
Mais tarde, ambos se tornaram discípulos do
poeta Masaoka Shiki.
Em 1897, Kyoshi, ao lado do
amigo Hekigoto, auxiliava Shiki, que era o
editor literário de uma recém-lançada
revista de haiku da cidade de Matsuyma,
denominada Hototogisu. No ano seguinte,
Kyoshi assumiu a função que era de Shiki e
mudou a revista para Tóquio. Como editor,
Kyoshi expandiu o escopo da Hototogisu,
incluindo poemas waka e prosa,
transformando, assim, a revista em uma
revista de literatura em geral. Inclusive,
foi nesta revista que a famosa obra de
Natsume Soseki, Wagahai wa Neko De Aru, foi
publicada pela primeira vez. Além disso, o
próprio Kyoshi contribuía para a revista com
contos e romances.
Depois da morte de Shiki, em
1902, Hekigoto começou a se inclinar em
direção ao “shinkeiko haiku” (nova tendência
de haiku), que ignorava a métrica
tradicional e o kigo, enquanto Kyoshi
renovou seu interesse no haiku ortodoxo.
Kyoshi defendia uma observância estrita às
convenções do haiku e encorajava a
observação objetiva e tópicos baseados na
natureza. Kyoshi escreveu de quarenta a
cinqüenta mil haiku durante toda a sua vida,
os quais aparecem em antologias tais como
Kyoshi Kushu e Gohyaku Ku (Quinhentos Haiku).
Fora da poesia, seus trabalhos mais
conhecidos são as coleções de histórias
curtas Keito e o romance Kaki Futatsu.
Como editor da Hototogisu,
Kyoshi foi fundamental ao trazer novos
escritores e poetas ao mundo literário,
entre eles encontram-se Mizuhara Shuoshi,
Yamaguchi Seishi e Takano Suju. Ele também
encorajou sua segunda filha, Hoshino Tatsuko,
a publicar seu própria revista de haiku,
intitulada Tamano.
Kyoshi se mudou para Kamakura em
1910 devido à saúde de seus filhos e também
para dar um novo começo para si mesmo. Viveu
em Yuigahama por aproximadamente 50 anos,
até a sua morte em 1959, aos 85 anos de
idade.
Fonte: History of Japanese
Literature – Volume 3 – The Modern Years
Kyoshi
kozo kotoshi
tsuranuku bô no
gotoki mono
Tradução:
O ano velho e o novo,
Como se houvesse um cajado
A trespassá-los..

tanabata no
uta kaku hito ni
yorisoinu
Tradução:
A moça rodeia
O poeta que escreve versos
Para Tanabata.

mono okeba
soko ni umarenu
aki no kage
Tradução:
Em qualquer lugar
Onde se deixem as coisas
As sombras do outono.

ran no ka mo
hôryûji ni wa
ima mekashi
Tradução:
No Templo Horyuji
O perfume das orquídeas
Parece moderno.

tabi sen to
omoishi haru mo
kure ni keri
Tradução:
Quando penso
Em partir em viagem,
O fim da primavera.
Fonte:
http://www.nippobrasil.com.br/zashi/haicai.html

Seção 02 –
Poetas Haikaístas
Waldomiro Siqueira Júnior
Segundo estudos de Masuda Goga,
começou na década de 1920 o esforço de
abrasileiramento do haiku, isto é,
tentativas de exprimir em português as
qualidades de concisão e mistério (sabor de
haiku) dessa modalidade poética japonesa.
Mas, a mais antiga coletânea de haicai é
Haikais de Waldomiro Siqueira Júnior (um
livro elegante, contendo 56 poemas, um poema
por página). Já ficou dito que essa obra foi
publicada em São Paulo, em janeiro de 1933.
Waldomiro Siqueira adota atitude
liberal afirmando: “manifesto respeito à
tradição do Japão, mas faço meus versos,
interpretando à minha maneira, como
ocidental”.
NATAL
Sapatos vazios...
Não podia compreender
O pobre orfãozinho.
Kurisumasu
Kutsu wa kara
nattoku ikanu
koji aware
Waldomiro Siqueira Júnior

