Caríssimos leitores! Daremos continuidade
às informações sobre o HAIKAI, sua história
e consolidação à Literatura Brasileira.
Queremos agradecer ao escritor Luis Corrales
Vascos, que nos autorizou a publicar, em
nossa revista, a biografia de Shiki, artigo
de sua autoria que faz parte do Site El
Rincón del Haiku.
Um agradecimento muito especial ao nosso
Diretor Carlos Leite Ribeiro, por nos
disponibilizar este espaço para divulgação
do HAIKAI, seus MESTRES, POETAS e
eventos.

Seção 01 - Os mestres do haikai
Nesta seção encontraremos alguns dados sobre
Shiki, um mestre de breve vida, mas que
renovou o haiku japonês, foi contemporâneo
de Nempuku Sato.

Seção 02 – Poetas haikaístas
Na Revista Nº 03 concluímos as informações
sobre Afrânio Peixoto, que publicou em 1919
Trovas Populares Brasileiras, onde afirmava:
“Os japoneses possuem uma forma elementar de
arte, mais simples ainda que a nossa trova
popular: é o haikai, palavra que nós
ocidentais não sabemos traduzir senão com
ênfase, é o epigrama lírico. São tercetos
breves, versos de cinco, sete e cinco pés,
ao todo dezessete sílabas. Nesses moldes
vazam, entretanto, emoções, imagens,
comparações, sugestões, suspiros, desejos,
sonhos... de encanto intraduzível”. E deu
como exemplo este haikai:
Pétala caída
Que torna de novo ao ramo:
Uma borboleta
Dando uma seqüência cronológica aos
primeiros haikais publicados no Brasil,
neste número, escreveremos sobre o português
Wenceslau de Moraes, que em 1926 publicou:
Relance da Alma Japonesa, considerado marco
da introdução da cultura japonesa no Brasil.
Um templo, um tanque musgoso;
Mudez, apenas cortada
Pelo ruído das rãs,
Saltando à água, mais nada...
Wenceslau de Moraes
Relance da alma japonesa, 1926

Seção 03 – Notícias
Irati comemora 100 anos e faz concurso de
haicai
Haicaimania – Jornal Expressão Cultural
Membros do Grêmio Haicai Sabiá têm haicais
selecionados e publicados no Jornal
Nippo-Brasil

