Revista "HAIKAI - com Amor"
Nº 04 - Outubro de 2006

Editora: Benedita Azevedo

 

Caríssimos leitores! Daremos continuidade às informações sobre o HAIKAI, sua história e consolidação à Literatura Brasileira.
Queremos agradecer ao escritor Luis Corrales Vascos, que nos autorizou a publicar, em nossa revista, a biografia de Shiki, artigo de sua autoria que faz parte do Site El Rincón del Haiku.
Um agradecimento muito especial ao nosso Diretor Carlos Leite Ribeiro, por nos disponibilizar este espaço para divulgação do  HAIKAI, seus MESTRES, POETAS e eventos.

 

 
Seção 01  -  Os mestres do haikai
 
Nesta seção encontraremos alguns dados sobre  Shiki, um mestre de breve vida, mas que renovou o haiku japonês, foi contemporâneo de Nempuku Sato.

 

Seção 02 –  Poetas haikaístas
 

Na Revista Nº 03 concluímos as informações sobre Afrânio Peixoto, que publicou em 1919 Trovas Populares Brasileiras, onde afirmava:
 
“Os japoneses possuem uma forma elementar de arte, mais simples ainda que a nossa trova popular: é o haikai, palavra que nós ocidentais não sabemos traduzir senão com ênfase, é o epigrama lírico. São tercetos breves, versos de cinco, sete e cinco pés, ao todo dezessete sílabas. Nesses moldes vazam, entretanto, emoções, imagens, comparações, sugestões, suspiros, desejos, sonhos... de encanto intraduzível”. E deu como exemplo este haikai:
 
 
Pétala caída
Que torna de novo ao ramo:
Uma borboleta
 
 
Dando uma seqüência cronológica aos primeiros haikais publicados no Brasil, neste número, escreveremos sobre o português Wenceslau de Moraes, que em 1926 publicou: Relance da Alma Japonesa, considerado marco da introdução da cultura japonesa no Brasil.
 
 
Um templo, um tanque musgoso;
Mudez, apenas cortada
Pelo ruído das rãs,
Saltando à água, mais nada...
                                                                  
Wenceslau de Moraes
 Relance da alma japonesa, 1926




Seção 03 – Notícias
 
Irati comemora 100 anos e faz concurso de haicai
 
Haicaimania – Jornal Expressão Cultural
 
Membros do Grêmio Haicai Sabiá têm haicais selecionados e publicados no Jornal Nippo-Brasil
 

 
SEÇÃO 01 –  MESTRES DO HAIKAI
 
SHIKI - Renovação do haikai
 

Em meados do século XIX opera-se no Japão um movimento político crucial que recai sobre o haikai uma abertura sobre as influências ocidentais, igual a que ocorreu no século VIII em relação à China. Falamos do advento da era Meiji, em 1868, que acaba com vários ciclos de relacionamento existentes desde a política conservadora de  Tokugwa. O Japão se abre, desde então, ao comércio com as potências ocidentais e as influências artísticas e religiosas dos países europeus. A este respeito merece destaque a intenção de estabelecer a política de uma única religião no país que resultaria  numa difícil tentativa de separação entre o sintoísmo, favorecida pelas autoridades por ser a religião ancestral das alas nipônicas e o budismo, importado  do continente, muitos séculos atrás e cujos tesouros artísticos serão sistematicamente destruídos.
 
As letras japonesas não estão apenas neste ambiente generalizado de confusão na vida do país. A poesia volta por influência ocidental, a maneira de compor poemas extensos, inventa seus próprios temas e vai  se ocidentalizando. Nesta época surgem as primeiras traduções em japonês de poemas originais ingleses e franceses  e algumas compilações importantes de poesia moderna. Os gêneros clássicos japoneses como a tanka e o hokku permanecem moribundos e ao longo das décadas centrais dos séculos à espera de um impulso renovador que os tire do ostracismo.
 


 
SHIKI – POETA DE VIDA MUITO CURTA

 

 

Shiki Masaoka (1867 – 1902) é o grande renovador das formas clássicas de poesia no Japão. Ele conseguiu a partir de sua dupla faceta de poeta e crítico literário transforma o hokku em haiku e combateu durante sua vida muitos prejuízos da época fazia o haiku clássico.
 