Haikais
Poetas Contemporâneos
O Haicai vem da vivência do poeta
José Marins
O haicai vem da vivência do
poeta tornada experiência poética junto à
natureza e ao mundo humano. Como nos orienta
o monge Francisco Handa quanto à forma de
haicai buscada por Basho, “acreditamos ser
aquela que prioriza a experiência”.O poeta
se torna poeta do haicai (haijin) porque ama
suas vivências estéticas,
colhidas pelos sentidos: a
riqueza de cores e detalhes do sentido da
visão(o amarelo da folha que cai, o brilho
que voa com o colibri); a sonoridade da
natureza, as notas musicais do canto dos
pássaros, captados
pelos ouvidos treinados; o sabor
das frutas e o aroma das flores; o registro,
na memória, sempre ampliada, das vivências
humanas (a alegria da festa junina, o drama
do pescador, o susto do menino com o balão
que estoura).
É o “detalhe”, na ‘cena
haicaística’ (como nos ensinou Nihira) que
importa ao haicai. O pequeno poema deve
conter a parte significativa de um todo, e
ser capaz de reproduzir a sensação, ou a
emoção, retratada pela vivência dos
sentidos,da memória, do pensamento, como
matéria da criatividade do poeta. Handa nos
diz: “...a experiência devia ser o centro da
atividade criativa. O inverso da experiência
é o haicai composto nos gabinetes, sem uma
relação objetiva com o mundo. O vício mais
comum entre os haicaístas é a composição
“imaginada”
apenas, o que pode incorrer em
erro”. Ao poeta do haicai cabe,
primeiramente treinar-se na habilidade de
observar, de captar detalhes, de registrar a
memória dos momentos. Só depois é que deve
se preocupar em escrever o que vivencia,
dentro da forma,das regras e princípios que
formam os cânones desse tipo de poema. Então
as regras vêm facilitar a tarefa de tornar
poemas-haicai aquilo que ele, poeta,
vivenciou no cotidiano das estações. Só
então faz sentido captar o kigo (palavra de
estação), pois terá percebido o seu
significado vivencial, sua sazonalidade, seu
poder de imantar o pequeno haicai para a
noite dos tempos. José Marins, é poeta e
haicaísta. (Francisco Handa escreveu na
seção Haicai do jornal Nippo-Brasil).
Haicais de José Marins
vento frio de julho
nos galhos nus da tipuana
sementes sonoras
trote de cavalo
antes da chuvarada
ruidosa carroça
dia de primavera
se passa sempre tão doce
qual a cor do vento?
merecida pausa
a lua no campanário
e a brisa da tarde
rio de primavera
na canoa sobre o lodo
nome de mulher
pequena lagoa
na imensidão refletida
o salto do sapo
lampeão apagado
no interior da palhoça
lua cheia no céu
Dados do autor:
José Marins, é poeta, haicaísta e escritor.
Autor de Fazendo o Dia (poemas); POEZEN (haicais
livres); Monalisa, a conchinha sabida
(infantil); O dia do porco (romance,
inédito); Karumi (haikai, inédito); Bico do
joão-de-barro (haikai, inédito).

