Revista “Sinfonia em Blu"

9ª edição

Ano 2 - Janeiro de 2007

Editora: Terezinha Manczak

Formatação e Arte: Iara Melo

Blumenau - SC - Brasil

 
NOTÍCIAS - ENTREVISTAS - PROSA E POESIA

Lânguido corpo
Watfa

Revoltas tiras do roto, negro tecido,
o que me envolvia e formava veste
em lascas, que o tempo havia puído,
soltam-se, voam pelo campo agreste.
A nudez, cobrindo o verde da grama,
pinta um quadro de fortes contrastes.
O solo e o corpo, compõem a trama
da bela imagem, já livre dos trastes.
Cristais fracionados, em cobertura,
tangem a pele que, doces arrepios!,
se cobre inteira de brilhos! alvura
dos dedos se alonga em luzes de fios.
Um sopro morno roça minh´alma.
Em meus olhos, inda reluzente luz!
Corpo lânguido, banhado em calma,
doce mergulho ao sono me conduz.

QUANDO OS TELEFONES EMUDECEM
Luiz Poeta ( sbacem – rj ) Luiz Gilberto de Barros

Tu não sabes quem sou eu por telefone
Nossa voz nunca define a nossa face –
Sou um homem virtual ? ... ou sou um clone ?
Bom seria que eu não te identificasse.

Só sabemos de uma coisa necessária:
Precisamos um do outro, estamos sós;
Enfeitamos nossa angústia solitária
Com a sedução que existe em nossa voz.

Tu não sabes quem eu sou, só me conheces
Por palavras cautelosas... o que mais ?
Enterneces meu amor e te enterneces
Quando somos verdadeiramente iguais.

Porém quando os telefones emudecem
E um dos dois não mais retorna a ligação,
Lentamente nossos âmagos se esquecem
De uma voz que se perdeu... num coração.



formiga
líria porto

o verso me crucifica
fui torturado por três cravos
e uma rosa tísica

quem puder me traga
num copo d'água
estricnina

não passo
de poeta parco
sem superfície


A Lua me Disse
Zena Maciel
 
Não adianta chorar
lágrimas de marfim
Todo sonho um dia
chega ao triste  fim

Todo fim tem um começo
Toda história tem
o seu preço
Tolice mesmo é amar

Amar o perfume do amor
Tão efêmero como a flor
Morre antes de beijar
a boca doce do prazer

Prazer de navegar
no barco das fantasias
Com a alma em letargia
afogar-se no oceano da dor!


Traçado de Opções
Ilka Vieira
 
Estou sujeita à mim mesma...
Se quero recomeçar e a estrada é densa,
Melhor arregaçar as mangas,
Abater a indiferença...

Estou sujeita às minhas inseguranças...
Se há o que definir,
Se é preciso retroceder
Se ainda há o que me dizer,
Devo me permitir...

Estou sujeita às minhas derrotas...
Cara a cara com a vencedora ,
Reconhecer-me perdedora,
Entregar a minha espada
Sem sequer culpar a vida.

Estou sujeita aos meus demônios...
Conviver ou enfrentá-Los,
Revestir e transformá-Los...
Refazer meu santuário...

Estou sujeita aos meus gritos...
Ensurdecer minhas queixas,
Impor minha solidez,
Ou me calar de vez...

Ilka Vieira
http://www.ilkavieira.com



Despedida Sem Abraço
Marise Ribeiro

Errante..., solitária, com a esperança esmagada,
atravesso a amargura das noites frias...
Ecoam no peito os segredos da escuridão,
purgo da ausência as dores..., as fobias,
a consciência pesa, a alma chora...
Por que reneguei teu abraço quando foste embora?
 
Este deserto secou minha ternura...
O desejo cada vez mais impiedoso
soterra-me nas dunas arenosas da quentura...
Longe de ti mais árida ficou a vida...
Procuro a sombra, mas só encontro os abutres...
Por que reneguei teu abraço na hora da despedida?
 
Dele poderia ter tirado o agasalho,
para suportar o vento gélido das madrugadas
ou quem sabe a aragem refrescante,
para mitigar as feridas que doem, latejadas...
Por que não entendi quando me estendeste os braços
com um olhar de que ainda valia a pena seguir adiante?




