Nº 06 da 2ª série – Maio de 2007
Edição, Formatação e Arte:
Iara Melo
 
 

Amigos Leitores,

A Gruta da Poesia retorna no mês em que se homenageia as mães, mês das noivas, mês de Maria, primavera em Portugal, outono no Brasil. Mês onde se comemora as aparições da Virgem Maria na Vila de Fátima em Portugal e nós da Gruta da Poesia não poderíamos deixar de homenagear "O Altar do Mundo", publicamos e contemplamos o leitor  e amigo com um excelente trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro  "LENDA DE FÁTIMA".

Em poesias contamos com  a presença de:
Arlete Piedade
Célia Jardim
Cleide Canton
Eliana Braga (Gaivota)
Mel Ribeiro

E para finalizar esta edição, tivemos a honra de entrevistar uma grande escritora, poetisa e mulher, Sandra Ravanini, uma poetisa com um estilo marcante, próprio, inovador; é isso Sandra Ravanini inova, cria. Seus poemas são baseados no que capta com sua sensibilidade ímpar os problemas do cotidiano brasileiro, como o desemprego, o trabalho braçal, o pobre agricultor, o idoso...
Ela "bebe" o suor de uma gente sofrida e nos "descreve" de uma forma única e não só, ela fala do negro, do índio, do africano como se negra fosse. Há em Sandra Ravanini uma sensibilidade e uma cultura rara e como todos "bons" é amada e contestada, no nosso ponto de vista é uma excelente poetisa e por captarmos sua essência pedimos que fosse a nossa entrevista do mês, dando ao leitor amigo que ainda não saboreou os versos de  Sandra Ravanini, o prazer de beber deste néctar de pura competência e emoção.
 
 Uma boa leitura!
 
 A Editora


 

 
 
 
LENDA DE FÁTIMA – Carlos Leite Ribeiro (1963)
 
 

 

Dia 13 de Maio é dia de Nossa Senhora de Fátima. Nesse dia, Fátima é bem o Altar do Mundo. Hoje, começaram a chegar a esta vila, muitos milhares de peregrinos de todo o Mundo; só do Brasil, são esperados mais de 45 mil peregrinos.
Pouca gente sabe o origem do topónimo Fátima ...

LENDA DE FÁTIMA – Carlos Leite Ribeiro (1963)
 
Fátima é uma povoação muito antiga e, como o próprio topónimo indica, de origem árabe. Segundo uma tradição local, Fátima seria o nome de uma jovem moura raptada por um cristão, que, ao baptizar-se, teria adoptado o nome de Oriana, donde derivou Ourém, sede da freguesia.
Nas serras que formam o maciço calcário estremenho, onde a destruição  da cobertura arbórea deu lugar ao mato, encontra-se na região de Fátima uma zona onde a evocação mística tudo suplanta.
Para além de quanto ao homem se deve na reconstituição do arvoredo que dominava na região em tempos remotos, agora favorecendo mais o pinheiro bravo que os carvalhos e azinheiras de outrora, o que resta da paisagem é árido e agreste.
O casario que entretanto tem surgido, a povoar o que durante tanto tempo quase apenas era habitado pelos pastores e seus rebanhos, vem a pouco e pouco criando um ambiente e uma paisagem diferente do passado, contrapondo a sua banalidade ao que de tão original o caracterizava.
E enquanto foi tão rara a presença humana, e assim tão forte o isolamento de quem por ali passava, bem se compreende a vocação mística desse ambiente, a que actualmente se encontra presa a fé de tantos.
 
