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Nº 06 da 2ª série – Maio de 2007
Edição, Formatação e Arte:
Iara Melo
A migos
Leitores,
A Gruta da Poesia retorna no mês em que
se homenageia as mães, mês das noivas,
mês de Maria,
primavera em Portugal, outono no Brasil.
Mês onde se comemora as aparições da
Virgem Maria na Vila de Fátima em
Portugal e nós da
Gruta da Poesia não poderíamos deixar de
homenagear "O Altar do Mundo",
publicamos e contemplamos o leitor
e amigo com um excelente trabalho e
pesquisa de Carlos Leite Ribeiro "LENDA
DE FÁTIMA".
Em poesias contamos com a presença de:
Arlete Piedade
Célia Jardim
Cleide Canton
Eliana Braga (Gaivota)
Mel Ribeiro
E para finalizar esta edição,
tivemos a honra de entrevistar uma
grande escritora, poetisa e mulher,
Sandra Ravanini, uma poetisa com um
estilo marcante, próprio, inovador;
é isso Sandra Ravanini inova, cria.
Seus poemas são baseados no que
capta com sua sensibilidade ímpar os
problemas do cotidiano brasileiro,
como o desemprego, o trabalho
braçal, o pobre agricultor, o
idoso...
Ela "bebe" o suor de uma gente
sofrida e nos "descreve" de uma forma
única e não só, ela fala do negro,
do índio, do africano como se negra
fosse. Há em Sandra Ravanini uma
sensibilidade e uma cultura rara e
como todos "bons" é amada e
contestada, no nosso ponto de vista
é uma excelente poetisa e por
captarmos sua essência pedimos que
fosse a nossa entrevista do mês,
dando ao leitor amigo que ainda não
saboreou os versos de Sandra
Ravanini, o prazer de beber deste
néctar de pura competência e emoção.
Uma boa leitura!
A Editora

LENDA DE FÁTIMA – Carlos Leite Ribeiro
(1963)
Dia 13 de Maio é dia de Nossa Senhora de Fátima. Nesse dia,
Fátima é bem o Altar do Mundo. Hoje, começaram a chegar a esta
vila, muitos milhares de peregrinos de todo o Mundo; só do
Brasil, são esperados mais de 45 mil peregrinos.
Pouca gente sabe o origem do topónimo Fátima ...
LENDA DE FÁTIMA – Carlos Leite Ribeiro (1963)
Fátima é uma povoação muito antiga e, como o próprio topónimo
indica, de origem árabe. Segundo uma tradição local, Fátima
seria o nome de uma jovem moura raptada por um cristão, que, ao
baptizar-se, teria adoptado o nome de Oriana, donde derivou
Ourém, sede da freguesia.
Nas serras que formam o maciço calcário estremenho, onde a
destruição da cobertura arbórea deu lugar ao mato, encontra-se
na região de Fátima uma zona onde a evocação mística tudo
suplanta.
Para além de quanto ao homem se deve na reconstituição do
arvoredo que dominava na região em tempos remotos, agora
favorecendo mais o pinheiro bravo que os carvalhos e azinheiras
de outrora, o que resta da paisagem é árido e agreste.
O casario que entretanto tem surgido, a povoar o que durante
tanto tempo quase apenas era habitado pelos pastores e seus
rebanhos, vem a pouco e pouco criando um ambiente e uma paisagem
diferente do passado, contrapondo a sua banalidade ao que de tão
original o caracterizava.
E enquanto foi tão rara a presença humana, e assim tão forte o
isolamento de quem por ali passava, bem se compreende a vocação
mística desse ambiente, a que actualmente se encontra presa a fé
de tantos.
A Lenda
Estávamos a 24 de Junho de 1158, em plena planície alentejana,
mais propriamente dito em Álcacer do Sal, que nessa data se
encontrava cercada pelas tropas de D.Afonso Henriques.