Nascido  no Matsuyama no seio de uma modesta família, Shiki começa cedo a compor poesia. Sua  primeira intenção ao ir para Tókio, aos 16 anos, era tornar-se político. Durante seus estudos na Universidade Imperial desenvolve o gosto pela literatura, principalmente ao estudo do haiku clássico.  A parte mais dura de sua vida acontece aos 23 anos quando se confirma o diagnóstico de tuberculose, enfermidade incurável, depois de vomitar sangue repetidas vezes. Naquele momento decide adotar o nome de Shiki, pássaro que, segundo a lenda, cospe sangue mas canta. Shiki também pode significar em japonês “as quatro estações”. Seus achaques não impedem de seguir progredindo, e em 1892 entra no periódico Nihon, onde vários de seus artigos sobre os autores clássicos de haiku conseguem criar polêmica e colocar em  discussão algumas  dogmáticas posturas que em sua época se mantinham sobre o tema. Admira muitos poemas de Bashô, mas  considera Buson o maior poeta de haiku e  advoga a volta de seus poemas belos e artísticos.
 
Sua opinião atrai alguns jovens poetas, como ele, desejosos de derrubar as regras então vigentes. Paralelamente, Shiki manteve uma frutífera atividade artística até no último sopro de sua vida: nunca deixou de pintar (Shiki amava a pintura desde que era menino) e de compor poemas (tanto haiku como tankas). Passou seus dois últimos anos prostrados em uma cama e escrevendo um diário exaustivo de sua vida, em que anota inclusive a sua comida diária. Morreu após uma lenta e amarga agonia, em setembro de 1902, aos 35 anos.
 
A obra de Shiki destaca-se  por sua coerência e brilhante forma. Introduz um ponto de vista agnóstico no mundo do haiku dominado à época clássica  por uma profunda religiosidade.  Seus haikus estão muito marcados pela terrível vicissitude de padecer de  uma  moléstia incurável desde tão pouca idade.  Sua obra é por isso, marcadamente autobiográfica. Seus haikus se orientam pela  objetividade e observação direta, mais ao estilo de Buson. Sua naturalidade o leva a reparar, menos que os clássicos em aspectos como o tema do haiku, a linguagem, a métrica e na própria palavra de estação. Concluindo, Shiki conseguiu abrir o haiku a todos os poetas do país. Legou-nos uma obra de notável beleza e propiciou a aparição, como em outros tempos, de distintas escolas que durante todo o século XX tem mantido em plena vigência esta peculiar maneira poética japonesa.


Esta página é parte do: El Rincón del Haiku
Texto de Luis Corrales Vascos
(http://www.elrincondelhaiku.org)
Tradução: Benedita Azevedo
HAIKAIS de SHIKI
 


01
nashi saku ya
ikusa no ato no
kuzure ie
 
Tradução:
A pereira em flor — / No antigo campo de guerra / A casa em ruínas.
 
02
nodokasa no
hitori yuki
hitori omoshiroki
 
Tradução:
A tranqüilidade / De andar sozinho, / De rir sozinho.
 
03
michizure wa
kochô o tanomu
tabiji kana
 
Tradução:
Para esta viagem / A melhor companhia / É uma borboleta.
 
04
otoko bakari no
naka ni onaa no
atsusa kana
 
Tradução:
Apenas homens, / E uma mulher entre eles. / Que calor !
 
05
zendera no
mon o izureba
hoshizukiyo
 
Tradução:
Templo Zen - / Ao sair pelo portão / Uma noite estrelada!
 
06
haru no no ya
nani ni hito yuki
hito kaeru
 
Tradução:
Campo de primavera - / Para onde vão, de onde vêm / Estas pessoas?
 
07
banshô ya
tera no jukushi no
otsuru oto
 
Tradução:
Sino do anoitecer- / O barulho de um caqui maduro / Caindo no templo.
 
Mais poemas de SHIKI
Fonte: www.nippo-brasil.com
 

 
Seção  02 -  Os poetas haicaístas

 


WENCESLAU DE MORAES
(Lisboa, 1854 - Tokushima, Japão, 1929) 
 

Numa nota biográfica que lhe foi pedida por um japonês, Wenceslau de Moraes escreveu: "Sou português. Nasci em Lisboa (a capital do país) no dia 30 de Maio de 1854. Estudei o curso de Marinha e dediquei-me a oficial de marinha de guerra. Em tal qualidade fiz numerosas viagens, visitando as costas de África, da Ásia, da América, etc. Estive cerca de cinco anos na China, tendo ocasião de vir ao Japão a bordo de uma canhoneira de guerra e visitando Nagasaki, Kobe e Yokohama. Em 1893, 1894, 1895 e 1896 voltei ao Japão, por curtas demoras, ao serviço de Macau, onde estava comissionado na capitania do porto de Macau.
 