Seção Nº
03 - Notícias
Destaque
18º
Encontro Brasileiro de Haicai
“A maior festa do haicai brasileiro que
completa 20 anos. São Paulo, 25 de
novembro de 2006”.
Mini-poema de origem
japonesa é cada vez mais popular entre
os brasileiros. Evento realizado há 20
anos é a oportunidade de conhecê-lo.
São Paulo, 13 de
novembro de 2006 – Acontece no próximo
dia 25 de novembro, no Colégio Santo
Agostinho, bairro da Liberdade, São
Paulo, o 18º Encontro Brasileiro de Haicai. Realizado desde 1986, portanto
há 20 anos, é uma grande
confraternização de admiradores e
praticantes do haicai, pequeno poema
originário do Japão, caracterizado por
“fotografar” em palavras um instante da
realidade. Consistindo de palestras e de
um concurso, que propõe aos presentes a
composição de um haicai em 20 minutos,
seguido de julgamento e premiação, o
evento é aberto a todos os interessados
e não cobra entrada.
A capacidade de um
minúsculo fragmento de texto (três
versos de 5-7-5 sílabas) despertar um
universo de sentimentos e associações em
quem o lê faz com que o haicai cative
admiradores no mundo inteiro,
estimulando todos os tipos de pessoas a
praticar a sua composição, inclusive no
Brasil. E em português.
É imensamente popular
no Japão, onde existem revistas e
programas especializados de rádio e TV.
Nos EUA e na Europa já é bem conhecido e
seus praticantes formam associações
locais e nacionais de estudo e prática
do haicai.
Baseando-se na
observação da natureza, o haicai não
necessita de um grande conhecimento
teórico. Ao principiante, basta
conservar a mente aberta ao que acontece
ao redor, escrevendo frases curtas que
representem apenas aquilo que ele vê e
sente. O haicai é acessível a pessoas de
todas as classes sociais, não fazendo
distinção de raça, gênero ou idade.
Noite escura
Fogos de artifício
Estrelas de mentira.
André Luiz Rodrigues de Oliveira (oito
anos)
O Encontro Brasileiro
de Haicai é promovido pelo Grêmio Haicai
Ipê, associação de brasileiros
praticantes de haicai fundada em 1987 (http://www.kakinet.com/ipe).
Serviço
18º Encontro Brasileiro de
Haicai
Data: 25 de novembro de 2006 (sábado)
Local: Colégio Santo Agostinho
Praça Santo Agostinho, 79, Liberdade
São Paulo, SP
(subindo as escadarias ao lado do Metrô
Vergueiro)
Programa
Não é necessário participar de
todas as atividades. O ingresso é
gratuito.
Hora – Atividades
08h30 - Recepção dos visitantes de
outras cidades.
10h00 - Abertura - Início das inscrições
para o Grande Desafio.
10h30 - O Haicai e os nossos (seis)
sentidos - Palestra de Sérgio Francisco
Pichorim sobre a importância
das sensações no haicai, com a
participação da platéia
12h00 – Intervalo
14h30 - Grande Desafio - Tradicional
concurso, promovido desde 1986, onde os
participantes são desafiados a escrever
um haicai em 20 minutos, a partir de um
tema proposto na hora. Os vencedores
serão conhecidos no mesmo dia.
15h30 - Dois poetas: Bashô e Shiki -
Bate-papo entre Guin Ga Eden e Celso
Pestana expõe as diferenças entre os
principais haicaístas japoneses
16h30 - Premiação dos vencedores do
Grande Desafio.
17h00 - Encerramento.