Dentro do castelo e nos seus aposentos, um sherife mouro, falava
à sua bela filha Fátima:
" ... já é madrugada. Tu e as tuas servas, vão agora tentar sair
do castelo, pela porta da traição. Depois dirigem-se a Sevilha,
onde tens de procurar a casa do teu tio Marec, que mora no
Álcacer. Conta-lhe que teu pai morreu a defender este castelo a
também por Alá !".
- "Mas meu pai, eu não me quero ir embora, quero ficar convosco
!" - implorou-lhe a filha. Mas o pai não concordou:
"Despacha-te, minha filha. Não vês que não tarda que o rei
cristão, D.Afonso Henriques (o "Ibnerrik" ou filho de Henrique)
está preste a tomar o castelo ?! ... e que depois é impossível a
tua fuga ...".
- "Vou cumprir o teu desejo. Que Alá te proteja, meu pai !".
- " E a ti também, minha bela filha !".
- " Um beijo, meu pai ...".
Momentos depois, quatro jovens montadas a cavalo, partiram rumo
a Sevilha.
Perto do castelo de Álcacer do Sal, numa curva do caminho, um
jovem e belo cavaleiro da Ordem dos Templários, estava entre um
grupo de amigos, também cavaleiros como ele, e o jovem falava
assim aos companheiros:
- "... já meu pai era também cavaleiro Templário. Chamava-se
Hermígio Gonçalves, e era conhecido pelo "Lutador" ...".
- "Curioso, o teu pai era conhecido pelo "Lutador", e tu,
Gonçalo Hermígues, és conhecido por "Traga-Mouros" ! estes, só
de pronunciarem o teu nome, tremem dos pés à cabeça " -
acrescentou um dos companheiros, que continuou: "Eu não sabia
que tinhas uma ilustre descendência Templária ...".
Gonçalo Hermígues, sorriu, encolheu os ombros e continuou a sua
história:
- Como ia a dizer, meu pai, o "Lutador", morreu em 1139, na
Batalha de Ourique, juntamente com Gonçalo Mendes da Maia, o "Lidador",
o qual morreu com 95 anos, a combater os infiéis".
Outro cavaleiro interrompeu, ao dizer:
- "Vamos falar em coisas mais alegres. Olha lá, "Traga-Mouros",
além de bravo guerreiro, também és poeta. Ora canta lá um dos
teus poemas ...".
- "Somos todos ouvidos" - concordaram os outros companheiros.
O jovem não se mostrou nada interessado naquilo que os
companheiros lhe pediam: "Pois é, amigos, hoje não estou nada
inspirado ..." - e pondo-se em pé, alertou os outros: "Atenção
! escutem, que vem aí gente a cavalo - devem de ser Mouros,
por isso escondam-se depressa ... ... Quem vem lá ?! ... Faça
alto ...".
Momentos depois, apareceram quatro cavaleiros mouros ...
Saindo dos seus esconderijos, logo os cavaleiros cristãos
cercaram os cavaleiros mouros. Altivamente, Gonçalo Hermigues
perguntou ao grupo inimigo:
- "Quem são vós, e para onde se dirigem ?! ... respondam !...".
- "Senhor cavaleiro cristão, sou Fátima e estas são minhas
servas ...".
Logo os companheiros exaltadamente se expressaram:
- "São quatro mulheres, Gonçalo Hermígues! são quatro mulheres
que nos caíram do céu ... são um verdadeiro achado ! ...".
Mas o jovem cavaleiro manteve a postura e, calmamente,
aconselhou os amigos:
- "Fiquem de vigia, pois podem aparecer mais mouros" - e
voltando-se para as jovens, convidou-as: "E vós, donzelas,
acompanhem-me à presença do nosso Mestre. Fátima, venha aqui
para o meu lado !".
- "Às suas ordens, cavaleiro cristão !" - respondeu-lhe
altivamente a bela jovem.