Em 1896 regressei a Macau, demorando-me por pouco tempo e voltando ao Japão (Kobe). Em 1899 fui nomeado cônsul de Portugal em Hiogo e Osaka, lugar que exerci até 1913." Era seu pai funcionário público, com o mesmo nome, e sua mãe Maria Amélia Figueiredo Moraes. Ambos cultos e amantes das letras, devem ter estimulado no filho o gosto da cultura desde muito jovem, pois possuímos provas por ele escritas aos 11 anos: um diário infantil de poucas páginas, uma peça de teatro e uma colecção de poemas, ambas breves, aos 15 anos. Completado o curso da Escola Naval em 1875, é já guarda-marinha aos 21 anos; em 1891 é imediato do capitão do porto de Macau; em 1899 é cônsul em Kobe e Osaka, e no Japão morre em 1929.
 
Wenceslau de Moraes é o último dos nossos grandes escritores de viagens e Dai-Nippon o maior livro no género depois da Peregrinação. Em português as suas "Obras Completas" estão a meio de ser publicadas; a tradução japonesa delas, de Tomizo Hanano, por uma das maiores editoras do Japão, Shueisha, saiu em 1969 e depressa se esgotou. As críticas aos seus livros no Japão e em Portugal têm sido diferentes: aqui a nota dominante é o exotismo e caprichismo romântico; lá acentua-se o seu conhecimento profundo da alma japonesa (do Relance da Alma Japonesa, de todos os seus livros o mais lido, saíram já cinco edições), a sua profunda intimidade com o povo nipónico, vivendo como um japonês: amando os seus costumes e venerando os seus deuses; e alguns autores japoneses são atraídos pela "natureza enigmática da sua vida". Desde a publicação das "Obras Completas" (Zenshu) têm saído artigos frequentes - um jornal de Tóquio em inglês falava há pouco num Moraes boom. Nesta identificação e no dom soberano de exprimi-la num português rico, de infinitas gradações, está a sua validade de escritor.
 
Nem Kurt Singer, nem muito menos o hedonista e mordaz Pierre Loti penetraram tão fundo no conhecimento da alma japonesa, nos símbolos e mitos do povo nipónico. É por esta capacidade de abertura humana, de compreensão e dom de si mesmo, que os Japoneses hoje apreciam Moraes.
 
Não certamente pelos comentários superficiais sobre a cultura japonesa, mais de divulgação que de aprofundamento, que ele, aliás, apresentou sempre com modéstia. E o conhecimento profundo dos homens, dos costumes, da vida, das aspirações e dos ideais de um povo. E por isso os Japoneses lhe estão gratos: ergueram-lhe dois monumentos, um em Tokushima, na principal avenida da cidade, outro na principal praça de Kobe. Em Tokushima há também um Museu Wenceslau de Moraes e uma Sociedade de Amigos. Nos livros elementares das escolas do Japão figuram o retrato e duas páginas sobre Wenceslau de Moraes. Consagração bem maior do que aquela que lhe concedeu o seu país.
 
Descendente espiritual de Mendes Pinto, não possui deste o largo fôlego, a força, a variedade, a vastidão ecumênica, e não o entusiasmam as grandes construções discursivas, mas é mais artista, tem uma sensibilidade mais fina, um gosto mais requintado; ao lado do português ainda frustre e lerdo de Mendes Pinto, a frase de Moraes brilha vivíssima de graça e de esmeros, e o seu estilo elegante é mais rico de cor e de cambiantes e tem mais garbo e mais encanto. Mendes Pinto é o maior descobridor da Ásia por terra; Wenceslau concentra-se no Japão.
 
Os seus contos, as suas descrições do drama e da comédia dos acontecimentos e costumes, as suas finas aquarelas da doce paisagem nipônica, são os mais delicados, e as suas sondagens da alma japonesa são as mais sagazes e profundas atingidas por um estrangeiro. Os mais íntimos, dramáticos, amores de Moraes foram japoneses; por isso não surpreende que ele escreva como nenhum outro estrangeiro sobre o fascínio da mulher japonesa.