O que é haicai
Haicai é uma forma de poesia curta,
normalmente escrita em três linhas e
fazendo referência à natureza. É
originário do Japão, onde evoluiu de um
passatempo até atingir valor literário
graças ao mestre Matsuo Bashô
(1644-1694). Espalhou-se pelo mundo e
chegou ao Brasil, introduzido no início
do século 20 por Afrânio Peixoto. Aqui,
até recentemente, o haicai seguiu dois
caminhos paralelos:
O primeiro caminho é o dos imigrantes
japoneses, que escrevem haicais em
japonês seguindo tradições rigorosas,
num contexto de afirmação de identidade
cultural. A prática do haicai em japonês
no Brasil tomou grande impulso com o
mestre Nempuku Sato (1898-1979), cujo
trabalho ergueu as bases de uma das mais
importantes comunidades do gênero fora
do Japão.
O segundo caminho é o dos poetas
brasileiros que reinterpretam e adaptam
o haicai e sua prática às mais diversas
tendências literárias. Identificam-se
com o haicai brasileiro nomes como
Guilherme de Almeida, Millôr Fernandes,
Haroldo de Campos e Paulo Leminski.
O crescimento recente do número de
poetas brasileiros interessados em
assimilar e aplicar as tradições de
origem, beneficiados pelo intercâmbio
direto com o haicai dos imigrantes,
indica o estabelecimento de um terceiro
caminho. Alice Ruiz, os poetas do Grêmio
Haicai Ipê e os estudos de Paulo
Franchetti, da Unicamp, fazem parte
desta vertente.
O Primeiro
Encontro Brasileiro de Haicai (1986)
“Foi um grande sucesso: o I Encontro
Brasileiro de Hai-Kai, realizado no hall
de entrada da biblioteca do Centro
Cultural São Paulo no dia 6 de dezembro.
Era esse o comentário que se ouvia dos
participantes e principalmente dos
palestristas e dos jurados que avaliaram
os trabalhos dos 63 inscritos para uma
oficina literária em forma de concurso,
que se realizou durante o evento
cultural. Os nossos convidados foram:
Paulo Leminski, Alice Ruiz, Olga Savary
e Roberto Saito, todos haikaístas com
livros publicados; Mitsuko Kawai e Paulo
Colina, ambos poetas e o editor Massao
Ohno”. (leia a matéria completa da
extinta revista Portal na internet:
Especialmente desde o fim do
século 19, artistas, escritores e poetas
têm sido influenciados pela descoberta
de tradições distintas da matriz
cultural européia, tais como as
provindas da China e do Japão. Em muitos
casos, o contato com estas tradições
deixou marcas profundas na maneira como
nos relacionamos hoje com a arte e a
literatura.
O velho tanque –
Uma rã mergulha,
Barulho de água.
Bashô (Japão, 1644-1694)
Tradução de Paulo Franchetti e Elza Dói
Há quase um século, o haicai, pequeno
poema de origem japonesa com origens no
século 16, começou a servir como tema de
reflexão e inspiração para a literatura
ocidental, como atestam os imagistas
liderados por Ezra Pound. No Brasil,
apesar dos pioneiros esforços de
divulgação de Afrânio Peixoto, dos
haicais “parnasianos” de Guilherme de
Almeida e das reflexões bem-humoradas em
três versos de Millôr Fernandes, o
haicai não era mais do que uma
curiosidade, talvez ao mesmo nível das
árvores-anãs (bonsai) cultivadas pelos
imigrantes nipônicos.
Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se "Agora".
Guilherme de Almeida (1890-1969)
Este cenário só se alterou a partir da
década de 1950, com a eclosão do
movimento concreto, liderado por Augusto
de Campos, Haroldo de Campos e Décio
Pignatari. Fazendo da síntese e da
visualidade do haicai um dos pilares da
nova poesia, divulgando traduções e
escrevendo ensaios sobre o poema
japonês, o movimento concreto elevou o
haicai a um novo patamar de
respeitabilidade. E ao partir das idéias
do movimento concreto, Paulo Leminski,
um dos poetas brasileiros mais
influentes do século 20, prosseguiu com
a trajetória de renovação poética. Desta
vez aliando a tradição do poema curto à
estética libertária da contracultura e
ao poder de síntese da frase
publicitária, Leminski elegeu novamente
o haicai como um de seus pólos
inspiradores.
abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri
antigamente eu era eterno
Paulo Leminski (1944-1989
Passando ao largo de todas as polêmicas
literárias, a produção cultural dos
imigrantes japoneses no Brasil permanece
anônima em sua maior parte e, salvo
algum esforço de divulgação, não
sobreviverá à morte de seus praticantes,