Ao iniciarem a marcha, todas as mouras clamaram: "Que Alá esteja
connosco, que Alá esteja connosco ! ...".
Naquela tarde abrasadora do mês de Julho, encontravam-se ainda
nos campos de Alcácer do Sal, o carcereiro e a prisioneira, ou
seja, Gonçalo Hermígues e a bela princesa moura - a Fátima.
- "Tens um lindo nome, Fátima. Por acaso sabes qual é a origem
dele ?" - perguntou-lhe Gonçalo Hermígues.
- "Sei. Fátima era filha de Moomé e esposa de Ali, o que para
vós, cristãos, pouco ou nada diz" - respondeu-lhe meigamente a
jovem.
Encarando a Princesa, o cavaleiro cristão, comovidamente,
disse-lhe: "Sabes, Fátima ... tu és tão linda ... fica-me mal
dizer-te o que vou dizer, mas estou apaixonado por ti !.
Habituei-me à tua companhia, à tua doçura, à tua beleza, que,
quando nos separarmos decerto que irei sofrer muito !".
Fátima corou e, apelando para toda a sua coragem, meigamente
respondeu-lhe: "Eu também gosto muito de ti, Gonçalo Hermígues.
Também te amo muito, e muito te aprecio. Mas tu és cristão e eu
sou moura ! ... sinto-me tão infeliz !".
- "Minha querida Fátima, renuncia à Lei da Mofona, e baptiza-se
pela Lei de Cristo !. Pois assim podíamos casar, pois eu amo-te
muito !" - implorou-lhe o jovem, ajoelhando-se a seus pés.
- "Por Amor a ti, tudo farei, meu querido Gonçalo Hermígues!"
- respondeu-lhe a Fátima, apertando-lhe as mãos - quero-me
baptizar na tua religião, pois quero ser tua esposa !".
- "Serás a Oriana, a minha querida esposa Oriana!. Depois
iremos viver muito felizes para as minhas terras de Ourém, junto
onde repousa meu pai ...".
Oriana morreu poucos anos depois, o que provocou tamanha dor em
Gonçalo Hermígues, o "Traga-Mouros", que renunciou ao Mundo,
entrando para o Mosteiro de Cister, em Alcobaça.
CARLOS LEITE RIBEIRO - Marinha Grande - PORTUGAL

Enigmas de menino
Arlete Piedade
Estou tão triste e revoltado com a vida
não sei porque me deixaram aqui sozinho
foi-se embora a minha mãezinha querida
agora ninguém mais me irá dar carinho...
esta manhã estava tanto gelo na estrada
minhas mãos ficaram de golpes a sangrar
meus pés descalços gretados lá na picada
cheios de bicos, pele dolorosa a queimar
meu estômago pequenino e vazio dói tanto
ninguém me acode nem enxuga meu pranto...
ah! Será que este é de verdade o meu mundo?
Venham me buscar! - Não sou deste recanto!
Imploro olhando o céu, com tal espanto...
medonha solidão, desespero tão profundo!

TEMPESTADE NA ALMA
Célia Jardim
Carrego o peso de minhas amarguras
tentando sobreviver a todos temporais
minha alma há tempos em clausura
já não reage a tantos vendavais
A escuridão me acompanha, me dá medo
carrego solitária toda minha sofreguidão
já não sei da vida qual o segredo
que me liberte desta mutilação
Meus rastros se perderam no caminho
já não busco um futuro no passado
plantei flores, colhi tantos espinhos
deixei também, meu presente sepultado
Talvez em algum tempo desconhecido
haja um lugar onde eu possa repousar
secar esta alma encharcada, coração ferido
que o destino se encarregou de maltratar
Vou vivendo e morrendo lentamente
escondendo minha face deste mundo
se eu morrer que seja secretamente
pois meu orgulho foi ferido até o fundo

NOSSO TEMPO
Cleide Canton
Escuta, vida minha, o meu apelo
cercado de carinhos inflamados,
em versos que recito com tal zelo
nas pausas de compassos solfejados.