A Lenda
Estávamos a 24 de Junho de 1158, em plena planície alentejana, mais propriamente dito em Álcacer do Sal, que nessa data se encontrava cercada pelas tropas de D.Afonso Henriques.
Dentro do castelo e nos seus aposentos, um sherife mouro, falava à sua bela filha Fátima:
" ... já é madrugada. Tu e as tuas servas, vão agora tentar sair do castelo, pela porta da traição. Depois dirigem-se a Sevilha, onde tens de procurar a casa do teu tio Marec, que mora no Álcacer. Conta-lhe que teu pai morreu a defender este castelo a também por Alá !".
- "Mas meu pai, eu não me quero ir embora, quero ficar convosco !"  -  implorou-lhe a filha. Mas o pai não concordou: "Despacha-te, minha filha. Não vês que não tarda que o rei cristão, D.Afonso Henriques (o "Ibnerrik" ou filho de Henrique) está preste a tomar o castelo ?! ... e que depois é impossível a tua fuga ...".
- "Vou cumprir o teu desejo. Que Alá te proteja, meu pai !".
- " E a ti também, minha bela filha !".
- " Um beijo, meu pai ...".
Momentos depois, quatro jovens montadas a cavalo, partiram rumo a Sevilha.
Perto do castelo de Álcacer do Sal, numa curva do caminho, um jovem e belo cavaleiro da Ordem dos Templários, estava entre um grupo de amigos, também cavaleiros como ele, e o jovem falava assim aos companheiros:
- "... já meu pai era também cavaleiro Templário. Chamava-se Hermígio Gonçalves, e era conhecido pelo "Lutador" ...".
- "Curioso, o teu pai era conhecido pelo "Lutador", e tu, Gonçalo Hermígues, és conhecido por "Traga-Mouros" ! estes, só de pronunciarem o teu nome, tremem dos pés à cabeça "  -  acrescentou um dos companheiros, que continuou: "Eu não sabia que tinhas uma ilustre descendência Templária ...".
Gonçalo Hermígues, sorriu, encolheu os ombros e continuou a sua história:
- Como ia a dizer, meu pai, o "Lutador", morreu em 1139, na Batalha de Ourique, juntamente com Gonçalo Mendes da Maia, o "Lidador", o qual morreu com 95 anos, a combater os infiéis".
Outro cavaleiro interrompeu, ao dizer:
- "Vamos falar em coisas mais alegres. Olha lá, "Traga-Mouros", além de bravo guerreiro, também és poeta. Ora canta lá um dos teus poemas ...".
- "Somos todos ouvidos"  -  concordaram os outros companheiros.
O jovem não se mostrou nada interessado naquilo que os companheiros lhe pediam: "Pois é, amigos, hoje não estou nada inspirado ..."  -  e pondo-se em pé, alertou os outros: "Atenção ! escutem, que vem aí gente a cavalo  -  devem de ser Mouros, por isso escondam-se depressa ...   ... Quem vem lá ?! ... Faça alto ...".
Momentos depois, apareceram quatro cavaleiros mouros ...
Saindo dos seus esconderijos, logo os cavaleiros cristãos cercaram os cavaleiros mouros. Altivamente, Gonçalo Hermigues perguntou ao grupo inimigo:
- "Quem são vós, e para onde se dirigem ?! ... respondam !...".
- "Senhor cavaleiro cristão, sou Fátima e estas são minhas servas ...".
Logo os companheiros exaltadamente se expressaram:
- "São quatro mulheres, Gonçalo Hermígues! são quatro mulheres que nos caíram do céu ... são um verdadeiro achado ! ...".
Mas o jovem cavaleiro manteve a postura e, calmamente, aconselhou os amigos:
- "Fiquem de vigia, pois podem aparecer mais mouros"  -  e voltando-se para as jovens, convidou-as: "E vós, donzelas, acompanhem-me à presença do nosso Mestre. Fátima, venha aqui para o meu lado !".
- "Às suas ordens, cavaleiro cristão !"  -  respondeu-lhe altivamente a bela jovem.
Ao iniciarem a marcha, todas as mouras clamaram: "Que Alá esteja connosco, que Alá esteja connosco ! ...".
Naquela tarde abrasadora do mês de Julho, encontravam-se ainda nos campos de Alcácer do Sal, o carcereiro e a prisioneira, ou seja, Gonçalo Hermígues e a bela princesa moura  -  a Fátima.
- "Tens um lindo nome, Fátima. Por acaso sabes qual é a origem dele ?"  -  perguntou-lhe Gonçalo Hermígues.
- "Sei. Fátima era filha de Moomé e esposa de Ali, o que para vós, cristãos, pouco ou nada diz"  -  respondeu-lhe meigamente a jovem.
Encarando a Princesa, o cavaleiro cristão, comovidamente, disse-lhe: "Sabes, Fátima ... tu és tão linda ... fica-me mal dizer-te o que vou dizer, mas estou apaixonado por ti !. Habituei-me à tua companhia, à tua doçura, à tua beleza, que, quando nos separarmos decerto que irei sofrer muito !".
Fátima corou e, apelando para toda a sua coragem, meigamente respondeu-lhe: "Eu também gosto muito de ti, Gonçalo Hermígues. Também te amo muito, e muito te aprecio. Mas tu és cristão e eu sou moura ! ... sinto-me tão infeliz !".
- "Minha querida Fátima, renuncia à Lei da Mofona, e baptiza-se pela Lei de Cristo !. Pois assim podíamos casar, pois eu amo-te muito !"  -  implorou-lhe o jovem, ajoelhando-se a seus pés.
- "Por Amor a ti, tudo farei, meu querido Gonçalo Hermígues!"  -  respondeu-lhe a Fátima, apertando-lhe as mãos  -  quero-me baptizar na tua religião, pois quero ser tua esposa !".
- "Serás a Oriana, a minha querida esposa Oriana!. Depois iremos viver muito felizes para as minhas terras de Ourém, junto onde repousa meu pai ...".
 
