Revista A Gruta da Poesia

Nº 04 da 2ª série – Setembro de 2006 

Editora: Iara Melo

Edição, Formatação e Arte: Iara Melo

Amigos Leitores,

Mais um número da nossa segunda série, agradecendo a Carlos Leite Ribeiro por mais esta edição, aos poetas e prosadores ilustres aqui presentes e a você leitor o meu muito obrigada !!!

 

Rapsódia de um Coração Feminino

Ligia A Leivas
 


... do pó?
... do barro?
... da costela de Adão?
Que importa? Há alguma diferença?
       ... surgia a Mulher tão-somente.
À sombra do homem ela deveria ficar
       para sempre... sem cessar
       qual Sísifo sacrificado.
O tempo passou;
a resignação sucumbiu.
E a Mulher buscou a luz,
buscou a própria essência.
Houve lástimas, lamentos.
No contraponto, porém,
vislumbrou o céu inteiro,
a noite total.
Hoje ainda há limites,  
há fronteiras demarcadas...
mas a luta continua.
Mesmo que se algemem alguns pulsos,
o resgate foi feito:
mostramo-nos sem máscaras... — Somos Mulheres!



VEM CÁ, MENINA !

Luiz Poeta – Luiz Gilberto de Barros
 

Limpa essa poeira, abre a janela,
Deixa entrar a luz, apaga a vela
Tênue dessa velha solidão,
Rasga esse retrato insistente,
Queima esses bilhetes renitentes
Que maltratam tanto um coração.
 
Vem cá, menina...
 
Olha o sol nascer ! ... há passarinhos
soltos, cantando, fazendo ninhos !
Deixa entrar encanto em tua vida !
Quantas flores novas no jardim
E teu coração tristonho assim
Revivendo tépidas feridas...
 
Vem cá, menina !
 
Há um novo tempo te instigando,
Há um mar imenso te chamando...
Iça tuas velas, parte para o mar !
Mas... se mesmo assim tu não puderes,
Sonha o sonho lindo que quiseres.
Deixa o vento manso te levar.



Em Algum Lugar do Passado

Marise Ribeiro
 

Vêm-me as lembranças de outrora:
uma menina magrinha e esmirrada,
de seus atos sempre senhora;
vivaz, romântica e nada encabulada.

Apaixonada pela vida no viço da juventude,
inteligente e por todos elogiada,
por outros até invejada,
no olhar um brilho de angelitude.

Hoje, vejo os vincos em sua face,
um coração doído e ressentido,
mãos trêmulas como se sempre clamasse
por algo que tivesse perdido.

Ela bem sabe o que falta a seu lado,
mas se nega sempre a aceitar:
falta aquela alma ávida no passado
que a solidão acorrentou em algum lugar.

AMOR E PAZ

Selma Amaral Barbosa Leite

A qui, ali e acolá
M ais hoje do que ontem
O utrora menos que agora
R einam em meu coração

E ternamente

P orque vêm do Ser Maior e
A ntes de qualquer outro sentimento
Z elo para que habitem sempre em meu coração.

Arcoverde/PE/Brasil


Anonimato

Andréa Motta


Caminhos cruzados entre flores e paralelepípedos, os olhos percorrem a fachada dos antigos casarões, símbolos de uma era de riqueza cultural. 
Ana Maria relembra o chá das cinco na Schaeffer, onde se encontrava a melhor coalhada da cidade, o burburinho no salão, a mistura de notícias, políticas e/ou sociais, as anedotas sobre a canseira do fórum, poesia e tudo o mais...
Com ar nostálgico, entra numa antiga livraria e dirige-se à estante de livros jurídicos; não os encontra, fica olhando o vazio. Não que as prateleiras estivessem desocupadas: nelas, há material escolar. Então, indaga à vendedora a nova localização daquelas preciosidades...
Com ar perplexo, como se Ana Maria houvesse saído de um mundo desconhecido a ela, a vendedora responde-lhe ligeiramente – “Não comercializamos este tipo de obra !”
Ana permanece estática por alguns instantes, surpresa com a notícia, sente os olhos marearem e volta à rua. Caminha lentamente naquela mesma calçada que tantas vezes subiu e desceu em passeatas, em direção ao trabalho, à faculdade ou, simplesmente, pelo prazer de caminhar, de respirar.
Hoje, no entanto, sente-se tal qual uma barata tonta (sabe-se lá se baratas ficam tontas! – mesmo assim parece uma), seus olhos percorrem rapidamente a arquitetura, a calçada, os canteiros... e os rostos... ah os rostos!
Continua ali por um tempo, anônima, como sempre quis estar. É a primeira vez que consegue... quantas vezes assim se imaginou: um rosto qualquer entre tantos outros. 
Mas hoje, estando exatamente como queria - sendo ninguém meio à multidão - chorou. 
Sim, chorou, porque descobriu que durante os últimos 15 anos viveu em um mundo fantasioso, mesmo que aparentemente fosse tão real.
Percebeu que está tão perdida e só hoje, como esteve, exatamente no mesmo lugar, uma década e meia antes. Diante de seus olhos, desfilam todos aqueles anos de trabalho árduo, sucessos, realizações e reconhecimento profissional, decepções...
Sim, foram tantas as decepções, que Ana Maria pode ouvir perfeitamente o estalido ígneo do silêncio queimando o seu peito. Esteve cega, não obstante, felizmente, não tenha deixado corromper-se pelo brilho do ouro.
Só o sempre procurado anonimato seria capaz de arrancá-la do transe de ser alguém por seus próprios méritos... Sim, era isto que obstinadamente buscara durante anos a fio, e para quê?
 - “Onde esta busca me levou?” Indaga-se agora que encontrou o anonimato. 
Reflete: “O que pretendo fazer da vida sendo eu apenas eu e mais nada? De que me serve agora o conhecimento acumulado ao longo destes anos todos se os fechei no baú da minh’alma e, conscientemente, recuso-me a encontrar a chave para reabri-lo... ?”
Em resposta, diz a si mesma: “Nunca imaginei, inconseqüente, que ser apenas um rosto em meio à multidão fosse tão dolorido e me levasse a tantos questionamentos sem respostas. Nunca vou crescer (não quero mesmo crescer), mas preciso encontrar um caminho, preciso me sentir viva! Ser anônima não pode ser sinônimo de morte. Continuo sem respostas“. 
Ana Maria passa as mãos por sua face, enxuga as lágrimas, respira fundo e continua caminhando entre os antigos casarões, buscando no estilo arquitetônico as beiras e eiras, nas varandas a jardineira e na calçada os candeeiros... sorri, observando o corre-corre das pessoas absorvidas pela escassez de tempo, ensimesmadas. 
Com o entardecer, sente a brisa tocando-lhe suavemente a pele, pode ouvir em seu murmúrio palavras com as quais há algum tempo tingiu folhas e folhas de papel, repetindo-as baixinho :
“Como ousa tentar me silenciar, quando em mim as palavras fluem até mesmo sem que eu as perceba? Como ousa tolher a minha voz arrancar dos meus dedos cada palavra parida? Ate-me (se te fizer feliz). Jogue-me numa cela escura e suja. Nem assim me calará!
Não me condene. Não me amordace. Deixe-me exteriozar meu sentir. Minhas palavras (reflexos de mim mesma) serão sempre livres”.
Entende finalmente, que é seu próprio algoz!
Agora, livre de seus fantasmas, volta a viver.

Até a próxima edição, participe enviando os seus trabalhos para iarameloportalcen@sapo.pt


 Formatação, * Fotografia  e Arte: Iara Melo

* VILA E GRUTAS DE MIRA DE AIRE

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