|
NOTÍCIAS - ENTREVISTAS - PROSA E
POESIA

Lânguido corpo
Watfa
Revoltas tiras do roto, negro
tecido,
o que me envolvia e formava veste
em lascas, que o tempo havia puído,
soltam-se, voam pelo campo agreste.
A nudez, cobrindo o verde da grama,
pinta um quadro de fortes
contrastes.
O solo e o corpo, compõem a trama
da bela imagem, já livre dos
trastes.
Cristais fracionados, em cobertura,
tangem a pele que, doces arrepios!,
se cobre inteira de brilhos! alvura
dos dedos se alonga em luzes de
fios.
Um sopro morno roça minh´alma.
Em meus olhos, inda reluzente luz!
Corpo lânguido, banhado em calma,
doce mergulho ao sono me conduz.

QUANDO OS TELEFONES EMUDECEM
Luiz Poeta ( sbacem – rj ) Luiz
Gilberto de Barros
Tu não sabes quem sou eu por
telefone
Nossa voz nunca define a nossa face
–
Sou um homem virtual ? ... ou sou um
clone ?
Bom seria que eu não te
identificasse.
Só sabemos de uma coisa necessária:
Precisamos um do outro, estamos sós;
Enfeitamos nossa angústia solitária
Com a sedução que existe em nossa
voz.
Tu não sabes quem eu sou, só me
conheces
Por palavras cautelosas... o que
mais ?
Enterneces meu amor e te enterneces
Quando somos verdadeiramente iguais.
Porém quando os telefones emudecem
E um dos dois não mais retorna a
ligação,
Lentamente nossos âmagos se esquecem
De uma voz que se perdeu... num
coração.

formiga
líria porto
o verso me crucifica
fui torturado por três cravos
e uma rosa tísica
quem puder me traga
num copo d'água
estricnina
não passo
de poeta parco
sem superfície

A Lua me Disse
Zena Maciel
Não adianta chorar
lágrimas de marfim
Todo sonho um dia
chega ao triste fim
Todo fim tem um começo
Toda história tem
o seu preço
Tolice mesmo é amar
Amar o perfume do amor
Tão efêmero como a flor
Morre antes de beijar
a boca doce do prazer
Prazer de navegar
no barco das fantasias
Com a alma em letargia
afogar-se no oceano da dor!

Traçado de Opções
Ilka Vieira
Estou sujeita à mim mesma...
Se quero recomeçar e a estrada é
densa,
Melhor arregaçar as mangas,
Abater a indiferença...
Estou sujeita às minhas
inseguranças...
Se há o que definir,
Se é preciso retroceder
Se ainda há o que me dizer,
Devo me permitir...
Estou sujeita às minhas derrotas...
Cara a cara com a vencedora ,
Reconhecer-me perdedora,
Entregar a minha espada
Sem sequer culpar a vida.
Estou sujeita aos meus demônios...
Conviver ou enfrentá-Los,
Revestir e transformá-Los...
Refazer meu santuário...
Estou sujeita aos meus gritos...
Ensurdecer minhas queixas,
Impor minha solidez,
Ou me calar de vez...
Ilka Vieira
http://www.ilkavieira.com

Despedida Sem Abraço
Marise Ribeiro
Errante..., solitária, com a
esperança esmagada,
atravesso a amargura das noites
frias...
Ecoam no peito os segredos da
escuridão,
purgo da ausência as dores..., as
fobias,
a consciência pesa, a alma chora...
Por que reneguei teu abraço quando
foste embora?
Este deserto secou minha ternura...
O desejo cada vez mais impiedoso
soterra-me nas dunas arenosas da
quentura...
Longe de ti mais árida ficou a
vida...
Procuro a sombra, mas só encontro os
abutres...
Por que reneguei teu abraço na hora
da despedida?
Dele poderia ter tirado o agasalho,
para suportar o vento gélido das
madrugadas
ou quem sabe a aragem refrescante,
para mitigar as feridas que doem,
latejadas...
Por que não entendi quando me
estendeste os braços
com um olhar de que ainda valia a
pena seguir adiante?