Oriana morreu poucos anos depois, o que provocou tamanha dor em Gonçalo Hermígues, o "Traga-Mouros", que renunciou ao Mundo, entrando para o Mosteiro de Cister, em Alcobaça.
 
CARLOS  LEITE  RIBEIRO - Marinha  Grande - PORTUGAL

 
 

 

Enigmas de menino
Arlete Piedade
 

Estou tão triste e revoltado com a vida
não sei porque me deixaram aqui sozinho
foi-se embora a minha mãezinha querida
agora ninguém mais me irá dar carinho...

esta manhã estava tanto gelo na estrada
minhas mãos ficaram de golpes a sangrar
meus pés descalços gretados lá na picada
cheios de bicos, pele dolorosa a queimar

meu estômago pequenino e vazio dói tanto
ninguém me acode nem enxuga meu pranto...
ah! Será que este é de verdade o meu mundo?

Venham me buscar! - Não sou deste recanto! 
Imploro olhando o céu, com tal espanto...
medonha solidão, desespero tão profundo! 

 


 

TEMPESTADE NA ALMA
Célia Jardim
 

Carrego o peso de minhas amarguras
tentando sobreviver a todos temporais
minha alma há tempos em clausura
já não reage a tantos vendavais
A escuridão me acompanha, me dá medo
carrego solitária toda minha sofreguidão
já não sei da vida qual o segredo
que me liberte desta mutilação
Meus rastros se perderam no caminho
já não busco um futuro no passado
plantei flores, colhi tantos espinhos
deixei também, meu presente sepultado
Talvez em algum tempo desconhecido
haja um lugar onde eu possa repousar
secar esta alma encharcada, coração ferido
que o destino se encarregou de maltratar
Vou vivendo e morrendo lentamente
escondendo minha face deste mundo
se eu morrer que seja secretamente
pois meu orgulho foi ferido até o fundo


 

 

NOSSO TEMPO
Cleide Canton


Escuta, vida minha, o meu apelo
cercado de carinhos inflamados,
em versos que recito com tal zelo
nas pausas de compassos solfejados.

Escuta o meu amor nesta sonata
que toca com ternura o coração
e entre tantas proclamo flor-da-nata
as páginas compostas sem borrão.

Escuta, sonho meu, este chamado
sincero e plenamente apaixonado
e volve o teu olhar ao meu olhar.


Então tu saberás que eu te venero
e, diante do teu tempo, sempre espero
o meu, que gira muito devagar!

SP, 15/05/2007
16:50 horas

cmacanton@terra.com.br
www.paginapoeticadecleidecanton.com

 

 

 

O Tempo da Gente
G@


O relógio não para,
Mas nós paramos....
O tempo segue seu curso,
Mas nós paramos no tempo...

O tempo do mundo
Não é o tempo da gente.
O tempo da gente
Não tem relógio que marque!

Viemos com tempo
E vivemos sem tempo.
Sem tempo de nada,
Com tempo pra tudo!

O tempo da gente
É a alma que sente!

Paramos e pronto...
Por um tempo ou para sempre!
O tempo da gente,
É um relógio que não mente!

Sonhamos acordados....
Um tempo perdido?
Noites de insônias...
Quem marca esse tempo?

Quem conta as horas
Do tempo da gente?

Que jogo jogamos,
No jogo da vida?
Qual tempo teremos
Pra realizar a partida?

Hoje talvez eu pare....
Mas o tempo  seguirá em frente.
Hoje eu quero um tempo....
O tempo da gente!

Eliana Braga
Gaivot@
Campinas-SP-Brasil
07/02/06
 

 

 

Poetas e Poesias
Mel Ribeiro
 

Imersas no aconchego
Retinas adentram sedas
Olhares de versos.
 