Escuta o meu amor nesta sonata
que toca com ternura o coração
e entre tantas proclamo flor-da-nata
as páginas compostas sem borrão.
Escuta, sonho meu, este chamado
sincero e plenamente apaixonado
e volve o teu olhar ao meu olhar.
Então tu saberás que eu te venero
e, diante do teu tempo, sempre espero
o meu, que gira muito devagar!
SP, 15/05/2007
16:50 horas
cmacanton@terra.com.br
www.paginapoeticadecleidecanton.com

O Tempo da Gente
G@
O relógio não para,
Mas nós paramos....
O tempo segue seu curso,
Mas nós paramos no tempo...
O tempo do mundo
Não é o tempo da gente.
O tempo da gente
Não tem relógio que marque!
Viemos com tempo
E vivemos sem tempo.
Sem tempo de nada,
Com tempo pra tudo!
O tempo da gente
É a alma que sente!
Paramos e pronto...
Por um tempo ou para sempre!
O tempo da gente,
É um relógio que não mente!
Sonhamos acordados....
Um tempo perdido?
Noites de insônias...
Quem marca esse tempo?
Quem conta as horas
Do tempo da gente?
Que jogo jogamos,
No jogo da vida?
Qual tempo teremos
Pra realizar a partida?
Hoje talvez eu pare....
Mas o tempo seguirá em frente.
Hoje eu quero um tempo....
O tempo da gente!
Eliana Braga
Gaivot@
Campinas-SP-Brasil
07/02/06

Poetas e Poesias
Mel Ribeiro
Imersas no aconchego
Retinas adentram sedas
Olhares de versos.
Poesias e poetas
São inscritos no dorso
Sem remorso ou idolatria.
Desmedidos em sensatez
Desnudos da hipocrisia
Siameses se mantêm.
Revezados em maciez
Prenunciam lampejos
Afogados em anseios.
Poetas e poesias
São pródigos em vilania
E impecáveis na heresia.

ENTREVISTA
SANDRA
RAVANINI
A Gruta da Poesia: Qual o
seu nome, em que data você nasceu,
que profissão você exerce e onde
você mora?
Sandra Ravanini: Sandra Ravanini,
11/01/1964
Desempregada desde 2004 -
Industriaria, exercendo a profissão
que aparecer, risos.
Campinas - SP - Brasil
A Gruta da Poesia: Gostaria de falar
da terra em que vive?
Sandra Ravanini: Na verdade, eu
gostaria de entender o povo da terra
em que vivo.
De onde vem essa aceitação
inconteste ante tanta pobreza e
exclusão social em um País rico?
Falar sobre o Brasil à Gruta da
Poesia, seria iniciar uma discussão.
Toda essa conhecida beleza apaga-se
ante a corrupção cotidiana, a
impunidade e a violência.
Chocada, assisto o meu povo sorrir
em frente as câmaras fazendo
"protestos sorridentes".
Isso, porque tem uma TV no local,
sem um rede de televisão, o povo
engole tudo e não cobra nada dos
nossos governantes.
Tal passividade me incomoda, o
brasileiro tem que mudar e sair do
mutismo.
A Gruta da Poesia: Lembra-se de
quando começou a escrever?
Sandra Ravanini: Aos 12 anos iniciei
um livro, não concluí, foi roubado
na escola e provavelmente parou no
lixo.
Escrevia algumas comédias e montava
peças com as crianças da rua, mas
não tenho nada guardado, de origem
pobre, eu criava meus brinquedos
assim, escrevendo a peça dos meus
sonhos representados no improviso
dos gramados com meus amigos de
infância, era bem divertido.
Voltei a escrever aos 39 anos, desde
então faço poesias.
A Gruta da Poesia: Você teve a
influência de alguém para começar a
escrever ?