SEÇÃO 01 – MESTRES DO HAIKAI
SHIKI - Renovação do haikai
Em meados do século XIX opera-se no Japão um
movimento político crucial que recai sobre o
haikai uma abertura sobre as influências
ocidentais, igual a que ocorreu no século
VIII em relação à China. Falamos do advento
da era Meiji, em 1868, que acaba com vários
ciclos de relacionamento existentes desde a
política conservadora de Tokugwa. O
Japão se abre, desde então, ao comércio com
as potências ocidentais e as influências
artísticas e religiosas dos países europeus.
A este respeito merece destaque a intenção
de estabelecer a política de uma única
religião no país que resultaria numa
difícil tentativa de separação entre o
sintoísmo, favorecida pelas autoridades por
ser a religião ancestral das alas nipônicas
e o budismo, importado do continente,
muitos séculos atrás e cujos tesouros
artísticos serão sistematicamente
destruídos.
As letras japonesas não estão apenas neste
ambiente generalizado de confusão na vida do
país. A poesia volta por influência
ocidental, a maneira de compor poemas
extensos, inventa seus próprios temas e vai
se ocidentalizando. Nesta época surgem as
primeiras traduções em japonês de poemas
originais ingleses e franceses e
algumas compilações importantes de poesia
moderna. Os gêneros clássicos japoneses como
a tanka e o hokku permanecem moribundos e ao
longo das décadas centrais dos séculos à
espera de um impulso renovador que os tire
do ostracismo.
SHIKI – POETA DE VIDA MUITO CURTA
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Shiki Masaoka (1867 – 1902) é o grande
renovador das formas clássicas de poesia no
Japão. Ele conseguiu a partir de sua dupla
faceta de poeta e crítico literário
transforma o hokku em haiku e combateu
durante sua vida muitos prejuízos da época
fazia o haiku clássico.
Nascido no Matsuyama no seio de uma
modesta família, Shiki começa cedo a compor
poesia. Sua primeira intenção ao ir
para Tókio, aos 16 anos, era tornar-se
político. Durante seus estudos na
Universidade Imperial desenvolve o gosto
pela literatura, principalmente ao estudo do
haiku clássico. A parte mais dura de
sua vida acontece aos 23 anos quando se
confirma o diagnóstico de tuberculose,
enfermidade incurável, depois de vomitar
sangue repetidas vezes. Naquele momento
decide adotar o nome de Shiki, pássaro que,
segundo a lenda, cospe sangue mas canta.
Shiki também pode significar em japonês “as
quatro estações”. Seus achaques não impedem
de seguir progredindo, e em 1892 entra no
periódico Nihon, onde vários de seus artigos
sobre os autores clássicos de haiku
conseguem criar polêmica e colocar em
discussão algumas dogmáticas posturas
que em sua época se mantinham sobre o tema.
Admira muitos poemas de Bashô, mas
considera Buson o maior poeta de haiku e
advoga a volta de seus poemas belos e
artísticos.
Sua opinião atrai alguns jovens poetas, como
ele, desejosos de derrubar as regras então
vigentes. Paralelamente, Shiki manteve uma
frutífera atividade artística até no último
sopro de sua vida: nunca deixou de pintar (Shiki
amava a pintura desde que era menino) e de
compor poemas (tanto haiku como tankas).
Passou seus dois últimos anos prostrados em
uma cama e escrevendo um diário exaustivo de
sua vida, em que anota inclusive a sua
comida diária. Morreu após uma lenta e
amarga agonia, em setembro de 1902, aos 35
anos.
A obra de Shiki destaca-se por sua
coerência e brilhante forma. Introduz um
ponto de vista agnóstico no mundo do haiku
dominado à época clássica por uma
profunda religiosidade. Seus haikus
estão muito marcados pela terrível
vicissitude de padecer de uma
moléstia incurável desde tão pouca idade.
Sua obra é por isso, marcadamente
autobiográfica. Seus haikus se orientam pela
objetividade e observação direta, mais ao
estilo de Buson. Sua naturalidade o leva a
reparar, menos que os clássicos em aspectos
como o tema do haiku, a linguagem, a métrica
e na própria palavra de estação. Concluindo,
Shiki conseguiu abrir o haiku a todos os
poetas do país. Legou-nos uma obra de
notável beleza e propiciou a aparição, como
em outros tempos, de distintas escolas que
durante todo o século XX tem mantido em
plena vigência esta peculiar maneira poética
japonesa.
Esta página é parte do: El Rincón del Haiku
Texto de Luis Corrales Vascos
(http://www.elrincondelhaiku.org)
Tradução: Benedita Azevedo
HAIKAIS de SHIKI
01
nashi saku ya
ikusa no ato no
kuzure ie
Tradução:
A pereira em flor — / No antigo campo de
guerra / A casa em ruínas.
02
nodokasa no
hitori yuki
hitori omoshiroki
Tradução:
A tranqüilidade / De andar sozinho, / De rir
sozinho.
03
michizure wa
kochô o tanomu
tabiji kana
Tradução:
Para esta viagem / A melhor companhia / É
uma borboleta.
04
otoko bakari no
naka ni onaa no
atsusa kana
Tradução:
Apenas homens, / E uma mulher entre eles. /
Que calor !
05
zendera no
mon o izureba
hoshizukiyo
Tradução:
Templo Zen - / Ao sair pelo portão / Uma
noite estrelada!
06
haru no no ya
nani ni hito yuki
hito kaeru
Tradução:
Campo de primavera - / Para onde vão, de
onde vêm / Estas pessoas?
07
banshô ya
tera no jukushi no
otsuru oto
Tradução:
Sino do anoitecer- / O barulho de um caqui
maduro / Caindo no templo.
Mais poemas de SHIKI
Fonte: www.nippo-brasil.com