Poesias e poetas
São inscritos no dorso
Sem remorso ou idolatria.
 
Desmedidos em sensatez
Desnudos da hipocrisia
Siameses se mantêm.
 
Revezados em maciez
Prenunciam lampejos
Afogados em anseios.
 
Poetas e poesias
São pródigos em vilania
E impecáveis na heresia.


 

 

ENTREVISTA

SANDRA RAVANINI

 
 
A Gruta da Poesia: Qual o seu nome, em que data você nasceu, que profissão você exerce e onde você mora?
Sandra Ravanini: Sandra Ravanini, 11/01/1964
Desempregada desde 2004 - Industriaria, exercendo a profissão que aparecer, risos.
Campinas - SP - Brasil

A Gruta da Poesia: Gostaria de falar da terra em que vive?
Sandra Ravanini: Na verdade, eu gostaria de entender o povo da terra em que vivo.
De onde vem essa aceitação inconteste ante tanta pobreza e exclusão social em um País rico?
Falar sobre o Brasil à Gruta da Poesia, seria iniciar uma discussão.
Toda essa conhecida beleza apaga-se ante a corrupção cotidiana, a impunidade e a violência.
Chocada, assisto o meu povo sorrir em frente as câmaras fazendo "protestos sorridentes".
Isso, porque tem uma TV no local, sem um rede de televisão, o povo engole tudo e não cobra nada dos nossos governantes.
Tal passividade me incomoda, o brasileiro tem que mudar e sair do mutismo.

A Gruta da Poesia: Lembra-se de quando começou a escrever?
Sandra Ravanini: Aos 12 anos iniciei um livro, não concluí, foi roubado na escola e provavelmente parou no lixo.
Escrevia algumas comédias e montava peças com as crianças da rua, mas não tenho nada guardado, de origem pobre, eu criava meus brinquedos assim, escrevendo a peça dos meus sonhos representados no improviso dos gramados com meus amigos de infância, era bem divertido.
Voltei a escrever aos 39 anos, desde então faço poesias.

A Gruta da Poesia: Você teve a influência de alguém para começar a escrever ?
Sandra Ravanini: Não! A própria leitura e a necessidade de transmutar o pensamento de dentro para fora me fez começar a escrever.
Sempre expressei meus sentimentos através da escrita, como boa capricorniana, falo pouco, portanto, a poesia me completa, bem como a pintura.
Meus irmãos compunham músicas, e cresci nesse ambiente de festivais e livros.
Mais tarde, reunindo minha família, descobri que todos os meus primos (as) do lado materno escrevem.

A Gruta da Poesia: Lembra-se do seu 1º trabalho literário?
Sandra Ravanini: Na internet não me lembro, eu nem colocava data em nada, fazia algumas brincadeiras em cirandas de grupos quando o tema era interessante, gostava de fazer aliterações, comecei a arriscar poesias aqui na rede.
O que me vem à memória, posto que, tive algum retorno foi Delta de Vênus.

A Gruta da Poesia: Você tem livro (s) impresso (s) (editora e ano) ? Tem livro (s) electrônico (e-book) ? Quais os seus projectos literários futuros ?
Sandra Ravanini: Não tenho livro, participei de duas antologias e o Jornal Lítero Cultural por vezes publica uma poesia minha.
Livro eletrônico:
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_s/Sandra_Ravanini_Ebook.html
Projetos? Apenas escrever poesias e seguir com o livro que iniciei recentemente, Cicatrizes da Vila Santa Ana, título provisório.

A Gruta da Poesia: Fale-nos um pouco de si, como pessoa humana, como escritora, para se inspirar literariamente, precisa de algum ambiente especial ?
Sandra Ravanini: Como pessoa sou totalmente desligada de mim, um grande erro.
Sou rebelde por natureza e a impotência ante meus sentimentos com relação a tudo vira poema.
É muito difícil falar do eu, (quer que eu chame minha mãe? Ela falará muito sobre mim... risos)
Das ruas me chega à inspiração, a bem da verdade, acho isso doloroso, porque na maioria das vezes despejo no papel o contingente humano das calçadas.
Eu, por hábito, tenho a mania de me fixar em  expressões e faces, tentando imaginar o que se passa na mente do “alvo” da minha inspiração, e pronto, nasceu o ambiente poético.
A música é fundamental, bem como gravuras que vejo. 