Mãe África
Sandra Ravanini


Essa moça que dança para a colheita das cinzas,
na rudeza da mão que sangra em ponta de faca
da criança em becos imundos e o pó da restinga,
cortinando tão belo cenário ocre da mãe África.
Ouviremos a saga cruel dos guerreiros negros
nos cânticos que choram o tambor eloqüente
da raça, a poeira e a fome no campo degredo
enquanto a febre consome todo o continente.
Dualidade sem um fim, erratas, mitos e ritos,
jazendo natimorto o corpo de todos os filhos
acordando na serra as diferenças e os gritos
que clamam o cansaço desse estado de sítio.
Ainda ontem os gemidos eram de escravos.
Será assim? A morte das cores dos cravos
enterram-se no espinho das flores de cactos?
E o panorama jaz em algum antigo retrato
Oh Nilo! Tão belo que enriqueceu o Egito,
brota no veio dessa miséria o trigo à terra,
abençoando seu povo, vítima dos conflitos
e, talvez amanhã renasçam as primaveras.



Os trilhos
Aldo Cordeiro

O trem sai apressado
carregando gente
embalando sonhos
e poucos salários
e muita pobreza
alguma alegria
e muita tristeza
Lá vem Lauro Müller
Lá vem São Cristóvão
Passa Mangueira passa
teu samba dá vontade de cantar
mas a nega me espera pra jantar.
Meu bom São Francisco
segura esse trem
a noite já vem
eu quero chegar.
Riachuelo do Rio
me lembra a batalha
que a vida anda dura
ninguém se segura
no trem do país.
Passou o Sampaio
correndo, voando,
agora os engenhos,
o Méier no meio,
o Novo, de Dentro.
Tenha Piedade
minha nossa senhora
se esse danado
não der avaria,
eu vou lá na Penha
rezar pra Maria
me abençoar.
Taí "seu" Quintino
Já vem Cascadura
eu bem que queria
morar por aqui.
Madureira chegando
Portela no pé
Império no samba...
Agora é Oswaldo
É Bento, é Bento
Já não me aquento
de só viajar.
O trem se rebola
na reta, na curva,
se enrola, se embola,
pra dar continência    
pro "seu" Marechal.

Enfim Deodoro
parece mentira
agora a batalha
vai recomeçar.
Eu desço correndo
e mudo de trem
na luta da vida
é pegar ou largar.
Vou pro Japeri
me meto no mato
vou matar essa fome
dormir e sonhar
com os trilhos da vida
com a vontade que tenho
da vida mudar...



PS - Escrevi esse "embalo do trem" em 1980.  O trem sai da Central do Brasil e passa em Lauro Müller, São  Cristóvão, Mangueira, São Francisco Xavier, Riachuelo do Rio, Sampaio, Engenho Novo, Méier, Engenho de Dentro, Piedade, Quintino, Cascadura, Madureira, Oswaldo Cruz, Bento Ribeiro, Marechal Hermes e Deodoro.
São bairros da Zona Norte do Rio. Mudaram algumas coisas desde então: os trens estão mais modernos, o preço das passagens mais caro, algumas estações têm outros nomes, as casinhas onde "estava escrito, em cima, que é um lar", como consagrou o Chico Buarque, em muitos lugares, viraram um amontoado de tijolos aparentes, e uma nova favela cresceu.
Deodoro é o meio da viagem. Dali nascem dois ramais - Santa Cruz e Japeri - que viajam pra deixar gente cansada da jornada diária em quilômetros além do centro do Rio.

Por que estou falando de trem no último dia do ano? Porque acordei assim: com sensação de que desço de um vagão - 2006 - e embarco em outra, daqui a pouco, entre espocar de fogos, luzes coloridas e desejos de paz.
O trem é o mesmo. Enquanto durar nossa jornada. O que muda são as relações que estabelecemos com os passageiros.
Que sejamos mais amigos em 2007, mais solidários, mais amorosos.  Que não discriminemos nenhum vagão ou estação pelo caminho.   O trem da vida tem classes diferentes, vagões chiques e outros mais pobres (geralmente são os passageiros destes que empurram toda a composição, nos momentos de avaria).  Entre eles, estamos nós, equilibrados entre o caos e o desejo de melhorar.
Quem o trem de 2007 percorra sua viagem o mais serenamente possível.