isolados pela língua e pela conseqüente
dificuldade de comunicação com
sucessivas gerações de descendentes. O
primeiro haicai em japonês escrito em
nosso país é tão antigo quanto a própria
história da imigração, que completa um
século em 2008. A produção de haicais em
língua japonesa no Brasil esteve,
durante muitas décadas, sob o comando de
um mestre originado da melhor tradição
literária. O também imigrante Nempuku
Sato (1898-1979) teria formado, segundo
algumas fontes, cerca de seis mil
discípulos, o maior número de poetas de
língua japonesa fora do Japão.
A prática do haicai
E quanto aos haicaístas, os
poetas que escrevem haicais em
português, quem são e quais são as
questões e desafios ante os quais se
colocam? O haicai japonês tem se
prestado esplendidamente a objeto de
reflexão para a literatura brasileira.
Mas, quando poetas brasileiros propõe-se
a escrever haicais na língua de Camões,
será que se pode levar esse esforço a
sério? Parafraseando Caetano, só será
possível escrever haicais em japonês?
Qual é o objetivo dos haicaístas?
Influenciados pelas filosofias
orientais, em especial o zen-budismo,
muitos buscam alcançar em cada poema, um
instante de plenitude e de comunhão com
o universo. Outros talvez só procurem um
passatempo, atraídos pela convivência
social dos grêmios de haicai.
Escrevem-se haicais em português desde o
início do século 20. Mas, naquela época,
a característica mais ostensiva e
atraente dessa poesia era a sua
brevidade. Isto deu aos poetas o ensejo
de praticarem haicais como exercícios de
virtuosismo, concentrando um pensamento
ou um provérbio no reduzido espaço de
três versos de 5, 7 e 5 sílabas, a
“forma” do haicai japonês. O gosto pela
frase de efeito, pela “sacada” esperta e
luminosa, está presente até hoje em boa
parte da produção dos haicaístas.
Impulsionada pela crescente oferta de
traduções e obras de crítica e
divulgação em línguas ocidentais e por
um ainda incipiente intercâmbio com
poetas imigrantes, uma nova geração de
haicaístas vem tomando contato com
outras facetas do haicai, tão
importantes quanto era a brevidade no
século passado.
Se, hoje, a métrica cerrada 5-7-5 já não
é mais um dogma, é corrente no haicai a
necessidade de menção à natureza através
de imagens objetivas. Ao lado disso,
timidamente, contra toda a
improbabilidade de um país tropical,
procura-se estabelecer a tradição do uso
de palavras e expressões indicativas das
estações do ano, conhecidas por kigo,
requisito tido por indispensável ao
haicai.
Noite de insônia –
O grilo atrás da janela
também sem sono.
Teruko Oda
Outra tendência interessante é a
utilização do haicai como ferramenta de
iniciação poética entre crianças e
adolescentes. Por ser pequeno, objetivo
e ter regras claras, é o veículo ideal
para exercitar o interesse pela poesia.
Ao desenvolver o gosto pela observação e
o amor à natureza, presta-se também como
instrumento de conscientização
ambiental. Uma importante iniciativa a
respeito é o Concurso Brasileiro de
Haicai Infanto-juvenil, promovido há
quatro anos pelo Grêmio Haicai Ipê, que
na edição de 2006 julgou os haicais de
2635 crianças de quatro estados.
Manhã de inverno
A borboleta se esquenta
No raio de sol.
Guilherme Lucas da Silva (11 anos)
O futuro
Em tempos de internet, a
produção e a discussão de haicais são
turbinadas por fóruns, blogs e sites de
poesia. O Orkut conta com mais de vinte
comunidades dedicadas ou relacionadas ao
haicai. As pequenas dimensões de um
haicai parecem perfeitas para a difusão
por meio de novas mídias, como os
torpedos via telefone celular e as
mensagens instantâneas do MSN. Com o
aquecimento global tomando conta das
manchetes, quem sabe o casamento da
tecnologia de ponta com a poesia mais
tradicional não restitua ao homem a
unidade perdida com a natureza?
Matéria enviada
pelo Coordenador do Grêmio Haicai Ipê e
do Site
www.kakinet.com
Edson Kenji Iura
Observação
Aos demais poetas que enviaram seus
haicais, terão seus trabalhos publicados
na Revista Nº 06, que será enviada para
publicação até o dia 30/11/2006.
Praia do Anil, Guia de Pacobaíba, Magé -
RJ
15 de novembro de 2006
1º lugar no 17º Encontro Brasileiro de
Haicai/2005
Dentro do balaio
Enroscados uns nos outros
Filhotes de gato.
Benedita Azevedo

FORMATAÇÃO E ARTE:
IARA MELO