A Gruta da Poesia: Você tem prêmios literários ?
Sandra Ravanini: Não
 
A Gruta da Poesia: Sandra, quais os tipos de críticas que tem recebido na rede? Por favor, fale sobre o que ocorre ao lançar um poema seu, as pessoas lhe procuram em privado tanto para elogiar quanto para tecer comentários negativos?
Sandra Ravanini: Concordo até que descrevo o lado triste do que vejo, porque assim vejo uma situação real, e não sou de colocar flor onde não existe.
Concordo que tenho uma marca quase registrada nos temas que componho, mas devo dizer que tenho versos de amor SIM!
Criticam-me em privado, ou contestam num plágio ordinário o que a minha mão escreveu, usando os títulos que criei, mas isso é o de menos, sei que a grande maioria quer poesias verbais de fácil entendimento, também sei que uso e abuso de metáforas, é só um estilo, e os que criticam nada escrevem.
Sinceramente tenho postado minhas poesias somente em meu grupo de poetas, Gente como a gente, porque não tenho tempo virtual para rebater, só quero escrever e ler bons poetas.
Recebo bons comentários também, em maior proporção, é claro, senão já teria parado de escrever para a Net e grupos.

A Gruta da Poesia: Quando você fala do negro, acha que "incomoda" por possuir pele branca?
Sandra Ravanini: Creio que sim, sinto que o racismo cresce a cada dia e que brancos não podem escrever sobre negros, e sinto muito ser contestada por poetas negros, esse sim é o maior preconceito, querer driblar um pensamento incolor e livre para qualquer raça. Não só sobre escravidão, como também pobreza e escassez, o preconceito existe até na poesia, clamam a igualdade já contestando se um branco escreve sobre escravidão ou negros, (não entendo o que querem de todas as nossas cores) clamam a paz fazendo guerrinhas fúteis e vestindo poesias destinadas apenas aos olhos de quem as fez, e, quem sabe, a um mundo ávido, querendo ler. Estamos em que século mesmo?
Eu escrevo apenas, ocorre hoje, que a poesia virtual é poeta contra poeta, poema e anti-poema.
Alguém sempre diz que nada se cria tudo se copia. Quem diz isso só pode ser um grande copiador.
Sim, já senti preconceito na minha pela, seja na vida real, ou até nas poesias que crio a partir de fatos, alguns deles vivenciados.
 
A Gruta da Poesia: Você é descendente de russo e italiano,  não é isso? Esse "coquetel" europeu gerou uma pessoa de personalidade forte, você sabe o que quer e quando quer e o não poder "produzir" lhe deve causar muito mal, mas não a torna uma pessoa egoísta, você sempre acolhe em sua alma o que vem de fora, como seria esse processo de captação da alma do outro, Sandra?
Sandra Ravanini: Russo, Italiano, Português e Alemão, Uma bomba humana nascida no Brasil, risos.
Produzir, nós podemos sempre, e todos podem, tenho toneladas de "produções" que não envio a ninguém, porque sei os conflitos que irão causar.
Tomam-me como descrente, e não sou, sou contra religiões comandando aflitos, desorientados e passando a sacolinha. Deus é UNO.
Não sei se capto a alma ou se reconheço um semelhante, sou atenta as expressões nas ruas, nos bancos, na juventude, a pobreza, o desprezo às pessoas sem voz.
O pior dos sentimentos, alguns dizem ser a inveja, mas a impotência a meu ver, anula qualquer sentimento, posto que, até a inveja morre quando a alma e as mãos estão amarradas.
Muitas vezes é doloroso escrever o meu cotidiano, a minha rua e a minha visão e perceber que de nada valeu, porque algum desentendido se perdeu no meu pensamento e se achou dono dele, aliás, por que me lêem?
Sinto que odeiam se encontrar não só no que eu escrevo, mas também em outras linhas de outras pessoas.
Costumo dedicar poesias às pessoas sim, mas coloco o nome delas.
 