Seção 02 - Os poetas haicaístas
WENCESLAU DE MORAES
(Lisboa, 1854 - Tokushima, Japão, 1929)
Numa nota biográfica que lhe foi pedida por
um japonês, Wenceslau de Moraes escreveu:
"Sou português. Nasci em Lisboa (a capital
do país) no dia 30 de Maio de 1854. Estudei
o curso de Marinha e dediquei-me a oficial
de marinha de guerra. Em tal qualidade fiz
numerosas viagens, visitando as costas de
África, da Ásia, da América, etc. Estive
cerca de cinco anos na China, tendo ocasião
de vir ao Japão a bordo de uma canhoneira de
guerra e visitando Nagasaki, Kobe e Yokohama.
Em 1893, 1894, 1895 e 1896 voltei ao Japão,
por curtas demoras, ao serviço de Macau,
onde estava comissionado na capitania do
porto de Macau.
Em 1896 regressei a Macau, demorando-me por
pouco tempo e voltando ao Japão (Kobe). Em
1899 fui nomeado cônsul de Portugal em Hiogo
e Osaka, lugar que exerci até 1913." Era seu
pai funcionário público, com o mesmo nome, e
sua mãe Maria Amélia Figueiredo Moraes.
Ambos cultos e amantes das letras, devem ter
estimulado no filho o gosto da cultura desde
muito jovem, pois possuímos provas por ele
escritas aos 11 anos: um diário infantil de
poucas páginas, uma peça de teatro e uma
colecção de poemas, ambas breves, aos 15
anos. Completado o curso da Escola Naval em
1875, é já guarda-marinha aos 21 anos; em
1891 é imediato do capitão do porto de
Macau; em 1899 é cônsul em Kobe e Osaka, e
no Japão morre em 1929.
Wenceslau de Moraes é o último dos nossos
grandes escritores de viagens e Dai-Nippon o
maior livro no género depois da
Peregrinação. Em português as suas "Obras
Completas" estão a meio de ser publicadas; a
tradução japonesa delas, de Tomizo Hanano,
por uma das maiores editoras do Japão,
Shueisha, saiu em 1969 e depressa se
esgotou. As críticas aos seus livros no
Japão e em Portugal têm sido diferentes:
aqui a nota dominante é o exotismo e
caprichismo romântico; lá acentua-se o seu
conhecimento profundo da alma japonesa (do
Relance da Alma Japonesa, de todos os seus
livros o mais lido, saíram já cinco
edições), a sua profunda intimidade com o
povo nipónico, vivendo como um japonês:
amando os seus costumes e venerando os seus
deuses;
e alguns autores japoneses são atraídos pela
"natureza enigmática da sua vida". Desde a
publicação das "Obras Completas" (Zenshu)
têm saído artigos frequentes - um jornal de
Tóquio em inglês falava há pouco num Moraes
boom. Nesta identificação e no dom soberano
de exprimi-la num português rico, de
infinitas gradações, está a sua validade de
escritor.
Nem Kurt Singer, nem muito menos o hedonista
e mordaz Pierre Loti penetraram tão fundo no
conhecimento da alma japonesa, nos símbolos
e mitos do povo nipónico. É por esta
capacidade de abertura humana, de
compreensão e dom de si mesmo, que os
Japoneses hoje apreciam Moraes.
Não certamente pelos comentários
superficiais sobre a cultura japonesa, mais
de divulgação que de aprofundamento, que
ele, aliás, apresentou sempre com modéstia.
E o conhecimento profundo dos homens, dos
costumes, da vida, das aspirações e dos
ideais de um povo. E por isso os Japoneses
lhe estão gratos: ergueram-lhe dois
monumentos, um em Tokushima, na principal
avenida da cidade, outro na principal praça
de Kobe. Em Tokushima há também um Museu
Wenceslau de Moraes e uma Sociedade de
Amigos. Nos livros elementares das escolas
do Japão figuram o retrato e duas páginas
sobre Wenceslau de Moraes. Consagração bem
maior do que aquela que lhe concedeu o seu
país.
Descendente espiritual de Mendes Pinto, não
possui deste o largo fôlego, a força, a
variedade, a vastidão ecumênica, e não o
entusiasmam as grandes construções
discursivas, mas é mais artista, tem uma
sensibilidade mais fina, um gosto mais
requintado; ao lado do português ainda
frustre e lerdo de Mendes Pinto, a frase de
Moraes brilha vivíssima de graça e de
esmeros, e o seu estilo elegante é mais rico
de cor e de cambiantes e tem mais garbo e
mais encanto. Mendes Pinto é o maior
descobridor da Ásia por terra; Wenceslau
concentra-se no Japão.
Os seus contos, as suas descrições do drama
e da comédia dos acontecimentos e costumes,
as suas finas aquarelas da doce paisagem
nipônica, são os mais delicados, e as suas
sondagens da alma japonesa são as mais
sagazes e profundas atingidas por um
estrangeiro. Os mais íntimos, dramáticos,
amores de Moraes foram japoneses; por isso
não surpreende que ele escreva como nenhum
outro estrangeiro sobre o fascínio da mulher
japonesa.