Wenceslau  de Moraes perto do fim da vida, no Japão
 

Mas também o Japão deu muito a Wenceslau: deu-lhe encantos e prazeres que suavizaram o seu isolamento e iluminaram a sua tristeza, deu-lhe as alegrias e os dramas do amor, o gozo da arte que ele adorava contemplar, inspirou-lhe a meditação solitária sobre os homens, a vida e a morte, em que atingiu profundidades raras na nossa língua. Wenceslau quis ter um funeral budista e ser incinerado e que as suas cinzas ficassem num pequeno túmulo, no pequeno cemitério de Chionji, ao lado das cinzas da sua amada Ko-Haru. É o único português a quem se rezam sutras e que recebe no aniversário da sua morte um serviço budista. Na festa dos mortos, no Bon-Odori que ele tão bem descreveu, raparigas e rapazes vão cantar e dançar alegremente em roda do seu monumento em Tokushima: não pode haver consagração mais viva.

in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. II, Lisboa, 1990
(Pesquisa Google)
 


Seção 03 – Notícias 
 

Irati comemora 100 anos e faz concurso de haicai.
A Prefeitura Municipal de Irati, estado do Paraná, por meio do Departamento de Cultura, e a Academia de Letras, Artes e Ciências do Centro-Sul do Paraná (ALACS), promovem o Concurso de HAICAI, aberto ao público em geral, com o intuito de incentivar e difundir a prática do halcai entre os iratienses e aqueles que conhecem o município de Irati.
 
Categorias
Infantil: participantes de até 10 anos
Infanto-juvenil: participantes de 11 a 17 anos
Adulto: maiores de 18 anos
As inscrições encerraram-se a 15 de setembro de 2006
 



Reportagem do Jornal Expressão Cultural – Magé – RJ
(Demétrio Sena)
 
Haicaimania


O ponto de partida foi a vinda das escritoras Benedita Azevedo e Neide Rocha Portugal ao Colégio Alcindo Guanabara, para realização de oficinas de haicai, poesia de origem japonesa, em nosso colégio, e do Concurso Internacional, Promovido pela JAL (Japan Airlines),  no qual a aluna Tamires Carmencita, de dez anos, aluna da quinta série foi classificada. Depois o animador cultural Demétrio Sena deu prosseguimento e o haicai virou mania entre um grande número de alunos. Nos próximos números do Jornal Expressão Cultural, publicaremos os haicais escritos pelos alunos, nas oficinas da professora e pelo animador cultural.
 
Haicai classificado em 15º lugar entre os 50 que foram selecionados para a fase internacional.
 


No canto da sala
Abaixei e descobri
Casa de formiguinha
 
Tamires Carmencita
 

 
Haicais dos participantes do GRÊMIO HAICAI SABIÁ nas  publicações quinzenais do Jornal Nippo-Brasil
 


Benedita Azevedo
 
Vala pluvial
De trás do muro aparece
Ninhada de marrecos
 
 
À beira da trilha
Enroscado na palmeira –
Cipó-de-São-João
 
 
Frescor da manhã
Com o xale sobre os ombros
Vovó faz café.
 
 
Bois magros vagueiam
À procura de alimento
Relva seca no campo.
 
 

Iva Evilin Day
 
Na foto do jornal
Sorriso do pescador –
Cação capturado
 
 
Desaparecem
Os contornos da íngrime estrada
Na serre vernal
 
 
A bela trepadeira
Cipó-de-São-João floresce
Manhã invernal
 
 
Na pista de dança
Sobre os ombros da mulher
O xale de seda
 
 
Maria Madalena Ferreira
 
 
Madrugadas frias
E manhãs ensolaradas...
Agosto chegando
 
 
Na volta do mar
Cheiro de peixe ensopado.
Cação na travessa.
 
 

 
Regina Célia de Andrade
 
 
Pescador segura
Cação que tenta fugir
Das malhas das rede.
 
Pessoas caminham
Filmando e fotografando
A serra vernal.
 
Cipó de São João
Cobrindo a cerca de arame
Na beira da rua
 
Cipó-de-São-João
Formando uma cerca - viva
Nos fundos da casa.
 


Mais informações sobre HAIKAI visite  www.kakinet.com
 
Praia do Anil, 10 / 10 / 2006
Benedita Azevedo
 
 



FORMATAÇÃO E ARTE: IARA MELO