A Gruta da Poesia: Você tem sentido na pele o sofrimento do desemprego brasileiro, acha que haverá uma luz no final do túnel?
Sandra Ravanini: Não, eu não acho, cada vez mais, o Brasileiro vai ganhar menos, vai perder os direitos trabalhando em empresas terceirizando o cansaço, terceirizando a mão de obra, sem convênios, sem plano de carreira, votando erroneamente e colocando no poder àqueles que já provaram das malas e CPIs vergonhosas e manipuladas.
Não creio em uma mudança que gere a reversão do que passo (passamos), seja do povo exigindo seus mínimos direitos, ou do congresso em favor do povo.
Assistir uma seção dos nossos parlamentares é risível.
Ouso dizer até, em meu eu irônico, que o processo político Brasileiro está bem confortável com o sonambulismo do povo, com a falta de cobrança e às atitudes de quem os colocou no poder.
Até a luz no fim do túnel tem um preço alto.
Ouso dizer que pagamos um preço alto para manter assassinos, traficantes, pedófilos, seqüestradores e estupradores (isso quando presos, claro) em cadeias bem protegidos e alimentados e apoiados, enquanto o aposentado não tem médico, ganha mal e morre nas filas do descaso, onde os tais Direitos humanos não aparecem. Humano é quem mata?
Geramos, pois, o silogismo, todos podemos matar uma primeira vez.

A Gruta da Poesia: Que tipo de leitura lhe agrada? E sendo uma desempregada no Brasil há anos, como consegue se dar ao "luxo" de ler?
Sandra Ravanini: Nasci pobre, só lia dicionário e o que me emprestavam, mas sou seletiva, melhor um dicionário às certas coisas.
Tenho a grande sorte de ter um primo que possui uma vasta biblioteca.
Gabriel Garcia Marques
Mika Waltari
Máio Vargas Lhosa
Lúcio Cardoso
São tantos...
 
A Gruta da Poesia: Você criou suas próprias regras literárias para escrever?
Sandra Ravanini? Não digo que criei porque não sei se já existia, mas costumo metrificar a maioria de minhas poesias somando-se as vogais em todos os casos, a quantidades de sílabas que tiver na primeira linha, terá nas outras, acho um excelente exercício mental, ou costumo fazer a poesia esteticamente quase quadrada (como eu?).
 
A Gruta da Poesia: O que você acha do poeta moderno, do verso livre?
Sandra Ravanini: Gosto de toda escrita que é peculiar de alguns poetas e em qualquer forma que tenha conteúdo, seja qual for.
Não gosto de "releituras" que não citam a fonte, isso torna um plágio em MINHA opinião, no mais temos todos que aprender sempre e RESPEITAR um pensamento sem contestar o pensador.

A Gruta da Poesia: Que conselho daria a uma pessoa que começasse agora a escrever ?
Sandra Ravanini: Ler, sair do banal, e principalmente não plagiar se escondendo atrás da chamada “releitura” de qualquer suposto A.D., ou não Autor Desconhecido.
Escrever não apenas para ser uma moda na internet, e sim, postar um sentimento que transforme em algo chamado poema, crônica, conto, etc.
Não se cobrar quantidades de versos, evitando com isso a mesmice, e só.

A Gruta da Poesia: Para terminar esta agradável "conversa", queira fazer o favor de mandar um trabalho seu (em prosa ou em verso) ?
Sandra Ravanini:
 


Om Mani Padme Hum.
Sandra Ravanini


Cruz do não saber, acarinha este meu quase dom,
dá-me um horizonte iluminando tão vasto poente,
deixando um rastro de milagres para estas gentes
numa fé qualquer, talvez... Om Mani Padme Hum.

Vejo a miséria em tantos olhares, chora o bom!
Nas ruas e nas vielas, cai o velho em abandono,
enquanto a criança espancada pede ao seu dono
um pouco de amor. Vem! Om Mani Padme Hum.

Um pão não vinga a fome nesta fila de exclusão,
faça então, Senhor, pela Tua mão um gesto opimo,
sanando as desventuras, minhas e do meu próximo
em um mantra de vida. Oh! Om Mani Padme Hum.

Repiquem o ouro do sino diante da glória do tom,
hão de rirem para as colheitas, os muitos devotos,
quando as chuvas trouxerem as bênçãos dos lótus
a qualquer ser sem luz, ó, Om Mani Padme Hum!


Tradução: Recebemos a Jóia da consciência no coração do Lótus.

 



O meu muito obrigada a todos, até a próxima edição,

participem enviando os vossos trabalhos para

iarameloportalcen@sapo.pt

 

 


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Grutas de Santo António - Portugal
MID: BARCAROLLE Nº 09
* CHOPIN
Formatação e Arte: Iara Melo

 

 

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