Sandra Ravanini: Não! A própria
leitura e a necessidade de
transmutar o pensamento de dentro
para fora me fez começar a escrever.
Sempre expressei meus sentimentos
através da escrita, como boa
capricorniana, falo pouco, portanto,
a poesia me completa, bem como a
pintura.
Meus irmãos compunham músicas, e
cresci nesse ambiente de festivais e
livros.
Mais tarde, reunindo minha família,
descobri que todos os meus primos (as)
do lado materno escrevem.
A Gruta da Poesia: Lembra-se do seu
1º trabalho literário?
Sandra Ravanini: Na internet não me
lembro, eu nem colocava data em
nada, fazia algumas brincadeiras em
cirandas de grupos quando o tema era
interessante, gostava de fazer
aliterações, comecei a arriscar
poesias aqui na rede.
O que me vem à memória, posto que,
tive algum retorno foi Delta de
Vênus.
A Gruta da Poesia: Você tem livro
(s) impresso (s) (editora e ano) ?
Tem livro (s) electrônico (e-book) ?
Quais os seus projectos literários
futuros ?
Sandra Ravanini: Não tenho livro,
participei de duas antologias e o
Jornal Lítero Cultural por vezes
publica uma poesia minha.
Livro eletrônico:
http://www.caestamosnos.org/autores/autores_s/Sandra_Ravanini_Ebook.html
Projetos? Apenas escrever
poesias e seguir com o livro que
iniciei recentemente, Cicatrizes da
Vila Santa Ana, título provisório.
A Gruta da Poesia: Fale-nos um pouco
de si, como pessoa humana, como
escritora, para se inspirar
literariamente, precisa de algum
ambiente especial ?
Sandra Ravanini: Como pessoa sou
totalmente desligada de mim, um
grande erro.
Sou rebelde por natureza e a
impotência ante meus sentimentos com
relação a tudo vira poema.
É muito difícil falar do eu, (quer
que eu chame minha mãe? Ela falará
muito sobre mim... risos)
Das ruas me chega à inspiração, a
bem da verdade, acho isso doloroso,
porque na maioria das vezes despejo
no papel o contingente humano das
calçadas.
Eu, por hábito, tenho a mania de me
fixar em expressões e faces,
tentando imaginar o que se passa na
mente do “alvo” da minha inspiração,
e pronto, nasceu o ambiente poético.
A música é fundamental, bem como
gravuras que vejo.
A Gruta da Poesia: Você tem prêmios
literários ?
Sandra Ravanini: Não
A Gruta da Poesia:
Sandra, quais os tipos de críticas
que tem recebido na rede? Por favor,
fale sobre o que ocorre ao lançar um
poema seu, as pessoas lhe procuram
em privado tanto para elogiar quanto
para tecer comentários negativos?
Sandra Ravanini:
Concordo até que descrevo o lado
triste do que vejo, porque assim
vejo uma situação real, e não
sou de colocar flor onde não
existe.
Concordo que tenho uma marca
quase registrada nos temas que
componho, mas devo dizer que
tenho versos de amor SIM!
Criticam-me em privado, ou
contestam num plágio ordinário o
que a minha mão escreveu, usando
os títulos que criei, mas isso é
o de menos, sei que a grande
maioria quer poesias verbais de
fácil entendimento, também sei
que uso e abuso de metáforas, é
só um estilo, e os que criticam
nada escrevem.
Sinceramente tenho postado
minhas poesias somente em meu
grupo de poetas, Gente como a
gente, porque não tenho tempo
virtual para rebater, só quero
escrever e ler bons poetas.
Recebo bons comentários também,
em maior proporção, é claro,
senão já teria parado de
escrever para a Net e grupos.
A Gruta da Poesia: Quando você
fala do negro, acha que
"incomoda"
por possuir pele branca?