Mãe África
Sandra Ravanini
Essa moça que dança para
a colheita das cinzas,
na rudeza da mão que sangra em
ponta de faca
da criança em becos imundos e o
pó da restinga,
cortinando tão belo cenário ocre
da mãe África.
Ouviremos a saga cruel dos
guerreiros negros
nos cânticos que choram o tambor
eloqüente
da raça, a poeira e a fome no
campo degredo
enquanto a febre consome todo o
continente.
Dualidade sem um fim, erratas,
mitos e ritos,
jazendo natimorto o corpo de
todos os filhos
acordando na serra as diferenças
e os gritos
que clamam o cansaço desse
estado de sítio.
Ainda ontem os gemidos eram de
escravos.
Será assim? A morte das cores
dos cravos
enterram-se no espinho das
flores de cactos?
E o panorama jaz em algum antigo
retrato
Oh Nilo! Tão belo que enriqueceu
o Egito,
brota no veio dessa miséria o
trigo à terra,
abençoando seu povo, vítima dos
conflitos
e, talvez amanhã renasçam as
primaveras.

Os trilhos
Aldo Cordeiro
O trem sai apressado
carregando gente
embalando sonhos
e poucos salários
e muita pobreza
alguma alegria
e muita tristeza
Lá vem Lauro Müller
Lá vem São Cristóvão
Passa Mangueira passa
teu samba dá vontade de cantar
mas a nega me espera pra jantar.
Meu bom São Francisco
segura esse trem
a noite já vem
eu quero chegar.
Riachuelo do Rio
me lembra a batalha
que a vida anda dura
ninguém se segura
no trem do país.
Passou o Sampaio
correndo, voando,
agora os engenhos,
o Méier no meio,
o Novo, de Dentro.
Tenha Piedade
minha nossa senhora
se esse danado
não der avaria,
eu vou lá na Penha
rezar pra Maria
me abençoar.
Taí "seu" Quintino
Já vem Cascadura
eu bem que queria
morar por aqui.
Madureira chegando
Portela no pé
Império no samba...
Agora é Oswaldo
É Bento, é Bento
Já não me aquento
de só viajar.
O trem se rebola
na reta, na curva,
se enrola, se embola,
pra dar continência
pro "seu" Marechal.
Enfim Deodoro
parece mentira
agora a batalha
vai recomeçar.
Eu desço correndo
e mudo de trem
na luta da vida
é pegar ou largar.
Vou pro Japeri
me meto no mato
vou matar essa fome
dormir e sonhar
com os trilhos da vida
com a vontade que tenho
da vida mudar...
PS - Escrevi esse "embalo do
trem" em 1980. O trem sai da
Central do Brasil e passa em
Lauro Müller, São Cristóvão,
Mangueira, São Francisco Xavier,
Riachuelo do Rio, Sampaio,
Engenho Novo, Méier, Engenho de
Dentro, Piedade, Quintino,
Cascadura, Madureira, Oswaldo
Cruz, Bento Ribeiro, Marechal
Hermes e Deodoro.
São bairros da Zona Norte do
Rio. Mudaram algumas coisas
desde então: os trens estão mais
modernos, o preço das passagens
mais caro, algumas estações têm
outros nomes, as casinhas onde
"estava escrito, em cima, que é
um lar", como consagrou o Chico
Buarque, em muitos lugares,
viraram um amontoado de tijolos
aparentes, e uma nova favela
cresceu.
Deodoro é o meio da viagem. Dali
nascem dois ramais - Santa Cruz
e Japeri - que viajam pra deixar
gente cansada da jornada diária
em quilômetros além do centro do
Rio.
Por que estou falando de trem no
último dia do ano? Porque
acordei assim: com sensação de
que desço de um vagão - 2006 - e
embarco em outra, daqui a pouco,
entre espocar de fogos, luzes
coloridas e desejos de paz.
O trem é o mesmo. Enquanto durar
nossa jornada. O que muda são as
relações que estabelecemos com
os passageiros.
Que sejamos mais amigos em 2007,
mais solidários, mais amorosos.
Que não discriminemos nenhum
vagão ou estação pelo caminho.
O trem da vida tem classes
diferentes, vagões chiques e
outros mais pobres (geralmente
são os passageiros destes que
empurram toda a composição, nos
momentos de avaria). Entre
eles, estamos nós, equilibrados
entre o caos e o desejo de
melhorar.
Quem o trem de 2007 percorra sua
viagem o mais serenamente
possível.
Aldo, do Rio de Janeiro de todas
as cores, flores, luzes e balas
perdidas para os amigos que
continuam juntos em mais uma
jornada.
31.12.2006