Aldo, do Rio de Janeiro de todas as cores, flores, luzes e balas perdidas para os amigos que continuam juntos em mais uma jornada.
     
 31.12.2006 


 

LAGUNA      
por Ana Marina Godoy
 
O susto aconteceu como uma dentada. Ele tirou as botas e a máscara. Então sorriu o gato de Alice. Aquele olhar abriu-me como uma seteira: radiografia que ossificou.
            De sobre cezânias, levantei e pus-me a um semicúpio nas águas tranqüilas daquele braço do Atlântico. A água lacrimosa grudava em mim como que vampirizando. Mesmo com uma preguiça corporal, avistei algumas pedras. De formatos felinos. A três metros dali. Criando uma senda.
            Enlameada, mas mais disposta ao sair do mar, entro no caminho. Eis que, ali, no coração pétreo, encontro um mapa encrustrado, entalhado e com inscrições.
            Uma engrenagem era composta por dentes. A cor de dentina: familiar. Sinto minhas pernas amarradas e uma vasca. Vertigens me empurram a sentar. Obrigada e já no chão, reconheço uma antiga escrita usada por curandeiros europeus: médicos fugidos por serem adeptos a regimes escravocratas ilegais.
            Após uma série de náuseas e do sentir um gosto de sangue na boca, girando minha cabeça consegui entender que a cada mudança de ciclo lunar uma peça precisava ser agregada à engrenagem.
            O que um laico poderia chamar de ritual sagrado, mágico ou algo assim, se revelava como um pedacinho do inferno na terra. Sensações e percepções são inteligências...e as minhas, comumente equilibradas e nos eixos, faziam minha razão ter a certeza de que energia boa não foi produzida ali. A lógica se manifestava explicando os sintomas.
            Como carregar as pedras com mapa e receituário não era fisicamente possível, olhei tudo com a máxima atenção e gravei fotograficamente na minha mente aquela bruxaria: misteriosa arte, planejamento e logística de maldição.
            Já no hotel - referência para turistas de literatura de todas as partes do mundo -, me pus a pesquisar sobre a história das redondezas. Estranhamente não conseguia expressar o ocorrido a quem quer que fosse.
            Folheei um livro, outro... Páginas com mapas antigos... Cheguei, então, a uma espécie de diário. Abri aleatoriamente.
            A janela em frente à mesa onde eu estava gritou o bater da ventania, anunciando temporal. Pisco e, na beirada, três gatos me olham e sorriem. Sacudi a cabeça, piscando os olhos algumas vezes, quando sumiram de lampejo com o trovejar e o iniciar da tempestade.
            Volto às leituras e ao primeiro fitar daquela página tive: “O que se transmite hereditariamente são os efeitos do pecado e não o pecado em si. Este não é hereditário”. Reli o trecho e procurei a autoria daqueles manuscritos fotocopiados: um tio-avô meu, médico galego, veio e pôs-se a conversar.
            Nesse instante senti as gotas da chuva como se dentro de mim estivessem e limpando o que não fluía. Das minhas costas espinhos saíram. E também as sensações de delicioso alívio e de leveza fizeram com que eu fechasse os olhos ali mesmo, sobre os livros.
            A margem da laguna foi propriedade de espíritos maus que materializavam o mal e pediam por ele. Era uma cadeia que, destruída, libertou o que era vítima vampirizada. E sem responsabilidade pelo próprio céu.
Tendo a verdade escrita e revelada, a transformação tornou-se pura, em verbo: agora aquelas eram águas santas, com vida. Três murtas frondosas nasceram de entre as pedras e perfumam angelicalmente quando florescem. 
Busquei o anular das maldições: com as águas do sacrifício lavei os pés de Jesus.
 

Uma nova revista , onde todos os Autores são benvindos !
Você é nosso convidado!

Convido-os a visitarem o site do grande amigo e autor do CEN,
Luiz Eduardo Caminha
http://www.stmt.com.br/dasletras.htm

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Formatação e Arte: Iara Melo