Sandra Ravanini: Creio que sim,
sinto que o racismo cresce a
cada dia e que brancos não podem
escrever sobre negros, e sinto
muito ser contestada por poetas
negros, esse sim é o maior
preconceito, querer driblar um
pensamento incolor e livre para
qualquer raça. Não só sobre
escravidão, como também pobreza
e escassez, o preconceito existe
até na poesia, clamam a
igualdade já contestando se um
branco escreve sobre escravidão
ou negros, (não entendo o que
querem de todas as nossas cores)
clamam a paz fazendo guerrinhas
fúteis e vestindo poesias
destinadas apenas aos olhos de
quem as fez, e, quem sabe, a um
mundo ávido, querendo ler.
Estamos em que século mesmo?
Eu escrevo apenas, ocorre hoje,
que a poesia virtual é poeta
contra poeta, poema e anti-poema.
Alguém sempre diz que nada se
cria tudo se copia. Quem diz
isso só pode ser um grande
copiador.
Sim, já senti preconceito na
minha pela, seja na vida real,
ou até nas poesias que crio a
partir de fatos, alguns deles
vivenciados.
A Gruta da Poesia: Você é
descendente de russo e
italiano, não é isso? Esse "coquetel"
europeu gerou uma pessoa de
personalidade forte, você sabe o
que quer e quando quer e o não
poder "produzir" lhe deve causar
muito mal, mas não a torna uma
pessoa egoísta, você sempre
acolhe em sua alma o que vem de
fora, como seria esse processo
de captação da alma do outro,
Sandra?
Sandra Ravanini: Russo,
Italiano, Português e Alemão,
Uma bomba humana nascida no
Brasil, risos.
Produzir, nós podemos sempre, e
todos podem, tenho toneladas de
"produções" que não envio a
ninguém, porque sei os conflitos
que irão causar.
Tomam-me como descrente, e não
sou, sou contra religiões
comandando aflitos,
desorientados e passando a
sacolinha. Deus é UNO.
Não sei se capto a alma ou se
reconheço um semelhante, sou
atenta as expressões nas ruas,
nos bancos, na juventude, a
pobreza, o desprezo às pessoas
sem voz.
O pior dos sentimentos, alguns
dizem ser a inveja, mas a
impotência a meu ver, anula
qualquer sentimento, posto que,
até a inveja morre quando a alma
e as mãos estão amarradas.
Muitas vezes é doloroso escrever
o meu cotidiano, a minha rua e a
minha visão e perceber que de
nada valeu, porque algum
desentendido se perdeu no meu
pensamento e se achou dono dele,
aliás, por que me lêem?
Sinto que odeiam se encontrar
não só no que eu escrevo, mas
também em outras linhas de
outras pessoas.
Costumo dedicar poesias às
pessoas sim, mas coloco o nome
delas.
A Gruta da Poesia: Você tem
sentido na pele o sofrimento do
desemprego brasileiro, acha que
haverá uma luz no final do
túnel?
Sandra Ravanini: Não, eu não
acho, cada vez mais, o
Brasileiro vai ganhar menos, vai
perder os direitos trabalhando
em empresas terceirizando o
cansaço, terceirizando a mão de
obra, sem convênios, sem plano
de carreira, votando
erroneamente e colocando no
poder àqueles que já provaram
das malas e CPIs vergonhosas e
manipuladas.
Não creio em uma mudança que
gere a reversão do que passo
(passamos), seja do povo
exigindo seus mínimos direitos,
ou do congresso em favor do
povo.
Assistir uma seção dos nossos
parlamentares é risível.
Ouso dizer até, em meu eu
irônico, que o processo político
Brasileiro está bem confortável
com o sonambulismo do povo, com
a falta de cobrança e às
atitudes de quem os colocou no
poder.
Até a luz no fim do túnel tem um
preço alto.