Wenceslau de Moraes perto do fim da
vida, no Japão
Mas também o Japão deu muito a Wenceslau:
deu-lhe encantos e prazeres que suavizaram o
seu isolamento e iluminaram a sua tristeza,
deu-lhe as alegrias e os dramas do amor, o
gozo da arte que ele adorava contemplar,
inspirou-lhe a meditação solitária sobre os
homens, a vida e a morte, em que atingiu
profundidades raras na nossa língua.
Wenceslau quis ter um funeral budista e ser
incinerado e que as suas cinzas ficassem num
pequeno túmulo, no pequeno cemitério de
Chionji, ao lado das cinzas da sua amada
Ko-Haru. É o único português a quem se rezam
sutras e que recebe no aniversário da sua
morte um serviço budista. Na festa dos
mortos, no Bon-Odori que ele tão bem
descreveu, raparigas e rapazes vão cantar e
dançar alegremente em roda do seu monumento
em Tokushima: não pode haver consagração
mais viva.
in Dicionário Cronológico de Autores
Portugueses, Vol. II, Lisboa, 1990
(Pesquisa Google)

Seção 03 – Notícias
Irati comemora 100 anos e faz concurso de
haicai.
A Prefeitura Municipal de Irati, estado do
Paraná, por meio do Departamento de Cultura,
e a Academia de Letras, Artes e Ciências do
Centro-Sul do Paraná (ALACS), promovem
o Concurso de HAICAI, aberto ao público em
geral, com o intuito de incentivar e
difundir
a prática do halcai entre os iratienses e
aqueles que conhecem o município de Irati.
Categorias
Infantil: participantes de até 10 anos
Infanto-juvenil: participantes de 11 a 17
anos
Adulto: maiores de 18 anos
As inscrições encerraram-se a 15 de setembro
de 2006

Reportagem do Jornal Expressão Cultural –
Magé – RJ
(Demétrio Sena)
Haicaimania
O ponto de partida foi a vinda das
escritoras Benedita Azevedo e Neide Rocha
Portugal ao Colégio Alcindo Guanabara, para
realização de oficinas de haicai, poesia de
origem japonesa, em nosso colégio, e do
Concurso Internacional, Promovido pela JAL
(Japan Airlines), no qual a aluna
Tamires Carmencita, de dez anos, aluna da
quinta série foi classificada. Depois o
animador cultural Demétrio Sena deu
prosseguimento e o haicai virou mania entre
um grande número de alunos. Nos próximos
números do Jornal Expressão Cultural,
publicaremos os haicais escritos pelos
alunos, nas oficinas da professora e pelo
animador cultural.
Haicai classificado em 15º lugar entre os 50
que foram selecionados para a fase
internacional.
No canto da sala
Abaixei e descobri
Casa de formiguinha
Tamires Carmencita

Haicais dos participantes do GRÊMIO HAICAI
SABIÁ nas publicações quinzenais do
Jornal Nippo-Brasil
Benedita Azevedo
Vala pluvial
De trás do muro aparece
Ninhada de marrecos
À beira da trilha
Enroscado na palmeira –
Cipó-de-São-João
Frescor da manhã
Com o xale sobre os ombros
Vovó faz café.
Bois magros vagueiam
À procura de alimento
Relva seca no campo.

Iva Evilin Day
Na foto do jornal
Sorriso do pescador –
Cação capturado
Desaparecem
Os contornos da íngrime estrada
Na serre vernal
A bela trepadeira
Cipó-de-São-João floresce
Manhã invernal
Na pista de dança
Sobre os ombros da mulher
O xale de seda
Maria Madalena Ferreira
Madrugadas frias
E manhãs ensolaradas...
Agosto chegando
Na volta do mar
Cheiro de peixe ensopado.
Cação na travessa.

Regina Célia de Andrade
Pescador segura
Cação que tenta fugir
Das malhas das rede.
Pessoas caminham
Filmando e fotografando
A serra vernal.
Cipó de São João
Cobrindo a cerca de arame
Na beira da rua
Cipó-de-São-João
Formando uma cerca - viva
Nos fundos da casa.

Mais informações sobre HAIKAI visite
www.kakinet.com
Praia do Anil, 10 / 10 / 2006
Benedita Azevedo


FORMATAÇÃO E ARTE:
IARA MELO