LAGUNA
por Ana Marina Godoy
O susto aconteceu como uma
dentada. Ele tirou as botas e a
máscara. Então sorriu o gato de
Alice. Aquele olhar abriu-me
como uma seteira: radiografia
que ossificou.
De sobre cezânias,
levantei e pus-me a um semicúpio
nas águas tranqüilas daquele
braço do Atlântico. A água
lacrimosa grudava em mim como
que vampirizando. Mesmo com uma
preguiça corporal, avistei
algumas pedras. De formatos
felinos. A três metros dali.
Criando uma senda.
Enlameada, mas mais
disposta ao sair do mar, entro
no caminho. Eis que, ali, no
coração pétreo, encontro um mapa
encrustrado, entalhado e com
inscrições.
Uma engrenagem era
composta por dentes. A cor de
dentina: familiar. Sinto minhas
pernas amarradas e uma vasca.
Vertigens me empurram a sentar.
Obrigada e já no chão, reconheço
uma antiga escrita usada por
curandeiros europeus: médicos
fugidos por serem adeptos a
regimes escravocratas ilegais.
Após uma série de
náuseas e do sentir um gosto de
sangue na boca, girando minha
cabeça consegui entender que a
cada mudança de ciclo lunar uma
peça precisava ser agregada à
engrenagem.
O que um laico
poderia chamar de ritual
sagrado, mágico ou algo assim,
se revelava como um pedacinho do
inferno na terra. Sensações e
percepções são inteligências...e
as minhas, comumente
equilibradas e nos eixos, faziam
minha razão ter a certeza de que
energia boa não foi produzida
ali. A lógica se manifestava
explicando os sintomas.
Como carregar as
pedras com mapa e receituário
não era fisicamente possível,
olhei tudo com a máxima atenção
e gravei fotograficamente na
minha mente aquela bruxaria:
misteriosa arte, planejamento e
logística de maldição.
Já no hotel -
referência para turistas de
literatura de todas as partes do
mundo -, me pus a pesquisar
sobre a história das redondezas.
Estranhamente não conseguia
expressar o ocorrido a quem quer
que fosse.
Folheei um livro,
outro... Páginas com mapas
antigos... Cheguei, então, a uma
espécie de diário. Abri
aleatoriamente.
A janela em frente à
mesa onde eu estava gritou o
bater da ventania, anunciando
temporal. Pisco e, na beirada,
três gatos me olham e sorriem.
Sacudi a cabeça, piscando os
olhos algumas vezes, quando
sumiram de lampejo com o
trovejar e o iniciar da
tempestade.
Volto às leituras e
ao primeiro fitar daquela página
tive: “O que se transmite
hereditariamente são os efeitos
do pecado e não o pecado em si.
Este não é hereditário”. Reli o
trecho e procurei a autoria
daqueles manuscritos
fotocopiados: um tio-avô meu,
médico galego, veio e pôs-se a
conversar.
Nesse instante senti
as gotas da chuva como se dentro
de mim estivessem e limpando o
que não fluía. Das minhas costas
espinhos saíram. E também as
sensações de delicioso alívio e
de leveza fizeram com que eu
fechasse os olhos ali mesmo,
sobre os livros.
A margem da laguna
foi propriedade de espíritos
maus que materializavam o mal e
pediam por ele. Era uma cadeia
que, destruída, libertou o que
era vítima vampirizada. E sem
responsabilidade pelo próprio
céu.
Tendo a verdade escrita e
revelada, a transformação
tornou-se pura, em verbo: agora
aquelas eram águas santas, com
vida. Três murtas frondosas
nasceram de entre as pedras e
perfumam angelicalmente quando
florescem.
Busquei o anular das maldições:
com as águas do sacrifício lavei
os pés de Jesus.

Uma nova revista
, onde todos os
Autores são
benvindos !
Você é nosso
convidado!
Convido-os a
visitarem o site do
grande amigo e autor
do CEN,
Luiz Eduardo
Caminha
|

Formatação e Arte:
Iara Melo |