Ouso dizer que pagamos um preço
alto para manter assassinos,
traficantes, pedófilos,
seqüestradores e estupradores
(isso quando presos, claro)
em cadeias bem protegidos e
alimentados e apoiados, enquanto
o aposentado não tem médico,
ganha mal e morre nas filas do
descaso, onde os tais Direitos
humanos não aparecem. Humano é
quem mata?
Geramos, pois, o silogismo,
todos podemos matar uma primeira
vez.
A Gruta da Poesia: Que tipo de
leitura lhe agrada? E sendo uma
desempregada no Brasil há anos,
como consegue se dar ao "luxo"
de ler?
Sandra Ravanini: Nasci pobre, só
lia dicionário e o que me
emprestavam, mas sou seletiva,
melhor um dicionário às certas
coisas.
Tenho a grande sorte de ter um
primo que possui uma vasta
biblioteca.
Gabriel Garcia Marques
Mika Waltari
Máio Vargas Lhosa
Lúcio Cardoso
São tantos...
A Gruta da Poesia: Você criou
suas próprias regras literárias
para escrever?
Sandra Ravanini? Não digo que
criei porque não sei se já
existia, mas costumo metrificar
a maioria de minhas poesias
somando-se as vogais em todos os
casos, a quantidades de sílabas
que tiver na primeira linha,
terá nas outras, acho um
excelente exercício mental, ou
costumo fazer a poesia
esteticamente quase quadrada
(como eu?).
A Gruta da Poesia: O que você
acha do poeta moderno, do verso
livre?
Sandra Ravanini: Gosto de toda
escrita que é peculiar de alguns
poetas e em qualquer forma que
tenha conteúdo, seja qual for.
Não gosto de "releituras" que
não citam a fonte, isso torna um
plágio em MINHA opinião, no mais
temos todos que aprender sempre
e RESPEITAR um pensamento sem
contestar o pensador.
A Gruta da Poesia: Que
conselho daria a uma pessoa que
começasse agora a escrever ?
Sandra Ravanini: Ler, sair do
banal, e principalmente não
plagiar se escondendo atrás da
chamada “releitura” de qualquer
suposto A.D., ou não Autor
Desconhecido.
Escrever não apenas para ser uma
moda na internet, e sim, postar
um sentimento que transforme em
algo chamado poema, crônica,
conto, etc.
Não se cobrar quantidades de
versos, evitando com isso a
mesmice, e só.
A Gruta da
Poesia: Para terminar esta agradável
"conversa", queira fazer o favor de
mandar um trabalho seu (em prosa ou em
verso) ?
Sandra Ravanini:
Om Mani Padme Hum.
Sandra Ravanini
Cruz do não saber, acarinha este meu
quase dom,
dá-me um horizonte iluminando tão vasto
poente,
deixando um rastro de milagres para
estas gentes
numa fé qualquer, talvez... Om Mani
Padme Hum.
Vejo a miséria em tantos olhares, chora
o bom!
Nas ruas e nas vielas, cai o velho em
abandono,
enquanto a criança espancada pede ao seu
dono
um pouco de amor. Vem! Om Mani Padme
Hum.
Um pão não vinga a fome nesta fila de
exclusão,
faça então, Senhor, pela Tua mão um
gesto opimo,
sanando as desventuras, minhas e do meu
próximo
em um mantra de vida. Oh! Om Mani
Padme Hum.
Repiquem o ouro do sino diante da glória
do tom,
hão de rirem para as colheitas, os
muitos devotos,
quando as chuvas trouxerem as bênçãos
dos lótus
a qualquer ser sem luz, ó, Om Mani
Padme Hum!
Tradução: Recebemos a Jóia da
consciência no coração do Lótus.

O meu muito obrigada a todos, até a
próxima edição,
participem enviando os vossos trabalhos
para
iarameloportalcen@sapo.pt

IMAGEM TOPO DA PÁGINA:
Grutas de Santo António - Portugal
MID: BARCAROLLE Nº 09
* CHOPIN
Formatação e Arte: Iara
Melo

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